terça-feira, 31 de julho de 2018


dizem que quando sangras fazes as pazes com o céu
que quando sangras enquanto escreves das-te à catarse, sinalizas
a despedida
é um rito doloroso de passagem
através do fogo
e da mais inocente tristeza
"-se ao menos me viste"
diz ela,
"-nada foi vão"
e então ela sangra enquanto escreve
e no final está uma paz
banhada de lágrimas mas uma paz
porque Tudo não podia ser coroado pelo Nada
porque Tudo tinha de ser selado em lágrimas
ou não saberias
não intuirias o fim
essa palavra tão final 
tão desumanamente natural
porque tudo finda afinal
mas retorna
mas não nós
nós somos finais
nós só ficamos semi-oníricos
na memória.
(metade da vida, metade da imaginação
ou quase tudo desta última?)
estes dias, amor, eu atravessei o mar
sozinha
estava sozinha e para ti estava contigo
e nada disto podias entrever
eu pergunto-me se irias entender
como as vezes já nem é um cataclismo nas engrenagens da cabeça e do coração
são meras imagens 
que nunca poderiam ser
porque tu e eu somos antípodas
tu e eu somos a alegria e a tristeza
numa tentativa ridícula de fusão
numa tentativa de linguagem comum
dispersamo-nos. tu falas com palavras
eu falo com imagens que nunca verás
na antevisão do abismo que nos separa
e só nos tocamos à superfície do sonho
que ignora tudo isto que acorda ao mínimo choque da diferença
és alegre como uma criança e são como a vida mais puramente imersa e segura
e sem perguntas. não fragmentado, uno,
vejo te segurando uma criança nos braços. perpetuando a ordem natural das coisas. sem medos.
não conheces esse tropeço do espírito. dei por mim fora de mim. olhando me e chorando não me ter outra vez - esquecida e sã e simplesmente aqui. como todos e tudo o resto


*
o desespero corre-me mas faz-me correr 
em busca da vida que é cura de tudo isto
porque eu quero
seria morte não correr
haveria, por toda a eternidade se houvesse,
encontrar as curas mais mirabolantes.
mais simples, mais complexas
sangrar todo o corpo e toda a alma
limpar meu sangue
de todos os humores baixos e negros
que me contaminam 
mas o trabalho é expeli-los
retornar o corpo ao equilíbrio
são, grato, pleno
quero o oceano límpido em mim
o vaticínio foi - será uma luta
de ti contra a inércia
de ti contra o peso
e a cura prolongada está na prevenção das quedas
e por isso terás de correr
sair
ver o máximo do mundo que puderes ver
toda a beleza, singularidade, vulgaridade 
tudo sem julgamentos menores 
tudo para te alimentar e trabalhares 
não podes ter férias 
dos trabalhos interiores e exteriores
o teu equilíbrio depende disso
de viveres cada porção.
cada frequência, cada ângulo, na sua própria conta, medida.
subtilmente saberás
o tempo que disporás para ti e para o mundo


e quando a solidão te for casa, fizeste tudo bem
e o amor está em ti. a toda a tua volta
tem fé

*
agora sei- não poderias nunca tocar-me…sem o tacto das plumas
sem um conhecimento sensível da tristeza mais funda
das ideias mais fundas de inocência
-
o tacto que te colocasse no lugar intermédio clarividente
entre a tristeza e a alegria
tinhas de por um pé na tristeza para me poderes chegar ali
porque a tua leveza profana
não sabe a sapiência desse abraço
- sem palavras
e com o aperto certo


MF

quarta-feira, 25 de julho de 2018



Era Deus apunhalando-me para me lembrar desse pequeno deus no meu peito
Que há de florescer
Estava só sufocado pelo frívolo
E então doía.




