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domingo, 24 de novembro de 2019




anamnesis


21 de Novembro – diário

Fim do dia:
Por vezes é melhor pensar depois de um banho. O cansaço do corpo deturpa a mente e os seus juízos são tirânicos. Acusei-me de uma fragilidade que é sinónimo de fraqueza. Dividi o mundo em fortes e fracos e coloquei-me do lado de uma criatura despojada, que desistiu, a um canto. Tal a gravidade do peso afetivo, que a liga a casa, ao amor, o mais etéreo e o mais carnal. Porque é o meu corpo que sinto acima de tudo. Como ferido, assolado, ao nível mais animal. Sim, como um animal de carga despido da humanidade ou do falso divino com que me cubro em ilusão? Porque não me sinto capaz de ir sozinha para longe, sabendo que o amor esperará sempre por mim no regresso? Porque insisto em adensar a tristeza, o pânico, chamando fraqueza à minha maior força - a sensibilidade, a empatia, a vontade que tenho de tocar, sentir perto, o calor de quem amo. Não pretendo que isto seja subterfúgio, sublimação. Pretendo que seja um lembrete de como a privação dos teus sentidos, espirituais, emocionais, físicos, tem um poder imenso sobre os teus juízos, percepções. Tornam te uma fuga urgente ao compromisso e sacrifício. Prendem te à dor do aqui e agora esquecendo te que tudo vai. Depois de um banho, sono, visão de alegria, as coisas mais simples. A voz do outro lado, do teu namorado, mãe ou irmão ou amigo. A tua cadela extasiada pelo teu regresso. Faz te sorrir. Faz o estranho fundo dissolver se em clareza, paz, sem imagens ou intuições obscuras, que comprimem o que chamas de coração. Nunca soubeste, dás-lhe nome agora. Esse sentimento de achares que as tuas lágrimas são mais profundas que as outras lágrimas humanas nas mesmas circunstâncias. Irracional, egocêntrico, sabes. Mas não deixaste de sentir que não aguentarias sentir aquilo por mais tempo, sem capitulação. O sentimento de seres uma criança, um tropeço profundo, um desequilíbrio patológico que não te deixa ver o teu próprio centro apaziguador, primitivo, de força. Estiveste contigo desde sempre e esqueces que aprendeste a andar por ti e andaste toda a vida, na maioria dos segundos de cada dia, em união contigo. Transferiste, por erro condicionado pela vulnerabilidade de uma experiência, o teu Deus, o teu berço, para um humano. Que não suportas longe. Porque tudo se anula? Se tens tanto amor e beleza em volta....

Manhã:
A sensação primária - a de uma indiferença absoluta pelo parecer final. Em modo automático concorro, mais uma vez. Sem sentimento, sem nervosismo, porque sem paixão. Porque nada disto me importa e sou inocente, a parte maior de mim é inocente e diz que o amor é a única coisa que importa. E o amor é a mesma coisa que dói quando longe. Portanto, queria estar perto e sentir-me realizada. Aguentar os dias maus com o amor ao fim do dia. E não aguentar dias maus com o amor longe. Há muita revolta irracional em mim. Na visão destes sacrifícios, destas covas que ironicamente escolho cavar. Como se não me conhecesse depois de tudo... A impaciência governa-me agora imiscuída com uma fria ausência. Os rostos e passos apressados (ainda é noite,) à saída do cais, do metro. Milhões de vidas em corrida cada dia, antes mesmo do dia clarear... (Chegarão a casa também de noite?) Qual o conceito de vida para estas vidas? - (não o sei mas) transtorna o meu conceito de vida (abstrato, afetivo) e compreendo os que se esgotaram. A mim, que em estado micro já sinto o tempo tão acelerado, os meses voam, por um punhado de notas na conta ao fim do mês. Sou da vida, sou dionísica, e adormeço a pulsão, adormeço a criança como soldado bem formado, rígido, com os sonhos na sacola enterrada bem longe, bem fundo, sem memória. Apenas uma vaga tristeza te recorda da perda de algo talvez pequeno, mas imensamente importante. Não sei dizer, mas sinto quando o amor me chega e amo, olhos nos olhos, num abraço apertado.
Acusas-me friamente de negativismo. E eu acuso-te infantilmente de conformismo. Como se o amor e o tempo fossem leis sagradas, que não pudessem ser transtornados pelos ritmos que criámos para o mundo. O amor é tempo. O amor morre sem tempo, ou melhor, morre aquilo que ama em nós, morremos. E continuamos a correr sem expressão viva no rosto, como autómatos.
Na visão da cidade cinzenta, das pessoas a correr, eu sinto a anti-vida, o medo de tornar me assim. Esquecer o amor no processo de calcificação afetiva. Sim, tornar-me tão fria para não doer até doer permanentemente sem possibilidade de esperança no amor. Na graça.

