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quinta-feira, 19 de março de 2020



(Memorandos)




19 de fev
Projecções
Hoje vi uma mulher da marinha, fardada.
Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei como era bonita, uma excepção ao estereótipo de masculinidade no seio militar. De seguida levantou um lenço branco contra os olhos.
Pensei se tentava esconder uma lágrima. Pensei se choraria de saudade.


26 Jan
A Doença ensina-te que és animal. Que não és superior. Ensina-te a insignificância, a humildade, a fraqueza que te poderá tornar maior nos dias bons (mais grato).
Ensina te que és de carne.
E que não sejas escravo do teu corpo. Sê livre.
A felicidade transborda a beleza que persegues e queres construir compulsivamente....
Aceita. Tem esperança. Vive além de ti, dá mais de ti, não te feches em ti.....
Sobre que olhos vives? Que olhares te esmagam? Vive somente sob o teu próprio olhar.
Compete contra ti mesmo e com fair play nas derrotas....


25 de Dezembro
A vida espera nada de nós, ou a vida espera tudo de nós. Reflito não em meios termos, mas numa absoluta oposição, divisão fundamental, liminal. Como o aforismo de tudo ser um acaso ou tudo ser um milagre. Em todo o caso, mesmo sem a vida como espectador abstrato - esperamos tudo entre nós. Humanos.

//
Era um daqueles seres cansados e desinteressados da corrida
Antes mesmo de começar

00.39
O tédio de seres longe :
-desvios na imaginação...


domingo, 1 de março de 2020

~
29.02.20 

Daniel Avery & Alessandro Cortini - Enter Exit




Um estremecimento. Como vaga sensação de algo que esqueci

Constacão de uma abandono, daquilo que chamo de mim?
Cansaço, despojos. Miríade de formas e sons. Criações sobre o ar. Invisíveis mas mais reais que o material. Na minha mente, a abundância que se anulou em si mesma. Que ficou, somente sonho, farrapo. Arrastada pela imensidão. Pelos dias. Sempre iguais, mecânicos. Pelo sono, pela fome, pela sede. Lá atrás a promessa, o prenúncio de algo enorme. Comunhão. Realização. Viagens. Além da mente. Zarpar por terras indistintas. Traçava o passo sem ver o destino. Vaga forma. Vaga força. Inocência dos desenhos feitos no ar. Agora olho com inveja todos aqueles que sem medo foram. Sem tecto ou sem chão. Sem idade. Sem futuro. A música através de mim. De mim. Quando eu criei fui uma só com o momento. Quando eu escrevi eu aterrei com força no meu centro. Saudade das promessas. Agora, serena tristeza. Todos os destroços de estatuetas gigantes. Cansaço que não sei denominar...
De levar adiante. 
Talvez, 
Acreditar.




MF


sábado, 30 de novembro de 2019





Noite 30 de Novembro
Dizer te que estou numa convalescença eterna
E não sei dizer te o meu regresso
És a paragem de vida
Que me distrai do que nunca curei
E se me pedires mais bloqueio no ponto em que fiquei
Prevalece a visão
A antevisão
De todas as coisas que morrem
E segurar te nas mãos
Sem degeneração
É tudo o que quis e corro em contramão
Contra as ondas
O meu segredo mais fundo - preservação da inocência
Sermos monumentos
Pais um dia, além do nosso sangue
Além dos nossos sonhos
Algo verdadeiro
E brilhante
Sem réstias de todos os destroços da margem eterna, humana
Sermos lembrança do impossível

Lamaçal e transcendência

Aos poucos sinto o dia clarear
Com as coisas mais simples
Em troca a labareda
Transação madura
Não sabia a forma fria
Da sabedoria
Que vive a par com movimentos interiores
Disruptores
Da raça da minha raça
Sou ainda animal
A transcendência é um sonho
De saldação impossível?

Presente Ausência
Em olhos inocentes amedrontada com o devir
Do meu próprio ser, do nosso, amor
Medo que nos roube de nós
O paradoxo maior : a maior beleza nos separar
A par com o mundo
Tirano do tempo
Faria tempo, se pudesse, mas algo morre em nós
na própria largura do tempo que criamos
Ou assaltamos
Momentos
Deviam ser como diamantes ou fontes em paragens desertas
Acalmia depois da voragem de todos os dias
Onde pertencemos a tudo menos a nós
Vejo os estilhaços de perto
E vê los ao longe seria mais suave
Como a Ausência é mistério, informe
Pesadas as suas mãos
Sobre as coisas mais leves
Natural a sua lógica
Menos dolorosa
Do que sentir te longe olhos nos olhos
Vejo os estilhaços de perto
Contra o teu próprio corpo
Junto aos teus lábios
Longe a memória do fogo
Já somos estranhos
(Já estivemos aqui quantas vezes?)

domingo, 24 de novembro de 2019



Vários dispersos (2019)

