quarta-feira, 28 de maio de 2014

Três dias


16,17,18 de Maio de 2014

   Cansa fazer as malas, cansa a viajem. No entanto, depois de chegarmos ao nosso destino, o cansaço faz-se energia, e pensamos " que perda enorme seria, se tivesse ficado em casa." Três foram os dias que me curaram - É bom sentir-me bem de novo. Fez-me bem sair da rotina, tirar da cabeça aquilo que queria repelir mas parecia ter vida própria, assaltando-me em todos os momentos em que os meus olhos se perdiam sem expressão. Já não dóis dentro de mim. Já não me causas nenhum enlevo súbito, nenhuma ânsia. É como se cada mentira me tivesse apunhalado e desfeito a imagem etérea, ideal, que tinha de ti. Morreste em cada mentira.
   Para lá, fui a viajem toda em silêncio, os fones nos ouvidos, os olhos direcionados para a paisagem - falsa imagem: estavam direcionados para dentro de mim.  Qualquer trejeito, palavra ou sorriso, levava-me demasiado esforço. No primeiro dia, três vezes me perguntaram " - O que tens?" , e eu respondia, com a voz arrastada e sem firmeza, um simples "- nada, estou apenas cansada". Ora isto é meia verdade pois, por vezes, sinto um cansaço inusitado, um desinteresse geral pelo o que me rodeia. No entanto, este era um cansaço mais intenso, mais derrotista, mais assustador para mim - o cansaço que toma conta, lentamente e furtivamente, de alguém, subitamente confrontado com a ideia de que a decepção e a solidão parecem ser a sua sina, trágicos conceitos constantes na sua vida. Estive três dias fora, três dias num lugar diferente, com pessoas diferentes. Nesses três dias conheci alguém, alguém que me fez rir, que esteve sempre comigo. Conheci mais uma alma. Afinal, há tanto por descobrir, tantas almas fascinantes, e é tão bom ouvir palavras diferentes das minhas... Reflito se há destino, e se este fez com que eu falasse com aquele desconhecido e de repente se tivesse estabelecido uma ligação invisível. É estranho... como nos podemos afeiçoar e confiar tanto em alguém e tão rapidamente. Há almas que nos tocam, sentimos nos ossos, no mais fundo de nós, que há algo a fluir no ar comum, sentimos talvez, que se as almas tivessem cores, as nossas seriam do mesmo tom. Penso agora : quantas almas sublimes já passaram por mim, em silêncio? Cheios de mundos dentro de si, enclausurados, escondidos. Assusta-me não conseguir perscrutar, não ter a acuidade necessária para ver através das pessoas mais vezes, porque não há nada mais belo que  o encontro de duas almas, em harmonia, a partilhar mutuamente e suavemente, o mundo dentro delas. Vi-te.  Talvez isto seja o inicio de uma grande história, se for, sentir-te-ei muito depois do seu fim, à distância. E escreverei... acho que estou condenada a escrever sobre todos os momentos simples que mais me arrebataram, sobre todas as pessoas com mais poesia dentro de si, que por mim passaram... escreverei o que essa história me trouxer e fizer viver, tornando-a eterna fora de mim, esculpindo com palavras um palácio imortal, memórias congeladas em cada verso...
   Isto dá-me esperança. Sei que por mais dor e apatia que sinta, por mais decepção que tenha de sofrer, irei sempre encontrar momentos e pessoas que me farão sentir realmente e de novo, viva. O desalento nunca me diz adeus, diz-me até já, deixa-me livre por um período indefinido de tempo.  Sei que irá voltar, mas hoje estou feliz... Encontro aos poucos,pequenos segredos, acessos súbitos de entendimento, esquemas mentais e formas de percepcionar o que me rodeia, mais luminosas. Apenas não posso render-me à letargia que este carrega, tenho de correr, queimar e renascer, procurar ter o máximo de experiências possíveis, não ter medo ou lassidão de fazer as malas e viajar, para sentir picos de felicidade, para fazer as melhores memórias onde me posso perder com um sorriso nos lábios, com a constatação irrefutável e eternamente incrustada - "Vivi e fui feliz".

