sábado, 22 de dezembro de 2018





O tema de novo
Plath na cabeça,
Bukowski na cabeceira
estranha comunhão,
estranha disrupção,
meteoro um dia,
uma hora,
witchcraft ?
estranha manhã,
estranho verão
eu queria um diagnóstico físico
naquelas imagens
do meu cérebro
somente uma variante anatômica
disseram, não patológica
e é tudo
não sei onde paraste, menina
tinha-te certa, aérea, tristeza sem abismo
agora abismo sem tristeza
(quem me calibra a balança agora?)
escavas, lês, afirmas que não sabes
onde foste
e os relógios estão parados
gostarias de ver de novo o mar
com o deus no teu sangue
esse deus feito de paz
e as paisagens
os mundos
as viagens
possibilidades grandes aos teus pés
mais que abstrações
ou páginas distantes
querias viver fora da tua cabeça
mas escondes-te em casa
e só achas o calor na violência
prudente, modalidades inocentes
de esquecimento
como os instantes de amor sofrido
porque droga
porque antidoto
do que não sabes e está lá
gostarias de dizer-lhe
com as palavras este erro
erro da Gaia
implantar num ser de alma
a desaceleração, a inação, a ausência
compulsão desenfreada
não queres dormir sozinha
e ele está longe
e só nos temos ali, parece
quando penso sem a névoa do coração
e eu amo palavras, não te disse?
e discorrer na noite
aquilo que de dia se me oculta
é de noite que sobrevém
as cascatas, as ondas, os desertos
a amplitude daquilo que jaz confinado
e não falo, escrevo
e dizes-me que não tens tempo para escrever
valente ponto cego à minha lágrima dentro
mas ignoro, minimizo a importância
ego-cêntrica
então eu escrevo
ao meu amigo
(irónico penso, nunca me tocou mas sabe
o fundo que desconheces)
ou no caderno
a capa são rosas, presente da minha mãe
para a sua rosa, escreveu
(não lhe deixei ver os espinhos)
os espinhos são caracteres indistintos
versos para me arrancar
despoletar
o movimento outra vez


conforto em humanos distantes
às vezes nem o calor do teu peito
Salinger ecoando
Houlden  fitando os patos
também não sei para onde vão
no inverno.


MF





Memorandos-cartas

Falar te de novo as velas no meu sangue
e a estranha tristeza quando vais
e como demoro a retornar-me quando chegas
como se séculos passassem
na saudade do meu sangue
dias são eras
no descompasso do meu espírito
tu adormeces
a disrupção, a violência de um pensamento que não cessa
e sonhos intermitentes acordando-me na noite
e abraço-te mais aí
quando acordo e ainda dormes
e sinto com as lágrimas nos olhos
a palavra amor
- o berço mais humano
e na minha estranha ausência
nada disto transparece
a dimensão, o tom, o sabor
descanso e sede outra vez
ao mesmo tempo és-me tudo.
espero perder me sem me perder
em olhos abstratos
traz me meus olhos humanos
outra vez
e estar inteira
outra vez
quando vais
porque eu sei que sou
um terreno assolado
pelo que não entendo
mas no fundo há um riso
e ver me rir
e ver te rir
fazer te rir
é tudo

*
penso que a coisa mais bonita que podia escrever não se pode escrever
apenas apontar te com as palavras
o momento específico em que te pensei
contigo ao meu lado numa cama pela manhã
senti com tudo de mim
que tudo poderia enfrentar
acordando todos os dias ao teu lado
ainda dormes e não sabes
que eu estou semi-desperta
olhos semi-cerrados
e um estranho sentimento de certeza
e gratidão, aplacada
é um pólo que gostaria de ocupar durante todo o dia
e quando não estás
essa certeza
esse calor no coração que cada dúvida acalma
a minha incerteza de fundo
é a imagem de um salto
para um mundo do qual me afasto.
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MF

