sábado, 4 de novembro de 2017



Do peso e da leveza.


Dizer-te que te amo mas me sinto - sozinha em espírito. E como é a carne, o réptil, em mim, que te ama, quando nos amamos nas noites. E uma fresta de sonho. De te colocar numa nova luz. De seres essa mesma luz atravessando aquilo que não nomeio mas podia ser uma doença. Ainda que esta se recolha para dar lugar ao riso próprio da minha idade ( às vezes, repentinamente, à visão da alegria alheia mais simples). Tremo com a sombra. Tremo com a beleza. Tremo de saber que tive anjos pedindo-me a mão. E eu fugi. A carne não é compatível com o espírito?
Amar a superfície é um compromisso constante com um desapego. Um divórcio com a vontade de profundeza e fusão. Aceitação das linhas paralelas que somos, afinal. Porque eu já me cruzei, eu já vi, já me viram, mas era uma dança sem fogo, uma dança feita de ar. A placidez de um mar aplacado, finalmente, e esgotado, sedento de ser tocado de outra forma mesmo que tivesse de abandonar essa dança de plumas.

Abandonei-me, acho. Para me ter no chão, para me sentir a carne, para me sentir no fogo. E amanhã abandono o fogo, disse, mas ainda não o abandonei. Digo, o animal é mais antigo que o espírito. O espírito acordou numa misteriosa e incógnita manhã. Com as lágrimas nos olhos. Oh, as lágrimas desfiguram o meu rosto? Ou dão-lhe vida? Dão-lhe alma. Mas a alma é tão pesada nestes dias. A alma é tão pesada neste mundo.
Solidão maior. Esta solidão depois da fusão dos corpos. Esta antevisão de futuro vazio. Esvaziei-me para não me doerem camadas profundas? Esqueci-me voluntariamente, conscientemente, mas a alma ainda grita no fundo de mim - contra os gestos e as palavras despidas de substância, despidas de visão e vontade de sanar qualquer coisa carente de infinito. Eu não sei, eu não sei. Mas sei deste entrave na garganta. Esta lassidão. E lá fora, eu chamei circ(o)lo. Talvez se eu fosse à cruz e descesse da cruz....tudo pareceria mais humano aos meus olhos? 

Agora ainda vejo - como tudo isto é nulo. Estes pensamentos, esta escrita, esta dor quase ridícula. Sou uma criança com vinte e um anos desgostada para sempre, como no dia em que lhe falaram de como o mundo girava indiferente sem nós, depois de nós. Inocente. Nada é para sempre. Só em ti a (ilusão ? de) permanência do teu maior sonho e amor.
E talvez eles tenham razão. Talvez o circo-lo pudesse ser o paraíso. Ou o paraíso mora dentro. E dissipando o excesso, os labirintos, os significados, as buscas, os sonho, a longa e antiga saudade, me deixasse mais leve. Fluiria como tudo o resto. Mais no meio de risos do que de lágrimas e contrapesos no coração. Até ao esquecimento inevitável. Que cobre tudo. O mais leve e o mais profundo, afinal. 




MF






segunda-feira, 16 de outubro de 2017



Vozes e visões internas:

Eu vi- centenas de candeeiros apagando-se à meia noite. E a vila, toda a cidade, cessando de existir, engolida pelo breu. Uma imensidão negra sem contornos. 
Eu estava no ponto indefinido onde assistia a esse apagão, diante do meu corpo e mãos que também não via. 

Talvez o primeiro apagão se tenha dado em mim. Seguindo-se tudo o resto. 
(O mundo precisava de mim, afinal?)

Nunca esperei adormecer, mas adormeci.

Ainda respiro, sem nada poder tocar. Duvidando da existência de tudo. 
(Afinal, tudo se cobriu de breu).

( - "Estou no final do jogo? Haverá vida ainda, por detrás desta curtina? É só um fenómeno de luz e de sombra? ")

 Dar forma ao mundo depois deste sono, desta escuridão...Tudo se erguer, outra vez, estar cá sem mim.
(Mas como é sem mim? Quem me assiste para mo dizer? Agora, nesta hora, nesta meia noite?)