(Imorredouro (da Inocência )


não farei de ti um objeto para minha vangloria porque és um ser independente e eu só te ajudo a levantar e a andar. deixar-te ei desarrumar a cozinha e fazer bolos, serão maravilhosos. deixar-te-ei conduzir livremente. não farei dos meus medos os teus. não te exibirei como filha, os teus talentos resguardarei. que te seja um pilar seguro e sereno, madura e com um olhar de paz mesmo no meio das mais profanas guerras, porque sim: há coisas sagradas. contar-te-ei. e quando tudo te falhar, o teu juízo – amor. não penses muito. Sente-O. ele basta-te. ele compreende. ele abarca-te. ele aceita-te. ele faz-te despir como mais nada. ele faz te voltar a ti quando te perderes. na asa do riso tu de novo inteira e com coragem. com voz. com atitude. eu vou mãe. porque quero. eu convido, porque quero. e o vazio é a distância entre mim e o meu pai, essa lágrima sem referência. essa solidão. negligências e carências empáticas. incomunicabilidade, severidade e estreiteza de juízos. de novo a resposta - amor. e o amor vive nos seres sãos. as vezes afastamo-nos da nossa casa. para criar uma nossa. uma nova. depois das lágrimas. espero que não vejas demasiado. espero que vejas demasiado. mas tenhas o leme do teu espírito. elevado. mergulhas mas o fôlego é enorme, menina. o céu é reconstruído, quando o sangue não se faz amargo. daí estas palavras. caminha. confia. acredita. em ti. e verás onde firmar.

*
sofremos na imaginação, possivelmente somos o único animal a fazê-lo. sofremos por antecipação, sofremos o que ainda não existe. uma possível separação, afastamento. uma possível doença, um futuro incerto. imaginamos tragédias, possibilidades e inquietações. poderíamos também simular felicidade? plantar boas visões e senti-las? ter prazer da imaginação do mesmo modo que se sofre de imaginação. seria assombrosamente reconfortante, conseguir achar essa chave, desbloquear esse poder. Talvez nos colocássemos nesse estado de energia mais benévolo e potenciador, criador, desse mesmo futuro que imaginámos. E chegaríamos até ele plenos como imaginámos. eu tenho visões de uma criança nos meus braços com a sabedoria dos anos. esse finalmente não fatal, esse finalmente como destino e certeza depois do turbilhão do crescimento. essa tranquilidade do espírito, sentidos não saturados e ainda abertos ao milagre de cada dia. dou-lhe a mão e sorrio, chapinha na água do mar, o horizonte como uma espada beijada pelo sol. vejo o meu irmão com o seu filho. numa sala, um evento familiar. crianças na sala. essa visão, deveria bastar-me. deveria inspirar-me a persistir. com toda a força, toda a vida, que essas imagens evocam. implantar a força, cunhar no sangue de todos os dias essas visões tão simples, tão humanas, que justificam absolutamente toda a morte. gerar uma geração mais nobre, que escolhe subir à superfície e respirar, em vez de adormecer nas dunas profundas onde o sol já não chega. “Tudo se ordena, tudo se justifica", ecoando como mantra no meu espírito.


Junho

suponho que ande a espera de surpresas à espera de casas. à espera desse encontro com algo suficiente. cúpula onde o ar possa circular. suponho que queira o poder de inverter o tempo sem esquecer a experiência. essa superomnisciência e nada saberia afinal. como agora nesse vago denso abstrato cérebro direito e no esquerdo a linguagem que não abandono. suponho que quase tudo suporte menos não ter tempo e só ir dormir a casa. sem esse espaço onde navegue ou simplesmente ouça vagamente (o silêncio?). se eu pudesse voltar atrás não saberia ainda a estrada. digo que vejo sinais mas os sinais são simplesmente os meus olhos que não esquecem aquilo que os apaixona e então veem antes mesmo de mim, nesse olhar que não procura e se surpreende com um título na prateleira - Franz Boas ali perdido e eu com nostalgia de outros sonhos. sinto que fui lá para ter histórias para contar e nostalgia de viagens nunca empreendidas. Boas numa cabana do Alasca, Malinowski e os Argonautas do Pacífico. e se eu quiser estudar de novo pensarei que estarei a fugir do mundo perdida na minha própria cabeça. apenas a fugir desses sacrifícios seculares que me parecem apenas e só vazios. ainda posso ver asas em humanos varrendo ruas, sim, mas não me vejo com asas numa rotina que me despe do tempo onde as ganho.

 (sonhos) morremos pelos nossos sonhos ou a ascensão nunca se deu. não sei porque pretextos, mas tenho medo de não ter lugar no mundo se me perder demasiado tempo aqui onde estive e voei. quero ao menos ser livre na minha cabeça trabalhando 10 horas por dia.

onde sinto perder o meu corpo nada apetece. se a vitalidade adormece para a ação pragmática e concentrada, técnica. dormir contigo…o tédio despoletava o desejo. o excesso de tempo fazia-me imaginar-te mais vezes, e a imaginação é fogo.

provar a mim mesma que sou capaz de sobreviver assim como todos vós. provar a vocês, talvez, mais que a mim, que nada rejeito e que de tudo tive saudade. e respeito cada um que se levanta antes do sol nascer e se deita antes de o ter sentido na pele.



