quinta-feira, 24 de maio de 2018









~ Androcles e o leão



Perguntava-me porque destruías tudo em volta
e se a razão era um espinho
no teu coração.


MF

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018



memorando, noite 22 de Fevereiro de 2018


(Dentro de mim somos o mesmo) (?)


Uma tábua inscrita com a sensação do dia
Um fundo onde sei que tem de estar tudo se bem que digam ser impossível
Ter-te guardado
Cada dia
Mas só o Amor, só o Amor se gravaria dessa maneira
E os feixes, as imagens, os quartos, as noites, os dias,
As tentativas de fusão, o peso no coração,
O decréscimo do eu diante aquele que amo,
Temor e medo e amor,
Eu sei que está tudo aqui, aquilo que não acesso, aquilo que não me lembro,
(eu só me lembro que jaz lembrado em algum lugar, passível de ser lembrado cada segundo que não me lembro )
Aquilo que não construo a partir nem se desenvolve ateado por um simples som ou imagem ou sorriso. É in media rés - a memória, fragmentada em pedaços com o peso do mar que só eu vejo. É solidão, é solidão outra vez e para sempre.
Só tu vês. Só tu o vês. Não te sabes sob os olhos dele, sob o coração pintor. Do outro lado é alguma coisa que desesperas por saber. Esse olhar através de outra lente. Morrerias menina, morrerias se soubesses o que é ver por outro coração porque terias de ser esse coração. E então desaparecerias. E já choras esse nada. Prometes que não há o nada. Não há a morte resoluta e lógica cheia de nada. Ou a morte é como esse lugar incomensurável e misterioso da memória - onde tudo está sem que te lembres. (E a paz está em saberes que está la)
Tudo lá. Tábua vagamente inscrita, é um nada se fechas os olhos para lembrar. É uma certeza cega mas certa, saber fundo, lágrimas fundas. Tem de ser. Tem de haver. Esse lugar. Diz-me também se ouves essa voz que Nos garante. Todos os dias de verão. Os primeiros dias do recomeço do meu coração. As sensações que nunca senti, ali. E estás comigo. És real. E as tuas imagens inalcançáveis como as minhas.
Mas desespero por saber - se são também toldadas por lágrimas e por esta saudade-bomba por tudo.



MF



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018



Meditações sobre a Teoria dos Sonhos de Freud:



Acabei o primeiro volume e pensei (ainda que deva reler certos capítulos):
Será estéril encaixar cada sonho numa só teoria ou paradigma.( Como Freud, em certo sentido, concorda, no entanto, no seu processo psicanalítico tenta provar que cada sonho, podendo estar deformado, é " a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)".

Mas, como tentaram provar a Freud, há sonhos que não se parecem em nada com realizações de desejos, recalcados ou não, ( por mais mirabolante que possa ser o esforço de interpretação nesse sentido como realizar o desejo de provar que Freud estava errado!) mas sim (opinião pessoal) como criativas e misteriosas representações de ansiedade. Pensando nos meus próprios sonhos, muitos deles parecem mecanismos de produção de ansiedade, ou melhor, esta é o sentimento de fundo, contextualizada por um cenário ou narrativa que a justifica e que em geral está ligada a tarefas infinitas, a loops infindáveis. Hoje, por exemplo, sonhei que havia uma grande festa na minha terra. E de repente perdi a localização da tenda correspondente ao café onde trabalho, de modo que fiquei à deriva com o dinheiro de três pessoas ( que queriam pagar, respectivamente, um café, dois cafés, quatro cafés, acenavam-me simbolizando com os dedos ao longe, aumentando assim ainda mais a minha ansiedade por não ter o troco para lhes dar.)

 Ao fim do que me pareceram várias horas, continuei perdida, (e descalça), correndo por dentre a multidão e uma miríade de tendas. Dei por mim sem o dinheiro das pessoas a quem tinha de encontrar e dar o troco....Por fim, encontrei um amigo (F) que finalmente me disse a localização do sítio correspondente ao meu café ( uma espécie de prédio, tive de subir as escadas às escuras e fui buscar a minha carteira para repor o dinheiro que tinha perdido.)

