quinta-feira, 19 de março de 2020



(Memorandos)




19 de fev
Projecções
Hoje vi uma mulher da marinha, fardada.
Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei como era bonita, uma excepção ao estereótipo de masculinidade no seio militar. De seguida levantou um lenço branco contra os olhos.
Pensei se tentava esconder uma lágrima. Pensei se choraria de saudade.


26 Jan
A Doença ensina-te que és animal. Que não és superior. Ensina-te a insignificância, a humildade, a fraqueza que te poderá tornar maior nos dias bons (mais grato).
Ensina te que és de carne.
E que não sejas escravo do teu corpo. Sê livre.
A felicidade transborda a beleza que persegues e queres construir compulsivamente....
Aceita. Tem esperança. Vive além de ti, dá mais de ti, não te feches em ti.....
Sobre que olhos vives? Que olhares te esmagam? Vive somente sob o teu próprio olhar.
Compete contra ti mesmo e com fair play nas derrotas....


25 de Dezembro
A vida espera nada de nós, ou a vida espera tudo de nós. Reflito não em meios termos, mas numa absoluta oposição, divisão fundamental, liminal. Como o aforismo de tudo ser um acaso ou tudo ser um milagre. Em todo o caso, mesmo sem a vida como espectador abstrato - esperamos tudo entre nós. Humanos.

//
Era um daqueles seres cansados e desinteressados da corrida
Antes mesmo de começar

00.39
O tédio de seres longe :
-desvios na imaginação...


domingo, 1 de março de 2020

~
29.02.20 

Daniel Avery & Alessandro Cortini - Enter Exit




Um estremecimento. Como vaga sensação de algo que esqueci

Constacão de uma abandono, daquilo que chamo de mim?
Cansaço, despojos. Miríade de formas e sons. Criações sobre o ar. Invisíveis mas mais reais que o material. Na minha mente, a abundância que se anulou em si mesma. Que ficou, somente sonho, farrapo. Arrastada pela imensidão. Pelos dias. Sempre iguais, mecânicos. Pelo sono, pela fome, pela sede. Lá atrás a promessa, o prenúncio de algo enorme. Comunhão. Realização. Viagens. Além da mente. Zarpar por terras indistintas. Traçava o passo sem ver o destino. Vaga forma. Vaga força. Inocência dos desenhos feitos no ar. Agora olho com inveja todos aqueles que sem medo foram. Sem tecto ou sem chão. Sem idade. Sem futuro. A música através de mim. De mim. Quando eu criei fui uma só com o momento. Quando eu escrevi eu aterrei com força no meu centro. Saudade das promessas. Agora, serena tristeza. Todos os destroços de estatuetas gigantes. Cansaço que não sei denominar...
De levar adiante. 
Talvez, 
Acreditar.




MF


sábado, 30 de novembro de 2019





Noite 30 de Novembro
Dizer te que estou numa convalescença eterna
E não sei dizer te o meu regresso
És a paragem de vida
Que me distrai do que nunca curei
E se me pedires mais bloqueio no ponto em que fiquei
Prevalece a visão
A antevisão
De todas as coisas que morrem
E segurar te nas mãos
Sem degeneração
É tudo o que quis e corro em contramão
Contra as ondas
O meu segredo mais fundo - preservação da inocência
Sermos monumentos
Pais um dia, além do nosso sangue
Além dos nossos sonhos
Algo verdadeiro
E brilhante
Sem réstias de todos os destroços da margem eterna, humana
Sermos lembrança do impossível

Lamaçal e transcendência

Aos poucos sinto o dia clarear
Com as coisas mais simples
Em troca a labareda
Transação madura
Não sabia a forma fria
Da sabedoria
Que vive a par com movimentos interiores
Disruptores
Da raça da minha raça
Sou ainda animal
A transcendência é um sonho
De saldação impossível?

