Ao ler Huston Smith sobre o siquismo relembrei, talvez como nunca, como tudo era vaidade. Tudo era apego. E como tudo podia ser sagrado dentro deste plano efémero (se ao menos alimentássemos não a fome mas a boa sede).
Mas somos cegos. Ratos correndo na roda numa sala rodeada de espelhos.
Buracos negros com medo do futuro ou somente com os olhos neste limitado instante de congelamento ou fuga, prazeres fulgurantes ou decepções amargas, distrações insidiosas, esquecimentos hereges ('Ghaflah', no islamismo).
Contribuímos para a manutenção desta redoma tão profana. Porque as nossas bíblias são ecrãs que não nos levam para fora de nós, pelo contrário, tornamo-nos o Narciso apaixonado pela sua própria imagem (quando saberemos que tal é uma maldição? Por que não compreendemos os ensinamentos dos mitos?).
Este descentramento tão necessário talvez sobrevenha na lembrança funda, esquecida, de que tudo é vaidade. E então, talvez : possamos ser livres e razoavelmente puros. Humildes.
Prostrados num sentido oposto ao da submissão: reverência para com a vida. Para com o Outro.
sexta-feira, 6 de outubro de 2023
[Serás humano até ao fim]
caminhas tocando as paredes
numa divisão obscura
os caminhos múltiplos, as escolhas pressionadas
por um tempo denominado
este tempo secular que nos inscreve fora do que almejamos
(realmente), que sabemos sem saber
se as palavras pudessem polir uma direção
se estas palavras viessem do infinito
do fundo escondido da consciência
Só para me dizer - porque escolhi voar e onde era o destino
a seta não foi firmada, afinal
era a viagem, sempre a viagem, o fundamental
está tudo bem
- em não aterrar.
#30 antro
domingo, 23 de outubro de 2022
O sonho é o último reduto
De todos os loucos
De todos aqueles que correm em círculos
Pela simples alegria de correr
O sonho é essa fé impossível
Necessária , inextinguível
Força motriz, centrípeta .
A última luta, só mais desta vez
E mais uma e outra vez
Só morremos de não tentarmos
Esticar os braços uma vez mais
Essa rememorações platónicas
Mais não são do que a verdade
A sede por quem és
"Onda estás , onde andas ?"
O que te faz brilhar ?
(Perguntavas-me )
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
22:51
(duas casas)
ecoam contos de Capote nesta casa vazia
queria dar-te a mão mas somos iguais
(fazemo-nos sós sem querer,
devoramos bibliotecas
e o alimento é outro,
sabemos)
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( viagens)
ante a abundância que fere
eu quero abarcar
por amar tanto é que dói
por não poder ver imagino dentro
- o mundo inteiro
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TAPETUM LUCIDUM
18-08-2022 (Nils Fhram - Old Friends)
(kierkegaard e a perda não notada)
todo o passado se condiciona, os jardins de deus estão fora. vejo as prisões de que me socorro, mais não são que sonhos que fugiram, que deixei extinguir. porque o medo da morte não superava o da vida. por dentro há mundos inteiros à espera de eclodir, e ela tem saudade das figuras sem futuro, dessas viagens de infância mesmo antes do entardecer. no comboio, no metro, na ponte, ao pôr do sol, as cartas escritas, os poemas, a música.
(The real charlie chaplin)
queria ver uma manhã no mundo inteiro. o destino alvorado, as setas lançadas para um vácuo infinito com as mãos dadas. o coração dentro do peito.
dizem que mentimos todos os dias. e se me caíssem as pétalas estaria nua? não sei se amo ou tenho medo de paredes silenciosas porque às vezes ouço uma espécie de silêncio entre nós- não nos chegamos? ou quero ver a imagem no espelho, sou o narciso do lago. os reflexos que almejo são o ícone, o ídolo. como Chaplin? colamos na casa a imagem sem saber do humano por detrás. não queremos a lacuna, a dúvida, a mácula, a doença. queremos o circulo perfeito, o vaso sem ranhuras, queremos beber e não mais ter sede, queremos o céu todas as manhãs sem a gravidade. queremos a cena perfeita. não queremos a verdade (?)