MF





MEMORANDOS


Noite 24 de Julho de 2018


é que eu hoje corri e já aceito
tal nostalgia no meu peito
porque sei que as memórias são só minhas
e não fundidas
então, o retorno da separação é ilusório
eu vislumbro os candelabros de uma luz passada e esses feixes de imagens impossíveis à linguagem. (ou à minha linguagem). 
é uma ideia que mil vezes tentei escrever (em vão). 
porque só aponto com as palavras - a vertigem de não me ter. 
de tanto me ter no alto. de tanto me ter no teu peito, eu esqueci o meu. 
eu esqueci o meu peito.
e se alguma vez o tive. afinal, eu chorava pela minha mãe pensando abandono. e era só o inverno. eram só os dias mais curtos. e o desaparecimento do sol e a chegada da noite batalharam me os sentidos. e os meus pulsos. as minhas mãos tiveram pássaros aterrados desde então. por uma chegada. um sopro através da fresta. uma paz. por outra mão. e no amor, eu não sei se mais do corpo ou do espírito, no amor afundei me mais que na mais funda solidão. porque a solidão adensou se na visão desse hiato -  entre a  minha memória e a absência da tua em mim. essa loucura de não nos chegarmos aportou em mim. não despregou de mim (até agora, que corro e inspiro em paz o ar, sem peso). 

a imaginação foi partida em quartos . e eu penso te aceitando a ilha que és. as ilhas que somos à percepção de uma sensibilidade que se quis estender para lá de um corpo. para lá de uma vida. ( eu não sabia - que para lá da vida só sofremos a ganância da eternidade impossível.) do tempo caindo a pique sobre nós e nós olhando-nos hoje, de longe, estranhamente estranhos a quem fomos quando não nos sabíamos. eu sentia saudade desse vazio que nos antecedia. desse mistério que nos fazia olhar um para o outro como algo de divino.
 eu não quero ir. cada lágrima gritava eu não quero partir. (estás comigo e eu já sinto saudade). mas como ficamos no tempo mergulhados de memória ? incomunicável . são só vultos. como as palavras são signos para os quadros sentidos do coração. caminha por dentre mim, eu orava, e nessa fusão talvez a memória não precise de ficar além de nós. flutuando num espaço que idealizava. a criança em mim que não concebia os grãos de areia escorrendo através dos dedos ou os castelos ruindo no mar. chegava me que visses. tu que amo. dentro de mim, só nossa, a memória.

caminho para outra dimensão . onde somos sagrados separados. onde a poesia não me é fardo ou catarse. onde a poesia simplesmente é e nos descreve. onde respiro na vida mais que no labirinto da escrita. porque a vida está lá fora. eu sei. e o teu rosto chega me. e o meu peito..(.estou a fazer por me chegar).  pela primeira vez na vida. superando a criança que não sabia que era inverno. e que a mãe sempre voltaria para a ir buscar. e que dentro de mim há tudo isso. todas essas mãos. sempre comigo. apenas me separava - eu de mim. amo te e a todas todas as estradas corridas e figuras estendidas. todas as grutas e fugas porque no céu eu farei sentido. eu criarei a noite mediante o dia. e as respirações sofridas dão lugar a despedidas da razão mal centrada. e do espírito gasto em filosofias demasiados vastas ao coração. porque eu sei que tudo sei dentro. bem fundo e sob a égide da paciência. eu atravessarei a criança e todas as imagens que me paralisam.

 como poderia viver o profano se senti o sagrado ? - eu perguntava me saindo desse breve retiro. com o rasto de melodias distantes que murmuram ao espírito. de outro tempo e frequência de alma. eu saí e saio tantas vezes sentindo me estrangeira ao chão que piso, aos sons e rostos que se me cruzam. e não houve dissociação maior que o meu amor. e escrevi sobre pérolas e seixos comuns e solidões e sacrifícios de visão /fusão . escrevendo sei que esta escrita assim escrita não serve o propósito maior : de me ter segura e inteira neste mundo híbrido. de profano e sagrado. e trazer o sagrado no meu peito é tudo o que quero. e tudo o te quero dizer : que é possível. achares te fundo, aos teus sentidos, a transmutação das tuas lágrimas. acordada e viva outra vez. não te feches , olha para os olhos da criança que foste com amor. porque o abandono é ilusório. o vazio é a tua razão sem chão. mas há tanto chão que não atinges. e o mar deu te um chão sem palavras. (e de ser sem palavras te esqueces  . ) apenas te olhas na memória e há um sentir com mil anos de oração. que descende do coração. e abraça a cabeça. esse estado de solidão unida a tudo. onde és e te bastas. e te elevas diante algo primordial e profundo. Obrigada. diz adeus às palavras - todas que não te tragam à superfície. ( são tortuosas e habilidosas formas de despejo).


MF




quinta-feira, 24 de maio de 2018









~ Androcles e o leão



Perguntava-me porque destruías tudo em volta
e se a razão era um espinho
no teu coração.


MF

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018



memorando, noite 22 de Fevereiro de 2018


(Dentro de mim somos o mesmo) (?)