MF





anamnesis


21 de Novembro – diário

Fim do dia:
Por vezes é melhor pensar depois de um banho. O cansaço do corpo deturpa a mente e os seus juízos são tirânicos. Acusei-me de uma fragilidade que é sinónimo de fraqueza. Dividi o mundo em fortes e fracos e coloquei-me do lado de uma criatura despojada, que desistiu, a um canto. Tal a gravidade do peso afetivo, que a liga a casa, ao amor, o mais etéreo e o mais carnal. Porque é o meu corpo que sinto acima de tudo. Como ferido, assolado, ao nível mais animal. Sim, como um animal de carga despido da humanidade ou do falso divino com que me cubro em ilusão? Porque não me sinto capaz de ir sozinha para longe, sabendo que o amor esperará sempre por mim no regresso? Porque insisto em adensar a tristeza, o pânico, chamando fraqueza à minha maior força - a sensibilidade, a empatia, a vontade que tenho de tocar, sentir perto, o calor de quem amo. Não pretendo que isto seja subterfúgio, sublimação. Pretendo que seja um lembrete de como a privação dos teus sentidos, espirituais, emocionais, físicos, tem um poder imenso sobre os teus juízos, percepções. Tornam te uma fuga urgente ao compromisso e sacrifício. Prendem te à dor do aqui e agora esquecendo te que tudo vai. Depois de um banho, sono, visão de alegria, as coisas mais simples. A voz do outro lado, do teu namorado, mãe ou irmão ou amigo. A tua cadela extasiada pelo teu regresso. Faz te sorrir. Faz o estranho fundo dissolver se em clareza, paz, sem imagens ou intuições obscuras, que comprimem o que chamas de coração. Nunca soubeste, dás-lhe nome agora. Esse sentimento de achares que as tuas lágrimas são mais profundas que as outras lágrimas humanas nas mesmas circunstâncias. Irracional, egocêntrico, sabes. Mas não deixaste de sentir que não aguentarias sentir aquilo por mais tempo, sem capitulação. O sentimento de seres uma criança, um tropeço profundo, um desequilíbrio patológico que não te deixa ver o teu próprio centro apaziguador, primitivo, de força. Estiveste contigo desde sempre e esqueces que aprendeste a andar por ti e andaste toda a vida, na maioria dos segundos de cada dia, em união contigo. Transferiste, por erro condicionado pela vulnerabilidade de uma experiência, o teu Deus, o teu berço, para um humano. Que não suportas longe. Porque tudo se anula? Se tens tanto amor e beleza em volta....

Manhã:
A sensação primária - a de uma indiferença absoluta pelo parecer final. Em modo automático concorro, mais uma vez. Sem sentimento, sem nervosismo, porque sem paixão. Porque nada disto me importa e sou inocente, a parte maior de mim é inocente e diz que o amor é a única coisa que importa. E o amor é a mesma coisa que dói quando longe. Portanto, queria estar perto e sentir-me realizada. Aguentar os dias maus com o amor ao fim do dia. E não aguentar dias maus com o amor longe. Há muita revolta irracional em mim. Na visão destes sacrifícios, destas covas que ironicamente escolho cavar. Como se não me conhecesse depois de tudo... A impaciência governa-me agora imiscuída com uma fria ausência. Os rostos e passos apressados (ainda é noite,) à saída do cais, do metro. Milhões de vidas em corrida cada dia, antes mesmo do dia clarear... (Chegarão a casa também de noite?) Qual o conceito de vida para estas vidas? - (não o sei mas) transtorna o meu conceito de vida (abstrato, afetivo) e compreendo os que se esgotaram. A mim, que em estado micro já sinto o tempo tão acelerado, os meses voam, por um punhado de notas na conta ao fim do mês. Sou da vida, sou dionísica, e adormeço a pulsão, adormeço a criança como soldado bem formado, rígido, com os sonhos na sacola enterrada bem longe, bem fundo, sem memória. Apenas uma vaga tristeza te recorda da perda de algo talvez pequeno, mas imensamente importante. Não sei dizer, mas sinto quando o amor me chega e amo, olhos nos olhos, num abraço apertado.
Acusas-me friamente de negativismo. E eu acuso-te infantilmente de conformismo. Como se o amor e o tempo fossem leis sagradas, que não pudessem ser transtornados pelos ritmos que criámos para o mundo. O amor é tempo. O amor morre sem tempo, ou melhor, morre aquilo que ama em nós, morremos. E continuamos a correr sem expressão viva no rosto, como autómatos.
Na visão da cidade cinzenta, das pessoas a correr, eu sinto a anti-vida, o medo de tornar me assim. Esquecer o amor no processo de calcificação afetiva. Sim, tornar-me tão fria para não doer até doer permanentemente sem possibilidade de esperança no amor. Na graça.

Não sei qual o meu lugar no mundo. Ainda quero sentir-me perseguir alguma coisa. Nervosismo no corpo, assinalará a importância. A calma mente, porque é indiferença, gesto automático. Como da última vez. Dói-me a antecipação da solidão mais funda. 

(Porque peço tanto um berço?) 

A insuflação de vida é paliativo do mundo.

17 de Novembro


Poderia estar no topo de uma revelação ou no fundo de um poço?

Pretenderei sempre entender estas novas modalidades da tristeza

Solidão?

