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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015





[ESCRITA semi-AUTOMÁTICA]


16 de Dezembro

O humano persegue-me, para o bem e para o mal. Pergunto-me se somos nós - que escolhemos voltar. O humano persegue-me, por isso quis voltar? (ainda que doa) A implosão, sempre para dentro, querendo ver para fora, beijar o ar de fora mesmo que doesse esse embate material contra outras carnes animadas de vida. Se escolhi voltar, porque voltei? (estou cá) Talvez isto seja o sinal de que eu deva estar cá, ou então é apenas uma filosofia, um malabarismo arquitectónico do pensamento para me segurar aqui e a uma espécie de potencial - Um palco onde sou luz e graça, onde meu corpo finalmente é o mesmo que a minha alma quando esta ascender ao plano dos cais limpos e leves onde não transparece já mácula nem necessidade de expressão, porque a expressão é o meu próprio corpo que é, é os movimentos da alma, material volátil quase não aqui, mas tanto aqui, marcando a sua posição firme com os cânticos emergentes de cada célula minha e a ampliação desse sem nome sinal divino na periferia, a quem quer que por mim passasse e me respirasse. Sim, quero o corpo liberto, quero os véus acesos e as cortinas despidas, as cidades corridas em toda a extensão do seu dia e da sua noite. Quero ser viva, num hotel, num palco, numa estrada, na solidão, na dor, no amor e na morte, ouvir as estrelas e a voz da terra troar, ouvir os milhões de anos vivos num passado para-dimensional, saber e não doer não poder escrever, porque flutuando nesse transe aquoso de quem viu Deus e ficou vivo.


*
Eu acho que (já) morri. Eu acho que todos nós (já) morremos e nos une aquilo pelo qual escolhemos voltar. Ainda que tivéssemos o fardo do tempo a corroer os nossos corpos fracos que não podiam nunca traduzir a galáxia magna que o anima. (Mundo estranho este)...Tudo é tão pouco às vezes. Tudo é tão alto às vezes, e vasto, e leve, e puro, e potente, e excedente, e o meu coração vai explodir, vai explodir e dizer, tão belo! Vai cair e levantar o céu de novo para que não pense a morte como estrada nem círculo insano sem medida do medo, não vai ter medo de escrever a inconsciência, não vai ter medo de encontrar o divino em si, que lhe foge ante a razão, não vai ter medo de provar essa espécie de licor amargo de que há outra coisa que convive no mesmo corpo que ele, que escreve neste momento e lhe rouba o lúcido protagonismo e o deixa num limbo entre a loucura e o divino. Escreve o que sentes coração, não tenhas medo, imita o teu irmão e escreve sem pensares, há um mundo atrás do pensamento, lá dentro a linguagem é outra e talvez sintas o mistério claro atrás das vírgulas e dos impérios sem consciente sentido onde falas contigo e estás sem ti para te encontrares unido numa espécie de pedaço puro de alados sentidos, onde a terra é leve, onde o caminho é silêncio e a promessa clara.
Estás liberto, soubeste o mundo e esqueceste, só para puderes voltar a descobri-lo de novo.
*
Quer-se a terra, as raízes quentes englobadas por humanas mãos em oração, em pertença à terra. Ele disse: que era tão maior correr sem escudos e queimar, e ser trespassado por ramos e continuar a correr sem tropeçar no seu próprio sangue, um humano nu, vejam como ele corre, o universo chove um som, o humano sua e corre cada vez mais rápido (continua a correr para sempre) e sorri - a respiração sôfrega nunca esteve ,nunca foi, afinal, tão viva. A sua mente está leve, não lhe pesa o ego, as cargas metafóricas do ego, e das coisas que se fazem maiores, se tornam monstros como que a disfarçar por oposto excesso, a sua vacuidade essencial, a sua frivolidade que impregna todos os teatros do mundo, os de palco e o dos dias - são as perdições no outro, pelo outro, é o desejo- poço, o amor decomposto ao seu irrisório placebo de caricata forma e nefasto conteúdo. “Eles pensam que precisam de corpos para amar”- ri-se o Universo…
*


Quero limpar a faca no silêncio e beijar a terra que me engole, que contém toda a morte e toda a promessa de vida, quero cantar o tempo e a luta do céu contra a terra e mostrar que tudo é o mesmo, viver esse tudo é o mesmo, e não sair daqui tão cedo, não sair daqui em vida. Mas as vezes dói. Dói não ser os lustrosos poemas que eu tinha de ser porque ouvi o estremecer da terra minha, das sementes hesitantes a chorarem pelo sol e pelo beijo da chuva que afastava do meu terreno. Fugia para desertos de sóis velhos, avermelhadas esferas quase no penhasco do segundo da sua própria extinção. E ficava então no escuro, lenta mas areias frias sem noção de tempo ou dias por abraçar.


