sexta-feira, 26 de junho de 2015



"Julia transmitia a mesma sensação, ali sentada ao piano, de esguelha, a sorrir. "Está no campo, está na vidraça, está no céu...toda a beleza; e eu não lhe posso tocar, e eu não a posso ter...eu", parecia ela acrescentar sempre que cerrava o punho, " que a adoro tão loucamente que seria capaz de dar a vida para a possuir!" (...) apertava a flor com volúpia; apertava-a naquelas mãos macias e magras, cobertas por anéis de pérolas transparentes. A pressão exercida pelos dedos de Julia Craye só parecia aumentar tudo o que de belo existia na flor; era como se esta se tornasse mais viva, mais fresca, mais imaculada. (...) Apesar de segurar a flor e de a apertar, Miss Craye não podia estar mais longe de tirar prazer daquele gesto."


Virginia Woolf, "Momento de plenitude"

sexta-feira, 19 de junho de 2015



(Canções de carne)

No Inicio, haviam Almas que se pressentiam
em limiares diferenciais de ar e pressão e tons
na Imensidão do espaço entre estrelas,
colheram o segredo das Cordas e entrelaçaram
numa Dança, as ondas vibrantes
com os dispersos vestígios materiais inertes;
e assim teceram corpos para que pudessem
vislumbrar o rosto das vibrações Menores e Maiores
que são tristes e alegres
por desígnio de uma qualquer Razão,
e os corpos, uma vez talhados da Matéria
acordaram, imediatamente esquecidos aqui na Terra,
onde nos implantámos num Olvido,
para que o Ser experienciasse vendado,
a Eternidade e a Mortalidade da Carne;
para que tivessemos um Peso,
para que nos tocássemos,
e o Indizível volátil moldasse sob a pele
a sua Imanente natureza,
traduzindo-se assim por inteiro e em silêncio,
na forma de gestos, e faces enternecidas ou extáticas,
e em mãos que falavam o Universo ao tocarem-se;

Almas. Descemos.
para que com os olhos humanos vissemos,
 - a Expressão Material de tudo o quanto ama e dói em Nós.


MF

Chão



16.05.2015

tiraste-me o chão
tiraste-Nos o chão,
aos dois.
tremeram-me as mãos
o céu tempestade circunscrito
ao meu peito.
abraçamo-nos,
como amantes milenares
num dia vivemos,
e num dia morremos
e a tua memória dissolveu
o trono
de tantas outras.

trago a saudade
no prolongamento dos dias
sem ti,
engrandece-se
a tua imagem.

poderia morrer amanhã
mas só depois de me matares, fazendo-me tão Viva.


MF

to pb


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Caminhemos agora até ao céu da terra



Glenn Brady

" Vamos escapar, lá fora adivinham-se céus
mais belos que o Céu,
não olhes para trás para que Ela não te petrifique!"

- estou quebrado, não vês?

"Eu levo-te às minhas costas mesmo que levemos 
mil anos a percorrer uma milha,
e caso me peses a ponto de me quebrares as costas,
a ponto de ambos quedármos imóveis, presas
de chacais e da Sombra que alastra ao teu encalço,
nunca te direi Adeus,
porque não posso simplesmente largar-te, seguir
um caminho cego com as costas intactas
e a alma em estilhaços por sentir-te morrer à distância
o meu coração enegrecido e mudo de palpitações
cada vez mais lentas,
só e covarde de ter abandonado outro coração
dissolver-se-ia nas areias com a banda sonora
do último eco do teu,
quando morreste à distância;
Juntos vamos escrever as coisas belas, cortar contacto com Ela...
dá-Lhe descanso, outros poetas beijá-la-ão com palavras
e todos nós seremos presenteados a Ela no Final;
Deixa-me ser eu a assombrar-te por agora, tecendo
um bom assombro,
prometo não te ferir ou tornar o teu sangue Azul,
irei dissolver nele pequenas naves sónicas geradoras de ondas
que lançarão o teu sangue até cada recôndito do teu corpo
para que te sintas, cada milímetro de ti, ávido por calor e por dias"

- perdão... "um dia és tu, no outro é a Morte",
não és capaz de me partilhar com Ela,
anseias ser tu, todos os dias, todas as horas
e queres o teu rosto a flutuar no meu tecto e nas ruas da cidade...