Presente Ausência
Em olhos inocentes amedrontada com o devir
Do meu próprio ser, do nosso, amor
Medo que nos roube de nós
O paradoxo maior : a maior beleza nos separar
A par com o mundo
Tirano do tempo
Faria tempo, se pudesse, mas algo morre em nós
na própria largura do tempo que criamos
Ou assaltamos
Momentos
Deviam ser como diamantes ou fontes em paragens desertas
Acalmia depois da voragem de todos os dias
Onde pertencemos a tudo menos a nós
Vejo os estilhaços de perto
E vê los ao longe seria mais suave
Como a Ausência é mistério, informe
Pesadas as suas mãos
Sobre as coisas mais leves
Natural a sua lógica
Menos dolorosa
Do que sentir te longe olhos nos olhos
Vejo os estilhaços de perto
Contra o teu próprio corpo
Junto aos teus lábios
Longe a memória do fogo
Já somos estranhos
(Já estivemos aqui quantas vezes?)

domingo, 24 de novembro de 2019



Vários dispersos (2019)

(Imorredouro (da Inocência )


não farei de ti um objeto para minha vangloria porque és um ser independente e eu só te ajudo a levantar e a andar. deixar-te ei desarrumar a cozinha e fazer bolos, serão maravilhosos. deixar-te-ei conduzir livremente. não farei dos meus medos os teus. não te exibirei como filha, os teus talentos resguardarei. que te seja um pilar seguro e sereno, madura e com um olhar de paz mesmo no meio das mais profanas guerras, porque sim: há coisas sagradas. contar-te-ei. e quando tudo te falhar, o teu juízo – amor. não penses muito. Sente-O. ele basta-te. ele compreende. ele abarca-te. ele aceita-te. ele faz-te despir como mais nada. ele faz te voltar a ti quando te perderes. na asa do riso tu de novo inteira e com coragem. com voz. com atitude. eu vou mãe. porque quero. eu convido, porque quero. e o vazio é a distância entre mim e o meu pai, essa lágrima sem referência. essa solidão. negligências e carências empáticas. incomunicabilidade, severidade e estreiteza de juízos. de novo a resposta - amor. e o amor vive nos seres sãos. as vezes afastamo-nos da nossa casa. para criar uma nossa. uma nova. depois das lágrimas. espero que não vejas demasiado. espero que vejas demasiado. mas tenhas o leme do teu espírito. elevado. mergulhas mas o fôlego é enorme, menina. o céu é reconstruído, quando o sangue não se faz amargo. daí estas palavras. caminha. confia. acredita. em ti. e verás onde firmar.

*
sofremos na imaginação, possivelmente somos o único animal a fazê-lo. sofremos por antecipação, sofremos o que ainda não existe. uma possível separação, afastamento. uma possível doença, um futuro incerto. imaginamos tragédias, possibilidades e inquietações. poderíamos também simular felicidade? plantar boas visões e senti-las? ter prazer da imaginação do mesmo modo que se sofre de imaginação. seria assombrosamente reconfortante, conseguir achar essa chave, desbloquear esse poder. Talvez nos colocássemos nesse estado de energia mais benévolo e potenciador, criador, desse mesmo futuro que imaginámos. E chegaríamos até ele plenos como imaginámos. eu tenho visões de uma criança nos meus braços com a sabedoria dos anos. esse finalmente não fatal, esse finalmente como destino e certeza depois do turbilhão do crescimento. essa tranquilidade do espírito, sentidos não saturados e ainda abertos ao milagre de cada dia. dou-lhe a mão e sorrio, chapinha na água do mar, o horizonte como uma espada beijada pelo sol. vejo o meu irmão com o seu filho. numa sala, um evento familiar. crianças na sala. essa visão, deveria bastar-me. deveria inspirar-me a persistir. com toda a força, toda a vida, que essas imagens evocam. implantar a força, cunhar no sangue de todos os dias essas visões tão simples, tão humanas, que justificam absolutamente toda a morte. gerar uma geração mais nobre, que escolhe subir à superfície e respirar, em vez de adormecer nas dunas profundas onde o sol já não chega. “Tudo se ordena, tudo se justifica", ecoando como mantra no meu espírito.