MF
Dedicado a E.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Amar






Amar, e escrever e sentir o que me deste,
longe e em silêncio

Amar, és o mais belo verbo, o mais
glorioso, doloroso, saudoso e trágico
verbo.

- És proferido, enaltecido, cantado hoje,
 por mim e mais mil sozinhas almas artistas,
longe, e em silêncio

Amar para amar, sofrer, viver, me ver
amar para me dar, expandir minha alma
amar, para  ferver o sangue que circula inerte,
longe e em silêncio

Amar, só para escrever sobre o amor...

MF

O farol

Kenton Henson

   Há um farol cintilante, ao longe, numa rocha. Distingue-se, chama a minha atenção, pois é cintilante numa paisagem igual entre si, em muitas milhas. Não sei quem estará lá, mas quero lá chegar, pois cansa este tédio, este mar. Mar que se revolta e me embaraça entre as suas ondas, cordas e algas à deriva. Afoga-me, submerge-me, faço um esforço para lutar contra as correntes que me puxam para o profundo abismo tão calmo, tão silencioso. Canta um sussurro aos meus ouvidos " - Deixa-te ir, não resistas, lá em baixo é um berço sem sonhos" - Mas abafo o sussurro dos meus cansaços - Volto, nado, luto e chego, à superfície, porque sei que a tempestade já deverá ter acalmado e há um céu azul, a melhor pintura de deus, à minha espera, para êxtase dos meus olhos. É real - o mar já está mais calmo. Aproveito esse instante plácido para nadar, serenamente, até ao farol que me chama. Nado, mas ele parece não ter ficado nem um centímetro mais próximo, qual miragem insidiosa...
   Não sei quanto tempo terá passado, o tempo não é medido aqui, por isso digo " um dia" - Um dia, senti um vento que acarinhou as ondas, e estas levaram-me, quase sem esforço, até ao farol. Não havia lá ninguém, era um ermo desolado. No farol, não havia nada à exceção de um espelho, o qual espelhou o meu rosto cansaço para que eu o pudesse ver, o qual me devolveu a imagem do sal translúcido, na minha pele enrugada. Senti ter envelhecido mil anos, senti que as memórias do meu tempo no mar, pertenciam a um passado longínquo de outra mulher. Subi os degraus, perfeitamente esculpidos, até à torre. Havia uma paz no ar, inerente a todo o local. Há medida que subia os degraus, essa sensação tornava-se mais forte. Cheguei ao cimo. Tudo estava perfeitamente limpo, como se o próprio farol se tivesse aprumado etéreo, para me receber. Vislumbrei o seu brilho emitido, direcionado para o mar. Daquele plano, sob aquele fulgor, tudo consegui ver. O mar era eu - Cheio de palavras escondidas, réstias de sinfonias e pensamentos, fantasmas de almas e imagens, memórias e sonhos não consumados. Ah! Só eu causei as tempestades... O céu está carregado de estrelas, adornado de uma beleza que arrebata recônditos sombrios de mim. Que imagem tão bela, vista do cimo desse farol - Estou em paz... e pensar que tantas vezes quase cedi ao cansaço,  a ser engolida por esse mar que afinal era eu, de encontro à leve inconsciência e apatia...
    Descanso neste farol - naveguei sem rumo, demasiado tempo nesse mar. A luz mostrou-me a tela, mostrou-me de que eram feitas inusitadas águas. Mas choro... Choro pois não me lembro de ter conhecido outro lugar, é como se tivesse nascido ali, náufraga de um desastre sem nome ou causa, que me destinou a navegar para sempre, perdida e cansada, à procura de tudo e de nada. Em que terra, em que ilha, acontece e está a Vida...? Nas profundezas do meu ser, navega uma resposta e pergunto-me se do céu, o meu farol será estrela.