 " Tens razão, quase que tenho vontade de te deixar
não por medo de Ela estar tão junto a nós e
por me trazer à memória fúnebres dias,
mas sim por saber que se o Amor não a vence
não vence o prematuro desejo que lhe tens,
então nada a vence, dizer-te então Adeus seria
um ímpeto misto de derrota e orgulho, afinal,
como podes amá-La, tanto ou mais que a uma alma
que te escreve e que te chora?
porque vieste ter comigo afinal?
parece que não acreditas quando te digo ´amo-te e
conheço a dor que não exprimes em palavras.`
Acredita - que já sofri e já a amei,
mas hoje, não nutro nem amor nem ódio por Ela,
afinal, ´como podemos odiar aquilo que nos incita a correr?`
- pensei eu, sim, Ela pode ser um gatilho para a Vida,
mas para ti é somente uma Sombra que te ocupa o pensamento
e à qual entregas versos vencidos
e corrompes os sonhos inserindo-a como Salvadora...
Mas Ela não te quer! Porque desejas algo que não te quer?
É ilusória, a centelha que vês nos seus olhos abstractos,
de facto, Ela está Morta, e recebe no seu abismo apenas mais morte.
Mas tu estás Vivo, estivemos tão vivos... não te lembras?"





MF

to pb










Glenn Brady

Aquela manhã,
semeaste céus inomináveis no meu peito,
acho que morreria para lá voltar
deslizou o paraíso entre os meus lábios
a tumba tolheu de medo e recolheu-se,
adiando-se para outros dias
as trevas apenas alastram em terrenos passivos
onde o sangue congelou de tão lento, frígido
o meu corpo tremeu acordando a Primavera
parada num milénio gasto
e acordei,
as pupilas a dilatarem-se para abarcarem
todo o universo inaugurado ali;

Agora,
amo-te sem te tocar, e se nunca mais te vir,
esses céus gravaram-se dentro, imprimindo-se
por meios que desconheço, deixando um rasto
pavimentado a ouro, luzidio,
que sigo na Noite
ressuscitando o teu fantasma,
recuando o tempo, matando o tempo
matando a morte, expelindo enfim a alma
para fora do ermo plácido onde finge ainda vibrar
pudesse a tua tumba vergar-se
diante a memória nossa:
aquela manhã,
aquela noite,
somos jovens e rimos
somos jovens e o coração a flagrar
- acho que nem sabia que havia Amanhã
de tão esquecidos e atentos à granular brisa
que entre nós dançava, similar, decerto,
ao ancestral sopro de vida que um dia animou
corpos inertes, corpos como os nossos,
de súbito galvanizados num instante amnésico;
dois estranhos com pressentimentos de outras vidas
caminhando aos tropeções,
entrelaçadas mãos,
segundos gigantes,
horizonte singrando sob a cidade,
sem fome, sem sede, sem morte;
 - acho que nem sabia que havia Amanhã
e que serias o meu novo milénio.


MF

to pb



domingo, 14 de junho de 2015

Amor espero ver-te acordar.








HUMANO


ele diz que engana o mundo lá fora com sorrisos
e que morre todas as noites,
sem poder ver a lua que emana a luz na madrugada
diz que na sua cabeça vivem mortos e esconde-se
nos becos lamacentos de vis ruas, barricando-se
com evasivas e blocos de silêncio que obstruem
as estradas até aos lagos de dor onde ele se banha,
vencido, embaciados olhos fitando o breu
 - é atroz amares esse sorvedouro,
quando chamam por ti,
eu chamo por ti, desta forma,
mesmo sabendo que não me ouves
submergido no teu silêncio;
estou quase a dizer-te adeus...
são gloriosas estas epopeias subtis de encontro
à tua Pandora, gloriosas, mas mortais
viajei até aos confins das Palavras e só achei
uma tábua inscrita - " Não há Palavras. "
 - Não há palavras para ti...então aceno-te de longe,
sem palavras,
aceno-te de longe,
fecho os olhos e envio-te o conceito de adeus,
amordaçada a raiva de te calares diante mim
quando eu viajei tão fundo apenas para te tocar,
e desviar-te três milímetros além do teu posto
para que visses o céu que eu estou a ver neste momento
três milimetros,
tão quase,
desvia-te só um pouco,
Acorda,
mexe-te,
larga as facas,
acende a luz,
limpa as estradas,
é titânico, eu sei,
mas esse lago é abismo e deste lado estou eu,
separados apenas por um vidro,
dou pancadas e grito,
estou quase a ir-me embora
derrotada,
as últimas palavras:

amor
espero
ver-te
                               Acordar.