Junho

suponho que ande a espera de surpresas à espera de casas. à espera desse encontro com algo suficiente. cúpula onde o ar possa circular. suponho que queira o poder de inverter o tempo sem esquecer a experiência. essa superomnisciência e nada saberia afinal. como agora nesse vago denso abstrato cérebro direito e no esquerdo a linguagem que não abandono. suponho que quase tudo suporte menos não ter tempo e só ir dormir a casa. sem esse espaço onde navegue ou simplesmente ouça vagamente (o silêncio?). se eu pudesse voltar atrás não saberia ainda a estrada. digo que vejo sinais mas os sinais são simplesmente os meus olhos que não esquecem aquilo que os apaixona e então veem antes mesmo de mim, nesse olhar que não procura e se surpreende com um título na prateleira - Franz Boas ali perdido e eu com nostalgia de outros sonhos. sinto que fui lá para ter histórias para contar e nostalgia de viagens nunca empreendidas. Boas numa cabana do Alasca, Malinowski e os Argonautas do Pacífico. e se eu quiser estudar de novo pensarei que estarei a fugir do mundo perdida na minha própria cabeça. apenas a fugir desses sacrifícios seculares que me parecem apenas e só vazios. ainda posso ver asas em humanos varrendo ruas, sim, mas não me vejo com asas numa rotina que me despe do tempo onde as ganho.

 (sonhos) morremos pelos nossos sonhos ou a ascensão nunca se deu. não sei porque pretextos, mas tenho medo de não ter lugar no mundo se me perder demasiado tempo aqui onde estive e voei. quero ao menos ser livre na minha cabeça trabalhando 10 horas por dia.

onde sinto perder o meu corpo nada apetece. se a vitalidade adormece para a ação pragmática e concentrada, técnica. dormir contigo…o tédio despoletava o desejo. o excesso de tempo fazia-me imaginar-te mais vezes, e a imaginação é fogo.

provar a mim mesma que sou capaz de sobreviver assim como todos vós. provar a vocês, talvez, mais que a mim, que nada rejeito e que de tudo tive saudade. e respeito cada um que se levanta antes do sol nascer e se deita antes de o ter sentido na pele.



MF


30.07.2017



Pai agora sei
que tinhas razoes para teres o coração nas mãos por mim
porque sou tao frágil
e não aguento divorciar-me de um sentir abraçado contra o coração
apagamos as fotos e escondemos tudo o que nos lembra
mas a memória que mais doí não é objeto
não nos despregamos da memória
e a beleza dói porque findou sem beleza




anamnesis


21 de Novembro – diário

Fim do dia:
Por vezes é melhor pensar depois de um banho. O cansaço do corpo deturpa a mente e os seus juízos são tirânicos. Acusei-me de uma fragilidade que é sinónimo de fraqueza. Dividi o mundo em fortes e fracos e coloquei-me do lado de uma criatura despojada, que desistiu, a um canto. Tal a gravidade do peso afetivo, que a liga a casa, ao amor, o mais etéreo e o mais carnal. Porque é o meu corpo que sinto acima de tudo. Como ferido, assolado, ao nível mais animal. Sim, como um animal de carga despido da humanidade ou do falso divino com que me cubro em ilusão? Porque não me sinto capaz de ir sozinha para longe, sabendo que o amor esperará sempre por mim no regresso? Porque insisto em adensar a tristeza, o pânico, chamando fraqueza à minha maior força - a sensibilidade, a empatia, a vontade que tenho de tocar, sentir perto, o calor de quem amo. Não pretendo que isto seja subterfúgio, sublimação. Pretendo que seja um lembrete de como a privação dos teus sentidos, espirituais, emocionais, físicos, tem um poder imenso sobre os teus juízos, percepções. Tornam te uma fuga urgente ao compromisso e sacrifício. Prendem te à dor do aqui e agora esquecendo te que tudo vai. Depois de um banho, sono, visão de alegria, as coisas mais simples. A voz do outro lado, do teu namorado, mãe ou irmão ou amigo. A tua cadela extasiada pelo teu regresso. Faz te sorrir. Faz o estranho fundo dissolver se em clareza, paz, sem imagens ou intuições obscuras, que comprimem o que chamas de coração. Nunca soubeste, dás-lhe nome agora. Esse sentimento de achares que as tuas lágrimas são mais profundas que as outras lágrimas humanas nas mesmas circunstâncias. Irracional, egocêntrico, sabes. Mas não deixaste de sentir que não aguentarias sentir aquilo por mais tempo, sem capitulação. O sentimento de seres uma criança, um tropeço profundo, um desequilíbrio patológico que não te deixa ver o teu próprio centro apaziguador, primitivo, de força. Estiveste contigo desde sempre e esqueces que aprendeste a andar por ti e andaste toda a vida, na maioria dos segundos de cada dia, em união contigo. Transferiste, por erro condicionado pela vulnerabilidade de uma experiência, o teu Deus, o teu berço, para um humano. Que não suportas longe. Porque tudo se anula? Se tens tanto amor e beleza em volta....