MF

Mil exércitos


  Num descampado vasto, defrontam-se mil exércitos. O céu reflete o caos abaixo e pinta-se carmesim. O ar poeirento está pesado e cheira a ferro e sal. Há elmos quebrados, cotas de malha perfuradas, estandartes caídos e espezinhados, cobertos de sangue e suor.  Os tambores bélicos são a sinfonia tenebrosa desse embate, o ritmo é frenético, a guerra prolonga-se durante anos e anos, com pausas breves de descanso. Não há vencedores, não há derrotados. Mil exércitos defrontam-se e os soldados vão sendo substituídos, à medida que sucumbem, exangues... que iras impetuosas vos impelem ao confronto? 
  Mil exércitos defrontam-se... na cabeça de um só soldado, caído numa estepe deserta, numa guerra que é, afinal, apenas sua. Está deitado em solo maculado mas sem ferida à superfície. Estéril a esperança de verde, esse campo se tornar. Houve um interregno na guerra dentro da sua mente, descansa um pouco, aproveitando fugaz alívio. Os seus olhos repousam agora no céu, onde projeta imagens vívidas, imagens de outro tempo, outra era - memórias de cores impossíveis, paisagens majestosas que, ardentemente e em segredo, deseja. Dor. Pudesse ele tocar esse céu...

MF

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Espero-te, Alma incógnita

   

     Inalo um aroma no ar, este influi-se-me em cada célula minha, sinto-me viva de novo. O teu aroma. As nossas almas deverão vaguear pelos mesmos trilhos,  as nossas batidas deverão ser síncronas. Talvez seja por isso que nos sentimos tão unidos e que sinto que conheço cada nuance do teu ser, visceralmente, como se já tivéssemos estado juntos numa outra vida, num outro tempo, vivido mil histórias juntos. Se houver um espaço entre almas, o nosso deverá ser exíguo; sem minúcia poder-se-ia retratar uma só alma em dois corpos vivos, pois estas cantam variações de uma mesma sinfonia, vêem num mesmo espectro de cores. 
   Acordo. Inventei-nos agora, neste súbito acesso de imaginação, na berma do sonho do exílio da solidão - Não sei quem és, mas sei que virás, gémea alma minha...Virás em silêncio, arrebatar-me-ás a alma num olhar, reconhecer-te-ei num sobressalto, na divisão de um segundo. Virás como vem a felicidade - sem que eu a espere, quando tiver já parado de a tentar encontrar. Virás, como vem o Sol - após tribulações temporais, dentro e fora de mim. Virás, quando o destino assim o quiser. Até lá, sonho-te, esculpo no silêncio a tua voz, esculpo na escuridão teu rosto, sorriso e olhar etéreo, esculpo no ar diáfano tua mente, teu coração sem mácula, os teus pensamentos brilhantes, o aroma de mil primaveras, que emanas. Esculpo-te. Ergo, sem esperança, as minhas mãos pesadas, tentando agarrar pedaços desenhados de ti no ar, pura a ânsia de te sentir. Pudesses tu ser já real. Pudesses tu chegar no vento da alvorada que se advinha breve, nesta madrugada insone...

MF

domingo, 25 de maio de 2014

Se te inventei na solidão



Faço de conta que ouviste 
- cada palavra
que nunca falei

Faço de conta que leste 
- cada poema
nos meus olhos

Faço de conta que me sentiste 
- e guardas-te
tudo em silêncio

Faço de conta que me viste 
- por detrás 
dos muros onde me escondo. 

Mas nunca me viste
Pergunto-me se te inventei 
- na solidão...

MF                                                                                                                                              mb

Histórias que nunca foram


Pensei,

- Que acharias palavras, 
nos silêncios que te falei, 
paisagens majestosas, 
nos olhos que te mostrei...

Oh...se apenas me tivesses 
lido os olhos! e sentido o 
eco daquela palavra...

Não estaria, hoje - Incompleta

Sinto falta de quem não tive, 
das histórias que nunca foram, 
das palavras que deixei 
- adormecidas

Sinto falta até de mim - 
onde fiquei, onde me perdi?