Deste modo pergunto-me -  terão esses sonhos alguma função ou interpretação além do conteúdo manifesto ( o meu desconforto relativo a situações de stress e confusão)? O sono não deveria ser um momento reparador? Esses sonhos por vezes fazem-me acordar desgastada como se eu tivesse, efectivamente, passado pelo mesmo que o meu eu dos sonhos. Será que são somente representações dos nossos receios e medos da vigília e há um intercâmbio com o nosso inconsciente, que, talvez nunca cesse e continue a reproduzir, do seu modo mais ou menos simbólico, mais objectivo ou metafórico, as nossas preocupações diurnas, quotidianas? Será que ao sentirmos essa ansiedade em sonhos nos preparamos melhor na realidade para ela? Como uma espécie de reinforço dos circuitos relativos ao controlo da ansiedade, algo análogo aos "neurónios espelho", cuja o mero pensamento de imitação mental de um gesto faz com que determinado movimento seja aperfeiçoado realmente...
Fará mais sentido que esta ultima hipótese tenha alguma validade se acreditarmos que absolutamente nenhuma energia no nosso corpo, no nosso cérebro, é gasta em vão. Então, durante a noite, há um mínimo de energia que é dispendida para os processos vitais da respiração, da circulação sanguínea e, ao nível cognitivo, para uma restruturação, limpeza ou aperfeiçoamento do controlo de factores emocionais, mais que um mero desgaste gratuito que replica as nossas ansiedades sem uma razão e nos atormenta com pesadelos?








sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018



(Memorandos)


Comecei-me a dispersar
Borboletas de papel
Nasciam e morriam todos os dias
Ideias
Nascentes
Correntes
Torrentes
Um mar onde era
Um mar onde fui
Um mar onde seria
Borboletas de papel
Todas possiveis

*
Quero ser só fundida a tudo
E tudo ser resposta
Reconciliado com esse saber
Praia no coracão
Futuro-passado-presente
Embebido de sentido
Sem palavras sempre
Mas permanente
Tudo aceite e antevisto
Sem estertores
Sem tambores
De estrépito ou guerra
É que a vida era uma flor
Sem futuro porque
Desabrochada agora

*
(ad infinitum)
Acordares prematuros doem sempre
Mas é dia
A manha é fria mas bela
E não entendes mas sabes
Dos rios dentro de ti
De lágrimas e risos
Por toda a existência

*
(sonho)
Ondulavas sozinha na noite
Teu amante era um espelho
*
Os nervos envoltos
No lampejo da ultima Primavera
Não queria deixar ir
É a vontade de permanência em mim.

*

(12 de Janeiro) (caderno de sonhos) " Percebo que está amputado, cego... O meu coração cai-me dentro."
Não tinha olhos
Eu ouvi
Tua-nossa voz dentro da minha cabeca
"Se ao menos eu tivesse os meus olhos"
Sim, eu vi - parcialmente
Tua-nossa cegueira. 
A casa mais escura e um filtro esverdeado, abismal
Tudo estava contaminado até ao espírito
Lentes caídas numa lama sem nome
Incompreensível aos nossos coracões
Eu senti teu terror irmão
Tua prisão
Tua escuridão
E tive de acordar
Mas não houve expiação
(só no esquecimento?)
Porque não era somente um sonho
Era aquilo dentro de ti,
espraiando-se pelos dias.