Manhã:
A sensação primária - a de uma indiferença absoluta pelo parecer final. Em modo automático concorro, mais uma vez. Sem sentimento, sem nervosismo, porque sem paixão. Porque nada disto me importa e sou inocente, a parte maior de mim é inocente e diz que o amor é a única coisa que importa. E o amor é a mesma coisa que dói quando longe. Portanto, queria estar perto e sentir-me realizada. Aguentar os dias maus com o amor ao fim do dia. E não aguentar dias maus com o amor longe. Há muita revolta irracional em mim. Na visão destes sacrifícios, destas covas que ironicamente escolho cavar. Como se não me conhecesse depois de tudo... A impaciência governa-me agora imiscuída com uma fria ausência. Os rostos e passos apressados (ainda é noite,) à saída do cais, do metro. Milhões de vidas em corrida cada dia, antes mesmo do dia clarear... (Chegarão a casa também de noite?) Qual o conceito de vida para estas vidas? - (não o sei mas) transtorna o meu conceito de vida (abstrato, afetivo) e compreendo os que se esgotaram. A mim, que em estado micro já sinto o tempo tão acelerado, os meses voam, por um punhado de notas na conta ao fim do mês. Sou da vida, sou dionísica, e adormeço a pulsão, adormeço a criança como soldado bem formado, rígido, com os sonhos na sacola enterrada bem longe, bem fundo, sem memória. Apenas uma vaga tristeza te recorda da perda de algo talvez pequeno, mas imensamente importante. Não sei dizer, mas sinto quando o amor me chega e amo, olhos nos olhos, num abraço apertado.
Acusas-me friamente de negativismo. E eu acuso-te infantilmente de conformismo. Como se o amor e o tempo fossem leis sagradas, que não pudessem ser transtornados pelos ritmos que criámos para o mundo. O amor é tempo. O amor morre sem tempo, ou melhor, morre aquilo que ama em nós, morremos. E continuamos a correr sem expressão viva no rosto, como autómatos.
Na visão da cidade cinzenta, das pessoas a correr, eu sinto a anti-vida, o medo de tornar me assim. Esquecer o amor no processo de calcificação afetiva. Sim, tornar-me tão fria para não doer até doer permanentemente sem possibilidade de esperança no amor. Na graça.

Não sei qual o meu lugar no mundo. Ainda quero sentir-me perseguir alguma coisa. Nervosismo no corpo, assinalará a importância. A calma mente, porque é indiferença, gesto automático. Como da última vez. Dói-me a antecipação da solidão mais funda. 

(Porque peço tanto um berço?) 

A insuflação de vida é paliativo do mundo.

17 de Novembro


Poderia estar no topo de uma revelação ou no fundo de um poço?

Pretenderei sempre entender estas novas modalidades da tristeza

Solidão?

Como se apenas tu me bastasses e fora de ti fosse  vazio

Como se procurasse algo que me curasse desta ingratidão de insuficiência
A plenitude outra vez, no dia a dia.


24 de Novembro

No mesmo lugar outra vez. Digo que aprendi. Mas foi proscrito. 
E temos saudade. Do desconhecido. Temos saudade da interrupção dos dias. Do crepitar, do anseio, da saudade, a morte é para os gregos. Diziam. Cruzamo-nos. Sem nos vermos.

Pensava sinais, pedia sinais. Para voltar a casa. Porque não me basta? Vivemos a mil à hora e o amor depura lentamente. Eu vejo-nos como todos os outros – meras formas do que foram. Não tenho medo de ir embora, como se nada me prendesse. E digo (cobardemente) que é uma vantagem para o sacrifício que enfrento, o sacrifício possível de estar só, bem longe. Unicamente comigo. Sem o calor mais humano, onde adormecia toda a inquietação e cansaço. 

Porque coragem é ir com todo o coração. E eu, quero ir esvaziada do que amei.