MF
mb

Se eu nada disser


Se eu escrever em verso
tua alma, sorri - Serás eterno
para mim

Se eu pintar a imagem 
de mim, guarda-a - Será para
me veres

Se eu compor uma canção
ou poema, sabe - Foi a ti 
que escolhi

E se eu nada disser ou fizer,
ouve e entende - o silêncio

MF

Amor


Amor,
Vertes significados nos silêncios,
és o gatilho, de inusitados alentos

Amor,
 Pintas mais profundas as cores,
mais intensos, os sabores

Amor, 
És calor, és saudade, dor e glória, 
num só fôlego, fazes histórias!

Amor,
És um olhar que se demora,
 Um instante que se torna... eterno

Amor, nem a morte me assusta, se te senti...

MF

sábado, 24 de maio de 2014

Adeus, Tristeza


Felicidade,

Não desisto - Sei que já te senti
Imersa no mar, espelhada no céu dum olhar

Esperança,

Ergui-me do chão em que me deitei
Vi-te em mim, oásis de alento sem fim

Liberdade,

Só eu me prendia, corro sem peso
Sinto-te nas veias, libertei-me de ilusórias teias

Amor,

Estás no ar entre duas almas
És o sentido, sonho real de um deus perdido

Vida,

Sei que és eterna despedida, mas és sublime
Fugi de ti toda a minha vida, mas hoje estou viva...

- Adeus, Tristeza.

MF
.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Estou só


Estou só, no desterro de mim

Sou meu ermo insidioso, abismo 
onde me recolho para um descanso
sem repouso.

Estou só, e sinto tudo de novo

Repasso memórias, do Sol saudosa,
forte a vontade de me quedar demente
imolo, assim, o presente...

Morro, e renasço no desterro de mim

MF

Depois deste mar


O mundo faz-se vida para mim
renasço, enfim, das cinzas de 
um sono inquieto e indolor

Olho a distância, calo o silêncio
aparto a tristeza, que sempre
se demorou aqui

Num sonho cálido, desenho os contornos 
de uma alma que me salvará

Caminho.

Com o peso leve de sonhos e memórias,
vaga centelha fúnebre, no coração
  verde estandarte solene, na mão

Ao longe há costa, depois deste mar

MF

quinta-feira, 22 de maio de 2014

E hoje caminho só


Entretecidos os destinos
fomos efémeros,  divinos
na ânsia de viver
- fugimos de nós

O tempo à nossa vontade
não se moldou, saudade
perene deixou
- dentro de nós

Adornei-te de luz e cores
que não tinhas, esplendores
imaginários inventei
- dentro de mim

Vivi inebriada em quimeras
promessas, palavras dispersas
quis o mundo
- num só trago

 Um dia,  reinámos juntos - por instantes
 E hoje caminho só... baço o olhar distante

MF                                      
d

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Na ilha que sou

~2013
Foste flor trazida
inusitada, no vento
Duas almas aladas
encontradas no tempo

Pensei ver teu barco
aportado no cais
Somente uma miragem
levada na aragem

Nesta ilha que sou
paraste de passagem
Enchendo de luz
o que o tempo desgastou

Talvez um dia voltes,
nas voltas da vida
Com novos olhos
voltes, pra ficar

E terás novas histórias
das tuas viagens
E eu terei a alma
serena, pra te ouvir

Contar-te-ei as aventuras
vividas em sonhos
Nos sonhos sonhados
na ilha que sou

Espero, espero em vão
por ti


 - MF

mj

Tempestades



Vida, distanciaste-te de mim - Estou aqui
a matar horas, a lembrar de quem fui
agora somente uma faísca cansada de 
um fogo outrora vivo

Á superfície mar plácido, estéril deserto
de significados, mas dentro, dentro é caos,
penumbra, tranquilidade inquieta, incerto
o tempo que desgasta e passa lento
A vida?  - é um sono acordado

Oh, estas dores! Já as sentiram antes de mim
tempestades fúnebres rodopiam aqui
travadas guerras sem nome ou causa
só um soldado caído nas estepes áridas

Sucumbi.