MF

to pb

Sebastian Plano - https://www.youtube.com/watch?v=nzmXQIXV6h0







sábado, 13 de junho de 2015

A dor da leveza






II

As alturas geram uma leveza quase profana 
- a fusão cósmica esvaziou todo o ser, e este parou no céu
havia apenas nuvens, e só se sentia na carne o beijo do ar 
quando lá em baixo acontecia o mundo 
e corpos se quebravam e regeneravam para quebrarem de novo
(corpos de seres ainda jovens na ciência desconhecida de viver)
e o anjo, quase desligado de todas as lembranças humanas, acordou
do seu sono divino - germinou a saudade de sentir;
nos seus dias humanos o seu coração recebia guerras e paraísos
e isso era-lhe insustentável; não nos chega um corpo para tanto sentir
mas avistou um mortal distinto de outros mortais
belo, mas atolado nos escombros que nutria à sua volta
quis tocar-lhe o rosto e ver de mais perto os seus olhos
e quem sabe extrair deles a escuridão -

" - Por ti cortarei as asas, por ti  - chorou o anjo
o céu pode ser um lugar solitário, 
deixa-me despir-me e ser humana outra vez
frágil e pesada como tu, 
deixa-me ver-te dormir,
deixa-me salvar-te ou morrer contigo
conheci os dois mundos e prefiro não ter asas
e sentir mais que o ar, sentir
o teu corpo sobre o meu, os teus lábios nos meus,
Amor é o nome da mais alta esfera humana,
compete com o despontar breve e eterno das galáxias,
prefiro estar à mesma altura do solo que tu,
e fazermos pouco dos deuses que adormeceram para sempre
nos seus postos imperturbáveis das Alturas;
quero-nos acordados.
dois mortais abraçados, talvez aí o entendimento
não me importa que me nasça o medo de morrer
estou contigo numa terra trajada de estrelas,
há dor, sim, aos calcanhares do desejo,
mas arrebatou-se-me o peito e nunca mais quero
a distância inumana que me esfriava as veias, lá em cima
onde era leve mas chorava os dias em que fui humana
onde era leve, insidiosa leveza oriunda de nada sentir,
deixa-me sofrer contigo e convencer-me que existo
deixa-me amar contigo e ter medo de morrer;
amar fez-me descer, do seguro lugar onde pensei poder
avistar sem dor a ascensão da grande Maré..."


MF

to pb









Leonid Afremov

 Ainda te cravei as unhas na carne dos teus ombros. Mas parei-te. Talvez fosse o medo que todo o universo se desintegrasse e as cortinas se fechassem sob o nosso sonho, terminando o nosso ato que nunca foi ato nenhum, porque feito de ar ou dos devaneios lascivos de um deus. Os teus lábios no meu pescoço e o meu corpo pronto a tornar-se portal de dissolução de conceitos, palavras, preceitos, imagens, canções, rostos, outros beijos, outras lutas, outros lugares... mas parei-te - quis o prolongar do sonho em que sonho com o nosso reencontro e com o teu calor, outra vez. Porque fogo extingue-se quando beijado intensamente e sem freio. Então deixaste-me a levitar a meio caminho do paraíso, e contigo não sei até onde iríamos: mas o mais certo era que o universo se abrisse e voltasse aos eixos de novo, mas nesse espaço, nesse espaço... o mundo apagou-se e jazemos esquecidos, um no outro. E depois o regresso sónico da escuridão em que dançámos sem saber quem fomos ou quem éramos, apenas que nos amávamos. Esse regresso, os olhos abertos a milímetros dos teus mas ainda a distâncias marinhas dos recessos adormecidos de dor inculcados, nos extremos da tua alma. Esperei poder pressentir os labirintos cansados onde a tua mente se perde e envelhece em busca da atroz saída. Mas nunca nos vemos...Quis dizer-te com o corpo que havia outra saída. Quis dizer-te que enquanto nos beijamos ela não te canta ao ouvido. Porque ela nunca mais me cantou ao ouvido desde ti. Ainda que tenha ficado a meio caminho do paraíso, eu sei - no cume, perderíamos de nós o tempo e o espaço por momentos, mataríamos toda a morte. Mas no fim, talvez eu morresse de dor por te saber ainda quebrado e por sentir iminente uma saudade ainda maior de ti. 