Como se apenas tu me bastasses e fora de ti fosse  vazio

Como se procurasse algo que me curasse desta ingratidão de insuficiência
A plenitude outra vez, no dia a dia.


24 de Novembro

No mesmo lugar outra vez. Digo que aprendi. Mas foi proscrito. 
E temos saudade. Do desconhecido. Temos saudade da interrupção dos dias. Do crepitar, do anseio, da saudade, a morte é para os gregos. Diziam. Cruzamo-nos. Sem nos vermos.

Pensava sinais, pedia sinais. Para voltar a casa. Porque não me basta? Vivemos a mil à hora e o amor depura lentamente. Eu vejo-nos como todos os outros – meras formas do que foram. Não tenho medo de ir embora, como se nada me prendesse. E digo (cobardemente) que é uma vantagem para o sacrifício que enfrento, o sacrifício possível de estar só, bem longe. Unicamente comigo. Sem o calor mais humano, onde adormecia toda a inquietação e cansaço. 

Porque coragem é ir com todo o coração. E eu, quero ir esvaziada do que amei.


Pergunto se peco dentro de mim. Na imaginação. Na ingratidão. Pergunto-me porque as cores de dentro se multiplicam, transformam, transtornam. Pergunto-me o que aconteceu a todos os ontens. A toda a impulsão que me movia para ti. Ainda espero o acordar, o despertar, que acompanhe o meu sonho de permanência ideal. 




terça-feira, 27 de novembro de 2018






A febre das possibilidades incertas
Os rios e tudo o que poderia ser
O grande carrasco ao meu encalço
E à esteira de todos
Mas sobre a minha cabeça pesam
As nuvens entreabertas
Visões desfocadas
Tremores de terra
Tempos como dimensões amalgamadas
O esquecimento do meu amor
No núcleo dos tambores
A dispersão que enevoa a linha
A cor, os contornos
A confusão dos caminhos
Simplesmente
A vinda de uma mensagem, um sinal
Um anjo , um reflexo na pedra
(Estive atenta ?
Ou confundi a mensagem ?)
Tateio pela luz
Vagueio nos sonhos
Acordo sem nada outra vez
Apenas escrevo, outra vez
(Cartas a um destinatário mudo)
E ainda sou a imagem de um berço
Frente ao mundo
(E destruir a asa dar-me-ia o mundo ?)
A estrutura dos mais duros impérios
Duram mas também caem
A forma oca bela
Sem alma
De pé nos anais do tempo
Não tenhas medo
Talvez as coisas de alma
Se dissolvam
Mas aquecem-se por fim
Junto à terra
E no último suspiro
Não foram pedra
Mas inquietas gotas
O brilho nos olhos das mais frágeis coisas
(No mundo poderias ser
Alma até ao fim ?)







MF

terça-feira, 31 de julho de 2018


dizem que quando sangras fazes as pazes com o céu
que quando sangras enquanto escreves das-te à catarse, sinalizas
a despedida
é um rito doloroso de passagem
através do fogo
e da mais inocente tristeza
"-se ao menos me viste"
diz ela,
"-nada foi vão"
e então ela sangra enquanto escreve
e no final está uma paz
banhada de lágrimas mas uma paz
porque Tudo não podia ser coroado pelo Nada
porque Tudo tinha de ser selado em lágrimas
ou não saberias
não intuirias o fim
essa palavra tão final 
tão desumanamente natural
porque tudo finda afinal
mas retorna
mas não nós
nós somos finais
nós só ficamos semi-oníricos
na memória.
(metade da vida, metade da imaginação
ou quase tudo desta última?)
estes dias, amor, eu atravessei o mar
sozinha
estava sozinha e para ti estava contigo
e nada disto podias entrever
eu pergunto-me se irias entender
como as vezes já nem é um cataclismo nas engrenagens da cabeça e do coração
são meras imagens 
que nunca poderiam ser
porque tu e eu somos antípodas
tu e eu somos a alegria e a tristeza
numa tentativa ridícula de fusão
numa tentativa de linguagem comum
dispersamo-nos. tu falas com palavras
eu falo com imagens que nunca verás
na antevisão do abismo que nos separa
e só nos tocamos à superfície do sonho
que ignora tudo isto que acorda ao mínimo choque da diferença
és alegre como uma criança e são como a vida mais puramente imersa e segura
e sem perguntas. não fragmentado, uno,
vejo te segurando uma criança nos braços. perpetuando a ordem natural das coisas. sem medos.
não conheces esse tropeço do espírito. dei por mim fora de mim. olhando me e chorando não me ter outra vez - esquecida e sã e simplesmente aqui. como todos e tudo o resto


*
o desespero corre-me mas faz-me correr 
em busca da vida que é cura de tudo isto
porque eu quero
seria morte não correr
haveria, por toda a eternidade se houvesse,
encontrar as curas mais mirabolantes.
mais simples, mais complexas
sangrar todo o corpo e toda a alma
limpar meu sangue
de todos os humores baixos e negros
que me contaminam 
mas o trabalho é expeli-los
retornar o corpo ao equilíbrio
são, grato, pleno
quero o oceano límpido em mim
o vaticínio foi - será uma luta
de ti contra a inércia
de ti contra o peso
e a cura prolongada está na prevenção das quedas
e por isso terás de correr
sair
ver o máximo do mundo que puderes ver
toda a beleza, singularidade, vulgaridade 
tudo sem julgamentos menores 
tudo para te alimentar e trabalhares 
não podes ter férias 
dos trabalhos interiores e exteriores
o teu equilíbrio depende disso
de viveres cada porção.
cada frequência, cada ângulo, na sua própria conta, medida.
subtilmente saberás
o tempo que disporás para ti e para o mundo


e quando a solidão te for casa, fizeste tudo bem
e o amor está em ti. a toda a tua volta
tem fé