Não sei qual o meu lugar no mundo. Ainda quero sentir-me perseguir alguma coisa. Nervosismo no corpo, assinalará a importância. A calma mente, porque é indiferença, gesto automático. Como da última vez. Dói-me a antecipação da solidão mais funda. 

(Porque peço tanto um berço?) 

A insuflação de vida é paliativo do mundo.

17 de Novembro


Poderia estar no topo de uma revelação ou no fundo de um poço?

Pretenderei sempre entender estas novas modalidades da tristeza

Solidão?

Como se apenas tu me bastasses e fora de ti fosse  vazio

Como se procurasse algo que me curasse desta ingratidão de insuficiência
A plenitude outra vez, no dia a dia.


24 de Novembro

No mesmo lugar outra vez. Digo que aprendi. Mas foi proscrito. 
E temos saudade. Do desconhecido. Temos saudade da interrupção dos dias. Do crepitar, do anseio, da saudade, a morte é para os gregos. Diziam. Cruzamo-nos. Sem nos vermos.

Pensava sinais, pedia sinais. Para voltar a casa. Porque não me basta? Vivemos a mil à hora e o amor depura lentamente. Eu vejo-nos como todos os outros – meras formas do que foram. Não tenho medo de ir embora, como se nada me prendesse. E digo (cobardemente) que é uma vantagem para o sacrifício que enfrento, o sacrifício possível de estar só, bem longe. Unicamente comigo. Sem o calor mais humano, onde adormecia toda a inquietação e cansaço. 

Porque coragem é ir com todo o coração. E eu, quero ir esvaziada do que amei.


Pergunto se peco dentro de mim. Na imaginação. Na ingratidão. Pergunto-me porque as cores de dentro se multiplicam, transformam, transtornam. Pergunto-me o que aconteceu a todos os ontens. A toda a impulsão que me movia para ti. Ainda espero o acordar, o despertar, que acompanhe o meu sonho de permanência ideal. 




sábado, 4 de novembro de 2017



Do peso e da leveza.


Dizer-te que te amo mas me sinto - sozinha em espírito. E como é a carne, o réptil, em mim, que te ama, quando nos amamos nas noites. E uma fresta de sonho. De te colocar numa nova luz. De seres essa mesma luz atravessando aquilo que não nomeio mas podia ser uma doença. Ainda que esta se recolha para dar lugar ao riso próprio da minha idade ( às vezes, repentinamente, à visão da alegria alheia mais simples). Tremo com a sombra. Tremo com a beleza. Tremo de saber que tive anjos pedindo-me a mão. E eu fugi. A carne não é compatível com o espírito?
Amar a superfície é um compromisso constante com um desapego. Um divórcio com a vontade de profundeza e fusão. Aceitação das linhas paralelas que somos, afinal. Porque eu já me cruzei, eu já vi, já me viram, mas era uma dança sem fogo, uma dança feita de ar. A placidez de um mar aplacado, finalmente, e esgotado, sedento de ser tocado de outra forma mesmo que tivesse de abandonar essa dança de plumas.

Abandonei-me, acho. Para me ter no chão, para me sentir a carne, para me sentir no fogo. E amanhã abandono o fogo, disse, mas ainda não o abandonei. Digo, o animal é mais antigo que o espírito. O espírito acordou numa misteriosa e incógnita manhã. Com as lágrimas nos olhos. Oh, as lágrimas desfiguram o meu rosto? Ou dão-lhe vida? Dão-lhe alma. Mas a alma é tão pesada nestes dias. A alma é tão pesada neste mundo.
Solidão maior. Esta solidão depois da fusão dos corpos. Esta antevisão de futuro vazio. Esvaziei-me para não me doerem camadas profundas? Esqueci-me voluntariamente, conscientemente, mas a alma ainda grita no fundo de mim - contra os gestos e as palavras despidas de substância, despidas de visão e vontade de sanar qualquer coisa carente de infinito. Eu não sei, eu não sei. Mas sei deste entrave na garganta. Esta lassidão. E lá fora, eu chamei circ(o)lo. Talvez se eu fosse à cruz e descesse da cruz....tudo pareceria mais humano aos meus olhos? 

Agora ainda vejo - como tudo isto é nulo. Estes pensamentos, esta escrita, esta dor quase ridícula. Sou uma criança com vinte e um anos desgostada para sempre, como no dia em que lhe falaram de como o mundo girava indiferente sem nós, depois de nós. Inocente. Nada é para sempre. Só em ti a (ilusão ? de) permanência do teu maior sonho e amor.
E talvez eles tenham razão. Talvez o circo-lo pudesse ser o paraíso. Ou o paraíso mora dentro. E dissipando o excesso, os labirintos, os significados, as buscas, os sonho, a longa e antiga saudade, me deixasse mais leve. Fluiria como tudo o resto. Mais no meio de risos do que de lágrimas e contrapesos no coração. Até ao esquecimento inevitável. Que cobre tudo. O mais leve e o mais profundo, afinal. 