MF

to pb

Comet OST
https://www.youtube.com/watch?v=YNQH99ObzC4&index=9&list=PLVwNa2dcWhK56V5Udw6jJhVWxwdeItftg

quinta-feira, 11 de junho de 2015









 - ecstasy nas veias, e universos que explodiram

num ápice e para sempre









MF

domingo, 7 de junho de 2015

Eloquente sinal de entrega à Terra





Fallen Angel de Jaleen Grove

I

deixa-te ter o teu anjo, daqueles que não cessam de gravitar
à volta dos abismos sem medo que a sombra se expanda 
até onde os anjos se queimam e se rendem ou fogem
as asas permitiam manter uma segura distância
mas há anjos que cortam as asas quando avistam dor,
e rastejam no mesmo chão até ao lamento humano
para mais fielmente partilharem dessa imensidão
que esmaga corpos sem asas;
as suas mãos estão agora sujas de terra e de joelhos implora
o cessar dos teus passos em direcção ao teu deus...
canta que há um tempo para tudo e que a Morte não te quer já
mas o abismo torna-se denso, e o canto do anjo não suprime
o feroz silêncio que alimentas
o universo quase se comove:
 "- matar-se-á, sacrificando um anjo,
que cortou as asas e rastejou para amar
no mesmo grau daquele que não sabia como ascender..."


MF

to pb

Dustin O´Halloran - an ending, a beginning
https://www.youtube.com/watch?v=-I0STwdBEcM









7.06.2015


Relembro o verso de Rilke - " Hiersein ist herrlich " - estar aqui é admirável, nesta noite de silêncio onde a natureza recobrou a sua paz e os cheiros da terra, da relva, das flores, se misturam num éter desconhecido e familiar. Inspiro. Olho as estrelas, sinto o ar fresco. Como são pacificas as noites sem ninguém, as noites em que vou à varanda e a vila dorme. É errôneo escrever acerca das " noites insones que me envelhecem ou a terrível noite no coração", porque a verdadeira noite é esta e algo tão belo não pode ser profanado com metáforas pouco inspiradas. Não, a noite deve ser saudada em silêncio, a noite salva todos os que se matam dentro de quatro paredes quando não conseguem dormir. É segredo, mas partilho - não tentem adormecer quando as lágrimas ameaçam turvar o tecto. Houve uma noite em que vim à varanda, como hoje, e de repente o meu coração falhou de não saber ser coração, de repente estou só e nunca estive tão cheia. Inalo a fragrância que de dia não se mostra, guarda-se toda durante o dia, amadurece sob o sol e à noite solta-se como um manso suspirar de um deus, de encontro ao sem nome que debaixo desta pele se oculta e é da substância dos infinitos. Inspiro de novo. Parei. Todo o fluxo de lodo mundano, os olhos já não estão cansados. Poderia sentar-me nos degraus frios e não dormir. Mas tenho de dormir. A noite fica acordada por mim, vê-me dormir.


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Nasceram-me estes versos:

Morremos algures, entre aquilo que sonhamos,
como sinal eloquente de entrega à Terra.



