segunda-feira, 6 de julho de 2015

Glen Brady




[Manifesto anti Ricardo Reis]


Quão confortável estarias na Morte?
se esta fosse consciente, se esta fosse um eterno vaguear
num deserto estéril de estímulos,
mordaz deserto para os homens caminharem
pelas dunas sem sono, numa eterna noite, numa eterna insónia,
num caminhar vagamente lúcido e louco, como naquele limiar
que antecede a alvorada embalada na intermitente confusão
dos sonhos que afloram e decaem nas soníferas marés plácidas
deixando na boca o travo a pressentimentos de outros mundos
e irrealidade, tontura, incompreensão dos nados-vivos
sem passado atrás de si, e sem presente inteligível;
é essa a sensação no mordaz deserto,
mas há um vago fio que liga à anterior existência,
e os homens arrastam-se pelas areias
com martelos de seda de prospecção ao coração,
mergulho desesperado por tesouros internos que repassem a vida através dos olhos
e dissolvam a vazia paisagem a que foram condenados
a caminhar sedentos, com a sede insidiosa dos mineiros da Memória

Quão confortável estarias na Morte?
lembrando Lídia à beira rio,
tão perto de darem as mãos e se beijarem,
imprimindo assim nos vales da Memória o rasto da eternidade
passível de ser retomada em vida, transmutada
no doce amargo recordar nostálgico das noites sem dormir
e nesse lugar de personificada morte, de areias infindas
e ausência de palpitações, relógios e outros meios de medição de Tempo;
oh deus…tão perto e tão longe – que estiveste de assombrar a própria Morte
com o fulgor do ouro diáfano de momentos a arder ao chamamento da tua Memória
num arder imaterial, sem despojos de cinzas;
mas possuis somente o vazio onde a tua sofrida imaginação enlaça
ficções de sismos sanguíneos e desejos, resgates de mortes na praia
ergues Lídia no ar e beija-la e imaginas o sentir dos seus lábios nos teus,
e nesse instante sabes -  foi a filosofia quem vos separou em vida,
aquela que recomendava
a placidez mórbida vestida de escudo,
e que mais não era que o estandarte do medo de ser humano
e de sentir tanto que o teu peito arrebatar-se-ia
na ressaca dos amantes e no dano tortuoso dos fantasmas
que afastaste antes mesmo de se poderem tornar fantasmas;
sabes - que tacitamente te isolaste de modo a manteres vazio esse vazio
círculo insano onde ergues numa miríade de artifícios
as tuas ficções saudosas de tudo o quanto podia ter sido

Quão confortável estarias na Morte?
- desesperado, amaldiçoarias por fim, esse deserto que te mostrou
que nada viveste de tempestivo para te alimentar Na Grande Solidão...




MF






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