MF



domingo, 7 de janeiro de 2018








mini carta


...estava exausta. o esforço de uma nado submudo. Em silêncio via-nos e chorava sem lágrimas. Agora escrevo-Nos. Tenho um monumento de mármore cobrindo o meu rosto e o meu corpo. É que as lágrimas correram noutras noites. Avaria, combustão, implosão interna. Meus nervos mais que sensíveis deram-me ambos: o céu e a melancolia da solidão do amor. Nervos - salvando-se do excesso de amor, hoje apagaram-se e apagaram os meus olhos. "Mas ao menos fui feliz", pensei eu como se os dias fossem cinzentos a partir de hoje. Chegaste e choraste ao meu peito e as lágrimas ficaram-me dentro. Afastei a memória para não doer. Porque apertei-te como a mais ninguém. Nos dias e nas noites. E respirei-te e beijei-te a testa tantas vezes, minha criança e homem e rapaz. E não sei acabar o infinito em mim, o infinito simples de nós. Dentro de mim ainda estamos juntos ( e não queria acordar). Mas se nos lembro no início de nós...melancolia feliz - todo o amor em núcleo. Toda a presença de corpo e de espírito. Toda a solidão e medo excomungados. 

Ouve os cd´s outra vez, e lê os poemas quando fores velho. É que a melancolia e nostalgia envelhece-nos. E não há como seguir para novas paisagens, amores, erros, lições, sem que larguemos as âncoras do céu do sonho que fizemos a dois. Está na minha cabeça - tudo aquilo que nunca irei poder dizer. Porque a linguagem nos limita e nos prende como a gravidade a um chão e a memória é um céu - infinito e intocável como as estrelas. E tu viste-me sem te veres. E eu vejo-te sem me ver - como sou na tua memória. Só há uma palavra que se aproxima da nostalgia e beleza que nos sinto - Obrigada.  


Amo-Te.

MF


sábado, 6 de janeiro de 2018






Nervo vago

Senti-nos e senti
que me faltavas
Vaga dor
Vago tremor
Chovia e eu chorava
Tu dormiste tarde
Envolto nos fumos
Que te apagam
Pensei
- Se a consciência te pesasse
Estaria sozinha quando cheguei?

Carro parado
Só a lua ao meu lado
Bem acima de mim
E eu ali
com o ontem dourado
no meu peito quebrado
porque tão perto e longe
Como é possível, pensei
Para ti só longe
Se ainda está em mim
Olhos vazios, os teus
Eu chorei.
Estava só
Não havia escadas
Para a beleza partida,
mas ainda viva
dentro de mim

Esta solidão bate mais
no coração
É a imagem de um tiro
no velho antílope
(outra vez)
Que ainda se erguia 
no sono da alegria
Mas estava só no amor
dentro da carne
Circunscrito
Ao peito, 
Ao grito, 
Ao mito,
Está ferido.
Estou ferida.
(Estaremos ambos feridos amanhã?)
Este vórtex na cabeça
Esta sede de sentido
Esta sede de infinito
Estas imagens:
Era mulher, era criança
Era dor era fogo era dança
Era derrota sabida,
Futuro desfeito no presente
Lágrima ,olhar caído,
Era isso:
 - Por aquilo que eu via e não sabias
Isto mesmo que escrevo:
Esta chama final assim apagada.
(Porque-quando sopraste?)



MF

sábado, 4 de novembro de 2017



Do peso e da leveza.


Dizer-te que te amo mas me sinto - sozinha em espírito. E como é a carne, o réptil, em mim, que te ama, quando nos amamos nas noites. E uma fresta de sonho. De te colocar numa nova luz. De seres essa mesma luz atravessando aquilo que não nomeio mas podia ser uma doença. Ainda que esta se recolha para dar lugar ao riso próprio da minha idade ( às vezes, repentinamente, à visão da alegria alheia mais simples). Tremo com a sombra. Tremo com a beleza. Tremo de saber que tive anjos pedindo-me a mão. E eu fugi. A carne não é compatível com o espírito?
Amar a superfície é um compromisso constante com um desapego. Um divórcio com a vontade de profundeza e fusão. Aceitação das linhas paralelas que somos, afinal. Porque eu já me cruzei, eu já vi, já me viram, mas era uma dança sem fogo, uma dança feita de ar. A placidez de um mar aplacado, finalmente, e esgotado, sedento de ser tocado de outra forma mesmo que tivesse de abandonar essa dança de plumas.