Pergunto se peco dentro de mim. Na imaginação. Na ingratidão. Pergunto-me porque as cores de dentro se multiplicam, transformam, transtornam. Pergunto-me o que aconteceu a todos os ontens. A toda a impulsão que me movia para ti. Ainda espero o acordar, o despertar, que acompanhe o meu sonho de permanência ideal. 




sexta-feira, 6 de setembro de 2019




Rascunhos ( Novembro (2018) - ? )  

*
almejava um choque
de rompante
um frio que arrombasse os ossos
e os acordasse
uma dor que fizesse mover
para onde não sei
mas que sentisse esse onde
para poder ficar
mesmo no seio da dor
acordada
para a frente
crescer
eu queria ser a mulher que beija a criança
e lhe diz que já passou
que assim é
que não há estertores
que não há demônios
vestidos em fatos escuros
queria saber
para onde ir
além do desconforto descortinar
o sentido
tenho sono
ou o sono sou eu
e no mundo tenho a idade
das flores
o mundo diz me que não sou pesada
e que posso correr o mundo
mas tenho sono antes da manhã
e estou acordada toda a noite
sem planos
mas eu digo obrigada amor por tudo o que vivi
como se a umbreira estivesse
ocultando se permanentemente
diante mim
eu digo obrigada como quem partiu
mas continuo aqui

a criança da rua
(na cabeça )
a menina num pijama quente beijada
antes de dormir
(na memória )
desamparo sem sustento, penso
desamparo celular , sinto
bombas relógio
cascatas lentas
'conta me o segredo '
(sussurro ao mundo )
e juntar me a todos e ser eu
e juntar me a todos sem excepção
sem separação
união profana mas salutar
contra a inércia de ser
pequena ainda
criança de rua
na cabeça

*
efervescência gritando
não me conheço ?
não aguento a rigidez
efervescência
Dionísio
comunhão, fusão, libertação
dança , música
grito, beijo, estalo, choro , mudo
baque , pulsar
coração , corpo , vida
não sei o que encerra o centro
além da energia que se apaga
nesta jaula
pássaro e leão
pássaro e leão
presos e quando libertos
não sabem a direção dos ventos
nem pressentem o calor das savanas

domingo, 7 de julho de 2019



Tremendo sob as mãos de um deus
já não é pai
paira
como temor
sem amor
penso quadros abstractos
penso
pinturas
 rostos humanos
acrílicos, aguarelas
o mistério da auto consciência
 pintando
o deslizar do véu
sei que há um véu
e o entrave da realidade que não aceito
tristemente material
pesam a fragilidade
o hálito acre da decadência
não acho humanidade em mim
nestes dias
somente uma compaixão nauseada
de ser da mesma matéria
a arrogância diz que tenho um espírito
mas onde mora o espírito
e onde faço as pazes com o mundo ?

olho com olhos estranhos para humanos iguais
com olhos estranhos
não sou igual?

sábado, 22 de dezembro de 2018





O tema de novo
Plath na cabeça,
Bukowski na cabeceira
estranha comunhão,
estranha disrupção,
meteoro um dia,
uma hora,
witchcraft ?
estranha manhã,
estranho verão
eu queria um diagnóstico físico
naquelas imagens
do meu cérebro
somente uma variante anatômica
disseram, não patológica
e é tudo
não sei onde paraste, menina
tinha-te certa, aérea, tristeza sem abismo
agora abismo sem tristeza
(quem me calibra a balança agora?)
escavas, lês, afirmas que não sabes
onde foste
e os relógios estão parados
gostarias de ver de novo o mar
com o deus no teu sangue
esse deus feito de paz
e as paisagens
os mundos
as viagens
possibilidades grandes aos teus pés
mais que abstrações
ou páginas distantes
querias viver fora da tua cabeça
mas escondes-te em casa
e só achas o calor na violência
prudente, modalidades inocentes
de esquecimento
como os instantes de amor sofrido
porque droga
porque antidoto
do que não sabes e está lá
gostarias de dizer-lhe
com as palavras este erro
erro da Gaia
implantar num ser de alma
a desaceleração, a inação, a ausência
compulsão desenfreada
não queres dormir sozinha
e ele está longe
e só nos temos ali, parece
quando penso sem a névoa do coração
e eu amo palavras, não te disse?
e discorrer na noite
aquilo que de dia se me oculta
é de noite que sobrevém
as cascatas, as ondas, os desertos
a amplitude daquilo que jaz confinado
e não falo, escrevo
e dizes-me que não tens tempo para escrever
valente ponto cego à minha lágrima dentro
mas ignoro, minimizo a importância
ego-cêntrica
então eu escrevo
ao meu amigo
(irónico penso, nunca me tocou mas sabe
o fundo que desconheces)
ou no caderno
a capa são rosas, presente da minha mãe
para a sua rosa, escreveu
(não lhe deixei ver os espinhos)
os espinhos são caracteres indistintos
versos para me arrancar
despoletar
o movimento outra vez