*
agora sei- não poderias nunca tocar-me…sem o tacto das plumas
sem um conhecimento sensível da tristeza mais funda
das ideias mais fundas de inocência
-
o tacto que te colocasse no lugar intermédio clarividente
entre a tristeza e a alegria
tinhas de por um pé na tristeza para me poderes chegar ali
porque a tua leveza profana
não sabe a sapiência desse abraço
- sem palavras
e com o aperto certo


MF

quarta-feira, 25 de julho de 2018





MEMORANDOS


Noite 24 de Julho de 2018


é que eu hoje corri e já aceito
tal nostalgia no meu peito
porque sei que as memórias são só minhas
e não fundidas
então, o retorno da separação é ilusório
eu vislumbro os candelabros de uma luz passada e esses feixes de imagens impossíveis à linguagem. (ou à minha linguagem). 
é uma ideia que mil vezes tentei escrever (em vão). 
porque só aponto com as palavras - a vertigem de não me ter. 
de tanto me ter no alto. de tanto me ter no teu peito, eu esqueci o meu. 
eu esqueci o meu peito.
e se alguma vez o tive. afinal, eu chorava pela minha mãe pensando abandono. e era só o inverno. eram só os dias mais curtos. e o desaparecimento do sol e a chegada da noite batalharam me os sentidos. e os meus pulsos. as minhas mãos tiveram pássaros aterrados desde então. por uma chegada. um sopro através da fresta. uma paz. por outra mão. e no amor, eu não sei se mais do corpo ou do espírito, no amor afundei me mais que na mais funda solidão. porque a solidão adensou se na visão desse hiato -  entre a  minha memória e a absência da tua em mim. essa loucura de não nos chegarmos aportou em mim. não despregou de mim (até agora, que corro e inspiro em paz o ar, sem peso). 

a imaginação foi partida em quartos . e eu penso te aceitando a ilha que és. as ilhas que somos à percepção de uma sensibilidade que se quis estender para lá de um corpo. para lá de uma vida. ( eu não sabia - que para lá da vida só sofremos a ganância da eternidade impossível.) do tempo caindo a pique sobre nós e nós olhando-nos hoje, de longe, estranhamente estranhos a quem fomos quando não nos sabíamos. eu sentia saudade desse vazio que nos antecedia. desse mistério que nos fazia olhar um para o outro como algo de divino.
 eu não quero ir. cada lágrima gritava eu não quero partir. (estás comigo e eu já sinto saudade). mas como ficamos no tempo mergulhados de memória ? incomunicável . são só vultos. como as palavras são signos para os quadros sentidos do coração. caminha por dentre mim, eu orava, e nessa fusão talvez a memória não precise de ficar além de nós. flutuando num espaço que idealizava. a criança em mim que não concebia os grãos de areia escorrendo através dos dedos ou os castelos ruindo no mar. chegava me que visses. tu que amo. dentro de mim, só nossa, a memória.

caminho para outra dimensão . onde somos sagrados separados. onde a poesia não me é fardo ou catarse. onde a poesia simplesmente é e nos descreve. onde respiro na vida mais que no labirinto da escrita. porque a vida está lá fora. eu sei. e o teu rosto chega me. e o meu peito..(.estou a fazer por me chegar).  pela primeira vez na vida. superando a criança que não sabia que era inverno. e que a mãe sempre voltaria para a ir buscar. e que dentro de mim há tudo isso. todas essas mãos. sempre comigo. apenas me separava - eu de mim. amo te e a todas todas as estradas corridas e figuras estendidas. todas as grutas e fugas porque no céu eu farei sentido. eu criarei a noite mediante o dia. e as respirações sofridas dão lugar a despedidas da razão mal centrada. e do espírito gasto em filosofias demasiados vastas ao coração. porque eu sei que tudo sei dentro. bem fundo e sob a égide da paciência. eu atravessarei a criança e todas as imagens que me paralisam.

 como poderia viver o profano se senti o sagrado ? - eu perguntava me saindo desse breve retiro. com o rasto de melodias distantes que murmuram ao espírito. de outro tempo e frequência de alma. eu saí e saio tantas vezes sentindo me estrangeira ao chão que piso, aos sons e rostos que se me cruzam. e não houve dissociação maior que o meu amor. e escrevi sobre pérolas e seixos comuns e solidões e sacrifícios de visão /fusão . escrevendo sei que esta escrita assim escrita não serve o propósito maior : de me ter segura e inteira neste mundo híbrido. de profano e sagrado. e trazer o sagrado no meu peito é tudo o que quero. e tudo o te quero dizer : que é possível. achares te fundo, aos teus sentidos, a transmutação das tuas lágrimas. acordada e viva outra vez. não te feches , olha para os olhos da criança que foste com amor. porque o abandono é ilusório. o vazio é a tua razão sem chão. mas há tanto chão que não atinges. e o mar deu te um chão sem palavras. (e de ser sem palavras te esqueces  . ) apenas te olhas na memória e há um sentir com mil anos de oração. que descende do coração. e abraça a cabeça. esse estado de solidão unida a tudo. onde és e te bastas. e te elevas diante algo primordial e profundo. Obrigada. diz adeus às palavras - todas que não te tragam à superfície. ( são tortuosas e habilidosas formas de despejo).