Abandonei-me, acho. Para me ter no chão, para me sentir a carne, para me sentir no fogo. E amanhã abandono o fogo, disse, mas ainda não o abandonei. Digo, o animal é mais antigo que o espírito. O espírito acordou numa misteriosa e incógnita manhã. Com as lágrimas nos olhos. Oh, as lágrimas desfiguram o meu rosto? Ou dão-lhe vida? Dão-lhe alma. Mas a alma é tão pesada nestes dias. A alma é tão pesada neste mundo.
Solidão maior. Esta solidão depois da fusão dos corpos. Esta antevisão de futuro vazio. Esvaziei-me para não me doerem camadas profundas? Esqueci-me voluntariamente, conscientemente, mas a alma ainda grita no fundo de mim - contra os gestos e as palavras despidas de substância, despidas de visão e vontade de sanar qualquer coisa carente de infinito. Eu não sei, eu não sei. Mas sei deste entrave na garganta. Esta lassidão. E lá fora, eu chamei circ(o)lo. Talvez se eu fosse à cruz e descesse da cruz....tudo pareceria mais humano aos meus olhos? 

Agora ainda vejo - como tudo isto é nulo. Estes pensamentos, esta escrita, esta dor quase ridícula. Sou uma criança com vinte e um anos desgostada para sempre, como no dia em que lhe falaram de como o mundo girava indiferente sem nós, depois de nós. Inocente. Nada é para sempre. Só em ti a (ilusão ? de) permanência do teu maior sonho e amor.
E talvez eles tenham razão. Talvez o circo-lo pudesse ser o paraíso. Ou o paraíso mora dentro. E dissipando o excesso, os labirintos, os significados, as buscas, os sonho, a longa e antiga saudade, me deixasse mais leve. Fluiria como tudo o resto. Mais no meio de risos do que de lágrimas e contrapesos no coração. Até ao esquecimento inevitável. Que cobre tudo. O mais leve e o mais profundo, afinal. 




MF






segunda-feira, 16 de outubro de 2017



Vozes e visões internas:

Eu vi- centenas de candeeiros apagando-se à meia noite. E a vila, toda a cidade, cessando de existir, engolida pelo breu. Uma imensidão negra sem contornos. 
Eu estava no ponto indefinido onde assistia a esse apagão, diante do meu corpo e mãos que também não via. 

Talvez o primeiro apagão se tenha dado em mim. Seguindo-se tudo o resto. 
(O mundo precisava de mim, afinal?)

Nunca esperei adormecer, mas adormeci.

Ainda respiro, sem nada poder tocar. Duvidando da existência de tudo. 
(Afinal, tudo se cobriu de breu).

( - "Estou no final do jogo? Haverá vida ainda, por detrás desta curtina? É só um fenómeno de luz e de sombra? ")

 Dar forma ao mundo depois deste sono, desta escuridão...Tudo se erguer, outra vez, estar cá sem mim.
(Mas como é sem mim? Quem me assiste para mo dizer? Agora, nesta hora, nesta meia noite?)

Eu sei como pensei perecer tantas vezes. Mas a vida, o tempo, a idade, acumulam-se. Acumulou-se-me no sangue mais amargura do que esperava. E não esperava adormecer.
Mas havia, há ainda, uma pérola dentro. Maculada, envolta em sal. É o meu eremitério, meu altar de infância, é o meu amor e o meu tremor - a minha Inocência. (Pudesse) Sobreviver - ao raso, ao baixo, ao frívolo, às correntes, aos desertos, ao vazio, às cruzes, aos apagões de tudo....

"Para onde me virar se não tenho (ou vejo) centro? "
- Pensei que havia mapas dentro. 
Guardados, escritos, debaixo do nosso sangue. Antes mesmo de nascermos...