MF
















sábado, 6 de junho de 2015

A ciência de chorar


Quadro: Antonio Nino Scimeca



em silêncio, germina uma dor que não culmina
no mar que escorre pelas faces, e nos sinaliza humanos
imperceptivelmente, engrandece-se a estrutura féretra que
substitui o sangue e perfura a carne, abrindo um vácuo ao seu redor,
para onde se esvai toda a vontade e todo o sal
e o ser está enfim, preso ao seu próprio corpo;
dentro de si, uma espécie de torpor desalmado
ou uma pedra que extingue o pulsar vivo do coração
mas ainda assim o ser sofre com a razão,
e nasce da sua boca seca um lamento:
" - Não sabem como são abençoados por poderem ainda chorar"
as estátuas sofrem em silêncio, como se fosse heróico quedar na própria dor
e não chorar, não mover, não quebrar
os inocentes anjos dão-nos a mão enquanto ainda falamos
depois, vão-se embora vencidos, lúcidos da sua própria fraqueza,
e quase revoltados com os corvos inertes que tentaram acordar
Anjos...que docemente beijem o corvo pela última vez
nunca com raiva, nunca, porque os corvos estão secos de lágrimas,
mas nos seus sonhos ainda choram, e os seus olhos ainda brilham,
porque sempre estiveram condenados e ainda assim anjos vieram
e não há maior dor que ver anjos chorar,
sem poder também reencontrar cá dentro, essa ciência

MF

Dustin O`Hallorand - Lumiere
https://www.youtube.com/watch?v=izUy0EIt4lE



Ad Infinitum





andámos a amár-nos em sonhos sonhados antes de nos vermos
os olhos são cegos; apenas os corações pressentem os ténues sinais imemoriais
de danças no cimo do universo, onde o céu é fendido e posto a descoberto o sideral
e se lavram as perfeitas canções, sim - lá em cima não há palavras;
cantamos, e esquecemo-nos que há mundo
e que de manhã temos de voltar a estes corpos
porque os astros nos sentenciaram, invejosos da nossa dança;
mas algures em sonhos encontrámo-nos sem rosto; bebemos da essência imutável
os astros silenciaram-se perante as emanações anímicas entre nós
e do nosso amar sem corpo, inocentes volúpias sonhadoras,
e solenes sentenciaram - "amanhã acordam e de nada se lembrarão, como uma noite ébria na Terra,
em que duas carnes se tocam e hiperbolizam o momento com o álcool nas veias..."
sim - os astros olham as almas lá em cima e a eternidade não é para ser roubada:
 - separam cada alma, e o espaço torna-se frio,
flutuam almas solitárias enquanto estrelas nascem e morrem
e as almas choram por verem tanta beleza despontar e perecer, sozinhas no infinito
decidem, assim, descer à terra, a corpos serenos na madrugada
incorporam, e num olvido quase trágico esqueceram tudo o que viveram nas alturas
e são de novo corpos que despertam à primeira luz da manhã,
partem para os dias e um dia acham o corpo daquela alma com quem dançaram
decerto também ela escolheu descer... decerto também ela preferia cegar lá em cima a ver sozinha as estrelas...
ambas confiaram na Sorte e almejaram uma eternidade terrena conjunta,
sabiam que cá em baixo também se viam as estrelas e o mundo é redondo
e que a matéria podia também transcender, sabendo ainda melhor voar sentindo nos pés o chão fugir
" - Lá em baixo também se vêem as estrelas e o mundo é redondo..." - murmuraram no Sonho
 - sabem que os corações de carne pressentem, mesmo que os cérebros teimem em negar...
e nascerão e morrerão mil vezes para se reencontrarem, ad infinitum...



MF

pb







[Morfeu]

a minha alma dorme recostada à tua,
e pela manhã anima leve o corpo, ofuscando a gravidade..




MF

[A Cura]




  

  Sempre aguentei as minhas dores - Tanto aquelas de origem indefinida, como aquelas com raízes bem conhecidas. Sempre as olhei de frente e sempre procurei palavras e metáforas para vesti-las. Apenas a dor do amante é insustentável. Porque é uma parte de mim que não se deixa tocar e que me morre sem que o queira. Desgastas-me. Consomes-me. Essa tua sombra...Quero tanto salvar-te, quero tanto. Deixem-me pegar-te no braço, deixem-me beijar-te através desta distância. Dormes uma hora mais cedo que eu, envio-te sonhos de maresias ancestrais que te alisem a expressão e a acalmem. Espero que as sintas. Estás em paz? Senão em vida, pelo menos enquanto dormes. Deixa-me chegar até a ti. Beijar-te-ei a testa, como se fosses uma criança, como se não fosses o homem que me galvanizou o coração e me acordou de novo o corpo. Queria que o teu corpo ainda implorasse por mais um dia. Pensei que a Cura fosse simultânea em dois seres que sintetizaram juntos um paraíso. Mas no fundo de mim sei que talvez não haja uma Cura para nós, e que nós apenas podemos ser bálsamos temporários um do outro. Mas que assim seja! - Ainda estou cá, ainda estás cá... ainda há dias, noites, manhãs e cidades, para nós.
Podemos morrer depois, quando a vida nos chegar por inteiro...