Eu sei como pensei perecer tantas vezes. Mas a vida, o tempo, a idade, acumulam-se. Acumulou-se-me no sangue mais amargura do que esperava. E não esperava adormecer.
Mas havia, há ainda, uma pérola dentro. Maculada, envolta em sal. É o meu eremitério, meu altar de infância, é o meu amor e o meu tremor - a minha Inocência. (Pudesse) Sobreviver - ao raso, ao baixo, ao frívolo, às correntes, aos desertos, ao vazio, às cruzes, aos apagões de tudo....

"Para onde me virar se não tenho (ou vejo) centro? "
- Pensei que havia mapas dentro. 
Guardados, escritos, debaixo do nosso sangue. Antes mesmo de nascermos...


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(A Saint-Exupéry) ( Escrita corrente)

Drones subaquáticos. De novo a flor e o seu perfume excruciante. Envolta pelo fumo de uma destruição invisível aos olhos de todos. Olhou, para o humano. Beijou-lhe a fronte. Disse que era o gesto universal que nela se tornou o único a poder dizer, em silêncio, sobre a fidelidade e sobre o amor através do medo. Talvez uma ilha!, é uma ideia que se escreveu mil vezes. Como todas as coisas mais humanas, atravessa as eras. Esse mundo dentro do mundo dentro do mundo. Sabias? Queria ouro derramando-se como alma transbordando nua da carne. Falava de cristais brutos mas cristais. É tão urgente, neste mundo, dizia a flor, sermos mais que aquilo que nos fizeram crer. Tem coragem de mergulhar, nesse lago. É fundo e gelado e solitário. Mas não fujas, ela dizia, não fujas de te encontrar, esse cristal, esse cristal, desespero por cristais. É que eu acordei num deserto, quando acordei, havia uma tempestade de grãos chocando-se e eu no meio quase sufoquei o meu cristal.  A solidão era por de mais maior, no deserto. Quase quis dissolver-se, ser pequena, um grão entre todos. Mas não. Há um sonho que lhe abraça os ombros. Um mundo dentro do mundo dentro do mundo. Se te juntasses, apenas, a mim. Seria tirania? Esse abandono do deserto por outro deserto. Nesse antigo há festas todas as noites, grãos chocando-se, aquecendo-se. No novo há uma desolação. Primeiro, profunda, fria, tenebrosa. Depois, familiar, e apenas melancólica. A flor orou - que o amor fosse o esquecimento do mundo. E contra o peito, um anjo. Contra a cabeça nenúfares brancos. Contra os lábios uma canção - que não fosse o silêncio vazio no humano depois das interpelações do cristal. Como duas linguagens de dois mu(n)dos, quebrando-se no cruzamento. Ela arrancou-se dessa terra, disse-lhe adeus de longe quebrando a imagem desse beijo.
Escorreram gotículas através das pétalas. Do cristal chorando. Interno, cravado, um cristal tremendo, não duro como diamante, antes da matéria frágil dos sonhos e da inocência. Porque queria o impossível como a Lua de Calígula. Mas sem rasto de fome em si. Só um rasto de desamparo de criança. Pensou numa nova porta. Pensou nesse humano pegando-lhe, rendendo-se, ao sacrifício da fusão. Dolorosa e gloriosa.





MF


quarta-feira, 11 de outubro de 2017




(Ouvindo  A Silver Mt. Zion ....He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms


podia jurar-te as crisálidas no sangue
as flores, o riso, o sem peso
eu ultrapassando as fronteiras com que me achei cercada junto ao peito. feitas de jaulas e assombro e tenebrosos céus. peso, digo, um insidioso acidente, encontro do espírito com outra coisa que não a vida. dentro dela. uma consciência, uma visão, uma separação, um choro, um recém nascido para sempre lançado no vácuo do espaço infindo. para sempre chamando mãe. todos os dias uma camada de estanho sobre as pétalas. metal liquefeito cobrindo a cidade. um mar viscoso, um circo sitiando-me. 
sitiando-a. ela está numa ilha movediça. 
num desconhecimento venturoso, ela soçobra das pequenas luzes. e da beleza inocente.