MF




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018



memorando, noite 22 de Fevereiro de 2018


(Dentro de mim somos o mesmo) (?)


Uma tábua inscrita com a sensação do dia
Um fundo onde sei que tem de estar tudo se bem que digam ser impossível
Ter-te guardado
Cada dia
Mas só o Amor, só o Amor se gravaria dessa maneira
E os feixes, as imagens, os quartos, as noites, os dias,
As tentativas de fusão, o peso no coração,
O decréscimo do eu diante aquele que amo,
Temor e medo e amor,
Eu sei que está tudo aqui, aquilo que não acesso, aquilo que não me lembro,
(eu só me lembro que jaz lembrado em algum lugar, passível de ser lembrado cada segundo que não me lembro )
Aquilo que não construo a partir nem se desenvolve ateado por um simples som ou imagem ou sorriso. É in media rés - a memória, fragmentada em pedaços com o peso do mar que só eu vejo. É solidão, é solidão outra vez e para sempre.
Só tu vês. Só tu o vês. Não te sabes sob os olhos dele, sob o coração pintor. Do outro lado é alguma coisa que desesperas por saber. Esse olhar através de outra lente. Morrerias menina, morrerias se soubesses o que é ver por outro coração porque terias de ser esse coração. E então desaparecerias. E já choras esse nada. Prometes que não há o nada. Não há a morte resoluta e lógica cheia de nada. Ou a morte é como esse lugar incomensurável e misterioso da memória - onde tudo está sem que te lembres. (E a paz está em saberes que está la)
Tudo lá. Tábua vagamente inscrita, é um nada se fechas os olhos para lembrar. É uma certeza cega mas certa, saber fundo, lágrimas fundas. Tem de ser. Tem de haver. Esse lugar. Diz-me também se ouves essa voz que Nos garante. Todos os dias de verão. Os primeiros dias do recomeço do meu coração. As sensações que nunca senti, ali. E estás comigo. És real. E as tuas imagens inalcançáveis como as minhas.
Mas desespero por saber - se são também toldadas por lágrimas e por esta saudade-bomba por tudo.



MF



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018



(Memorandos)


Comecei-me a dispersar
Borboletas de papel
Nasciam e morriam todos os dias
Ideias
Nascentes
Correntes
Torrentes
Um mar onde era
Um mar onde fui
Um mar onde seria
Borboletas de papel
Todas possiveis

*
Quero ser só fundida a tudo
E tudo ser resposta
Reconciliado com esse saber
Praia no coracão
Futuro-passado-presente
Embebido de sentido
Sem palavras sempre
Mas permanente
Tudo aceite e antevisto
Sem estertores
Sem tambores
De estrépito ou guerra
É que a vida era uma flor
Sem futuro porque
Desabrochada agora

*
(ad infinitum)
Acordares prematuros doem sempre
Mas é dia
A manha é fria mas bela
E não entendes mas sabes
Dos rios dentro de ti
De lágrimas e risos
Por toda a existência

*
(sonho)
Ondulavas sozinha na noite
Teu amante era um espelho
*
Os nervos envoltos
No lampejo da ultima Primavera
Não queria deixar ir
É a vontade de permanência em mim.

*

(12 de Janeiro) (caderno de sonhos) " Percebo que está amputado, cego... O meu coração cai-me dentro."
Não tinha olhos
Eu ouvi
Tua-nossa voz dentro da minha cabeca
"Se ao menos eu tivesse os meus olhos"
Sim, eu vi - parcialmente
Tua-nossa cegueira. 
A casa mais escura e um filtro esverdeado, abismal
Tudo estava contaminado até ao espírito
Lentes caídas numa lama sem nome
Incompreensível aos nossos coracões
Eu senti teu terror irmão
Tua prisão
Tua escuridão
E tive de acordar
Mas não houve expiação
(só no esquecimento?)
Porque não era somente um sonho
Era aquilo dentro de ti,
espraiando-se pelos dias.