MF

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Seremos pó, de tudo e nada


Tempo, és mar incomensurável de histórias,
de memórias, prantos e alegrias solenes

Somos só carne e sangue e alma, amanhã
seremos pó

Dissolves tudo no fim, colossal arca 
de tudo e nada

Quantas histórias fizeste e viste acontecer

sob o teu manto

Quantas histórias reteste e te fizeram parar 

a chorar?


MF

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Os cinco termos


Tempo,

Não nos deste tempo para sermos
Fizeste-te bala, relâmpago para 
nós

Saudade,

Assaltas-me com memórias rubras
Fizeste-te lágrima, distância crua para
mim

Silêncio,

Engoles o espaço com o teu peso
Fizeste-te dor calada, companhia para
mim

Solidão,

Pedes-me de volta mais uma vez 
Fizeste-te familiar, casa fria para 
mim

Amor,

Num tempo foste vida, mas hoje
 fizeste-te saudade, silêncio e solidão
.

MF

domingo, 11 de maio de 2014

Fugir de nós


  Talvez tudo se resuma a uma insatisfação crónica com a vida, connosco. Queremos expandir-nos para fora de nós, deixar a nossa marca no mundo, em lugares, em pessoas. Queremos, sofregamente, amar e sermos amados de volta. Quando nos amam, amam até as partes de nós que escolhemos fechar os olhos, com medo de olhar, quando amamos sentimos o mais próximo de algo divino, ficamos vivos fora de nós, sentimos que estamos aqui, agora, a viver, depositamos a nossa atenção em ler outra alma, humildes. Somos milhões de almas, carregamos os mesmos anseios e sofrimentos em intensidades diferentes, mas sentimo-nos invariavelmente sós, em algum momento. Talvez a nossa própria alma seja demasiado fria para nós, na solidão não nos acolhe calorosamente. Não nos chegamos, somos incompletos, metade vazios, metade cheios. Queremos ser plenos, nascemos com a sede de nos transcendermos a despeito de sermos tão frágeis e falíveis. Refugiamo-nos em trabalhos repetitivos, perdemos tempo a correr atrás de sonhos que forjamos impossíveis só para caminharmos, para termos algo pelo que lutar. Talvez tenhamos medo de nós, de estar a sós connosco e perscrutar nitidamente todos os nossos defeitos físicos ou mentais, preconceitos, pecados. Por isso queremos esquecer-nos de nós, é nesses momentos que nos sentimos realmente vivos, quando damos parte de nós a outrem, quando amamos e já não temos medo de nada, quando nos conetamos a algo que definimos como sendo maior que nós, seja alguém que nos faz vivos, seja um pôr-do-sol no mar, uma noite em que o céu está límpido e dizemos olá às estrelas, tão distantes mas tão familiares. Nesses momentos os nossos olhos cintilam, refletem o brilho que há no mundo, vivemos no presente, esquecemo-nos de tudo o que nos açoita, fugimos de nós por instantes. 