*

No limiar do assomo das emoções mais baixas ela pára-se. ela sintetiza uma indiferença quase monolítica, artificial, não mais honrosa que uma fuga. mas a fuga é humana. mas ela quer ser mais que humana enquanto foge. (para quê, de quê?) da substância da mesma carne dos homens mas com vitoriosos e insidiosos desvios do espírito ( para um paraíso perdido? ). e os caminhos fortuitos querem-se pintados na esperança, querem um ordenamento cego mas sapiente. como um crescimento vigoroso sobre as diretrizes de uma força ancestral e automática. assim será o teu voo. assim será, digo-o sem confiança. porque também só vivo do que posso vislumbrar ao alcance das minhas mãos. não possuo a bússola sobre-humana. não possuo uma razão maior, um sentido maior, para te outorgar. tu, tu és eu, desde sempre e para sempre. gostava de poder saber mais que tu. apenas sei parar-te de desceres para lugares menores. sou, no máximo, teu Eu Maior. teu eu maior tremendo na montanha, mas, na montanha, com uma abrangência temporal mais vasta. Eu páro-te do medo, eu páro-te do desterro, eu páro-te das lágrimas vulgares. Somente as extraordinárias poderás verter. Deixar-te-ia morrer. Somente das mortes certas. Nunca das mortes que te decrescem. Apanhar-te-ei num radar, num chão sagrado, eu antevejo com o coração titubeante esse sonho de renascimento. O esquecimento do céu ser-te-ia, finalmente, impossível - gravado na tua própria carne e espírito, unificados, sendo a resposta. Serias a resposta viva. Menina, ouve-me, afinal, sou tu.


*

É urgente firmar-te todos os dias no solo liso e pleno, salutar às tuas asas ( ainda presas debaixo da carne). Um dia viste-te com a luz dos anjos. À luz dos anjos. Agora persegues essa frequência do Ser. E perguntas-te ( já não te lembras), se a melancolia será ainda auréola. Como o negro tingindo o fundo das estrelas.

*

Já não se vertem. Às vezes infiltraram-se num deserto. Pergunto-me aonde foram. 
Vertical mas sem força. Serena mas antevendo sismos interiores. Um dia, uma hora. 
Porque o futuro chegará sem mim. 
Sem mim porque despida, vazia, de todas as flores que um dia quis, para o meu jardim.
( mas eu não sabia se essas flores eram realmente minhas, eram as flores de toda a gente.)

*

Anseias a vida para sempre. A vontade. A sede. A alegria do coração. As manhãs abertas. As visões, parafernálias de lugares e sentimentos e gestos, a aceitação nostálgica e a prontidão aérea para mais e mais fundo. Mais fundo até às estrelas. Assim é - no auge, os pólos invertem-se ou igualam-se entre si. E tudo seria benigno. As cicatrizes limpas. Desbotadas. Quase invisíveis. Quase. Afinal, és viajante do tempo.  Como poderias crescer imperturbável, imutável?

*
a aventura foi descobrir o início outra vez. 
o riso, outra vez, a leveza e o amor por tudo, outra vez. 











ora, as cruzes pesam
com todos os sonhos idos
desmedidos, inconcebiveis aqui
abstratos pássaros feitos de ar mais intocável que o ar
uma miragem
uma impulsão
um coração bombeando outro coração
este coração, herdeiro desse velho
abstrato coração
tinha a textura das rosas
o perfume dos ceús
tinha as asas de um anjo
invocando o futuro mas sem futuro
nascido, desabrochado
de uma fé quase criança
e labaredas singelas

não se sabia do medo
nem de que o mundo se podia dividir
numa visão inconcebível à razão
(mas sussurrante ao espírito)

nós parámos num limbo
e hoje só há hoje
travado numa incompreensão
estranhamente familar

e não sei da luz, mas sei da natureza da sombra
então incorro, arrasto-me, aninho-me
dentro da vida em mim