Uma tábua inscrita com a sensação do dia
Um fundo onde sei que tem de estar tudo se bem que digam ser impossível
Ter-te guardado
Cada dia
Mas só o Amor, só o Amor se gravaria dessa maneira
E os feixes, as imagens, os quartos, as noites, os dias,
As tentativas de fusão, o peso no coração,
O decréscimo do eu diante aquele que amo,
Temor e medo e amor,
Eu sei que está tudo aqui, aquilo que não acesso, aquilo que não me lembro,
(eu só me lembro que jaz lembrado em algum lugar, passível de ser lembrado cada segundo que não me lembro )
Aquilo que não construo a partir nem se desenvolve ateado por um simples som ou imagem ou sorriso. É in media rés - a memória, fragmentada em pedaços com o peso do mar que só eu vejo. É solidão, é solidão outra vez e para sempre.
Só tu vês. Só tu o vês. Não te sabes sob os olhos dele, sob o coração pintor. Do outro lado é alguma coisa que desesperas por saber. Esse olhar através de outra lente. Morrerias menina, morrerias se soubesses o que é ver por outro coração porque terias de ser esse coração. E então desaparecerias. E já choras esse nada. Prometes que não há o nada. Não há a morte resoluta e lógica cheia de nada. Ou a morte é como esse lugar incomensurável e misterioso da memória - onde tudo está sem que te lembres. (E a paz está em saberes que está la)
Tudo lá. Tábua vagamente inscrita, é um nada se fechas os olhos para lembrar. É uma certeza cega mas certa, saber fundo, lágrimas fundas. Tem de ser. Tem de haver. Esse lugar. Diz-me também se ouves essa voz que Nos garante. Todos os dias de verão. Os primeiros dias do recomeço do meu coração. As sensações que nunca senti, ali. E estás comigo. És real. E as tuas imagens inalcançáveis como as minhas.
Mas desespero por saber - se são também toldadas por lágrimas e por esta saudade-bomba por tudo.



MF



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018



Meditações sobre a Teoria dos Sonhos de Freud:



Acabei o primeiro volume e pensei (ainda que deva reler certos capítulos):
Será estéril encaixar cada sonho numa só teoria ou paradigma.( Como Freud, em certo sentido, concorda, no entanto, no seu processo psicanalítico tenta provar que cada sonho, podendo estar deformado, é " a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)".

Mas, como tentaram provar a Freud, há sonhos que não se parecem em nada com realizações de desejos, recalcados ou não, ( por mais mirabolante que possa ser o esforço de interpretação nesse sentido como realizar o desejo de provar que Freud estava errado!) mas sim (opinião pessoal) como criativas e misteriosas representações de ansiedade. Pensando nos meus próprios sonhos, muitos deles parecem mecanismos de produção de ansiedade, ou melhor, esta é o sentimento de fundo, contextualizada por um cenário ou narrativa que a justifica e que em geral está ligada a tarefas infinitas, a loops infindáveis. Hoje, por exemplo, sonhei que havia uma grande festa na minha terra. E de repente perdi a localização da tenda correspondente ao café onde trabalho, de modo que fiquei à deriva com o dinheiro de três pessoas ( que queriam pagar, respectivamente, um café, dois cafés, quatro cafés, acenavam-me simbolizando com os dedos ao longe, aumentando assim ainda mais a minha ansiedade por não ter o troco para lhes dar.)

 Ao fim do que me pareceram várias horas, continuei perdida, (e descalça), correndo por dentre a multidão e uma miríade de tendas. Dei por mim sem o dinheiro das pessoas a quem tinha de encontrar e dar o troco....Por fim, encontrei um amigo (F) que finalmente me disse a localização do sítio correspondente ao meu café ( uma espécie de prédio, tive de subir as escadas às escuras e fui buscar a minha carteira para repor o dinheiro que tinha perdido.)