domingo, 2 de dezembro de 2018



LOST IN TRANSLATION 



Em ti aninhada eu sinto que poderia viver 
(a vida e a paz no meu sangue outra vez) 
mas no mundo sinto a falta 
o peso, a vertigem, a ameaça
um elemento desencontrado, dimensões polares 
dois planetas impossíveis de juntar
perco na tradução toda a substância do desamparo
também eu estou num hotel estranho
numa passagem que se demora
filosofia ao balcão, um homem mais velho
(também estrangeiro) sussurro ao ouvido não sei o quê, 
'que voltas na vida me vão trazer?'
vagueio por Tóquio, amnésia profunda
shoegaze de fundo como a voz do meu deus
o sangue fraco, o sangue mais luz,

 instantes plácidos, instantes alados
(instantes são lágrimas amanhã)
soube ontem e sinto hoje 

- todo o fogo se apaga amanhã
eu estou à janela, 

o rosto velado (poesia da sombra do que não se vê)
a câmara roda só há tudo gira (menos eu)
fitando a cidade, 

brincando no quarto , 
enganando a descrença, 
à espera do meu amor,
imerso na vida (amén)

eu ria nas fotos mostrava os dentes, agora menina fria e calada
só agarro a mão a um homem perdido, somos irmãos
sem rasto de volúpia no coração
quando a hora aperta 

procuro o berço 
na voz mais nua
olhos do mesmo vácuo,

olhos da mesma espera 
amanhã não será melhor
então mato o meu deus
mas tenho um abraço
um homem mais velho,
igualmente perdido
imitação de um deus 
desaparecido.



MF




sexta-feira, 30 de novembro de 2018


Atlas surpreso pelo súbito estranhamento

Entre ele e o mundo

Procurava o fio que o ligasse ao coração

Ele pensou que sabia

Do peso e da montanha

Quando partiu da última primavera



Atlas surpreso pelo súbito estranhamento

A criança chorava

Seiva derramada sob a neve mais pura

As dores eram raízes irrompendo

Para lá dela

Seu berço quente junto à Terra



Atlas surpreso pelo súbito estranhamento

Achava-se armado

Com o código profundo da luta e sacrifício

Não era o único

O mundo estava cá antes

Ele era pequeno, mas cresceu para o carregar



Atlas surpreso pelo súbito estranhamento

Olhava-se ao espelho

Agora é o momento

São só dores do crescimento, diz

Para obliterar aquela palavra,



Metáfora feita de ossos e tecidos contra o nada




Atlas surpreso pelo súbito estranhamento

Quão estrangeira a dor

Para tão humana sina





Mas ele partiu só para voltar

À sua manta, à sua piscina,

Ao seu pseudo-lugar 

À sua urgente convalescença

De todos os sentidos

Esperando

Epifania de outros caminhos

No promontório onde nada acontece

Desfalece, não se reconhece filho

De um mundo que não pode carregar







Na Der Zauberberg

Esperando

Esbanjamento de tempo e procura

Entre o sonho e a bruma

Outra pedra que lhe seja cara

E assim a carregue

Até ao cimo de um monte

Porque sim

Porque assim deve ser

Porque isso é coragem de Ser

Aqui



Não te lembras, quase esqueces

Meu amor

Minha luz, meu ardor, meu desbravar

Fulgurante

Nas prateleiras das mais velhas bibliotecas

Procuravas sem ganância

Porque o fundo é benigno, dizias

E na varanda mais aberta choraste

A melancolia do primeiro amor

As lágrimas não falavam a queda então

E Atlas tem medo agora

Das lágrimas que não se derramam

E se solidificam

As imagens enevoadas

Acidentes do espírito

Longe, venha um rito

Leio sobre mitos

E curas e feitiços

O retorno, a purificação

In illo tempore

Respirar como um recém-nascido

No maior parto acontecer

A ruptura da terra

O solo tóxico absolver

Num estranho e confinado poço

Verter de novo luz

A gravidade maior

Convalescida entre estações.



(Afundam-se mais Atlas

Sem as suas pedras?)