MF






segunda-feira, 24 de julho de 2017



23 de Julho de 2017 ( Diário)

"  - Leva-me ao colo, disse, - se adormecer."
E tu levaste-me, os meus olhos fechados, levaste-me e estas cenas perfazem a vida. Ou tudo o que importa nela - o calor. o amor, simples e sinceros.
E eu virei-me no escuro para te agarrar. Estava frio dentro da cama. Quis ouvir-te - teu sangue, tua respiração, sentir, teu calor. E o desejo cresceu como sempre cresce nas noites. Mas o cansaço do dia era maior e então fundimo-nos de outro modo: do modo mais humano, afinal, do modo mais amor, afinal - além do frenesim da carne e do sangue de outras noites; a própria candura do céu feito no toque abraçado de dois corpos amantes em silêncio, no precipício calmo e hipnótico do sono.
Sei quanto te amo, mais hoje que nunca. Amo-Te. Não preciso de dizer o Teu nome. E se bem que as lágrimas sempre permaneçam dentro eu sou mais feliz que nunca. Felicidade como um tesouro permanente que tenho em nós, por mais oscilações emocionais que existam. Eu sei. Mas quero aprender contigo - a transcendência do medo e do apego. Tenho medo de não me lembrar de mim sem ti.  Quero um apego com memória de mim e do meu espírito. Quero um apego sem dor. Quero um apego livre no seio do Amor.

Falo da noite mas que dizer do dia? Tinha saudades de me rir assim contigo, como o vejo agora na memória. Não vos posso escrever as imagens. São das mais simples. Somos só nós e chega, não há ciência, não há linguagem e eu quis que houvesse só para sossegar, esclarecer, a minha razão. Tenho medo, escrevi nos primórdios, mas quero sentir assim. Assim mesmo como te sinto mesmo que me doa às vezes. Sentir tanto. Querer explodir, êxtase, alegria e por fim a calma desse mar. Saber-te precisamente onde eu estou. Estarmos juntos além dos corpos. Estarmos juntos na frequência irrepetível do sonho vivo de Nós.


MF e  minha tentativa de escrever a felicidade.
to TS

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016






16:23

Nunca me dirijo directamente a ti aqui.
Se estavas comigo na Primavera, sabes que és tu.

Acho que a música é a coisa mais bela deste mundo. Depois do Amor. Sentei-me ao piano e as notas eram tão belas. A melancolia misturada com o amor, era isso, por detrás da melodia, na própria melodia aliás. Gostava que ouvisses e visses, as mesmas paisagens, por detrás destas palavras. Sim, as palavras nunca dizem aquilo que quero dizer, aquilo que vejo, aquilo que sinto. São só metáforas atrás de metáforas, somente aproximações, é o mesmo hiato entre o conceito e a experiência. As palavras apenas anunciam, pronunciam o prenúncio, são meras pontes que te levam até à minha tentativa de retrato sinestésico.
Palavras, estandartes de tudo o que não tem palavras. Não há palavras, bem sei, mas nunca desisti de as tentar encontrar. 

Não consigo esquecer. Não quero, talvez, esquecer. Por isso escrevo. Para tentar lembrar-me do porquê de não dever esquecer. Não quero perder. Não quero morrer e renascer outra por cima da minha essência. Porque todo o passado me sustém, ainda que me roube alguns dias. Vou construir a minha filosofia sem obliterar o passado. Eu aceito tudo o que foi, e tenho apego por tudo o que foi, e isso faz-me sentir humana. Ainda anseio a transcendência, mas uma transcendência humana, seja isso o que for.

Só espero que pressintas as coisas que aconteceram e acontecem nesta solidão. Só há eu para testemunhar, mas espero que pressintas. Tudo isso, e todas as dezenas de versos em vários cadernos, que nunca leste ou lerás, porque eram palavras nuas, sem metáforas, nem círculos, nem contenções, nem edições, nem dissimulações. (Como estas)






quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016




03/04 Fevereiro

"Vamos ver o que acontece depois." - Foi um dia bom, apesar da latente, agora manifesta, Melancolia.