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(A Saint-Exupéry) ( Escrita corrente)

Drones subaquáticos. De novo a flor e o seu perfume excruciante. Envolta pelo fumo de uma destruição invisível aos olhos de todos. Olhou, para o humano. Beijou-lhe a fronte. Disse que era o gesto universal que nela se tornou o único a poder dizer, em silêncio, sobre a fidelidade e sobre o amor através do medo. Talvez uma ilha!, é uma ideia que se escreveu mil vezes. Como todas as coisas mais humanas, atravessa as eras. Esse mundo dentro do mundo dentro do mundo. Sabias? Queria ouro derramando-se como alma transbordando nua da carne. Falava de cristais brutos mas cristais. É tão urgente, neste mundo, dizia a flor, sermos mais que aquilo que nos fizeram crer. Tem coragem de mergulhar, nesse lago. É fundo e gelado e solitário. Mas não fujas, ela dizia, não fujas de te encontrar, esse cristal, esse cristal, desespero por cristais. É que eu acordei num deserto, quando acordei, havia uma tempestade de grãos chocando-se e eu no meio quase sufoquei o meu cristal.  A solidão era por de mais maior, no deserto. Quase quis dissolver-se, ser pequena, um grão entre todos. Mas não. Há um sonho que lhe abraça os ombros. Um mundo dentro do mundo dentro do mundo. Se te juntasses, apenas, a mim. Seria tirania? Esse abandono do deserto por outro deserto. Nesse antigo há festas todas as noites, grãos chocando-se, aquecendo-se. No novo há uma desolação. Primeiro, profunda, fria, tenebrosa. Depois, familiar, e apenas melancólica. A flor orou - que o amor fosse o esquecimento do mundo. E contra o peito, um anjo. Contra a cabeça nenúfares brancos. Contra os lábios uma canção - que não fosse o silêncio vazio no humano depois das interpelações do cristal. Como duas linguagens de dois mu(n)dos, quebrando-se no cruzamento. Ela arrancou-se dessa terra, disse-lhe adeus de longe quebrando a imagem desse beijo.
Escorreram gotículas através das pétalas. Do cristal chorando. Interno, cravado, um cristal tremendo, não duro como diamante, antes da matéria frágil dos sonhos e da inocência. Porque queria o impossível como a Lua de Calígula. Mas sem rasto de fome em si. Só um rasto de desamparo de criança. Pensou numa nova porta. Pensou nesse humano pegando-lhe, rendendo-se, ao sacrifício da fusão. Dolorosa e gloriosa.





MF


quarta-feira, 11 de outubro de 2017




(Ouvindo  A Silver Mt. Zion ....He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms


podia jurar-te as crisálidas no sangue
as flores, o riso, o sem peso
eu ultrapassando as fronteiras com que me achei cercada junto ao peito. feitas de jaulas e assombro e tenebrosos céus. peso, digo, um insidioso acidente, encontro do espírito com outra coisa que não a vida. dentro dela. uma consciência, uma visão, uma separação, um choro, um recém nascido para sempre lançado no vácuo do espaço infindo. para sempre chamando mãe. todos os dias uma camada de estanho sobre as pétalas. metal liquefeito cobrindo a cidade. um mar viscoso, um circo sitiando-me. 
sitiando-a. ela está numa ilha movediça. 
num desconhecimento venturoso, ela soçobra das pequenas luzes. e da beleza inocente.