27.11.2018


Porque tentas ?

eles não sabem

dessa urgência

desse sobressalto dentro

impossível

dessa fuga

que não se pode remediar



Não sabem a natureza

dessa cascata

és de carne mas és de Marte

eles não sabem

e ainda tentas

uma ponte, uma linguagem

para dizer

a fonte, o caminho, a disrupção

das imagens

que te param

que te cessam

essa inquietação e destino

esbatido

esse grão, que é como te vês

e a tua fome

esse teu ídolo

onde o desamparo te deita

fogo e lágrimas

sensualidade violenta

ou a mais inocente criança

aninhada nos seus braços

sem amanhã

mas a manhã chega

com a tua memória como orvalho

os ossos agora estremecem

farpas, ranhuras, micro-fracturas

ancestrais chamamentos

por todo o teu ser

e escreves fel

e só querias escrever luz



*

eu não sei a palavra sacrifício agora

desligada de um frame mais vasto

eu não sei crescer

eu não sei agarrar

eu não sei correr

mesmo com os calcanhares espicaçados

eu não sei firmar

meu espírito num lugar mais alto

e esqueço me

(é tao fácil esquecer)

nestes momentos

do mais essencial fluir

não eram lágrimas retidas

a razão da pedra muda no coração

eu chorei

eu orei

fechei os olhos para sentir

a graça de um raio de sol

mas sentia me apertada

sapatos rígidos

nó do laço da gravata

e em cada espelho não me via eu

e despi-me

desesperada para me ver

e ainda estou sem mim depois de tudo isso

queria que fosse fácil perceber os caminhos

e onde estou quando me sinto no fundo

onde fui, como sou, outra vez

eu só sei amar

não sei ir sozinha sem ver os contornos

de uma espécie de casa no horizonte

sinto as lágrimas nos olhos do meu pai por mim

sinto-lhe agora as lágrimas

e ainda ontem me ri

dessas lágrimas, “ não te preocupes” disse lhe eu,

“ que a vida sempre acontece

E és tao nova, disse me ele

“ para estares cansada do mundo “

Lembrei me dessa conversa

Não sei o que falta

Para retornar

Uma noite, um belo sono sem sonhos

Ou um sonho bom

E acordar de novo

 com a luz através das frestas

Da janela do meu quarto

Acordar de novo

Com o meu Deus

As têmporas aplacadas

A deleção do tempo na cabeça

A transposição aguda no coração



*

Mas o carrasco é mortal se lhe olhar os olhos

E uma ficção se desviar o contrapeso

De uma espécie de derrota inata

Ontológica

Da minha mãe até a mim

Separar me e quebrar me

Das ideias onde me deito

Onde me confundo

E fico sem o meu nome

nessa névoa

fico sem o meu riso

minha graça, minha força

minha direção foi apontada ao céu

com toda a vida

minha direcção um dia apontada à vida

no seio da maior desdita

Mas recolhi me e recolho me

como animal ferido

quero fazer o mundo dentro do mundo

sem queimar o meu cordeiro

quero esse deus dentro do meu peito

mas temo olhar para o meu peito

sem o amar. E a este chão frio que não entendo

apenas queimar num altar sereno

que aceito

como o lugar onde expiar-me

onde imolar os falsos deuses

do meu pensamento

e sair com os pés feridos do outro lado

o cabelo rapado

dizer tudo cresce, tudo regenera

apenas o fel principia a queda

tudo se vive, tudo se contorna

tudo se resolve numa misteriosa hora

e que tudo perdoes

que tudo perdoes e que tudo seja graça

esses teus olhos de criança

não os apagues da tua memória

essa solidão que precisas

não a faças invólucro

porque o frio é o afastamento

que não deste conta onde ou quando



Agarra-te agora, como se não houvesse deus

esse é o teu deus.



*



Hão-de parar os sonhos que te acordam

Campainhas graciosas substituirão

Os estrondos

E esse mono bem no centro da tua estrada

A sua sombra, a sua solidez, faz-te voltar

Para aquilo que conheces

Como ainda não sabes

Debaixo de um sol velho envelheces

Álibis de intuição e desconforto

Não são sinais

Nem o teu corpo que te trai

(Temes)






*

A voz do mundo diz-te que é difícil

Mas não é labirinto

Pensas de mais diz-me o meu amor

E eu só pretendo escolher

A melhor armadura da montra

Mas sitiada estou

Pelas ampliações dos meus Guardas

Em extensão. Em altura. Eu vejo-me

Dilacerada

Um mar sem terra.