conforto em humanos distantes
às vezes nem o calor do teu peito
Salinger ecoando
Houlden  fitando os patos
também não sei para onde vão
no inverno.


MF





Memorandos-cartas

Falar te de novo as velas no meu sangue
e a estranha tristeza quando vais
e como demoro a retornar-me quando chegas
como se séculos passassem
na saudade do meu sangue
dias são eras
no descompasso do meu espírito
tu adormeces
a disrupção, a violência de um pensamento que não cessa
e sonhos intermitentes acordando-me na noite
e abraço-te mais aí
quando acordo e ainda dormes
e sinto com as lágrimas nos olhos
a palavra amor
- o berço mais humano
e na minha estranha ausência
nada disto transparece
a dimensão, o tom, o sabor
descanso e sede outra vez
ao mesmo tempo és-me tudo.
espero perder me sem me perder
em olhos abstratos
traz me meus olhos humanos
outra vez
e estar inteira
outra vez
quando vais
porque eu sei que sou
um terreno assolado
pelo que não entendo
mas no fundo há um riso
e ver me rir
e ver te rir
fazer te rir
é tudo

*
penso que a coisa mais bonita que podia escrever não se pode escrever
apenas apontar te com as palavras
o momento específico em que te pensei
contigo ao meu lado numa cama pela manhã
senti com tudo de mim
que tudo poderia enfrentar
acordando todos os dias ao teu lado
ainda dormes e não sabes
que eu estou semi-desperta
olhos semi-cerrados
e um estranho sentimento de certeza
e gratidão, aplacada
é um pólo que gostaria de ocupar durante todo o dia
e quando não estás
essa certeza
esse calor no coração que cada dúvida acalma
a minha incerteza de fundo
é a imagem de um salto
para um mundo do qual me afasto.
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MF

domingo, 2 de dezembro de 2018



LOST IN TRANSLATION 



Em ti aninhada eu sinto que poderia viver 
(a vida e a paz no meu sangue outra vez) 
mas no mundo sinto a falta 
o peso, a vertigem, a ameaça
um elemento desencontrado, dimensões polares 
dois planetas impossíveis de juntar
perco na tradução toda a substância do desamparo
também eu estou num hotel estranho
numa passagem que se demora
filosofia ao balcão, um homem mais velho
(também estrangeiro) sussurro ao ouvido não sei o quê, 
'que voltas na vida me vão trazer?'
vagueio por Tóquio, amnésia profunda
shoegaze de fundo como a voz do meu deus
o sangue fraco, o sangue mais luz,

 instantes plácidos, instantes alados
(instantes são lágrimas amanhã)
soube ontem e sinto hoje 

- todo o fogo se apaga amanhã
eu estou à janela, 

o rosto velado (poesia da sombra do que não se vê)
a câmara roda só há tudo gira (menos eu)
fitando a cidade, 

brincando no quarto , 
enganando a descrença, 
à espera do meu amor,
imerso na vida (amén)

eu ria nas fotos mostrava os dentes, agora menina fria e calada
só agarro a mão a um homem perdido, somos irmãos
sem rasto de volúpia no coração
quando a hora aperta 

procuro o berço 
na voz mais nua
olhos do mesmo vácuo,

olhos da mesma espera 
amanhã não será melhor
então mato o meu deus
mas tenho um abraço
um homem mais velho,
igualmente perdido
imitação de um deus 
desaparecido.



MF




(Memorandos) 19 de fev Projecções Hoje vi uma mulher da marinha, fardada. Fumando o seu cigarro junto ao portão. Pensei com...