Este lento, devagar sangue, devagar, ao som de um piano. A melancolia das estrelas, do céu nocturno, a Beleza sim, mas a melancolia como fundo que recebe a percepção. Lentidão, semblante cansado. Inexpressão. E sou ainda humana. Mais que humana. Nesta lentidão e ausência sanguínea. Que foi feito do fogo, da vitalidade, hoje ainda corro, mas já não corro sem pensar que tenho de correr. Eu subi àquele telhado, e estava ao lado do meu companheiro de alma que me disse para subir porque lá em cima a vista era esplendorosa. E eu subi, a medo, mas consegui subir. E estava ainda só, falando com ele acerca do Amor. As luzes da cidade. O coração acelerado pela vertigem. A gravidade é para baixo, não para a frente, porque tens medo de cair? não há forma de poderes cair daqui, disse eu a mim mesma. Podia estar lá a noite inteira. Mesmo sentindo a melancolia dentro de mim. Porque me fecho tanto? Porque ainda me és tanto? Porque resisto? Porque persisto em resistir? Porque estou presa? Porquê toda esta tensão? Onde está afinal a libertação? Perco a fé se ela não está neste céu estrelado, ou numa meditação profunda. Vem libertar-me pensei eu, vem ter comigo. Libertar-me o corpo para destrancar a alma. Tenho pesos atrás dos olhos. Choro tanto por dentro em dias de sol e nessas noites estreladas, porque tudo me trouxe até aqui, até ali, até aquele plano especifico, numa varanda especifica, de uma casa especifica, para fitar aquele céu e descobrir que estou ainda sozinha perante tão grande Beleza, e ao lado de um maravilhoso amigo que irradia luz.
Toda esta separação entre mim e o núcleo das coisas que apenas posso vagamente entrever. Eu quero, eu juro que quero tanto, e eu luto, contra correntes, como se a costa estivesse apenas depois de uma grande luta e não na direcção oposta - do fluir. Não sei quem me virou a cabeça para tamanhos empreendimentos, que sobrecarregam excessivamente os membros, o corpo, e aquilo a que chamamos de alma. Mas eu vou, eu saio daqui. Eu tenho três minutos para apanhar o autocarro e no ano passado teria desistido. " Não é nada, é o mesmo ficar em casa", mas eu corri desde minha casa e cheguei primeiro que ele. Perdê-lo custar-me-ia apenas uma corrida desnecessária, voltaria para casa, mas teria tentado -  foi o que eu pensei, quando decidi correr. 





MF




segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Requiem



18.10.2015


Ensina-me o desapego,
o desapego grácil e másculo, o desapego àquele pequeno e puro corpo dado de comer à terra.
Ensina-me a superação,
a superação deste materialismo que liga irrevogávelmente o espírito à carne que o contém.

Diz-me, que doloroso milagre é este da excessiva individuação que intensifica a consciência e nos faz gloriosamente únicos, desesperadamente irrepetíveis;
Diz-me, porque a arte se ergue agora em torrente como bálsamo temporário, bálsamo para os sentidos subitamente chocados, arrombados;

Estremece-me às vezes toda a existência...
Se fechar os olhos, há um mundo sem tempo aqui, com tempos parados paralelos a este Principal Tempo, contexto de todos os outros. Tempos onde ainda canto, ainda danço, e toda a gente vive. 

Diz-me que é real, diz-me que tudo o que me lembro ainda vive, que a inocência ainda vive, que aquele pequeno corpo de pureza ainda vive e repassa-me a memória quente, não a deixes desvanecer, repassa-me a memória quente no coração e faz-me aceitar, aprender o desapego neste mundo cego a tudo, incapaz de preservar o que é puro. 

Que seja real. Que comuniquemos ainda, no hermético mundo meu, diáfano mas com os movimentos e cores ainda intactos.
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Hoje preciso de bem mais que um "pois", de bem mais que um "sim"*. Não me chegam palavras de humanos. Nem tampouco esta projecção infantil de um ouvinte abstracto. Porque os sentidos chocados clamam por respostas. Clamam por uma única mas acesa sinestesia que explique senão a Morte, a dor - nos critérios metafísicos, os únicos necessários.



MF


* ( Referência à música "Quarto 210", Linda Martini)







quinta-feira, 27 de agosto de 2015




7 de Julho de 2015


Que dizer, que escrever? Olho o mundo lá fora, percorro-o - no meio da imensidão do céu, bandos de pássaros; no pátio, o tremeluzir da luz no lago dos peixes; no horizonte, as montanhas  a erguerem-se verdes diante os meus olhos plácidos. Essa paisagem...e uma escuridão dentro de mim se fico a sós com ela. Distraio-me. Com livros, romances, filosofias, com o piano, com tudo o que me esquece de pensar e vir à tona com a convicção de que nada sei, e com a nostalgia, medo de envelhecer, medo de me ver, e pela pressa de saber, abarcar tudo, todas as iluminações de homens que viveram antes de mim, e talvez entender se morreram em paz. Pergunto-me acerca da natureza da verdade, ergo no ar teorias de hologramas, de sonhos de deus, do acaso que influiu na matéria inerte a semente do espírito, e penso na música - como alguns violoncelos aparentam choram nas mãos de músicos grandiosos, como os acordes menores soam tristes, e os maiores alegres. Que estranha ciência... pode isto significar que tudo é expresso por meio de ondas? Que há poesia no caos?