(há de haver asas que nos despreguem desta cruz.
de um peso tão vivo que esmaguem o peso morto)



sexta-feira, 22 de setembro de 2017





Memória musical:

Ouvia Kelso Dunes enquanto o carro atravessava o carreiro por dentre a floresta. Parecia infinito. Parecia impossível - encontrar mar do outro lado.
O céu com mais estrelas do que tinha visto até então. As luzes do carro iluminando a estrada e um estranho sentimento no meu peito - como estando num planeta distinto, uma paisagem alienígena tirada das páginas de sonho de um insone intergaláctico com paixão pela desolação escura e majestosa à sua maneira. Pontilhados de sugestões sinestéticas familiares, árvores da Terra, mas um todo da essência psicológica da solidão mais absoluta. Familiaridade alienígena. Uma fixação liminal de mim separada de mim perguntando-me a mim  - Porquê esta tristeza sem razão?  Porquê o peso nas pernas e nas pernas do espírito e do coração? Porque me custa tanto partir de casa para novos lugares? Porquê o terror de estar tão longe de casa? Porque sinto a melancolia sem fonte reconhecível? E na noite, o céu na praia recompensou-me a angústia da loucura breve - a via láctea nítida como nunca vi. E as estrelas cadentes a renascer-me o riso e o assombro  - a criança em mim. Eu estava longe mas orgulhosa de me ter puxado através do cansaço, do adiamento do novo. Não via nem sequer o mar. Não tinha noção da distância dele até a mim. Somente a imensidão do céu galáctico sobre mim. Mais tarde a lua cobriu a praia. Agora já via: a areia cinzenta, o mar negro. De novo o sentimento alienígena no meu peito mas desta vez sem vestígio de medo. Escorreguei na duna que perfazia uma espécie de muro e caminhei até ao mar. Tinham razão, pensei, o mar à noite é quente. Na extensão da costa via pequenas luzes das canas dos pescadores, como esferas flutuantes, animais de luz enaltecendo ainda mais a minha visão. O fim do mundo pensei. Um mundo feito de noite com algumas sombras, como aquele mundo num universo paralelo do primeiro volume de Nárnia (mas sem ruínas). Desolação gloriosa.

*

O sentido é aplacar a descendência. Criar testemunhos, mediante as palavras,a música ou uma poesia viva que reverberou em círculos de humanos. Esse grande transcendedor do físico, vencedor. Essa superação metafísica da fragmentação do mundo que se faz aquando os embates da morte e da dor. É possível viver no contexto deste circ(O)lo, desta superfície mesquinha, e navegar fundo, comunicar fundo com aqueles que lúcidos também tremeram. Mas prosperamos - no mundo dentro do mundo. Dentro do mundo que é só terreno para o movimento dos nossos corpos e dos nossos espíritos.
Eu jurei que podíamos fazer paraísos entre os nós.
Explorarmos juntos toda a metafísica e mistérios antigos e num desprendimento esclarecido caminharmos não para a autodestruição mas para um aperfeiçoamento vário. Escrever a sangue à descendência incógnita. Caminheiros da mesma provação. Ignitores das células mais fracas, mais amendrontadas. Nós esquecemo-nos, eu disse. Nós esquecemo-nos no princípio dos tempos. Era a condição para viver aqui. Mas só me lembro, só intuo, melhor dizendo, que temos de acender as labaredas do espírito, rir alto, correr mais longe que a dor do corpo.

Agora há a morte e acordámos do nosso sonho. Mas estamos mais juntos que nunca.
Bem sei que vivi e não há (o) nada. Há uma florescência. Há uma decadência. Há o findar (de uma história) a meio de ambos idealmente (?) Ou uma caminhada triunfante até ao fim?

(não me fales da morte em vida - corpo caminhando de alma adormecida. Alma estirada entre duas realidades irreconciliaveis. Dois estados quânticos, dois planos impossíveis de sobrepor. Eu sei. Eu sei da loucura. Eu sei das lentes horrorosas que mostram o horror à nossa volta. Mas também sabemos daquilo que não demos nome. Por isso é tão fácil esquecer - não tem nome que possa puxar à consciência uma imagem, uma ideia. Somente a memória me salva. A memória com resquício de uma certeza de Absoluto. O pólo oposto do Absurdo.)