MF




segunda-feira, 14 de dezembro de 2015



[Escrita semi-Automática]

14 de Dezembro

ela (?) responde-me ao chamamento de dentro. Eu estou no fundo vago da despedida que se contém. Eu sou a caixa perdida no mar e no espaço das coisas, que se dizem perdidas sem saber. Eu amo dizer, as estrelas, eu amo a música que sangra entre os espaços do meu silêncio. E sei andar, aprendi a andar sem me lembrar dos movimentos. Seria uma lição de voo, poder voar antes de andar. Cantamos no cimo do universo aqui, no meio da Terra. Entro na caixa e ouço as coisas, todo o templo do passado, do presente e do futuro que sempre será, semelhante a si mesmo. São tesouros nivelados, do Espírito humano, unidos por fios invisíveis e que transcendem dicionários. Conceitos que são os próprios conceitos sem possível tradução, porque mundos, porque são movimentos de emoções, histórias, fragmentos de sentidos e memórias, que resumem-no, são seus fractais. A Solidão, o Amor, esses Todos, com mil e uma raízes e projecções verticais, são temas incorporados nas próprias leis naturais, como a harmonia que é sincrónica ao espaço em que está, e é um fenómeno não divisível. O Amor é não divisível ainda que múltiplo, mil faces e só uma, algumas distorcidas ( e de que maneira) , faces cobardes, egóicas, ranhuras astronómicas no tecido sagrado. Aprende a amar, aprende a voar, fecha os olhos, os olhos enganam-te quanto à altura da queda, aliás, nem sequer é uma queda, é uma ascensão. Mas no ponto em que te encontras não sabes, que a queda é ilusão, vai ser invertida, e o teu sangue será plasma (o quarto estado da matéria), gravitando as estrelas. Serás leve, e todo o teu corpo estará vivo, cada célula. Todo o teu corpo será alma, e toda a tua alma será corpo, serão uma oração conjugada do céu e da terra. Teu corpo é Terra. Tua alma é Ar. Todo o teu ser é Ser. Todo o Amor te diz que o medo é invenção da linguagem, e do pensamento atrasado no lodo de mil centenas de enciclopédias, de tantos outros pensamentos aleijados. "Ouve um canto gregoriano, apaixona-te uma vez na vida", disse eu um dia, " e depois diz-me: se tudo é tão desesperadamente material e explicado".



MF


Listening to : 
- Joep Beving 
- Lambert









[ESCRITA Semi-AUTOMÁTICA]
13 de Dezembro

(2h18)

Uma imagem por detrás do cérebro e um fluxo de palavras inconscientes sem lei ou pudor. As trevas deslindadas para mim e para ninguém. Que me leia deus, que me leia o Tempo e quem ficou para depois. Não posso entender-me, nem ao meu amor, nem ao poço que imploro finito mas não finda porque ocultam-se marés prontas por detrás dos dias, que deslizam e submergem a alma por um desequilíbrio de lua. Fico sem ar por dias e olho para trás, para todas as vezes que pensei que tinha para sempre atraído o céu para o meu sangue, porque dancei para deus, porque dançámos para deus, na nossa bela e atónita insignificância.E mesmo na solidão - achei que dancei para deus, nas ritmadas canções de dentro ao final de um dia. Mas nunca o céu permanente, não. Esse deus queria ver-me dançar para sempre. Eu sei, o seu egoísmo quase benigno, eu sei, esse de nos querer ver dançar para sempre a partir do centro resoluto, resistente, do nosso mais cru desamparo. São (somos) árvores a estremecer ao vento mas a estenderem os ramos para o Sol. E então, nunca mais digo que é para sempre. Porque o universo vive disto, é alimentado pela supersónica chuva de gestos movidos contra a inércia, e de altares erguidos por nós mortais às coisas que foram, que materialmente decaem e se dissolvem no finito, na inevitável ordem das coisas, que tornamos outra coisa, que superamos, que surpreendemos com nossos quadros e versos formados bem no centro da Dor e do Amor.

·         (1h42)
E não importa o Futuro, só importa- o encontro com a reposta a cada instante. Mas se te projetas para além e te encontras vazia agora, não deixes escapar a Idéia da próxima vez que ela se desnudar, capta-lhe a superfície, as extremidades sem forma, escreve as pontes que te levam de novo ao seu sentir e volta com as palavras - para não te esqueceres. (Como pudeste esquecer? - Que somos divinos e assim todas as coisas.) Criança, procuras o que já achaste e esqueceste o conteúdo, mas sobrevive-te a forma, a indistinta possibilidade, o sussurro certo e mudo de algo que nos segura a todos e nos permitirá ser.