Oliver Coates: https://www.youtube.com/watch?v=RuZwzoj85C0


MF

segunda-feira, 17 de agosto de 2015





*

31 de julho


Afundo-me de encontro ao interior cheio, miniatura de universo sem leis inteligíveis. Aceito a morte, aceito a angústia. Abomino a morte, abomino  a angústia. Como pode viver um ser assim? Em perpétua luta, parada nos estilhaços de guerras que nenhuma facção ganhou. Impulsiono de novo novas frentes de batalha para que algum lado vença. Mas nenhum lado vence. Nunca. E ambos saem apenas feridos. Entre eles estará decerto a verdade, entre eles o céu, o corpo livre e a mente a planar no lugar sem dor, imperturbável. Todas as minhas ficções reais, todas, aquela que quero ser sem medo de ser solitário peão na margem, solitária até ao fim e no entanto o céu no meu peito. Salvo apenas do mundo humano o desejo e a tentativa de amar, contigo que também és poeta e sabes os lúgubres fardos com que nos carregam os ombros. Não há maneira de os arrancar. Tal como não há maneira de esquecer aquilo que se apoderou na nossa própria carne e faz parte de nós. 

A despeito das colisões, penso que há ideias fixas em mim mas quando sonho o instinto ainda prevalece – sorrio ao ver crianças nos meus braços. Temo estar errada mas como podia eu gerar um prolongamento de mim no mundo, de sangue e carne e alma? Porque há dores que a maioria dos mortais desconhece, dores imateriais. E esse ser herdaria de mim essa amarga herança. Corajosos ignorantes mortais - nunca teria coragem porque não possuo essa ignorância. Esse amor tende subtilmente para uma vontade egoísta de se perpetuarem narcísicamente através de outro ser. Nunca seria capaz de tamanha tarefa – condenar à morte mais uma inocência.



MF




segunda-feira, 3 de agosto de 2015




02.02h  -  As coisas por detrás das coisas

Irei gastar os olhos mergulhados em milhões de pergaminhos, páginas amarelecidas e gastas, folheadas por dezenas de mãos antes de mim, folheadas futuramente por mais umas dezenas. Irei perder o Sol no hermetismo do meu quarto. Porque eu quero tanto entender. Preciso tanto de entender.Tudo isto, olha. Ninguém vê? As coisas por detrás das coisas. Eu vejo-as mas não as entendo, não as vejo afinalAgora tudo são meras máscaras e construções imemoriais de bem e mal, e ideais de vida ou de morte. Como posso eu não perder o Sol se é urgente que eu entenda algo que sei que está cá, infinitamente longe e perto se ser visto num ápice, e depois...não sei como viveria depois, com os vestígios da Verdade em mim, depois talvez a morte, a loucura ou a paz, o esquecimento automático, talvez a queda da Grande Ilusão, aquela que pressinto mas não sei, porque há círculos dentro de círculos, esferas concêntricas, um centro único de onde se vertem todas as outras coisas atrás de outras coisas. Continuarei a percorrer as feiras de velharias. Continuarei em busca de mais livros, farei gráficos no meu quarto, farei gráficos no ar. Unirei pensamentos, unirei o céu ao chão, o podre ao puro, beijarei as contradições, vou desgastar cada neurónio, vou envelhecer mil anos, vou deixar-vos a todos, como já comecei a deixar, morreu-me quase tudo, morreu-me quase tudo, estou tão cheia de vazios, tão criança, tão profana, quanta ganância, morremos todos no fim mas há algo, quero esse algo que é tudo, quero a paz, quero a paz, e por isso tenho de envelhecer mil anos, estou tão cheia de vazios, vou deixar-vos a todos...durante os dias entre o meu quarto e a montanha...


MF




segunda-feira, 6 de julho de 2015



[Pensamentos]


*

Pergunto-me se assumimos um nível, se alcançamos um lugar intransponível sem ponte que mantenha contacto com o mundo exterior. Porque sinto-me ilha - acima e debaixo de mim uma abóbada de interposta escuridão e sinfonias, paleta de cores, de palavras, memórias, paisagens, histórias, iluminações, desgostos, brechas para o sonho sideral e poços para o sem tempo morto onde morro. E talvez eu nem seja nada, e acho-me intocável. E digo que o mundo enlouqueceu. 
*

As tuas palavras soam falsas e sinto que te afastas, mas talvez as nossas almas nunca se tenham encontrado na realidade - Tu, à procura do teu tudo e da tua verdade; - eu, à procura de expandir a minha alma até à fusão perfeita com aquilo que não sei e ávida por criar, escrever, tocar. E onde entra o amor, a paixão? - Bálsamos apenas, desta busca que desgasta corpo e alma. Pausas apenas, do suor da razão que corre, corre, desgovernada e atolada em papeis, ceifando a vida e deixando o cansaço impossível de descansar. 

*

Ambos escrevemos, ambos amámos no grau insidioso dos poetas, e nada morre em nós apesar de nos parecer matar.  Sinto ciúmes das palavras que envias aos teus fantasmas. Em relação a nós - Podemos ficar imutáveis no ar, prolongando a ilusão das pontes, ou estragar tudo e nem sequer sobrevivermos fantasmas.