MF




domingo, 30 de julho de 2017





mais que um recém nascido já chorava
 - antes do mundo (me) doer.

30 de Julho de 2017


chorando outra vez ao som da mesma canção

Perguntando-me
"- como se fazem os lutos"? *
como se terminam as coisas na vida que não têm forma?
que não têm tamanho, nem sabor, somente uma essência
a nossa não denomino, por nenhum nome,
(tal como) não chamaria deus por nenhum nome
catalogando-o num só som
somente e só uma palavra aberta que a tudo remetesse
de inefável

amanhã foi nada
amanhã foi nada
mas sorri porque foi (quase) tudo

primeiro, as comportas quebram-se
depois, ordenam-se, para um novo dia
(no amor sem fronteira, no amor sem espaço nem tempo)

tu nunca morreste verdadeiramente, repito
nunca morremos verdadeiramente
agracia a dor - sinaliza profundidade

sinaliza o abandonar vazio da ideia de céu no teu peito
mas ele está lá
sempre esteve, apenas te esqueces
pelas ondas à superfície de humano, de animal
um abraço que tudo purgasse, um beijo que tudo esquecesse

e tudo finda mas nada vai morrer
dentro de ti
nem tampouco matar-te
porque és da substância dos deuses e dos homens
casados num misterioso dia em que choraram pela primeira vez

e todo o passado se ergueu, se sacrificou, se esvaiu
em lágrimas e suor e risos
e tudo foi sempre um tropeço,
tua pele regenera por cima das feridas

sorri porque não há tempo para pedir tempo
não há tempo para dúvidas
no palácio da oração do coração contra outro coração
entrelaçados por acidente
mas somente firmados pela vontade e pelo amor

sorri porque ontem te levantaste de um sonho mau
tiraste-lhe a máscara, despiste-o de peso
era só um farrapo, véu menor, dor menor
ponte para te lembrar do teu ser
porque tu és sozinha antes de tudo o resto
tu, tu não te esqueças de ti, no dia da tua maior luz


a memória é somente uma história
a memória não te pode ser poço
não te pode ser fosso, roubar-te
de ti e deste sol preciso

mas claro que te dói - essa ideia de casa
e a melancolia tomar forma numa razão real
numa despedida real

(como se acaba? como se lembra de nascer
depois de estar viva sem memória das pequenas mortes?)

não dês razão à melancolia
não dês razão ao peso nas tuas temporas
são só cascatas na pressa de quebrar
na pressa de te reunirem à longa maré humana
entre a espada e a parede, escolhe sempre a espada
não fujas da dor que te cria e expande e apreende
tu respiraste melhor depois da tua maior corrida
tu, tiveste mais energia ao fim desse dia

diz adeus à forma mais inocente de negligencia
purga-te no teu karma e vive

demora, mas nasce
demora, mas nasce.

( a dor vai ser sempre um poema)


MF

*  (e ninguém responde, mas sei que sei sem saber porque escrevo depois do sangue)














quinta-feira, 27 de julho de 2017




Escrita automática

27 de Julho de 2017 
1.43h


adoro a loucura
fluidez ininterrupta, estilhaço na veia
vislumbre de cura 
terrenos espumosos, desvios insidiosos
altares de ternura 
pedaços de pura (intuição ) 

  saber-me rendida, numa cruz pendida,
num farol obscuro eu vi:
as areias fazendo-se mar
a justiça traçando o eixo
o medo, trejeito da enevoada loucura contra o espelho
eu vi eu caí eu sorri
eu cai eu chorei abandonar-te antes de te abandonar
por fingir ser humana
despi minha loucura
despi-me para te beijar
e fazermos sentido
mas só carne não me enaltece o espírito
não me rodopia aceso o espírito 

contra o infinito
eu vou amor, eu vou de ti até mim outra vez
minha loucura esteve fechada, em mofo e fétido ar
não me olharias se te mostrasse
  o sem sentido ouvido e sofrido
  o sem sentido sentido pressentido em vagas palavras
caos conducente, caos amorfo, caos labareda
eu quero mais agora que o teu corpo
eu quero uma totalidade circunscrita (na carne)
eu quero que me leves e tragas de volta firme

 - na minha loucura.