·         (2h01)
Não saber porque sou, (eles dizem - “Tinhas de ser alguém", como se isso fosse resposta.) 
Não saber estar aqui sem saber
gastar-me de tanto querer saber

 Amo o vulto voltado para o Silêncio e a centelha perdida no plácido mar. Essa vastidão semi-onírica e sem tempo, como que no Princípio do Fim do Mundo. Mas também me tem o ruído, o tráfego, a arte, a loucura e amo - fitar o meu próprio caos, e amo não saber quem escreve nem quem me ocupa, e amo provar o desejo nas texturas e olhares humanos, e amo a torrente, a insónia, o sonho, a morte, todo o acumular de dúvidas que nos catapultam para explorações siderais. Que eu morra aqui - se às vezes não quero Silêncio nenhum, nem tampouco compreender que silêncio é esse nem que versos são estes que escrevi. Apenas lançar-me, apenas não saber, apenas a terra e o céu estendidos sobre a tábua da minha própria criação, apenas um tempo inteiro, um cheio ar e arrebatamento longínquo e eterno, apenas a loucura sob as rédeas do amor e uma melancolia quase mãe, e amar, e amar…



MF



terça-feira, 20 de outubro de 2015





"(...) Os minutos escorrem desde sempre e para toda a eternidade e minto-nos se disser que estou em paz porque não sou ave. Pressinto a canção da montanha mas não lhe ouço o silêncio cheio que equilibra as navalhas e lhes embota as extremidades prontas. Ressumbra e assoma o tempo de encontro a este corpo. Ainda sonho com um regresso, ainda sonho com os tectos sem fronteiras trajados de estrelas e a leveza do não corpo, a destruição de todos os espelhos baços e das agulhas inconstantes enlouquecendo a pele. "


17.07.2015


Tentei transmitir a ideia de que tento ouvir atentamente os sentidos, as canções naturais, a Verdade, mas não ouço o que realmente importa que está contido, imagino, numa espécie de iluminação do Silêncio - nesse momento, as navalhas do pensamento que me corroem, e todas as coisas com que me firo, seriam equilibradas, as extremidades deixariam de ser afiadas para me poderem ferir. O tempo é outra coisa que me fere, goteja sobre os meus ossos e enche-me de nostalgias, só penso em regressos, e quanto mais regresso mais penso que tem de haver o regresso último - é aqui que entra o misticismo, o platónico - o universo, o sideral, a leveza de não ter corpo (que contraria outros textos em que quero ter corpo para sentir) e a destruição de todos os espelhos que me enviam falsas imagens de mim, bem como de todas as " agulhas/navalhas" que me ferem.



MF







sábado, 17 de outubro de 2015





[Caderno]

17.10.2015



(1:40 - 2:20h)
*

Os versos palpitam-me na cabeça, como profecias sem razão, implantadas por um espírito não humano e mais que humano. Capto a voz que é minha mas que me nasce sem que eu saiba de onde ou porque nasceu.
(E escrevo sem saber o que vou ler.)

*

Aprendi as palavras, mas de onde veio a canção?


*

Poderia ser Deus? - Deus ali materializado, quando os dois primeiros humanos se amaram.


*

Há esta obsessão de pensar cada verso. Este medo de escrever sem pensar. Que mal poderia haver afinal, no final? Talvez o assombro de que faço mais sentido sem pensar.
(ou que sem pensar não faço sentido nenhum, de todo, e este calvário é necessário - pensar.)


*

Sou os mil gestos apagados num futuro que não deixo ser.



MF








[ESCRITA AUTOMÁTICA]

17.10.2015

(Entropia e umbrais)



(1:40 - 2:20h)
*

A entropia, furtivamente entretecida, imiscuída num éter qualquer que calca e sangra e desarruma o universo; entropia astral, entropia secular, entropia em todo o lado, sob a pele, entre as veias, no sangue e na linfa e nos espaços intersticiais; entropia, o lixo, a seta de sentido único para o infinito devagar, até ao colapso, entropia, o excesso de onde germina a decadência e enleio, entropia sem nexo, de incógnito começo ou fim, o caos a abarcar o ser todo pela idade sufocado, pelo tempo e visões de inevitável morte e incompreensão; o excesso de tudo, a falta de tudo. A irreversibilidade. A desordem. A ilusão de que já houve ordem. Houve? Na idade sem idade. É uma pergunta que me assombra. Talvez, num Princípio Unificado. Princípio de tudo. Depois a expansão, cumulativa de tudo, macro e micro caoticidade. Agora só há entropia e o suor permanente sob o seu jugo, a energia que se esvai na tentativa diária sem descanso entre os segundos, de arrumá-la para que nos fira antes outro dia.