Deste modo pergunto-me -  terão esses sonhos alguma função ou interpretação além do conteúdo manifesto ( o meu desconforto relativo a situações de stress e confusão)? O sono não deveria ser um momento reparador? Esses sonhos por vezes fazem-me acordar desgastada como se eu tivesse, efectivamente, passado pelo mesmo que o meu eu dos sonhos. Será que são somente representações dos nossos receios e medos da vigília e há um intercâmbio com o nosso inconsciente, que, talvez nunca cesse e continue a reproduzir, do seu modo mais ou menos simbólico, mais objectivo ou metafórico, as nossas preocupações diurnas, quotidianas? Será que ao sentirmos essa ansiedade em sonhos nos preparamos melhor na realidade para ela? Como uma espécie de reinforço dos circuitos relativos ao controlo da ansiedade, algo análogo aos "neurónios espelho", cuja o mero pensamento de imitação mental de um gesto faz com que determinado movimento seja aperfeiçoado realmente...
Fará mais sentido que esta ultima hipótese tenha alguma validade se acreditarmos que absolutamente nenhuma energia no nosso corpo, no nosso cérebro, é gasta em vão. Então, durante a noite, há um mínimo de energia que é dispendida para os processos vitais da respiração, da circulação sanguínea e, ao nível cognitivo, para uma restruturação, limpeza ou aperfeiçoamento do controlo de factores emocionais, mais que um mero desgaste gratuito que replica as nossas ansiedades sem uma razão e nos atormenta com pesadelos?








sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018



(Memorandos)


Comecei-me a dispersar
Borboletas de papel
Nasciam e morriam todos os dias
Ideias
Nascentes
Correntes
Torrentes
Um mar onde era
Um mar onde fui
Um mar onde seria
Borboletas de papel
Todas possiveis

*
Quero ser só fundida a tudo
E tudo ser resposta
Reconciliado com esse saber
Praia no coracão
Futuro-passado-presente
Embebido de sentido
Sem palavras sempre
Mas permanente
Tudo aceite e antevisto
Sem estertores
Sem tambores
De estrépito ou guerra
É que a vida era uma flor
Sem futuro porque
Desabrochada agora

*
(ad infinitum)
Acordares prematuros doem sempre
Mas é dia
A manha é fria mas bela
E não entendes mas sabes
Dos rios dentro de ti
De lágrimas e risos
Por toda a existência

*
(sonho)
Ondulavas sozinha na noite
Teu amante era um espelho
*
Os nervos envoltos
No lampejo da ultima Primavera
Não queria deixar ir
É a vontade de permanência em mim.

*

(12 de Janeiro) (caderno de sonhos) " Percebo que está amputado, cego... O meu coração cai-me dentro."
Não tinha olhos
Eu ouvi
Tua-nossa voz dentro da minha cabeca
"Se ao menos eu tivesse os meus olhos"
Sim, eu vi - parcialmente
Tua-nossa cegueira. 
A casa mais escura e um filtro esverdeado, abismal
Tudo estava contaminado até ao espírito
Lentes caídas numa lama sem nome
Incompreensível aos nossos coracões
Eu senti teu terror irmão
Tua prisão
Tua escuridão
E tive de acordar
Mas não houve expiação
(só no esquecimento?)
Porque não era somente um sonho
Era aquilo dentro de ti,
espraiando-se pelos dias.


MF



domingo, 7 de janeiro de 2018








mini carta


...estava exausta. o esforço de uma nado submudo. Em silêncio via-nos e chorava sem lágrimas. Agora escrevo-Nos. Tenho um monumento de mármore cobrindo o meu rosto e o meu corpo. É que as lágrimas correram noutras noites. Avaria, combustão, implosão interna. Meus nervos mais que sensíveis deram-me ambos: o céu e a melancolia da solidão do amor. Nervos - salvando-se do excesso de amor, hoje apagaram-se e apagaram os meus olhos. "Mas ao menos fui feliz", pensei eu como se os dias fossem cinzentos a partir de hoje. Chegaste e choraste ao meu peito e as lágrimas ficaram-me dentro. Afastei a memória para não doer. Porque apertei-te como a mais ninguém. Nos dias e nas noites. E respirei-te e beijei-te a testa tantas vezes, minha criança e homem e rapaz. E não sei acabar o infinito em mim, o infinito simples de nós. Dentro de mim ainda estamos juntos ( e não queria acordar). Mas se nos lembro no início de nós...melancolia feliz - todo o amor em núcleo. Toda a presença de corpo e de espírito. Toda a solidão e medo excomungados. 