Trago em mim mil paradoxos que coexistem na berma da loucura, mas nenhum ultrapassa este em horror:
  " - Estou preso mas quero ir"; Estás preso a mim e queres partir, eufemismo de morrer ? - É algo terrível de se dizer. Porque agora acordaste-me e estou viva sem ti...




MF

sexta-feira, 5 de junho de 2015

E em silêncio, perdoou o pardal...







   Era uma vez uma menina. Percorria o quintal nos dias de Primavera explorando tesouros naturais. O gato seguia-a e deitava-se de barriga para cima à sua frente, obrigando-a a parar e a mimá-lo. Um dia, encontrou um pardal que caiu do ninho, pegou nele e levou-o para casa. Roubou a casa de madeira suplente dos periquitos, perguntou aos pais o que os pássaros bebês comiam e estes disseram-lhe que apenas a mãe pardal podia alimentar as suas crias porque mastigava as larvas e insetos para lhes dar no pequeno bico. A menina enrugou o nariz mentalmente mas salvar o pardal era tudo naquele momento. Manteve o seu pequeno segredo. " -  Não contes a ninguém, vou salvar-te" - dizia a menina, "Irei arranjar as larvas, os insectos, a água, tudo". Mas a pequena criatura parecia mais fraca a cada hora que passava e a menina colocou-a na casa de madeira como se desse modo o pardal melhorasse por se achar na sua verdadeira casa. "- Não terás medo de mim porque serei eu que te alimentarei, apesar de sermos diferentes."
   A menina deu largas à sua imaginação: Procurou no seu quarto um velho coração de borracha, brinde de uma caixa de cereais de pequeno almoço, que imitava um coração real. Encheu-o de água, pegou no pequeno pássaro ferido e bombeou para o seu bico a água impulsionada pelo coração. Foi com satisfação que viu o pardal sorver ávidamente o líquido, pobre criatura... Se bem me lembro, a menina foi de novo à gaiola dos periquitos roubar-lhes mais um item - desta vez alguns grãos. Quebrou-os e misturou-os com água, até formarem uma espécie de papa. De seguida, pegou nessa papa e aproximou-a do bico, mas o pardal não comia. Porque não comia, porquê, porquê? - indagava a menina, "- Come, não vês que te quero salvar ?!" - gritava, mais com medo do que com raiva. " - Olha o que fiz, não vês? Porque te deixas morrer ?" Mas a menina só mais tarde compreenderia o que era partir as asas. O pardal nunca mais poderia voar, mesmo que sobrevivesse, e os pardais foram feitos para voar. É previsível o final desta história. É desnecessário relatar a dor da menina quando percebeu que não conseguiu salvar uma criatura tão pequena. Enterrou-o algures no quintal. Dizem que por essa altura começou a ler bastante, histórias de outros mundos, com animais que falavam e magia. Dizem que por essa altura se apaixonou pelas palavras porque as palavras diziam sentimentos até então sem nome e sempre que a menina se sentia triste, procurava uma palavra que descrevesse esse estado, porque tristeza não é apenas tristeza, desenganem-se - A tristeza é querer salvar e não poder, a tristeza é ver morrer a inocência e deixar de acreditar que o amor poderia dar-lhe de novo asas. Tristeza é não haver palavras, é não haver palavras que definam a tristeza, percebeu a menina mais tarde. Um dia, encontrou no dicionário a palavra "Impotência" - "Insuficiência", "Incapacidade", "Impossibilidade ", são alguns sinónimos. Talvez seja esta palavra que mais se aproxima daquilo que a menina sentiu. Mas essa palavra já foi utilizada milhões de vezes para diversos assuntos -  " Sinto-me impotente em resolver este problema de matemática, sinto-me impotente em relação ao teu feitio, sou sexualmente impotente... " - Mas qual a impotência de não conseguir salvar um pássaro? Qual o nome dessa impotência? A menina procurou, obsessivamente, por palavras e livros e histórias que retratassem outras meninas que abraçassem a tarefa de ser Deus e de soprarem de novo a vida a pássaros caídos. Mas cedo percebeu que nenhuma menina tinha o seu cabelo e que aqueles pássaros não eram o seu e que, por isso, não poderia partilhar a mesma palavra com elas para descrever o seu luto. " - Inventarei uma palavra " - disse a menina, " - uma palavra que atravesse o espaço e uma vez proferida, descanse para sempre sagrada, por debaixo da pedra onde o enterrei. Uma palavra que condense todos os pesos, toda a insuficiência humana, todo o episódio da inocente gloriosa tarefa de salvamento falhada..."; Uma palavra. Uma palavra...que tudo dissesse, de tão intrínsecamente sua que acordasse de novo o pássaro, onde quer que ele estivesse, e lhe desse asas. Uma palavra sagrada, arrancada das profundezas onde lágrimas navegam, inteligível apenas para dois universos que um dia se tocaram, uma palavra intraduzível, exprimível apenas uma vez, a única vez necessária, a despedida.