*
Olha as estrelas e as recordações sépia presas a telas polvilhadas de pó e saudade. Pergunto-me também se fomos somente o rasto de quem um dia fomos e está morto. O resgate da nossa melhor vontade. A tentativa de amar com os corações jovens que a nossa juventude encaneceu.
*
A alma ambiciona um breve mas cheio vislumbre daquilo que a podia Salvar, sabe que são ilusórias todas as grandezas e tragédias humanas, e que forjamos na mente ficções que ultrapassam a natureza real das coisas; mas o corpo ainda é corpo e somos poetas humanos - adiamos a filosofia para depois enquanto o fogo ainda se alimenta de um qualquer momento definido no tempo, revisitado, adornado, ressentido, na ânsia premente de ter uma história como as histórias que nos fazem tremer e prostrar espiritualmente diante os seus criadores ou protagonistas vivos. Queremos uma história, a Beleza, e depois morrer.

*

Poderíamos aceder aos segredos máximos, últimos. No fim do cosmos, no começo do Tempo. Contar-se-iam histórias acerca de nós -  " E juntos, recuaram até ao começo do Tempo onde não havia tempo nenhum"; Poderíamos abarcar a supra realidade e descobrir o segredo da matéria e do espírito que está contido nela. E mesmo assim, não saberíamos Amar. Não desbravaríamos nem mais um pouco a arte insondável de saber Amar.


MF



domingo, 3 de maio de 2015



29.04.2015

   As avionetas percorrem o céu lançando para a terra salva- vidas. Aterram aqui - à mão, onde o apocalipse despoletou sem aviso e invisível. Aterram aqui, mas não lhes toco. Cá em baixo é calmo, terreno fértil para um outro tipo de morte. Foi um tiro sem som. Lento. Um desabar sem escombros. Continuam a lançar salva-vidas de diversos tipos e essências, ainda não desistiram de mim. Aposto que lá em cima fazem apostas. Não sou ingrata, sou inerte. Não quero barcos, nem aviões, nem escadas, nem mãos. Estou aqui, impassível. Mas transcendo às vezes plácida, no espaço que antecede um verso derradeiro de um poeta do meu sangue. Transcendo em tesouros secretos da solidão - breve saciar espiritual sem enlevo protuberante das tempestades que galvanizam o sangue e a razão.

 As avionetas não cessam, substituem-se umas às outras. Talvez um dia deixem de aparecer e eu continuarei aqui, sem hipótese de sair para a promessa de outros mundos fora deste. Mundos intocados e de outras poesias. Mundos sem mácula, ainda virgens. Sairei daqui. Se eu não adormecer aqui… quando um beijo for mais que um beijo, quando as minhas mãos tremerem, quando a minha voz tremer e quiser mais que o meu silêncio e a minha pele estiver pronta a sentir e os meus olhos finalmente abertos à morbidez da desolação que começa em mim. Talvez aí – sairei daqui.

MF

Grouper, Holding - https://www.youtube.com/watch?v=i31zFiwBFho

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sombra




Recomponho os nossos fantasmas.
A saudade trepida nos meus lábios e estes só encaixam nos teus.
Seria bom dormir e as palavras se não me assaltarem assim, numa violência a meio da noite. Seria bom dormir. Mas é urgente escrever. É urgente morrer e deixar provas de que fui viva. Ainda estremeço ao lembrar-me de como estremecia. Ainda estremeço ao lembrar-me de como fui viva. Pudesse eu arrancar o coração e ensopá-lo noutras águas que não as turvas melancólicas onde este petrifica. E depois devolve-lo de novo ao meu peito onde este batesse num fulgor ritmado.

Porque torpor é a pele por cima da pele. Interfere.
Escava através dos dias, resoluto em achares-me.
Escava até encontrares o limiar da sombra, sem medo que a sombra te fira ou te encubra. A sombra delineia e dá volume às formas. Não tenhas medo. Atrás de mim estou eu, pressente os cânticos e as paisagens de luz. Estou à espera de uma grande torre. De um grande plano para me lançar, cortada pelo ar. A queda livre e a supra consciência dos sentidos.


Aquecer-me-ia por inteiro, para um novo milénio de solidão.



MF



É noite. E os becos sem ninguém.





29 de Abril


   É noite. Os becos sem ninguém. O letreiro vermelho de um hotel, vultos isolados em algumas esquinas, baços das luzes noturnas. Nada disto parece real. A estas horas nada parece real. Sinto-me flutuar numa alucinação. De noite é outro mundo - “Limpezas espirituais e exorcismos” é o serviço publicitado na rádio do autocarro com uma música barata de fundo. O motorista bate o pé, ao som de uma música pimba.