*

Há uns membros descolapsados no céu e viajens anónimas de sereias cansadas. 
Há trigos plantados no sérum inacabado de últimas virtudes e trejeitos mórbidos de mil medos.
Há infâncias perpetuadas no ar e aquecidas de novo nas noites sem ninguém onde os leões rugem e se movem coisas indistintas, lascivamente prepotentes e paradas num destino sem tacto ou razão.
Há umbrais e taças de luz onde o ser encurvado se dobra na paisagem magra e perenemente morta, com águias a sobrevoar (sedentas e pacientes) o seu ainda ténue brilho patente na sagaz sede do seu corpo e no seu olhar. Foram sedes imemoriais, privações não humanas, mais que humanas. Pesos sobre as costas mais que humanas, de tão humanas, por tão humanas, frágeis e destinadas ao quebranto, à curvatura excruciante sob pesos imateriais da emoção sobre-carregada, da sensibilidade sobre-desenvolvida e mais que pura.

(Bebe-se ali não sei o quê. Está cansado mas mantém-se vivo, 
para recordar, para se purgar?)



MF




quarta-feira, 26 de agosto de 2015




[ESCRITA AUTOMÁTICA]

22 de Agosto




(1h06)

No teu berço descanso. Nas brandas mãos a bradar ao tempo que me queima. Seríamos símbolos, rugindo em fogo e aparando mil frémitos existenciais, sanando loucas feridas de excessiva luz. Corroerias as naves, as texturas de puéreis sentidos, logro ser-te o mundo e num suspiro cair para sempre contigo até ao inferno das ondas e das estepes languescentes onde o tempo se dobra e nos amamos. 
Oh como cantamos e dançamos nesse hiato esquecido, nessa terra mítica de mil evaporações e expedições finais... Movem-se montanhas na insigne ânsia de desocultar o dia. Resgatar a infância que na bruma se desvaneceu, e todo o Amor que o mundo esqueceu de tanto se vestir de ferro, de tanto degustar as feridas, calcar o sangue, calcar as asas e fazer jorrar sal de fontes sem razão.  Oh deus, não sabemos, nunca soubemos... porque matámos o Paraíso? Agora fá-lo comigo, ainda que ninguém o veja, nós sabemos - ele está cá.


(1h15)

Aperta-me contra o teu rosto e chora. Provar-te-ei as lágrimas e saberei também que é por isso que estamos cá – para infiltrar em nós a pesada dor, e devolver um beijo que nesse coração ressuscite um tremor.


Estou hoje calma e não sei porquê. Evadi-me em mim e no céu, semeio a brancura dos espaços desocupados onde renasço. Inspiro e sinto e corpo a sanar durante a noite, como se a superfície se acalmasse segundo uma terna melodia interna quase muda que na respiração se encaixa e promete nunca mais quebrar. Mas quebra sempre, inevitavelmente - aquando um rasgo de contaminação externa, mundano, aquando a destabilização sanguínea de uma paixão e a dor de ter alguém a viver em mim.



(1h25)

Já não durmo, nem esqueço, nem recordo. Desliguei-me de qualquer coisa que nem sei, e nem sei se a alguma coisa estive ligada. Apenas sei que me senti inteira, e o corolário do medo foi não querer morrer. Vem. Vem saber o que jaz adormecido e quer voar dentro do fogo. Imagino-nos todas as noites quando não consigo dormir, e movo mil vontades dentro de mim de desobstruir todas as cidades até ti. 

Lancinantes as névoas que te decrescem, fazem-te dentro castelos de cimento e ficas sem espaço para o teu sangue.




MF

pb


domingo, 16 de agosto de 2015



[ESCRITA AUTOMÁTICA]

16 de Agosto




As vagas runas de um mistério qualquer incendeiam as áleas de frutos verdes, desmascarando os gestos dos fúnebres preceitos a que se remeteram. Os tecidos lúcidos assumem marés cristalinas, pratas semicerradas de um mundo de manhãs. Despi o caule e teci os adornos com que cravei ao peito as tentativas de ser mais. Empunhámos espadas sem sangue, e perdemos o rasto  do mundo, na flagrante viajem palmilhada a choro, para nos semeármos em virgens terras de mil sóis. Eles não são ninguém, só nós amor, só nós. Quis tocar-te e ir embora, num embora efémero ou para sempre? Acho que podia ter-te em mim, na carne que se entranha no infinito, na saliva que canta mil gritos, e na tua pele também ficar. Adormecer a dor e não ser mais de mim tão sendo. 

*

Ser, como o universo chora! Ser, porque os outros também conseguem Ser, (às vezes), porque não eu? Eu, que me enlevo, subo e bebo em alturas abstractas e brindo com poetas. - O mundo é nosso, digo-lhes, porque nós transmutamos tudo isto, damos-lhes tudo isto, arcabouços de cristais, telas onde sonham os outros e ganham voz.


