quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Águas Plácidas


   Em algum momento cansamo-nos de nós. Cansamo-nos do silêncio, da quietude das águas que nunca ousámos perturbar. Sentimos frio, o vazio que sempre esteve em nós, e é hora de mover, sofrer e sentir, ir em busca, procurar... algo que trema as águas e encha de luz, o vazio. Viver, antes de morrer.

MF

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Perscrutando

Olhos lassos navegam, perdidos sem destino, no deserto de mim, perscrutando pedaços de sonhos abandonados e farrapos de coisas que foram, e não mais serão, cenas vivas em palco rubro. Perscrutando recantos plácidos e sinuosos, memórias cálidas e frias, recessos sem tempo onde se perde o coração.

MF

Decorro a vida

Decorro a vida à margem de coisa nenhuma, tantas vezes estrangeira dentro de mim.
Contemplo, sem ver, o que me cerca, sonho o que não vivo, para viver.

MF

Á espera

Á espera.
Sinto-me à espera de algo que não sei, mas que a minha alma almeja.
Á espera que me guiem, à espera que me vejam, à espera de amor.

MF

Coração bates só

Coração bates só
Sem som
No teu retiro

Águas cálidas
Abarcam-te
Trazendo na maré
Memórias do que foi,
do que já não é

Coração bates só
descansas a vida, 
lasso e perdido 
dentro de ti

Estagnado no mesmo
compasso, desolado
Alimentado do que resta
vivo

Coração bates só
Eremita sonhador
Cais no olvido
Sempre imerso 
em ti

MF

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Solidão

Sombra do que fui,
Já nada sou.

Nem a terra me consome
Pois nada mais há vivo em mim.

Quem fui são memórias,
O passado de outro homem.

Eu sou a dor do que fica,
Do que morre e vive
.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amor

"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar ...
   
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Em torno a mim, em maré cheia

"Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!"

Fernando Pessoa, Poesias Ortónimo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Contrariedades



Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 


Cesário Verde

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aqueles que passam por nós



"Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nos meus poemas vive a dor

Nos meus poemas vive a dor.
Acumulei-a com a vida,
Em tudo o que me deixei perder.

Refugiei-me nas palavras,
Foi o mais perto que consegui
De pertencer a algo, a alguém.

Na solidão, nada mais tive que sonhos.
Perdi-os com o tempo,
Que me levou também a esperança.

Agora já não sonho,
Mas antes, quando sonhava,
Conseguia ser feliz, ainda que só por momentos.

No meu mundo, era inteiro.

A idade era um número,
Não me governava.

A morte, uma lenda,
Histórias para crianças rebeldes.

Tinha as rédeas do Tempo,
Nada mais precisava.

Vivia os sonhos de mil homens,
Mas sem os viver.

E quando abria os olhos,
Voltava à mesma solidão,
Que me consumia, que me consome.

Era tudo num universo de nada,
Mas ao voltar, a escuridão revelava
Que era afinal nada, num universo de tudo.

Hoje, já não sonho.
Já não vivo em mundos imaginários,
Apesar de eles ainda existirem.

Mas a escuridão mantém-se.
Ecoa na minha alma
Em cada momento que passa.

Nos meus poemas vive a dor.
Acumulei-a com a vida.
Mas hoje despeço-me.

Liberto-me, por fim.

(Memorandos) 19 de fev Projecções Hoje vi uma mulher da marinha, fardada. Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei com...