Sem paz e sem guerra.



(Minha paz é febre

saciada num quarto)



MF













para onde quero ir perguntam
até agora a viagem mostra me
paragens em destinos que não são meus
colam por cima de mim
como legendas ou caricaturas
dos desejos mais afastados
e erróneos
levam me para bem longe
do mais central lugar
que apenas intuo
sob a forma da fluidez
e presa ainda hesitei
como se o tempo me desse outra certeza
como se o fim de semana fizesse

sentido maior de um automatismo cru sem sentimento
que é o que sinto
ou melhor dizendo
o que sinto é que nada sinto
para que o meu rosto não me traia
finjo e hesito em selar
o que sempre esteve na Visão
e isto, nunca foi destino
nem luta nem emoção nem encontro
nem vitória, nem sequer derrota
é um ponto preto sem sol
é um vai e " vida feita "
mas não sou
e gostava de ser
como a espuma leve de um mar
moldando me a cada costa
e cada fibra minha vibrar
como se eu fosse uma criança
numa excursão
lembraste te desse sentimento ?
como uma cancão
que cantas ou que ouves
lentamente
e a periferia se apaga
toda a névoa , todo o nada
e fervilhas porque sim
porque estás viva
e não perdida
não entorpecida
não rígida
como em botas que não são as tuas
menina , as tuas lágrimas são inocentes
não são as lágrimas fundas
então que a tua voz se faça clara
e nada foi perdido
memória límpida sem rasto de tremor
gostava que fosse uma imagem agora
gostava de não voltar , pai
tenho sonhos mais perto de casa
e do coração
tenho saudades de toda a gente
mais do que teria se amasse esta visão
porque amar a visão é absolver
o sacrifício
é tingi lo
untá lo
de algo macio
agora apenas embruteço
para deixar de ver
o rosto queimando
pai, não exagero - não sou eu
ou o que sobra de mim sucumbe
(recupero-me ao fim de semana e esqueço-me ?)
tenho medo, disse te, de perder a minha cabeça
tu não sabes, disse te , mas tenho tendência
(àquilo que não falamos)
porquê? perguntas-me através do telefone
eu choro e não consigo dizer
porque não sei
- a etiologia do desamparo
a etiologia do 'gostava de poder ligar me'
a um objetivo ou sacrifico
porque este não é o meu
mas amo a vida e certos lugares
eu sei, e a minha fé assenta aqui
nesta sentença - amo a vida e certos lugares
sou eu neles
como quando escrevo
como quando vejo através
dos olhos e das palavras
para lá do mundo inteiro eu sinto
que sinto muito
e essa sou eu
e o teu desconhecimento
do meu silêncio e olhar absorto
é a maior dureza
mais duro que o mundo
onde embato
partida e riscada
(eufemismo de nada )


MF






salivam com fardas
e a única pele que tenho é a minha própria carne (que grita)
e os poemas que não vêem
a raíz inocente
frutos amedrontados por Ser
e que eu olho no espelho sem ver
o que quer que eu seja
não sei dizer
mas não sou eu
porque a energia dita o ditame
ou pelo menos o que não és
dita o teu passo, as tuas lágrimas
a tua distância, a tua corrida
a tua queda ou prenúncios de desdita
como ficar sem mim aos poucos
um pouco mais cada dia
porque abafo a minha carne
(a minha fera , a minha libertação )
hedonismo circunscrito a uma ascese involuntária
fogos já fátuos na imaginação
queria os no corpo e não passam de uma alucinação
do que fui e do que fomos
paraíso sem tempo e sem retorno (nesta hora )