*

Praias discretas no discreto recluso do meu coração. Mas ó Deus que não me sei ser, comigo e com alguém, que não sei esperar que te desdobres claro para mim, porque não suporto estar no escuro. Porque te calas? Porque empurras para mim a decisão de te deixar? Porque eu ficaria se te mostrasses. Sabias que o mar nunca soube ser mar? Então que medo é esse?



MF

pb




sexta-feira, 31 de julho de 2015



[ESCRITA AUTOMÁTICA]


Diane Tremblay - the boy


*

Trago o fogo pela cintura. Amasso o tempo e pereço a tempo de ir. Como gostava de poder dizer por inteiro os pedaços caídos em desuso na sua febre de serem mais. Podia criar e viver para sempre, nas nuvens de sonhos e maresias de ninguém. Para sempre amor, para sempre. Podíamos viver nos hotéis e esquecer. Esquecer de voltar. Para quê voltar aqui? Talvez me curasses de querer superar a cada segundo esta pele que me contém. E me contentasse em te beijar e ficarmos até de manhã abraçados, a cidade lá fora sempre rápida e sincera, sempre mãe de histórias e encontros. Não sei se vivo com o presente peso no meu corpo e as melodias, poemas por erguer. É uma perpétua insónia que carrego. Não durmo. Quero a minha alma e o meu corpo no seu auge. Íngreme é a escada que discorro nas horas paradas. Permitam-me vislumbrar além do que não se pode ver. Sou pequena mas permitam-me um cego clarão inesquecível. Viverei na vertigem desse fulminante raio, na ignorância atroz de quem esteve lá e não conseguiu guardar um entendimento prolongado.


MF






[Reflexões sobre a Escrita automática]




Sou dupla e quem escreve é a sombra da razão
que a razão quer despir e escrutinar, 
mas a sombra verte palavras ambíguas
e brota o céu e o inferno em metáforas desligadas e fragmentadas.


1) O poema em corrente, escrito inconscientemente num frémito, num súbito premente ímpeto momentâneo, é o emergir de uma fracção mais ou menos imaculada do domínio do inconsciente, domínio este quase inescrutável à razão pelo que o conceito de "significado real" é sem sentido. O poema ou texto é sim " sentido" em imagens que surgem com versos e palavras que se destacam, pontilhados néon em estepes de trigo da psicanálise, excertos fragmentados à superfície mas coesos num fundo imagético, contidos numa ou várias metáforas de cenas misturadas. No entanto, é de presumir que durante o processo de escrita automática transbordem e colidam milhares de conceitos, memórias, e assomem assim palavras aleatórias, que perfazem um ruído de fundo  que serve de fundo a versos com significado inconsciente.

2) Há a possibilidade de uma pseudo-interpretação para o leitor - a razão poderá impor imagens intuindo certos versos, pensando metáforas comparando com modelos pré-definidos e baseada naquilo que conhece acerca do sujeito poético a partir de pequenos rastos do seu mundo inconsciente, rastos estes materializados em determinadas neuroses, obsessões, passados mal atados e desejos reprimidos.  O poema de outrem é sujeito a uma análise extremamente subjectiva quer racional quer inconsciente e na verdade o quadro final é mais reflexo do próprio mundo interior do leitor do que do autor, o que impossibilita uma interpretação aproximada do alvo real, mas assim é com toda a arte - "é o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte " - (Wilde). A escrita automática produz textos de inesgotáveis sentidos e tramas porque tão ambígua. Muitas vezes é difícil explicar o "sentido" de determinada passagem para o próprio autor em termos " racionais" , no entanto, possuímos o nosso próprio inconsciente, pressentimo-lo vagamente e sabemos que imagens nos surgiram na confusão da insónia que despoletou essa escrita como se de um exorcismo se tratasse. Seremos o nosso melhor psicanalista. 