Foi um dia longo…
   Na solidão da tarde senti desvanecer-me em mim sob o céu cortado pelos ramos de árvores imemoriais. Vou dedicar-me a descrever o meu fantasma. A escrever sinto que estou realmente aqui, ainda que somente uma sombra, pedaço apagado com lampejos frios de poesia. Ainda aqui. Mesmo que não esteja. Engrandece-se um silêncio lento neste templo que me fiz. Não ouço as vagas quebrar, impelidas pela dinâmica de um mar sem origem. Passeio o corpo ausente - paz embebida de melancolia.

Um dia vamos saber - Inumámos a vida e éramos jovens. A pólvora morreu, mas ainda fingimos respirar, assim, lentamente.
   
  Talvez apenas se te visse tremesse a partir de dentro e fosse de novo abalada pelas ondas refratadas. E o sangue correria, por momentos. A urgente certeza de que ainda sou humana. Não te quero. Somente essa certeza, apenas um arrepio hiperbólico, o desmanchar das estruturas féretras, o estalar súbito da argila lisa, sem relevo ou fissuras.

Vem. Tenho a boca seca de não falar.
É desumano querer estar só.
Como pode a pedra chorar? Como pode a navalha escrever sobre o calor?



É noite. E os becos sem ninguém…


MF

[Fogo]







(Abril)

  Apagou-se em mim. No crepúsculo de um dia há 13 milénios atrás. Apagou-se em mim e hoje transporto comigo uma solidão cuidada, resguardo límpido e escuro onde me oculto, onde reconto os dias verdes com medo das marés que lhes desfocam os contornos. Recolho-me, até ao atelier onde monto brinquedos quebrados na esperança de voltar a ouvir risos. Somente sombras, ecos perdidos, mas risos.

Queria aquele doce medo de morrer. Doce tremer de voz, doce tremer de mãos...
Queria aquele cheio no meu peito, incêndios no meu peito.

  Mas apagou-se em mim.
Fogo. Extinguiu-se-me das veias com fome lupina, mas acorda-me excruciante nas noites sem ninguém. Fogo. Porque não vens de dia? Quando há humanos que clamam por ti. Expande-te no meu corpo, onda cálida ascendente. Reduz a estilhaços, a cinzas, a nada, esta pedra sólida que se alastra por todo o meu sangue e me faz tumba.



Hoje gravito sob o meu próprio corpo e tudo é lento.


MF

segunda-feira, 6 de abril de 2015





21/03/2015 


   A escrita e o piano já não funcionam. Eram formas de abstração. Interrompes-me, escalas os confins da memória para onde te lancei na esperança de te calar. Vens. Disparado de cada canto da minha mente.

   Pega nas sapatilhas e vai correr. Sentir o vento no rosto. O vento no corpo. A vida no corpo. Respira fundo. Bebe as cores do céu ao final do dia. O sol derrete-se atrás das montanhas deixando no céu o rasto da sua presença. É ainda mais belo quando está a ir embora.
Acalma esses olhos. Ele sabe que o amas, tem de saber. Ou amanhã morres e não lhe disseste para ele ir ter contigo, só mais uma vez. Morres sem lhe teres contado todas as vezes que choraste, e todas as vezes que retiveste as lágrimas. 

Prolonga o pôr do sol da sua ausência. Nunca deixes ser noite.

   


MF


N



domingo, 1 de fevereiro de 2015







Perturbaram-nos a todos o silêncio cósmico da Inexistência;
O tédio é condenação de um demónio astuto;
As crianças riem na inocência resguardada do real.
  - E decerto Schopenhauer escreveu algo similar a isto.


   Tenho medo de esta condição um dia se tornar permanente porque eu sou tão jovem. A ideia de morte está mais presente nos meus pensamentos que a ideia de vida, mas não sou trágica, não quero morrer. Apenas quero desesperadamente Viver, (e talvez um vislumbre da morte nos conceda um vislumbre de vida) ainda que na confusão, na ambivalência de todos os conceitos, dando-me ao luxo de uma boa ilusão, ou abraçando com tudo de mim todo o cinismo e rir do destino, rir das máscaras, dos podres, da família, da razão, do quotidiano, do tempo, da moral, tudo. Sentir-me livre na efervescência de uma raiva, uma revolta interior exteriorizada em indiferença, num enorme "não quero saber". Mas há dias de um bem estar anónimo em que desprezo todos esses meus irmãos mais trágicos e lhes digo : "- porque não se matam de uma vez? porque se mutilam de maneiras inexprimíveis, de maneiras tão profundas e imaginativas?"; se o instinto prevalece sobre a dor existencial então que se mintam e bebam e riam do mesmo destino que vos trouxe até aqui. Ou sofram em silêncio sem importunar e contaminar os outros com a vossa soturnidade.
Bando de corvos negros, calem os vossos chilreios, descansem as vossas asas.