(Epoché)
as nossas referências são passadas e de outro tempo antes do ser (fabricadas pela sede)? sinto que lá atrás é mais alto, mais vívido. Tempo, agora apressas-te para que lugar? sinto escoar, a conta gotas, o meu tempo. há cães revoltado nos sonhos, cefaleias do lado direito e náuseas sem origem. não leio a mensagem. a loucura psicossomática, o medo? - ver os fios que a ligam à terra - são humanos do seu sangue, irmãos espalhados pelo país e um ser de quatro patas que redime. se fechar os olhos ela vê - quanto ao supermercado e ao abrigo - o custo é tão alto.
essa liberdade, saudade - esse fogo aceso numa primitiva noite. sem amanhã, irmãos.
quinta-feira, 9 de junho de 2022
se pudesse dizer o tom do esquecimento
a perda das palavras - a perda de mim?
Virgina Woolf e a irmã
Tu és cada memória. És o verde carregado das árvores contra o nevoeiro de um inverno tardio. És a paisagem sobre um rio num comboio em movimento, um poema de Borges, uma velha fotografia de duas crianças - ela pensa - a felicidade possível. A felicidade inesperada, improvável. Às vezes não é um labirinto. Às vezes, 'agora' é um quadro, é uma herança, é já uma memória. Instantes. Não há renegados. Há os olhos abertos como princípio.
O sonho é o lugar do paradoxo absoluto - do paradoxo senciente,
amovível, lugar de distensão do tempo. Ela sabia que sonhava, e, no entanto,
que tinha de ir trabalhar. Este imperativo era essencial, mesmo no sonho. Ela
sabia que estava dentro de um sonho, mas tinha medo de engravidar, de se
atrasar, do seu rosto se lacerar sob o ataque de um lobo gigante. Mesmo no
sonho havia dor, daí a compulsão por defender o rosto. A estupefação era a de
Cristo: uma inocência espezinhada, uma inocência abandonada pela própria
Inocência. "Porque me atacaste? Apenas queria apanhar um objeto que
poluiria aquele chão".
Assim é na vida lúcida, real. F. Diz-lhe que não pode
esperar que o mundo lhe devolva o reflexo - que lhe dê a mão, a segure, a
ajude, seja bom. Às vezes o mundo ataca-a, como o lobo - Injustamente,
gratuitamente, sem razão (inteligível). Mais dolorosamente porque no fundo
estava a fazer uma qualquer “boa” ação (ou tinha boa intenção). O sonho é o
lugar onde o tempo de vigília, seus confrontos, anseios, medos, frustrações,
são encenados. Em metáforas várias: o medo eram prisões subterrâneas secretas
num aeroporto sem lugar. Cães gigantes de olhos azuis atacando-a. A ansiedade
era a perda de noção do tempo, dia, hora, não saber se tinha de ir trabalhar.
No sono profundo há descanso, reparação. Nos sonhos,
um prazer (ou sofrer) secreto de observar e sentir além do espaço e do tempo - Imagens
de sítios que nunca se visitou; resistências ao movimento; alucinações mais vívidas
quanto mais instável o sono, quanto mais doente o corpo. (Serão os sonhos o somatizações
psicológicas? )
sábado, 29 de janeiro de 2022
Diário, 19 de Janeiro de 2022
[post-lexapro ou do ponto de vista humano]
Senti que nada cura como a felicidade.
Senti amor por tudo, por todos.
Chorei, mas as lágrimas não são negras. Ao contrário
do riso, que aparenta uma só face, a solar, as lágrimas são tudo - o passado, o
presente e o futuro. São as lágrimas o mais antigo hieróglifo humano. Se eu pudesse
dizer o que é o humano - é essa súbita, benevolente, irrupção. O vazio que se
enche a conta gotas até escoar finalmente. Suponho que não olhemos para dentro vezes suficientes - Ignoramos.
Esquecemos. A questão de quem não nasceu equilibrista - a amputação de uma
mecanicidade secular salvífica mas fria (poderíamos ser normais e ser?). Choramos. De não
saber se já se chegou a casa. O medo de não estar em casa. O medo de crescer,
de ir, envelhecer. O medo da corrente inevitável. O medo da decisão fundamental.
A divergência de caminhos. A fixação, a transmutação ou a evolução. Tudo o que
poderia ter sido. O pássaro, a libertação. Ou o confinamento e a dependência de
um amor que solidificou. A infância que ainda treme. Não sabia que me esperava também uma vida humana (?). Não
sabia que poderia também ser amada. Sabia que amava, apenas. Mas a casa sempre
foi vazia, os verões sem praia, os refúgios páginas e ginásios e piscinas. As palavras
- o refúgio sempre foram palavras. E eu espectadora. Quando viver é a coragem
de estar imersa, de escolher, dentro de uma miríade de caminhos. Chorei. Agora
racionalizo algo - A vida acontecer-me. Podia eu não ser mas estar
doente?.