3) Esta ideia é bastante difundida - Há um limiar entre a inconsciência e a consciência (ou razão) e é nessa brecha que pode acontecer o génio, no subtil toque equilibrado desses dois universos - O ideal desta escrita pressupõe como produto final a mensagem (teoricamente) incorruptível do inconsciente, o melhor dos dois mundos juntos numa linguagem claramente esquiva, estranhamente inteligível.  No entanto, pode acontecer que a balança tenda demasiado ou para a razão ou para o inconsciente. No primeiro caso, a razão pode contaminar a mensagem original, pesando cada palavra, refreando as mãos de escreverem livremente, com pavor do caos gramatical e demónios ou desejos desnudados. Assim a razão tende a moldar o texto, eliminando o "ruído", o aparentemente sem sentido, ao sabor da sua rectidão, caprichos estéticos, moral,etc; "Lost in translation" - esta expressão sintetiza bem esta ideia de interpretação racional da escrita automática - perde-se o essencial na tradução, na transmutação do conteúdo bruto inconsciente em explicações racionais. O resultado final será obviamente pouco autêntico, será mutante, um híbrido disforme. No segundo caso, a inconsciência por si mesma poderá derivar num caos de palavras imenso, sem nexo gramatical, como comentado no primeiro ponto, e, deste modo, o ruído não passa de ruído impossível de decifrar mais tarde racionalmente. ( ou então o inconsciente "puro" sublima todos os meios conscientes de interpretação e é na verdade uma espécie de experiência fenomenológica em que as palavra são inúteis, incapazes de serem voz, de "explicar" o que está escrito, e apenas se pressentem imagens e sentimentos de forma exponencial e total e não apenas parcial, como é natural nesta escrita).

4)   Durante a escrita: 
- a respeito da adulteração em tempo real dos versos devido à extrema vigilância da razão, acredito que esta perda é mínima quando a escrita é espontânea, tempestiva, no limiar da inconsciência/consciência que se auto-fertilizam mutuamente culminando num edifício final de aparente caos insondável à razão - caos é a condição indissociável da autenticidade da escrita automática e a que permite ler sentindo ligeiramente o esvoaçar do véu, vislumbrar o fundo do icebergue.

MF






quarta-feira, 22 de julho de 2015




[ESCRITA (SEMI)AUTOMÁTICA]

22 de Julho





*

Sinto-te. Como se me fosses a carne. Murmuras-me sem saber todos os segredos. Marcas-me com os teus lábios sequiosos a linha fina do meu pescoço. Tocas-me, despertas o universo e adormeces o mundo e o burburinho caótico das ondas internas, das marés sem hora desgovernadas sem lua, e tapas a náusea que me contamina o sangue, o olhar, o paladar, o tacto, a náusea que me faz abandonar o mundo em mil e uma simulações de morte. Sê de novo a minha montanha e eu frágil cego assalto a ti e ao teu corpo, sob ti mas acima do céu, de onde vieste e decerto foram esculpidos esses lábios, esses olhos, esse corpo e essa arte de me tocar.  Desenha-me outra vez, respira sobre mim, canta para mim - "a seta apaixonou-se pelo vento", e pergunta-me de novo se confiaria no mar - morreria nele de bom grado, é tudo o que te posso dizer.

*

As cinzas permanecem frias no altar de um sem número de montanhas. Pressionas as feridas e estas quedam de ferir e sobre-amas o ser que ama e cai para sempre. De novo me comoves sem saber que me fazes morrer. Sei de cor as trevas e pedaços de medo corrompido que advêm das noites de contagem dos grãos de areia.
(...) Descanso agora, entre fiapos fúnebres e candeeiros prostrados diante o mar e diante o fogo.  
Somos aquilo que não esquecemos em todos os segundos que não dormimos.

*

Oriundo do sonho nasce a treva que chama o fogo à vida. Durmo no céu e acordo no mar e na terra de percevejos e extintos pedaços de tempo. Oriento-me entre os caminhos gastos dos homens e entendo vagamente a luz e a morte. Sei que não posso ferir a fera sem cair para sempre no poço sem fundo. Moves-me em lutas tripartidas e despedaças a razão que não entende a sereia do teu rasto porque o hino que me afoga é tocado em cordas reles e podres e vulgares. A sinfonia sou eu que a ligo a ti e esta nasceu da poesia e da minha obsessão de pintar de novo os rios, o céu, o tempo, a morte, a alma. 
Desmancha-me de uma vez, para que me ache, recomponha os pedaços perdidos, e com ódio do teu nome, no fim nascer em paz e a tua imagem apenas um ontem que me matou.

*

Na cidade recolhemos a ciência do sangue e a fórmula da morte da gravidade. Ascendemos, no doce levitar com peso, ainda na terra mas flutuando no espaço entre o esquecimento e a lucidez. Queimas agora, a ausência de ti aqui. Semearam-te longe e trouxeste-te a mim um dia e estávamos ambos mortos até nos beijarmos sob um fundo verde e uma fome secreta, quase latente, de nos incendiármos antes de quebrármos o feitiço e nos vermos.

*

Ocultas-me a arca entre jogos de luz e sombra. Corro atrás de ti e das palavras caóticas disparadas por ti. Foges-me de novo e arrasto as pernas em nova investida. O plano é circular, permites-me apenas entrever o  teu rosto mal iluminado pela lua que penduraste, e num segundo dissolveste-te nas trevas, e eu fico só na floresta, baralhada como numa vertigem. Tenho medo dessa sombra que se recusa a falar-me, quem és tu afinal?