quarta-feira, 8 de outubro de 2014






7 de Outubro de 2014 - rascunho 

  Olho-os a todos - com a indiferença daqueles espíritos cansados a quem lhes foi roubado o sol, amargos e velhos demais para os corpos que ocupam, misturada com a  curiosidade dos poetas e das crianças. Inalo o ar mais pesado que o meu coração. Hoje sou cinzenta, como este dia poeirento e sempre igual a outros mil, na cidade. Escrevo devaneios quotidianos, pensamentos que se me perpassam por segundos mas impressionam o núcleo vago do meu ser, talvez para sempre.  Os transeuntes percorrem as ruas, também eles têm vidas, também eles têm sonhos e dores e corações. Invejo a leveza com que andam, ainda que esta possa ser fingida. Invejo-os porque hoje nem eu consigo fingir -  eu sempre tão calma, eu sempre tão forte, sou, afinal , tempestades, sou, afinal, fraca.
  Entro no autocarro. Adivinho mais uma curta longa viajem. Os enjoos são recorrentes; chegarei a casa com o corpo cansado, mas não mais cansado que a minha mente que corre mil quilómetros em órbita de si mesma, sem nunca encontrar um caminho claro que acalente o coração. Mais veloz que a paisagem que corre nublada, qual quadro impressionista, choca contra si mesma e as têmporas queimam. Ficção de vontades e medos e ideias.
  Saio do autocarro. O motorista retira o seu telemóvel e consigo ver o seu fundo -  a foto de um bebé. É pai,.. Dizem que os filhos dão mais sentido à nossa vida. Mas que sentido na terra sem sentido ? ( pelo menos hoje não acho sentido) ; na terra da razão férrea, da ciência régia, das causas e dos efeitos, dos destinos cegos... Andamos todos às voltas com a morte a tomar terreno a cada segundo, a imolar dias presentes com fé ingénua em futuros refulgentes. "Amanhã será melhor".

MF

segunda-feira, 6 de outubro de 2014




22:54

Este cansaço leva-me a razão. É assustador como sou controlada por estados humorais que não consigo controlar. Sinto ser um grito contido, uma cela de cansaço. Quero o meu espaço. Não é minha intenção levantar a voz e responder rispidamente. Perdoem-me, mas sinto-me mal.  
Expiro hoje os rastos da pólvora dentro de mim. 













quarta-feira, 1 de outubro de 2014


~ 22 de Setembro

  Às vezes não estou cá.
  Estou em algum lugar paralelo e simultâneo. Sou só o corpo que ocupa um espaço. 
  Não estou cá - receptáculo pálido de uma alma outrora viva e inocente de si e do mundo. Apaga-se-me o fundo onde tudo é paranóia coletiva, gestos aprendidos, imitações baratas de sentidos e risos tão cheios de vazios e olhares tão cheios de promessas. Pobres crianças ou pobre de mim por ser cínica e descrente e cinzenta. Li demais, observei demais, pensei demais. Pensei demais.
  Não estou cá - O meu rosto parado, os meus olhos baços lagos profundos, a minha mente leve e viajante por caminhos sem nome, começo ou fim... e de repente, não quero fazer parte - quero estar à parte. Despejo-me em algo, sem substância.. Não interrompam a minha ausência, não quero retornar. Estou num nada qualquer, numa vaga inconsciência e indolência fria. Não me perguntem em que é que estou a pensar. Mal sei o que penso, mal sei quem sou; sou, talvez,  um paradoxo entre ânsias que se opõem. Não preciso de ninguém, preciso tanto de alguém. Odeio e amo a solidão. Meu deus. A solidão é uma benção tão pesada, tão misteriosa e tão sapiente, tão tenebrosa e tão plácida. Mas hoje não quero ruído de fundo, não quero companhia - quero isolar-me do mundo, separar-me de seres servis, de fantoches, de anedotas ambulantes, de egos inchados. 


Devagar. Devagar. Desligo a ânsia de querer sentir. 
Sou só e comigo vivo.

MF

domingo, 28 de setembro de 2014

[02:33]

Escrevo essencialmente para mim, como estou a fazer neste exato momento. É a minha forma de lembrar, de me curar, de gravar, compreender, de chorar e de as lágrimas verterem palavras, escoarem farrapos de dor em putrefacção. No entanto, dirijo-me a outras almas em alguns poemas, na esperança de acalentar corações trémulos. Nesses momentos esqueço-me das minhas dores, armo-me de força para dar o exemplo. As minhas palavras vestem-se de luz e esperança. Não é falso, não é figurado, cada palavra é sentida. Também eu sou luz e esperança, no meio das brumas com que visto os meus textos.

Espero que as minhas palavras te atinjam a ti e a ti ou até mesmo a ti, como um raio de vida, como uma súbita revelação. Espero sinceramente ter retido lágrimas que teimavam em pressionar esses olhos, com um poema meu. Caso contrário, choremos juntos.


MF

(Memorandos) 19 de fev Projecções Hoje vi uma mulher da marinha, fardada. Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei com...