*

Ardemos juntos no fogo
sangue contra sangue
grito contra grito
mas que fazemos depois? 

 - no silêncio do mar minha alma sangra 
da ferida entre-aberta do mutismo entre nós.



MF


segunda-feira, 24 de julho de 2017




dava-te o meu céu e quanto ao inferno
atirava-o para ontem
e roubavas-me de ver amanhã
firmavas-me aqui
garantias-me cada segundo com os teus olhos
 - que estás aqui,
que estamos juntos além do espaço
e mesmo na solidão de nós, estamos um com o outro.








23 de Julho de 2017 ( Diário)

"  - Leva-me ao colo, disse, - se adormecer."
E tu levaste-me, os meus olhos fechados, levaste-me e estas cenas perfazem a vida. Ou tudo o que importa nela - o calor. o amor, simples e sinceros.
E eu virei-me no escuro para te agarrar. Estava frio dentro da cama. Quis ouvir-te - teu sangue, tua respiração, sentir, teu calor. E o desejo cresceu como sempre cresce nas noites. Mas o cansaço do dia era maior e então fundimo-nos de outro modo: do modo mais humano, afinal, do modo mais amor, afinal - além do frenesim da carne e do sangue de outras noites; a própria candura do céu feito no toque abraçado de dois corpos amantes em silêncio, no precipício calmo e hipnótico do sono.
Sei quanto te amo, mais hoje que nunca. Amo-Te. Não preciso de dizer o Teu nome. E se bem que as lágrimas sempre permaneçam dentro eu sou mais feliz que nunca. Felicidade como um tesouro permanente que tenho em nós, por mais oscilações emocionais que existam. Eu sei. Mas quero aprender contigo - a transcendência do medo e do apego. Tenho medo de não me lembrar de mim sem ti.  Quero um apego com memória de mim e do meu espírito. Quero um apego sem dor. Quero um apego livre no seio do Amor.

Falo da noite mas que dizer do dia? Tinha saudades de me rir assim contigo, como o vejo agora na memória. Não vos posso escrever as imagens. São das mais simples. Somos só nós e chega, não há ciência, não há linguagem e eu quis que houvesse só para sossegar, esclarecer, a minha razão. Tenho medo, escrevi nos primórdios, mas quero sentir assim. Assim mesmo como te sinto mesmo que me doa às vezes. Sentir tanto. Querer explodir, êxtase, alegria e por fim a calma desse mar. Saber-te precisamente onde eu estou. Estarmos juntos além dos corpos. Estarmos juntos na frequência irrepetível do sonho vivo de Nós.


MF e  minha tentativa de escrever a felicidade.
to TS

sexta-feira, 21 de julho de 2017








Memorandos 21 de Julho


(escrita semi-automática, 2.30h)


eu queria gritar no silêncio as visões perdidas

os pedaços caídos

as visões estendidas
o lençol de cores da minha-tua memória
e saber-me ao teu lado é o mistério que não compreendo dentro
e o mistério onde me afundo fora
ignoro profundo (?)
cai-me, o coração, mas eu ando pelos dias e vou até à ti e se apenas me segurasses de saber quem sou, se apenas me olvidasses da profundeza que me dói e amo pois nela me fiz 
mas não entendes? - esta lágrima atravessada na minha idade. esta lágrima peso bomba. cascata sem lágrimas. este céu triste no meu peito. este paraíso adormecido sem lugar aqui. eu escrevi-Te. e escrevi minha partida e escrevi minha (possibilidade) de chegada. eu escrevi (me), minha alma, e deixei-te os versos na tua mesa. aí mesmo ao teu lado. passaste sem os ver? dormes sem saber?- sobre o meu amor. sobre a minha alma. num sono que nada tem de poético, num sono que não me assenta no meu peito. procuro, vestígios urgentes da tua alma depurada em horas solitárias. procuro-Te a ti, vendo-me, lendo-me, pausando-te da superfície e do velho mundo que conheces desenhado a quatro paredes e um ecrã.
estou ao teu lado e não me vês. navego no mar profundo que cavei esperando achar. amputada do que não sei tentei agarrar uma mão, tua mão pintei de mão-deus, tudo em ti pintei de esquecimento e salvação. porque és um corpo feliz de silêncio. mas preferia ouvir-Te. preferia que te animasses de espírito a animar-Te nas notas tristes do meu sonho de alcance e trespassamento e fusão.