MF



sexta-feira, 17 de julho de 2015



[ESCRITA AUTOMÁTICA]

15 de Julho 

I

Dali Remorse, or Sphinx Embedded in the Sand

 *
(1h53)


Assomam aos lábios os trejeitos mórbidos na canção desmedida das folhas nocturnas . Desembarcam réstias, agulhas enlaças num torpor sem folgo, sussurra o semblante gasto das estepes vazias, gira ao encontro do beijo insano. Rega o polegar por dentre as folhas brúmicas de demónios acordados. Pressente- o povoado fímbrico de névoas sem ninguém aladas aos rostos soturnos por onde navegas. Estás parada, pedem-te para sorrir a sós na tua idade, sombra, cruz, quebra, parte daqui e para sempre, não venhas, nem chegues ao redor da tua própria sombra. Que és tu? Parada no tempo perdido, parada e incerta no medo parafraseado e demente, escasso, premente. Ofuscas o escarlate de teus lábios na sombra oposta do mistério, as luas partem-se em mil e o dia ainda não chegou. A pele encerra dilemas e estrelas sangram pela destruição sem regra. Onde vamos? Para onde vamos? Prende-me ao chão agora, agora que não sei saber não ter asas.

*
(2h16)

·   Realiza-me no céu de gente, no trono quebrado sem eixo, móbil pulsante de um ciciar. Demove-me dos gestos cegos lançados no vácuo profuso onde morrem as traças. Segura-me a cabeça, segura-me, e indica-me onde nasce o sol depois de cada morte. Viaja. Comigo no espaço, entre os vazios incomensuráveis de mil amanhãs. Chega-te ao calor que ainda emano, oriundo da fonte trágica e viciada no cansado e ditoso trepidar da memória nas noites escuras sem ninguém. Os minutos escorrem desde sempre e para toda a eternidade e minto-nos se disser que estou em paz porque não sou ave. Pressinto a canção da montanha mas não lhe ouço o silêncio cheio que equilibra as navalhas e lhes embota as extremidades prontas. Ressumbra e assoma o tempo de encontro a este corpo. Ainda sonho com um regresso, ainda sonho com os tectos sem fronteiras trajados de estrelas e a leveza do não corpo, a destruição de todos os espelhos baços e das agulhas inconstantes enlouquecendo a pele. E há também o dar-me a seu tempo, e depois uma morte qualquer e saudades do que nunca fui.

*
(2h23)

Vou partir impercetivelmente por dentre as portas, num silêncio pesado de mim e de todas as horas paradas num instante atónito. Quebrei semeando pelo caminho pesados tempos de cegueira, unida aos traçados puéreis de quem não sabia persistir. Movi-me por dentre todos vós, assim quase sem saber que ou porque me movia, por dentre tanto e tão pouco, trajes negros e almas tão felizes nas suas pequenas lamacentas poças que em fraqueza invejei. Eu que quis ser diamante. É noite e há morte entre as veias e caminhos que nunca soube desbravar. Ocultam-se formas, percevejos, rostos atrás do iceberg. E as cordas prendem-me os pés enquanto incorro de novo para as fogueiras de gelo, e abraço as lascas com tudo de mim, com tudo de mim. Grito no cume do iceberg e defronte a mim há o mar de gelo e estou longe. Começo a esquecer-me. Apunhá-lo o peito com a adaga e recomeço a delinear de novo a minha outra morte.

*
(2h39)

Se me perguntares digo-te que arrasto ainda todo o sismo que arrebatou cada músculo meu e ceifou-me a criança da alma. O chão mostrou-se enfim como era - de vidro pronto a quebrar aos pés de um gigante invasor, que nos subtraiu o mundo. Não sei como o teu sangue traiu-te de morte, em lufadas várias de terror e medo, caótico o estrepito ao teu redor aumentado pela noção de finitude de um ser até então velho mas aberto a possível juventude aquando talvez o tiro de um beijo ou o assentimento último de uma verdade. Despoletaste o tempo irmão. Acumulei terra em promontórios nos meus sonhos onde sonhei morrer e nunca mais sonhar.

*
(2h48)

A pedra fica fria e não sente nem envia risos germinados internos. As praças regem-se pelo claro trajeto inerte, de todos aqueles que pisaram os seus limites e morreram. Passeio sem saber porquê ou quando o fim se fará vago anseio verdadeiro. A insônia carrega o sangue e as pálpebras de um sem nome de mortes, ao encontro Dela as serpentes cheias de lodo e sangue no limbo de lugares esquecidos e amorais. O titã acorda do seu longo sono e vem perder as horas no nosso mundo, semeando tragédias e furores nos corações dos homens. Sucumbem à loucura na hora magna e gritam de promontórios os vulgos perdidos. Assombram-me. Todos esses pedaços sem fio, ramificados e nutridos pela árvore humana. Sonham nos caules as cores que não existem, adormecem com as escoltas vazias e os olhares recolhendo-se para dentro como que em desesperado anseio de luas e estrelas perfeitas, sentinelas do relento anímico.