  Os pássaros consomem-nos. Os pássaros fazem-nos chorar. Acorda se ainda não estás morto, acorda. A menina cresceu. Tornou-se ela própria cada pardal que não salvou porque afinal não haviam palavras. Não haviam palavras...E não falamos a mesma língua. Mas humildemente, ainda espera - apenas uma palavra e por fim a Libertação. 
   Adormeceu, debaixo de uma árvore, quis adormecer como os pardais. Pegaram nela uma, duas vezes. Recusou-se a comer. Recusou-se a acordar, e dessa vez percebeu que era maior a dor de morrer nas mãos do amor, do que a dor de ver morrer o amor nas suas próprias mãos. E em silêncio, perdoou o pardal...

MF,
para Pb


Oláfur Arnaulds - improvisations
https://www.youtube.com/watch?v=JnmZdTiyE-Q







terça-feira, 2 de junho de 2015

Vamos ser pássaros




2 de Junho de 2015

   Não há razão para ter medo. Há todo este Todo que nos abarca. As árvores tremem fustigadas pelo vento, o mar expande-se e revolve as areias do seu fundo, o céu pinta-se todos os dias de forma diferente e beija-me o olhar. E os teus olhos... A memória dos teus olhos ainda me cala. São dois portais que me sugam e atravesso-te sem te ver a alma. Mas pressinto as camadas externas que ocultam a sombra tua. Poderia delinear um plano de investida aos confins de ti, poderia beijar-te a partir de dentro. Segurar a tua fronte, a partir de dentro. Abraçar-te até não sentires mais medo, lavar-te o medo que te desenha lágrimas e só deixar o medo de me perderes. Porque esse medo mantém-nos vivos, um pelo outro. Dança no limiar do teu próprio abismo, dança, até que o abismo colapse sob a vibração leve dos teus pés que se movem ao ritmo de uma canção que acabaste de inventar. Somos tão grandes quando dançamos. Somos tão grandes quando nos libertamos do chão titânico, do chumbo emaranhado aos nossos pés num qualquer dia insidioso da nossa infância. Foram âncoras que a razão forjou para nos impedir de voar. Mas porque não podemos voar, diz-me. Porque não podemos largar os pesos que achamos intrínsecos à nossa natureza? Nós cantamos, sabes, somos humanos e imitámos os pássaros antes de falármos. Depois, inventaram-se as palavras, não sei bem porquê, já que as melodias falam mundos em ondas que se encaixam no mais torcido e vago desespero inominável. Vamos imitar outra vez os pássaros. Vamos fazer dos nossos braços asas e esvaziar dos nossos ossos memórias e fazê-los ocos para sermos leves. Olha-me de novo nos olhos. Permite-me desbravar os caminhos que me ocultas. Desta vez não desviarei o olhar. Verdes estepes que choraram tanto. Verdes estepes que amaram tanto. Vamos ser pássaros, vamos ser. Dança que eu danço contigo, da próxima vez que me apetecer chorar...porque é assim que poderíamos acordar um deus...


MF

to pb