*

No limiar do assomo das emoções mais baixas ela pára-se. ela sintetiza uma indiferença quase monolítica, artificial, não mais honrosa que uma fuga. mas a fuga é humana. mas ela quer ser mais que humana enquanto foge. (para quê, de quê?) da substância da mesma carne dos homens mas com vitoriosos e insidiosos desvios do espírito ( para um paraíso perdido? ). e os caminhos fortuitos querem-se pintados na esperança, querem um ordenamento cego mas sapiente. como um crescimento vigoroso sobre as diretrizes de uma força ancestral e automática. assim será o teu voo. assim será, digo-o sem confiança. porque também só vivo do que posso vislumbrar ao alcance das minhas mãos. não possuo a bússola sobre-humana. não possuo uma razão maior, um sentido maior, para te outorgar. tu, tu és eu, desde sempre e para sempre. gostava de poder saber mais que tu. apenas sei parar-te de desceres para lugares menores. sou, no máximo, teu Eu Maior. teu eu maior tremendo na montanha, mas, na montanha, com uma abrangência temporal mais vasta. Eu páro-te do medo, eu páro-te do desterro, eu páro-te das lágrimas vulgares. Somente as extraordinárias poderás verter. Deixar-te-ia morrer. Somente das mortes certas. Nunca das mortes que te decrescem. Apanhar-te-ei num radar, num chão sagrado, eu antevejo com o coração titubeante esse sonho de renascimento. O esquecimento do céu ser-te-ia, finalmente, impossível - gravado na tua própria carne e espírito, unificados, sendo a resposta. Serias a resposta viva. Menina, ouve-me, afinal, sou tu.


*

É urgente firmar-te todos os dias no solo liso e pleno, salutar às tuas asas ( ainda presas debaixo da carne). Um dia viste-te com a luz dos anjos. À luz dos anjos. Agora persegues essa frequência do Ser. E perguntas-te ( já não te lembras), se a melancolia será ainda auréola. Como o negro tingindo o fundo das estrelas.

*

Já não se vertem. Às vezes infiltraram-se num deserto. Pergunto-me aonde foram. 
Vertical mas sem força. Serena mas antevendo sismos interiores. Um dia, uma hora. 
Porque o futuro chegará sem mim. 
Sem mim porque despida, vazia, de todas as flores que um dia quis, para o meu jardim.
( mas eu não sabia se essas flores eram realmente minhas, eram as flores de toda a gente.)

*

Anseias a vida para sempre. A vontade. A sede. A alegria do coração. As manhãs abertas. As visões, parafernálias de lugares e sentimentos e gestos, a aceitação nostálgica e a prontidão aérea para mais e mais fundo. Mais fundo até às estrelas. Assim é - no auge, os pólos invertem-se ou igualam-se entre si. E tudo seria benigno. As cicatrizes limpas. Desbotadas. Quase invisíveis. Quase. Afinal, és viajante do tempo.  Como poderias crescer imperturbável, imutável?

*
a aventura foi descobrir o início outra vez. 
o riso, outra vez, a leveza e o amor por tudo, outra vez. 











ora, as cruzes pesam
com todos os sonhos idos
desmedidos, inconcebiveis aqui
abstratos pássaros feitos de ar mais intocável que o ar
uma miragem
uma impulsão
um coração bombeando outro coração
este coração, herdeiro desse velho
abstrato coração
tinha a textura das rosas
o perfume dos ceús
tinha as asas de um anjo
invocando o futuro mas sem futuro
nascido, desabrochado
de uma fé quase criança
e labaredas singelas

não se sabia do medo
nem de que o mundo se podia dividir
numa visão inconcebível à razão
(mas sussurrante ao espírito)

nós parámos num limbo
e hoje só há hoje
travado numa incompreensão
estranhamente familar

e não sei da luz, mas sei da natureza da sombra
então incorro, arrasto-me, aninho-me
dentro da vida em mim

(há de haver asas que nos despreguem desta cruz.
de um peso tão vivo que esmaguem o peso morto)



sexta-feira, 22 de setembro de 2017





Memória musical:

Ouvia Kelso Dunes enquanto o carro atravessava o carreiro por dentre a floresta. Parecia infinito. Parecia impossível - encontrar mar do outro lado.
O céu com mais estrelas do que tinha visto até então. As luzes do carro iluminando a estrada e um estranho sentimento no meu peito - como estando num planeta distinto, uma paisagem alienígena tirada das páginas de sonho de um insone intergaláctico com paixão pela desolação escura e majestosa à sua maneira. Pontilhados de sugestões sinestéticas familiares, árvores da Terra, mas um todo da essência psicológica da solidão mais absoluta. Familiaridade alienígena. Uma fixação liminal de mim separada de mim perguntando-me a mim  - Porquê esta tristeza sem razão?  Porquê o peso nas pernas e nas pernas do espírito e do coração? Porque me custa tanto partir de casa para novos lugares? Porquê o terror de estar tão longe de casa? Porque sinto a melancolia sem fonte reconhecível? E na noite, o céu na praia recompensou-me a angústia da loucura breve - a via láctea nítida como nunca vi. E as estrelas cadentes a renascer-me o riso e o assombro  - a criança em mim. Eu estava longe mas orgulhosa de me ter puxado através do cansaço, do adiamento do novo. Não via nem sequer o mar. Não tinha noção da distância dele até a mim. Somente a imensidão do céu galáctico sobre mim. Mais tarde a lua cobriu a praia. Agora já via: a areia cinzenta, o mar negro. De novo o sentimento alienígena no meu peito mas desta vez sem vestígio de medo. Escorreguei na duna que perfazia uma espécie de muro e caminhei até ao mar. Tinham razão, pensei, o mar à noite é quente. Na extensão da costa via pequenas luzes das canas dos pescadores, como esferas flutuantes, animais de luz enaltecendo ainda mais a minha visão. O fim do mundo pensei. Um mundo feito de noite com algumas sombras, como aquele mundo num universo paralelo do primeiro volume de Nárnia (mas sem ruínas). Desolação gloriosa.

*

O sentido é aplacar a descendência. Criar testemunhos, mediante as palavras,a música ou uma poesia viva que reverberou em círculos de humanos. Esse grande transcendedor do físico, vencedor. Essa superação metafísica da fragmentação do mundo que se faz aquando os embates da morte e da dor. É possível viver no contexto deste circ(O)lo, desta superfície mesquinha, e navegar fundo, comunicar fundo com aqueles que lúcidos também tremeram. Mas prosperamos - no mundo dentro do mundo. Dentro do mundo que é só terreno para o movimento dos nossos corpos e dos nossos espíritos.
Eu jurei que podíamos fazer paraísos entre os nós.
Explorarmos juntos toda a metafísica e mistérios antigos e num desprendimento esclarecido caminharmos não para a autodestruição mas para um aperfeiçoamento vário. Escrever a sangue à descendência incógnita. Caminheiros da mesma provação. Ignitores das células mais fracas, mais amendrontadas. Nós esquecemo-nos, eu disse. Nós esquecemo-nos no princípio dos tempos. Era a condição para viver aqui. Mas só me lembro, só intuo, melhor dizendo, que temos de acender as labaredas do espírito, rir alto, correr mais longe que a dor do corpo.

Agora há a morte e acordámos do nosso sonho. Mas estamos mais juntos que nunca.
Bem sei que vivi e não há (o) nada. Há uma florescência. Há uma decadência. Há o findar (de uma história) a meio de ambos idealmente (?) Ou uma caminhada triunfante até ao fim?

(não me fales da morte em vida - corpo caminhando de alma adormecida. Alma estirada entre duas realidades irreconciliaveis. Dois estados quânticos, dois planos impossíveis de sobrepor. Eu sei. Eu sei da loucura. Eu sei das lentes horrorosas que mostram o horror à nossa volta. Mas também sabemos daquilo que não demos nome. Por isso é tão fácil esquecer - não tem nome que possa puxar à consciência uma imagem, uma ideia. Somente a memória me salva. A memória com resquício de uma certeza de Absoluto. O pólo oposto do Absurdo.)




MF




domingo, 30 de julho de 2017