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(3h04)

Os raios não enviam vida do fundo onde aconteceram secretas mortes, fuzilamentos silentes cantados por mil balas. À frente, a parede, que queria transcender, trepar a ferro e sangue, cega de tudo o quando poderia ver. Sede de cântaros partidos e asas liquefeitas. O medo ascende quase plácido de lugar nenhum, aranha fria e feroz por dentre as brumas a trepar, até à boca que sela com o estupor das suas teias, asfixia de fora para dentro, as mãos presas e o corpo sólido e múmia para ser deitado às larvas envolto nas falsas sedas. Pudesse levantar-se e anunciar-se como as trombetas, de novo pronto a correr por mais distância que a capacidade da carne. Ressurgir no bater das palmas dos anjos que fitaram todo o desmoronamento com as lágrimas a ameaçarem turvar o céu. Levantar-se no passado e obstruír os canos das espingardas empilhadas no monte a que foram deitadas depois do massacre. Ela não lhes viu os rostos, perdida que estava na sereia talhada a ouro na parede. Sem medo de ir embora. 



MF











[ESCRITA AUTOMÁTICA]


15 de Julho

II

René Magritte, The Lovers I (1928)


*
(3h38)


Por último espero, no breve apêndice de gestos gastos e perecíveis. Foi um sem número de esperas sem furor e sem esperança. Duvido que te esqueças quando e onde fomos ou estivemos, porque na estrada do pelouro deixei meu rasto a sangue. Ainda povoas os núcleos dos meus cansaços como maldita condenação precedida ao teu real valor. Pressentes talvez que ainda me manténs acordada numa semi-morte no mundo calado de um quarto depois das três. Só os ponteiros do relógio marcam o sólido frame parado do meu inquieto fluxo inconsciente. Envio-te uma miríade de nostalgias acres em navios aportados nos teus sonhos. De manhã continua - na tua simulação de vida, como eu e toda a gente.

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(2h31)

Pesados escombros de beleza estilhaçada… Não toco, não posso tocar as janelas que principiam de novo o queimar do teu rosto. Ao longe e contigo, o sol e a idade ainda jovem. Liguei os teus lábios ao universo, que adormeceu perto de mim e me beijou o rosto enlevado nos sonhos das canções e do esquecimento teu. Obliterámos o mundo, nós dois, e hoje navegas comigo fantasma. Lembras-me na insónia que sou ainda humana e penso cada faca e dispo os nossos quadros de paisagens que não são daqui, para logo resgatar toda a poesia confinada ao gasto chão de um sótão vazio, e ela voa para te cobrir e pintar de novo. Moreno falcão anímico, viste-me quase toda a alma.

*
(12h45)


As pegadas sucumbem fúnebres pelas areias infindas de um qualquer amanhã. Percorre o tempo sem eixo e demove o trono a deus na sua imparcialidade histriónica. Seca-me a dor por entre os dedos e os furores de mil medos emaranhados às estruturas caladas de mim, "- Beija me”, digo, "o interior cheio e vazio”; Sucumbe por fim, tu também ao mar e ao horizonte quebrado em papéis nocturnos, envia-me o teu beijo através do cataclismo prepotente, dos céus desfeitos e pássaros e animais caídos Envia-me palavras que repousem nestas pálpebras de mil anos para que estas pensem morrer em paz. E tu, lembra-te de mim nos últimos microssegundos expandidos num alvoraçar caleidoscópico e chora, não por nós mas pelo tempo e por nascermos humanos, a nós atado o orgulho quando não somos nada, brincámos à solidão, às ausências e silêncios nossos mas todas as noites nos perscrutámos cá dentro.

*

(12h58)

Olha-me as estrelas e as estradas nocturnas dos vagueantes da morte, perecemos também em camadas diferenciais de assombro e torpor tépido de outros anos verdes que se prolongam parasitariamente nestes. São círculos oratórios de outras sensações e vontades, vazios que não eram estes vazios, vazios que eram somente espaço para preencher com memórias vívidas. Desnudámos o Tempo, embelezamos o Tempo e o nada de momentos, só cá dentro os idolatramos como se fossem incêndios ainda vivos. Olha as estrelas, vê como se pressentem mortas e ainda se presenteiam magnas nesta noite velha.






MF




(Memorandos) 19 de fev Projecções Hoje vi uma mulher da marinha, fardada. Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei com...