*

vi as estrelas mas tremia
era o frio
peito cego comprimia
os músculos tensos na barriga
o pânico da vida esvaindo se num calejamento sem sentido
era o frio
no corpo e no espírito
a lua cheia, os galhos negros,
o lobo de London na cabeça (suspenso)
o "escolhe o teu sacrifício "
e cresce forte e dura e abafa teu espírito"
tu que escrevias "a primazia da Experiência"
sem sentido quando só sentes
o choro gutural do teu corpo
somente havia a sobrevivência
o desconforto animal
a arquétipa fera e a vontade
dos teus ancestrais
pensavas "quão vulnerável "
eras nada no meio de algo selvagem

e o fogo em ti é a volúpia

que se apaga no meio de papéis
e numa postura hirta (hirme!)
pai, falo contigo de novo
sei que só queres o meu conforto
(medido em alojamento e cifrões)
que arranque rápido rumo aos paradigmas do honroso e digno
mas esta segurança é prisão
volta, incerteza ,
horizonte (emoção) que possa ser familiar
onde me veja quando me olho ao espelho
pai , doeu-me mais saber que não me sabias
e como queria estar na cerimônia do prêmio de poesia
flutuo no discurso
naquilo que podemos dizer
nos olhos que podemos ver
eu já sabia mas tentei
não morrer entre papéis
e sem a minha casa
está frio e o pensamento retorna
ao seu ciclo duro e justo
de me dizer a verdade que calava
e se desvelava em sonhos
" essa não és tu"
e eis o que é estar numa pele que não me encaixa - fardada
(fardas , orgasmos múltiplos de uma mente mal formada)
(se vestisse trapos queriam-me aqui?)
mãe, sei que sou desarrumada ( às vezes ) mas sempre arrumo a meu tempo
sem mil relógios a badalar
e o comboio,
gostava de poder chegar
a casa sem esperar
uma semana inteira
gostava de pertencer , fora de mim
mas navego junto às minhas paixões
aos meus lares
talvez meus lares sejam prisões
que não me deixam partir
mas são as que escolhi
e pai, essa "vida feita" como dizes
é eufemismo de nada
apenas esquecendo a vida
vida feita
apenas dolorosamente hirta
vida feita
apenas sacrificando o ontem
por um ídolo baço e monumental
vida feita



*

cantava Dionísio em silêncio
ou num quarto
perdida dentro de um círculo bem humano
cordas eram ficções
narrativas de outras vidas
ónus que não podia carregar
e disseste-me para subir à árvore
(és meu pai e não viste
- que sou um peixe ?)



MF


terça-feira, 27 de novembro de 2018






A febre das possibilidades incertas
Os rios e tudo o que poderia ser
O grande carrasco ao meu encalço
E à esteira de todos
Mas sobre a minha cabeça pesam
As nuvens entreabertas
Visões desfocadas
Tremores de terra
Tempos como dimensões amalgamadas
O esquecimento do meu amor
No núcleo dos tambores
A dispersão que enevoa a linha
A cor, os contornos
A confusão dos caminhos
Simplesmente
A vinda de uma mensagem, um sinal
Um anjo , um reflexo na pedra
(Estive atenta ?
Ou confundi a mensagem ?)
Tateio pela luz
Vagueio nos sonhos
Acordo sem nada outra vez
Apenas escrevo, outra vez
(Cartas a um destinatário mudo)
E ainda sou a imagem de um berço
Frente ao mundo
(E destruir a asa dar-me-ia o mundo ?)
A estrutura dos mais duros impérios
Duram mas também caem
A forma oca bela
Sem alma
De pé nos anais do tempo
Não tenhas medo
Talvez as coisas de alma
Se dissolvam
Mas aquecem-se por fim
Junto à terra
E no último suspiro
Não foram pedra
Mas inquietas gotas
O brilho nos olhos das mais frágeis coisas
(No mundo poderias ser
Alma até ao fim ?)