MF



sexta-feira, 22 de setembro de 2017





Memória musical:

Ouvia Kelso Dunes enquanto o carro atravessava o carreiro por dentre a floresta. Parecia infinito. Parecia impossível - encontrar mar do outro lado.
O céu com mais estrelas do que tinha visto até então. As luzes do carro iluminando a estrada e um estranho sentimento no meu peito - como estando num planeta distinto, uma paisagem alienígena tirada das páginas de sonho de um insone intergaláctico com paixão pela desolação escura e majestosa à sua maneira. Pontilhados de sugestões sinestéticas familiares, árvores da Terra, mas um todo da essência psicológica da solidão mais absoluta. Familiaridade alienígena. Uma fixação liminal de mim separada de mim perguntando-me a mim  - Porquê esta tristeza sem razão?  Porquê o peso nas pernas e nas pernas do espírito e do coração? Porque me custa tanto partir de casa para novos lugares? Porquê o terror de estar tão longe de casa? Porque sinto a melancolia sem fonte reconhecível? E na noite, o céu na praia recompensou-me a angústia da loucura breve - a via láctea nítida como nunca vi. E as estrelas cadentes a renascer-me o riso e o assombro  - a criança em mim. Eu estava longe mas orgulhosa de me ter puxado através do cansaço, do adiamento do novo. Não via nem sequer o mar. Não tinha noção da distância dele até a mim. Somente a imensidão do céu galáctico sobre mim. Mais tarde a lua cobriu a praia. Agora já via: a areia cinzenta, o mar negro. De novo o sentimento alienígena no meu peito mas desta vez sem vestígio de medo. Escorreguei na duna que perfazia uma espécie de muro e caminhei até ao mar. Tinham razão, pensei, o mar à noite é quente. Na extensão da costa via pequenas luzes das canas dos pescadores, como esferas flutuantes, animais de luz enaltecendo ainda mais a minha visão. O fim do mundo pensei. Um mundo feito de noite com algumas sombras, como aquele mundo num universo paralelo do primeiro volume de Nárnia (mas sem ruínas). Desolação gloriosa.

*

O sentido é aplacar a descendência. Criar testemunhos, mediante as palavras,a música ou uma poesia viva que reverberou em círculos de humanos. Esse grande transcendedor do físico, vencedor. Essa superação metafísica da fragmentação do mundo que se faz aquando os embates da morte e da dor. É possível viver no contexto deste circ(O)lo, desta superfície mesquinha, e navegar fundo, comunicar fundo com aqueles que lúcidos também tremeram. Mas prosperamos - no mundo dentro do mundo. Dentro do mundo que é só terreno para o movimento dos nossos corpos e dos nossos espíritos.
Eu jurei que podíamos fazer paraísos entre os nós.
Explorarmos juntos toda a metafísica e mistérios antigos e num desprendimento esclarecido caminharmos não para a autodestruição mas para um aperfeiçoamento vário. Escrever a sangue à descendência incógnita. Caminheiros da mesma provação. Ignitores das células mais fracas, mais amendrontadas. Nós esquecemo-nos, eu disse. Nós esquecemo-nos no princípio dos tempos. Era a condição para viver aqui. Mas só me lembro, só intuo, melhor dizendo, que temos de acender as labaredas do espírito, rir alto, correr mais longe que a dor do corpo.

Agora há a morte e acordámos do nosso sonho. Mas estamos mais juntos que nunca.
Bem sei que vivi e não há (o) nada. Há uma florescência. Há uma decadência. Há o findar (de uma história) a meio de ambos idealmente (?) Ou uma caminhada triunfante até ao fim?

(não me fales da morte em vida - corpo caminhando de alma adormecida. Alma estirada entre duas realidades irreconciliaveis. Dois estados quânticos, dois planos impossíveis de sobrepor. Eu sei. Eu sei da loucura. Eu sei das lentes horrorosas que mostram o horror à nossa volta. Mas também sabemos daquilo que não demos nome. Por isso é tão fácil esquecer - não tem nome que possa puxar à consciência uma imagem, uma ideia. Somente a memória me salva. A memória com resquício de uma certeza de Absoluto. O pólo oposto do Absurdo.)




MF




quinta-feira, 27 de julho de 2017




Escrita automática

27 de Julho de 2017 
1.43h


adoro a loucura
fluidez ininterrupta, estilhaço na veia
vislumbre de cura 
terrenos espumosos, desvios insidiosos
altares de ternura 
pedaços de pura (intuição ) 

  saber-me rendida, numa cruz pendida,
num farol obscuro eu vi:
as areias fazendo-se mar
a justiça traçando o eixo
o medo, trejeito da enevoada loucura contra o espelho
eu vi eu caí eu sorri
eu cai eu chorei abandonar-te antes de te abandonar
por fingir ser humana
despi minha loucura
despi-me para te beijar
e fazermos sentido
mas só carne não me enaltece o espírito
não me rodopia aceso o espírito 

contra o infinito
eu vou amor, eu vou de ti até mim outra vez
minha loucura esteve fechada, em mofo e fétido ar
não me olharias se te mostrasse
  o sem sentido ouvido e sofrido
  o sem sentido sentido pressentido em vagas palavras
caos conducente, caos amorfo, caos labareda
eu quero mais agora que o teu corpo
eu quero uma totalidade circunscrita (na carne)
eu quero que me leves e tragas de volta firme

 - na minha loucura.

*

Ardemos juntos no fogo
sangue contra sangue
grito contra grito
mas que fazemos depois? 

 - no silêncio do mar minha alma sangra 
da ferida entre-aberta do mutismo entre nós.