nada me resta a esta hora senão segredar-te, debitar-te a loucura que não conheces nem poderias saber. isto que dói sem Te poder dizer - o mundo e teu silêncio. o mundo e teu silêncio. o mundo e tua ausência perfazendo mais mundo, separando-Te de mim. queria Te de mim. queria Te da minha alma, queria Te fora deste mundo no paraíso nosso onde falamos noutro silêncio.

gravuras de vidro, oceanos estendidos entre mim e tu. impossibilidade perdida e refém de despedidas. eu vi finais em vida. eu despeço (me) (d)o calor pelo quê? eu sou humana mas primeiro sou o quê? para Te mandar assim embora de mim? (porque) primordial em mim esta lágrima que não se aguenta sozinha junto à ausência de ti contra mim. queria Te em mim. tenho as páginas escritas a sangue sobre a mesa e não as lês. estás acordado agora e não as lês. adormeceste outra vez?

bem sei dentro de mim que o que vejo em vida nunca esteve acordado, só dentro e é tudo, dentro e não chega.



*

eu vejo uma criatura tentando fundir dois eixos de dois mundos. um deles é muito denso, pesado, profundo. e apaixonou se pela leveza cega do outro eixo. e o casamento deu-se no sonho, mas (quase nunca?)/não na vida.
a felicidade dava-se nos bastidores amantes, nos bastidores sedentos de realização de outro amor. amor transmutante. amor asa delta. amor sentido até ao ínfimo, último grão, estádio de sentido. sentido em cada gesto, sentido abraçado, beijando cada eixo. 
o ferro rendido. vergado. fundido. 
essa crucificação, surpresa atónita, essa palidez mortal, dissolvida para sempre no sonho (sono?) profundo da alegria.



MF






terça-feira, 18 de julho de 2017




Memorandos Julho


13 de Julho:

Antes sequer de me tocares és
-o meu paraíso mais humano.

17 de Julho (madrugada):

Vai-te doer tanto - a memória
mas fecha os olhos - no quarto escuro das essências
que vês nele que aprendas? que vê ele que transcenda? o corpo...)
não entendes? a pergunta última - se faríamos também amor - com as essências
mesmo o teu olhar é ainda corpo, é ainda rosto
quão cegos estamos, pelo corpo?

*
Amor, preciso de ficar sem ti para criar (em som) - o palácio triste da tua ausência
Amor, (às vezes) és tudo o que deturpa o meu espírito
a incompreensão de ti, a sede de ti
Amor, tenho tanto medo de só sermos corpo
(o espírito em mim apagado pela carne)
Amor, ver-me ias sem corpo? com os olhos doutro rosto, o Invisível em mim?
 - as perguntas que faço, a profundeza que assisto, o cristo em mim, o demônio em mim, a criança em mim
ninguém compreenderá, Amor?
Então talvez fique sem ti porque me doa essa ausência inocente de ti além corpo.
Amor, só tens sono, cansaço, perto de mim? Amor, tens a memória do início do (nosso) amor?
 - agregado desconexo de memórias sempre pontilhado, atravessado, por uma lágrima
tom de lágrima que nunca viste, tom de lágrima que aponto com as palavras. Inexistente metáfora. (Quão mais é inexistente nesta viagem? Só dentro a intuição, a sinestesia, o carrossel de poesia?)
Deus sabe - como te agarrei algumas noites. Tu sabias? Enquanto o fazia, tu estavas em nós ou sempre em ti?