MF

terça-feira, 31 de julho de 2018


dizem que quando sangras fazes as pazes com o céu
que quando sangras enquanto escreves das-te à catarse, sinalizas
a despedida
é um rito doloroso de passagem
através do fogo
e da mais inocente tristeza
"-se ao menos me viste"
diz ela,
"-nada foi vão"
e então ela sangra enquanto escreve
e no final está uma paz
banhada de lágrimas mas uma paz
porque Tudo não podia ser coroado pelo Nada
porque Tudo tinha de ser selado em lágrimas
ou não saberias
não intuirias o fim
essa palavra tão final 
tão desumanamente natural
porque tudo finda afinal
mas retorna
mas não nós
nós somos finais
nós só ficamos semi-oníricos
na memória.
(metade da vida, metade da imaginação
ou quase tudo desta última?)
estes dias, amor, eu atravessei o mar
sozinha
estava sozinha e para ti estava contigo
e nada disto podias entrever
eu pergunto-me se irias entender
como as vezes já nem é um cataclismo nas engrenagens da cabeça e do coração
são meras imagens 
que nunca poderiam ser
porque tu e eu somos antípodas
tu e eu somos a alegria e a tristeza
numa tentativa ridícula de fusão
numa tentativa de linguagem comum
dispersamo-nos. tu falas com palavras
eu falo com imagens que nunca verás
na antevisão do abismo que nos separa
e só nos tocamos à superfície do sonho
que ignora tudo isto que acorda ao mínimo choque da diferença
és alegre como uma criança e são como a vida mais puramente imersa e segura
e sem perguntas. não fragmentado, uno,
vejo te segurando uma criança nos braços. perpetuando a ordem natural das coisas. sem medos.
não conheces esse tropeço do espírito. dei por mim fora de mim. olhando me e chorando não me ter outra vez - esquecida e sã e simplesmente aqui. como todos e tudo o resto


*
o desespero corre-me mas faz-me correr 
em busca da vida que é cura de tudo isto
porque eu quero
seria morte não correr
haveria, por toda a eternidade se houvesse,
encontrar as curas mais mirabolantes.
mais simples, mais complexas
sangrar todo o corpo e toda a alma
limpar meu sangue
de todos os humores baixos e negros
que me contaminam 
mas o trabalho é expeli-los
retornar o corpo ao equilíbrio
são, grato, pleno
quero o oceano límpido em mim
o vaticínio foi - será uma luta
de ti contra a inércia
de ti contra o peso
e a cura prolongada está na prevenção das quedas
e por isso terás de correr
sair
ver o máximo do mundo que puderes ver
toda a beleza, singularidade, vulgaridade 
tudo sem julgamentos menores 
tudo para te alimentar e trabalhares 
não podes ter férias 
dos trabalhos interiores e exteriores
o teu equilíbrio depende disso
de viveres cada porção.
cada frequência, cada ângulo, na sua própria conta, medida.
subtilmente saberás
o tempo que disporás para ti e para o mundo


e quando a solidão te for casa, fizeste tudo bem
e o amor está em ti. a toda a tua volta
tem fé

*
agora sei- não poderias nunca tocar-me…sem o tacto das plumas
sem um conhecimento sensível da tristeza mais funda
das ideias mais fundas de inocência
-
o tacto que te colocasse no lugar intermédio clarividente
entre a tristeza e a alegria
tinhas de por um pé na tristeza para me poderes chegar ali
porque a tua leveza profana
não sabe a sapiência desse abraço
- sem palavras
e com o aperto certo


MF

quarta-feira, 25 de julho de 2018



Era Deus apunhalando-me para me lembrar desse pequeno deus no meu peito
Que há de florescer
Estava só sufocado pelo frívolo
E então doía.




MF





MEMORANDOS


Noite 24 de Julho de 2018


é que eu hoje corri e já aceito
tal nostalgia no meu peito
porque sei que as memórias são só minhas
e não fundidas
então, o retorno da separação é ilusório
eu vislumbro os candelabros de uma luz passada e esses feixes de imagens impossíveis à linguagem. (ou à minha linguagem). 
é uma ideia que mil vezes tentei escrever (em vão). 
porque só aponto com as palavras - a vertigem de não me ter. 
de tanto me ter no alto. de tanto me ter no teu peito, eu esqueci o meu. 
eu esqueci o meu peito.
e se alguma vez o tive. afinal, eu chorava pela minha mãe pensando abandono. e era só o inverno. eram só os dias mais curtos. e o desaparecimento do sol e a chegada da noite batalharam me os sentidos. e os meus pulsos. as minhas mãos tiveram pássaros aterrados desde então. por uma chegada. um sopro através da fresta. uma paz. por outra mão. e no amor, eu não sei se mais do corpo ou do espírito, no amor afundei me mais que na mais funda solidão. porque a solidão adensou se na visão desse hiato -  entre a  minha memória e a absência da tua em mim. essa loucura de não nos chegarmos aportou em mim. não despregou de mim (até agora, que corro e inspiro em paz o ar, sem peso). 