MF


sexta-feira, 21 de julho de 2017








Memorandos 21 de Julho


(escrita semi-automática, 2.30h)


eu queria gritar no silêncio as visões perdidas

os pedaços caídos

as visões estendidas
o lençol de cores da minha-tua memória
e saber-me ao teu lado é o mistério que não compreendo dentro
e o mistério onde me afundo fora
ignoro profundo (?)
cai-me, o coração, mas eu ando pelos dias e vou até à ti e se apenas me segurasses de saber quem sou, se apenas me olvidasses da profundeza que me dói e amo pois nela me fiz 
mas não entendes? - esta lágrima atravessada na minha idade. esta lágrima peso bomba. cascata sem lágrimas. este céu triste no meu peito. este paraíso adormecido sem lugar aqui. eu escrevi-Te. e escrevi minha partida e escrevi minha (possibilidade) de chegada. eu escrevi (me), minha alma, e deixei-te os versos na tua mesa. aí mesmo ao teu lado. passaste sem os ver? dormes sem saber?- sobre o meu amor. sobre a minha alma. num sono que nada tem de poético, num sono que não me assenta no meu peito. procuro, vestígios urgentes da tua alma depurada em horas solitárias. procuro-Te a ti, vendo-me, lendo-me, pausando-te da superfície e do velho mundo que conheces desenhado a quatro paredes e um ecrã.
estou ao teu lado e não me vês. navego no mar profundo que cavei esperando achar. amputada do que não sei tentei agarrar uma mão, tua mão pintei de mão-deus, tudo em ti pintei de esquecimento e salvação. porque és um corpo feliz de silêncio. mas preferia ouvir-Te. preferia que te animasses de espírito a animar-Te nas notas tristes do meu sonho de alcance e trespassamento e fusão.



nada me resta a esta hora senão segredar-te, debitar-te a loucura que não conheces nem poderias saber. isto que dói sem Te poder dizer - o mundo e teu silêncio. o mundo e teu silêncio. o mundo e tua ausência perfazendo mais mundo, separando-Te de mim. queria Te de mim. queria Te da minha alma, queria Te fora deste mundo no paraíso nosso onde falamos noutro silêncio.

gravuras de vidro, oceanos estendidos entre mim e tu. impossibilidade perdida e refém de despedidas. eu vi finais em vida. eu despeço (me) (d)o calor pelo quê? eu sou humana mas primeiro sou o quê? para Te mandar assim embora de mim? (porque) primordial em mim esta lágrima que não se aguenta sozinha junto à ausência de ti contra mim. queria Te em mim. tenho as páginas escritas a sangue sobre a mesa e não as lês. estás acordado agora e não as lês. adormeceste outra vez?

bem sei dentro de mim que o que vejo em vida nunca esteve acordado, só dentro e é tudo, dentro e não chega.



*

eu vejo uma criatura tentando fundir dois eixos de dois mundos. um deles é muito denso, pesado, profundo. e apaixonou se pela leveza cega do outro eixo. e o casamento deu-se no sonho, mas (quase nunca?)/não na vida.
a felicidade dava-se nos bastidores amantes, nos bastidores sedentos de realização de outro amor. amor transmutante. amor asa delta. amor sentido até ao ínfimo, último grão, estádio de sentido. sentido em cada gesto, sentido abraçado, beijando cada eixo. 
o ferro rendido. vergado. fundido. 
essa crucificação, surpresa atónita, essa palidez mortal, dissolvida para sempre no sonho (sono?) profundo da alegria.



MF






terça-feira, 18 de julho de 2017




Memorandos Julho


13 de Julho:

Antes sequer de me tocares és
-o meu paraíso mais humano.

17 de Julho (madrugada):

Vai-te doer tanto - a memória
mas fecha os olhos - no quarto escuro das essências
que vês nele que aprendas? que vê ele que transcenda? o corpo...)
não entendes? a pergunta última - se faríamos também amor - com as essências
mesmo o teu olhar é ainda corpo, é ainda rosto
quão cegos estamos, pelo corpo?

*
Amor, preciso de ficar sem ti para criar (em som) - o palácio triste da tua ausência
Amor, (às vezes) és tudo o que deturpa o meu espírito
a incompreensão de ti, a sede de ti
Amor, tenho tanto medo de só sermos corpo
(o espírito em mim apagado pela carne)
Amor, ver-me ias sem corpo? com os olhos doutro rosto, o Invisível em mim?
 - as perguntas que faço, a profundeza que assisto, o cristo em mim, o demônio em mim, a criança em mim
ninguém compreenderá, Amor?
Então talvez fique sem ti porque me doa essa ausência inocente de ti além corpo.
Amor, só tens sono, cansaço, perto de mim? Amor, tens a memória do início do (nosso) amor?
 - agregado desconexo de memórias sempre pontilhado, atravessado, por uma lágrima
tom de lágrima que nunca viste, tom de lágrima que aponto com as palavras. Inexistente metáfora. (Quão mais é inexistente nesta viagem? Só dentro a intuição, a sinestesia, o carrossel de poesia?)
Deus sabe - como te agarrei algumas noites. Tu sabias? Enquanto o fazia, tu estavas em nós ou sempre em ti?

(Memorandos) 19 de fev Projecções Hoje vi uma mulher da marinha, fardada. Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei com...