Ouve os cd´s outra vez, e lê os poemas quando fores velho. É que a melancolia e nostalgia envelhece-nos. E não há como seguir para novas paisagens, amores, erros, lições, sem que larguemos as âncoras do céu do sonho que fizemos a dois. Está na minha cabeça - tudo aquilo que nunca irei poder dizer. Porque a linguagem nos limita e nos prende como a gravidade a um chão e a memória é um céu - infinito e intocável como as estrelas. E tu viste-me sem te veres. E eu vejo-te sem me ver - como sou na tua memória. Só há uma palavra que se aproxima da nostalgia e beleza que nos sinto - Obrigada.  


Amo-Te.

MF


sábado, 6 de janeiro de 2018






Nervo vago

Senti-nos e senti
que me faltavas
Vaga dor
Vago tremor
Chovia e eu chorava
Tu dormiste tarde
Envolto nos fumos
Que te apagam
Pensei
- Se a consciência te pesasse
Estaria sozinha quando cheguei?

Carro parado
Só a lua ao meu lado
Bem acima de mim
E eu ali
com o ontem dourado
no meu peito quebrado
porque tão perto e longe
Como é possível, pensei
Para ti só longe
Se ainda está em mim
Olhos vazios, os teus
Eu chorei.
Estava só
Não havia escadas
Para a beleza partida,
mas ainda viva
dentro de mim

Esta solidão bate mais
no coração
É a imagem de um tiro
no velho antílope
(outra vez)
Que ainda se erguia 
no sono da alegria
Mas estava só no amor
dentro da carne
Circunscrito
Ao peito, 
Ao grito, 
Ao mito,
Está ferido.
Estou ferida.
(Estaremos ambos feridos amanhã?)
Este vórtex na cabeça
Esta sede de sentido
Esta sede de infinito
Estas imagens:
Era mulher, era criança
Era dor era fogo era dança
Era derrota sabida,
Futuro desfeito no presente
Lágrima ,olhar caído,
Era isso:
 - Por aquilo que eu via e não sabias
Isto mesmo que escrevo:
Esta chama final assim apagada.
(Porque-quando sopraste?)



MF

sábado, 4 de novembro de 2017



Do peso e da leveza.


Dizer-te que te amo mas me sinto - sozinha em espírito. E como é a carne, o réptil, em mim, que te ama, quando nos amamos nas noites. E uma fresta de sonho. De te colocar numa nova luz. De seres essa mesma luz atravessando aquilo que não nomeio mas podia ser uma doença. Ainda que esta se recolha para dar lugar ao riso próprio da minha idade ( às vezes, repentinamente, à visão da alegria alheia mais simples). Tremo com a sombra. Tremo com a beleza. Tremo de saber que tive anjos pedindo-me a mão. E eu fugi. A carne não é compatível com o espírito?
Amar a superfície é um compromisso constante com um desapego. Um divórcio com a vontade de profundeza e fusão. Aceitação das linhas paralelas que somos, afinal. Porque eu já me cruzei, eu já vi, já me viram, mas era uma dança sem fogo, uma dança feita de ar. A placidez de um mar aplacado, finalmente, e esgotado, sedento de ser tocado de outra forma mesmo que tivesse de abandonar essa dança de plumas.

Abandonei-me, acho. Para me ter no chão, para me sentir a carne, para me sentir no fogo. E amanhã abandono o fogo, disse, mas ainda não o abandonei. Digo, o animal é mais antigo que o espírito. O espírito acordou numa misteriosa e incógnita manhã. Com as lágrimas nos olhos. Oh, as lágrimas desfiguram o meu rosto? Ou dão-lhe vida? Dão-lhe alma. Mas a alma é tão pesada nestes dias. A alma é tão pesada neste mundo.
Solidão maior. Esta solidão depois da fusão dos corpos. Esta antevisão de futuro vazio. Esvaziei-me para não me doerem camadas profundas? Esqueci-me voluntariamente, conscientemente, mas a alma ainda grita no fundo de mim - contra os gestos e as palavras despidas de substância, despidas de visão e vontade de sanar qualquer coisa carente de infinito. Eu não sei, eu não sei. Mas sei deste entrave na garganta. Esta lassidão. E lá fora, eu chamei circ(o)lo. Talvez se eu fosse à cruz e descesse da cruz....tudo pareceria mais humano aos meus olhos? 