a imaginação foi partida em quartos . e eu penso te aceitando a ilha que és. as ilhas que somos à percepção de uma sensibilidade que se quis estender para lá de um corpo. para lá de uma vida. ( eu não sabia - que para lá da vida só sofremos a ganância da eternidade impossível.) do tempo caindo a pique sobre nós e nós olhando-nos hoje, de longe, estranhamente estranhos a quem fomos quando não nos sabíamos. eu sentia saudade desse vazio que nos antecedia. desse mistério que nos fazia olhar um para o outro como algo de divino.
 eu não quero ir. cada lágrima gritava eu não quero partir. (estás comigo e eu já sinto saudade). mas como ficamos no tempo mergulhados de memória ? incomunicável . são só vultos. como as palavras são signos para os quadros sentidos do coração. caminha por dentre mim, eu orava, e nessa fusão talvez a memória não precise de ficar além de nós. flutuando num espaço que idealizava. a criança em mim que não concebia os grãos de areia escorrendo através dos dedos ou os castelos ruindo no mar. chegava me que visses. tu que amo. dentro de mim, só nossa, a memória.

caminho para outra dimensão . onde somos sagrados separados. onde a poesia não me é fardo ou catarse. onde a poesia simplesmente é e nos descreve. onde respiro na vida mais que no labirinto da escrita. porque a vida está lá fora. eu sei. e o teu rosto chega me. e o meu peito..(.estou a fazer por me chegar).  pela primeira vez na vida. superando a criança que não sabia que era inverno. e que a mãe sempre voltaria para a ir buscar. e que dentro de mim há tudo isso. todas essas mãos. sempre comigo. apenas me separava - eu de mim. amo te e a todas todas as estradas corridas e figuras estendidas. todas as grutas e fugas porque no céu eu farei sentido. eu criarei a noite mediante o dia. e as respirações sofridas dão lugar a despedidas da razão mal centrada. e do espírito gasto em filosofias demasiados vastas ao coração. porque eu sei que tudo sei dentro. bem fundo e sob a égide da paciência. eu atravessarei a criança e todas as imagens que me paralisam.

 como poderia viver o profano se senti o sagrado ? - eu perguntava me saindo desse breve retiro. com o rasto de melodias distantes que murmuram ao espírito. de outro tempo e frequência de alma. eu saí e saio tantas vezes sentindo me estrangeira ao chão que piso, aos sons e rostos que se me cruzam. e não houve dissociação maior que o meu amor. e escrevi sobre pérolas e seixos comuns e solidões e sacrifícios de visão /fusão . escrevendo sei que esta escrita assim escrita não serve o propósito maior : de me ter segura e inteira neste mundo híbrido. de profano e sagrado. e trazer o sagrado no meu peito é tudo o que quero. e tudo o te quero dizer : que é possível. achares te fundo, aos teus sentidos, a transmutação das tuas lágrimas. acordada e viva outra vez. não te feches , olha para os olhos da criança que foste com amor. porque o abandono é ilusório. o vazio é a tua razão sem chão. mas há tanto chão que não atinges. e o mar deu te um chão sem palavras. (e de ser sem palavras te esqueces  . ) apenas te olhas na memória e há um sentir com mil anos de oração. que descende do coração. e abraça a cabeça. esse estado de solidão unida a tudo. onde és e te bastas. e te elevas diante algo primordial e profundo. Obrigada. diz adeus às palavras - todas que não te tragam à superfície. ( são tortuosas e habilidosas formas de despejo).


MF




O tema de novo Plath na cabeça, Bukowski na cabeceira estranha comunhão, estranha disrupção, meteoro um dia, uma hora, witchcraft...