(Truman) Capote cantou sobre a harpa de ervas. A harpa
que não posso nunca deixar de ouvir e, na repetição dos dias sempre iguais, um
velho poema que escrevi - dar a volta ao mundo e perceber que tenho tudo
aqui. Amor. Pensei que a lógica era uma armadura, um subterfúgio do
conformismo. Ainda me sussurram sonhos de outros tempos. Mas eu queria parar aqui
para te dizer que a herança são as lágrimas que fazes nascer nas profundezas de
outrem. E cada abraço sentido. Cada partilha de sentimentos irremediáveis,
frágeis. Encontros, toques, choques, beleza. O sagrado é o entrelaçar de dois
espíritos. Que a vida é muda para quem vive só.
- Dançar sobre a tirania,
erguer o olhar, lutar com esperança. Esperança com chão, com voz, de carne.
Esperança no mundo já que a vida nunca nos enganou de facto. Esquecer-me do meu corpo na plena presença do
espírito. Todos os órgãos funcionariam?
Cada vez que me abraças na noite.
Eu morro em paz.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Umbilical
esquecemos que as flores eram lesadas
pela sombra do amor
sempre estivemos ligadas
a tua dor é a minha, mãe
/
Descartes
há um abismo que mora dentro
que explode imaturo
tempestades de granizo
sob pétalas inocentes
como se a dureza fosse vida
como se as coisas mais preciosas não fossem
perigosamente frágeis
nunca me esqueci daquele quarto
daquele edifício
para onde vão os proscritos
no mundo olham para eles
como culpados
como se tudo se tratasse de uma vontade mágica - viver
Reflexôes sobre a obra Tempos Hipermodernos de Gilles Lipovetsky
Talvez não sejamos niilistas completos: a mercantilização da vida também reforça os direitos humanos, a democracia. O individualismo ( (se não for demasiado profundo) paradoxalmente dá nos uma noção de valor e empatia para com os sofrimentos do outro. A desilusão das grandes ideologias/utopias desaguou um mundo mais apolítico, onde o neoliberalismo toma rédeas, mas não nos tirou toda a consciência de barbárie que também se mostra de modos não sangrentos mas subtis, na precarização laboral, na desigualdade social, na exploração das massas. A dessacralização do mundo reaviva novas formas recicladas de espiritualidades, sincretismos, identidades. O culto do presente não flutua num imenso efémero hedonista mas está também carregado por ansiedades futuras, bem como por necessidades de novas formas de estabilidade estruturais no indivíduo anómico - hiper individualista, entregue somente a si, hiperinvestindo em si, num consumo que atravessa o material e chega ao consumo emocional.
Já não somos pós modernistas no sentido de revolucionar antigos papéis e sonhar futuros promissores de liberdade e igualdade. Somos hiper porque as categorias se confundem e vivemos assoberbados pelo presente, por uma cultura de eficácia, velocidade, consumo, lazer, trabalho, individualismo, revoluções tecnológicas e mercados financeiros. Os ideais ficam esbatidos, as lutas adormecidas, o futuro em aberto. No entanto, depuradas pelos massacres da História ficaram réstias de verdade, de fundamentos inerradicáveis, que ainda acordam em todos nós e clamam por realização. Mais que autómatos, temos de analisar o mundo, tão mais imperativamente quanto mais rápido este corre.
Dissecação do antropocentrismo e do racionalismo que define o Ocidente como uma impressão digital que longe de ser congénita é histórica e socialmente adquirida. O conceito de dignidade, o especismo, a biotecnologia e os paradoxos concomitantes que enfrentamos no transumanismo tão próximo. A negação de sermos um animal e o separatismo inevitável, o divórcio com a natureza e a vontade de domínio e controlo. É impossível avançar tecnologica e moralmente sem uma reflexão profunda sobre aquilo que somos e para onde vamos. Despidos de pretensões de superioridade de raça, talvez possamos comungar e acenar com respeito para todos os seres. Talvez fossemos melhores, se nos víssemos como animais. Sem repressão da vergonha de nos vermos nus, da senescência, da morte. Com a empatia, compaixão, vulnerabilidade, hostilidade, medos e ansiedades. Challenger escreve com paixão, com maestria, num estilo que ultrapassa a mera objectividade da divulgação científica, conseguindo a tónica sensível capaz de chegar não só à mente como ao coração do espírito. Impactante, surpreendentemente simples o tema mas com repercussões paradigmáticas na discussão ética do presente e do futuro da evolução humana.