Agora ainda vejo - como tudo isto é nulo. Estes pensamentos, esta escrita, esta dor quase ridícula. Sou uma criança com vinte e um anos desgostada para sempre, como no dia em que lhe falaram de como o mundo girava indiferente sem nós, depois de nós. Inocente. Nada é para sempre. Só em ti a (ilusão ? de) permanência do teu maior sonho e amor.
E talvez eles tenham razão. Talvez o circo-lo pudesse ser o paraíso. Ou o paraíso mora dentro. E dissipando o excesso, os labirintos, os significados, as buscas, os sonho, a longa e antiga saudade, me deixasse mais leve. Fluiria como tudo o resto. Mais no meio de risos do que de lágrimas e contrapesos no coração. Até ao esquecimento inevitável. Que cobre tudo. O mais leve e o mais profundo, afinal. 




MF






segunda-feira, 16 de outubro de 2017



Vozes e visões internas:

Eu vi- centenas de candeeiros apagando-se à meia noite. E a vila, toda a cidade, cessando de existir, engolida pelo breu. Uma imensidão negra sem contornos. 
Eu estava no ponto indefinido onde assistia a esse apagão, diante do meu corpo e mãos que também não via. 

Talvez o primeiro apagão se tenha dado em mim. Seguindo-se tudo o resto. 
(O mundo precisava de mim, afinal?)

Nunca esperei adormecer, mas adormeci.

Ainda respiro, sem nada poder tocar. Duvidando da existência de tudo. 
(Afinal, tudo se cobriu de breu).

( - "Estou no final do jogo? Haverá vida ainda, por detrás desta curtina? É só um fenómeno de luz e de sombra? ")

 Dar forma ao mundo depois deste sono, desta escuridão...Tudo se erguer, outra vez, estar cá sem mim.
(Mas como é sem mim? Quem me assiste para mo dizer? Agora, nesta hora, nesta meia noite?)

Eu sei como pensei perecer tantas vezes. Mas a vida, o tempo, a idade, acumulam-se. Acumulou-se-me no sangue mais amargura do que esperava. E não esperava adormecer.
Mas havia, há ainda, uma pérola dentro. Maculada, envolta em sal. É o meu eremitério, meu altar de infância, é o meu amor e o meu tremor - a minha Inocência. (Pudesse) Sobreviver - ao raso, ao baixo, ao frívolo, às correntes, aos desertos, ao vazio, às cruzes, aos apagões de tudo....

"Para onde me virar se não tenho (ou vejo) centro? "
- Pensei que havia mapas dentro. 
Guardados, escritos, debaixo do nosso sangue. Antes mesmo de nascermos...


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(A Saint-Exupéry) ( Escrita corrente)

Drones subaquáticos. De novo a flor e o seu perfume excruciante. Envolta pelo fumo de uma destruição invisível aos olhos de todos. Olhou, para o humano. Beijou-lhe a fronte. Disse que era o gesto universal que nela se tornou o único a poder dizer, em silêncio, sobre a fidelidade e sobre o amor através do medo. Talvez uma ilha!, é uma ideia que se escreveu mil vezes. Como todas as coisas mais humanas, atravessa as eras. Esse mundo dentro do mundo dentro do mundo. Sabias? Queria ouro derramando-se como alma transbordando nua da carne. Falava de cristais brutos mas cristais. É tão urgente, neste mundo, dizia a flor, sermos mais que aquilo que nos fizeram crer. Tem coragem de mergulhar, nesse lago. É fundo e gelado e solitário. Mas não fujas, ela dizia, não fujas de te encontrar, esse cristal, esse cristal, desespero por cristais. É que eu acordei num deserto, quando acordei, havia uma tempestade de grãos chocando-se e eu no meio quase sufoquei o meu cristal.  A solidão era por de mais maior, no deserto. Quase quis dissolver-se, ser pequena, um grão entre todos. Mas não. Há um sonho que lhe abraça os ombros. Um mundo dentro do mundo dentro do mundo. Se te juntasses, apenas, a mim. Seria tirania? Esse abandono do deserto por outro deserto. Nesse antigo há festas todas as noites, grãos chocando-se, aquecendo-se. No novo há uma desolação. Primeiro, profunda, fria, tenebrosa. Depois, familiar, e apenas melancólica. A flor orou - que o amor fosse o esquecimento do mundo. E contra o peito, um anjo. Contra a cabeça nenúfares brancos. Contra os lábios uma canção - que não fosse o silêncio vazio no humano depois das interpelações do cristal. Como duas linguagens de dois mu(n)dos, quebrando-se no cruzamento. Ela arrancou-se dessa terra, disse-lhe adeus de longe quebrando a imagem desse beijo.
Escorreram gotículas através das pétalas. Do cristal chorando. Interno, cravado, um cristal tremendo, não duro como diamante, antes da matéria frágil dos sonhos e da inocência. Porque queria o impossível como a Lua de Calígula. Mas sem rasto de fome em si. Só um rasto de desamparo de criança. Pensou numa nova porta. Pensou nesse humano pegando-lhe, rendendo-se, ao sacrifício da fusão. Dolorosa e gloriosa.





MF


quarta-feira, 11 de outubro de 2017




(Ouvindo  A Silver Mt. Zion ....He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms


podia jurar-te as crisálidas no sangue
as flores, o riso, o sem peso
eu ultrapassando as fronteiras com que me achei cercada junto ao peito. feitas de jaulas e assombro e tenebrosos céus. peso, digo, um insidioso acidente, encontro do espírito com outra coisa que não a vida. dentro dela. uma consciência, uma visão, uma separação, um choro, um recém nascido para sempre lançado no vácuo do espaço infindo. para sempre chamando mãe. todos os dias uma camada de estanho sobre as pétalas. metal liquefeito cobrindo a cidade. um mar viscoso, um circo sitiando-me. 
sitiando-a. ela está numa ilha movediça. 
num desconhecimento venturoso, ela soçobra das pequenas luzes. e da beleza inocente.

*

No limiar do assomo das emoções mais baixas ela pára-se. ela sintetiza uma indiferença quase monolítica, artificial, não mais honrosa que uma fuga. mas a fuga é humana. mas ela quer ser mais que humana enquanto foge. (para quê, de quê?) da substância da mesma carne dos homens mas com vitoriosos e insidiosos desvios do espírito ( para um paraíso perdido? ). e os caminhos fortuitos querem-se pintados na esperança, querem um ordenamento cego mas sapiente. como um crescimento vigoroso sobre as diretrizes de uma força ancestral e automática. assim será o teu voo. assim será, digo-o sem confiança. porque também só vivo do que posso vislumbrar ao alcance das minhas mãos. não possuo a bússola sobre-humana. não possuo uma razão maior, um sentido maior, para te outorgar. tu, tu és eu, desde sempre e para sempre. gostava de poder saber mais que tu. apenas sei parar-te de desceres para lugares menores. sou, no máximo, teu Eu Maior. teu eu maior tremendo na montanha, mas, na montanha, com uma abrangência temporal mais vasta. Eu páro-te do medo, eu páro-te do desterro, eu páro-te das lágrimas vulgares. Somente as extraordinárias poderás verter. Deixar-te-ia morrer. Somente das mortes certas. Nunca das mortes que te decrescem. Apanhar-te-ei num radar, num chão sagrado, eu antevejo com o coração titubeante esse sonho de renascimento. O esquecimento do céu ser-te-ia, finalmente, impossível - gravado na tua própria carne e espírito, unificados, sendo a resposta. Serias a resposta viva. Menina, ouve-me, afinal, sou tu.


*

É urgente firmar-te todos os dias no solo liso e pleno, salutar às tuas asas ( ainda presas debaixo da carne). Um dia viste-te com a luz dos anjos. À luz dos anjos. Agora persegues essa frequência do Ser. E perguntas-te ( já não te lembras), se a melancolia será ainda auréola. Como o negro tingindo o fundo das estrelas.

*

Já não se vertem. Às vezes infiltraram-se num deserto. Pergunto-me aonde foram. 
Vertical mas sem força. Serena mas antevendo sismos interiores. Um dia, uma hora. 
Porque o futuro chegará sem mim. 
Sem mim porque despida, vazia, de todas as flores que um dia quis, para o meu jardim.
( mas eu não sabia se essas flores eram realmente minhas, eram as flores de toda a gente.)

*

Anseias a vida para sempre. A vontade. A sede. A alegria do coração. As manhãs abertas. As visões, parafernálias de lugares e sentimentos e gestos, a aceitação nostálgica e a prontidão aérea para mais e mais fundo. Mais fundo até às estrelas. Assim é - no auge, os pólos invertem-se ou igualam-se entre si. E tudo seria benigno. As cicatrizes limpas. Desbotadas. Quase invisíveis. Quase. Afinal, és viajante do tempo.  Como poderias crescer imperturbável, imutável?

*
a aventura foi descobrir o início outra vez. 
o riso, outra vez, a leveza e o amor por tudo, outra vez.