MF

À espera de me encontrar

   
  Quem sou eu hoje? Olho para trás, leio o que escrevi e penso " Quem fui eu?". Sou outra, não sei quando a minha alma se desfez das suas roupas e forjou novas. Como posso tomar decisões agora se sou inconstante, em perpetua mudança? Li textos de exaltação, escritos por alguém que já fui, textos felizes, com a premente vontade de viver impressa. Quem sou agora? A vida que me abarcou distanciou-se de mim. Sinto-me morrer às vezes, sinto-me fora de mim, apática, sem qualquer interesse em participar no mundo. Sou lúcida e sofro sem sentir ao aperceber-me de que me encontro, de novo, neste estado frio, de uma paz e calma mórbida. Já fui viva, mas precisei de alguém para me fazer sentir isso. Agora estou só, e na solidão restauro pedaços de mim, na solidão aprendo a não me enlevar demasiado, e rendo-me, rendo-me a uma espécie de ataraxia, o mundo apaga-se para mim. Só existo eu, num lugar sem som, lúgubre. Mal me sinto, nessa existência que é só existir, entorpecidos todos os meus músculos, desperdiçado é todo o esforço de querer agir, de querer participar numa qualquer conversa, com genuíno interesse. Esses momentos são mortes, mortes piores que a Morte, porque me sinto morta consciente de estar viva; os meus sentidos desvanecem-se, e o mais assustador de tudo é quase me sentir confortável dessa maneira: sem grandes surpresas, sem grandes enlevos, sem sentir o sangue correr realmente, pois todas as maiores alegrias se transformaram em cinzas, em memórias que me enchem de nostalgia. E assim, vergo-me a essa calma, a essa apatia que é escudo e me envelhece por dentro. 
  Mas por breves instantes caio em mim, ilumina-se algo em mim e penso: Talvez prefira sofrer e conhecer a felicidade, do que sofrer esse sofrimento inusitado de somente se estar a existir, esse sofrimento de não ter nada para lembrar porque não vivo, não me lanço ao mundo, não agarro, não corro, não ganho nem perco, não amo nem odeio, nessa apatia sórdida que me faz máquina sem expressão, máquina, ainda assim que recorda, que sabe o que é estar do outro lado, onde o sangue corre quente, onde o olhar é resplandecente, e as cores, as cores impressionam cada nervo, quando a vida corre fluída, quando a sentes em cada póro. Mas há um tempo entre cada felicidade e desdita, para um restauro, para uma reflexão, para um descanso. Estou aí, nesse abrigo ou nesse penhasco. Estou só, à espera de me encontrar.


MF

Ser completo


  Se há algo que me consome por dentro é a consciência das minhas próprias limitações, da aparente impossibilidade de consumar todo o meu potencial. Dentro de mim sei, sinto, vejo futuros, vejo outros "eus" tão mais majestosos que eu. É como se eu fosse uma semente cheia de promessas que não encontra solo onde se deitar ou um interregno, abismo entre o tudo e o nada. Nesse meio vago consigo discernir pedaços de sonhos, mas não há apogeu, não me vejo alta em nada, por mais que tente sou cansada, sou inconstante, sou movimento impaciente. Gasto as horas perscrutando os desertos em mim, sinto o tempo lento, ou não o sinto de todo,  sinto-o a fugir inexoravelmente de mim, a escapar-se de mim. Tempo... Fica, pára, deixa-me ser. Mais um minuto, a vida pede -me de volta, mas quero ficar aqui, mais tempo, a escrever, a arrancar palavras, a tentar encontrar as frases perfeitas que arrebatem a minha alma, que me contem o que ela esconde nos seus recônditos  ,  até sentir esse impetuoso e fulgurante frémito raro, que nos sacode aquando uma iluminação de espírito, uma súbita compreensão. Mas de quê? É tarde, sinto o tempo, o cansaço nas pálpebras, mas é nestas horas que encontro maior inspiração. Quero expressar-me de forma perfeita para mim e  queima-me não o conseguir, queima-me não ser genial em algo concreto, em algo definido por mim. Sou impaciente, sou derrotada pelo meu cansaço ou pela pressa de ver mais, conhecer mais, e assim, mais uma vez, ficar a meio de algo na minha sede de ser completa. 
  Enclausurada em mim, vagueio, divago. Quem me prende? Só eu. Quero tudo ao mesmo tempo, num só instante, quero ser tudo, sendo limitada pelo tempo, que não espera por mim, pela rotina que tenho de viver. Quero dedicar-me, num estoicismo irreprimível , à música ou à escrita, na esperança de encontrar o meu troféu: um orgulho interno maior que me faça esquecer todas as desditas, algo para me sentir grande. Mas adivinho o previsível: a queda, após a chegada a qualquer cume. Pois , estando lá, já lá cheguei, sorvo os breves momentos de plenitude sozinha. Consegui algo, consegui ser alta em alguma coisa. Mas continuo viva, tenho de inventar algo para alcançar, para me obrigar a correr. Nunca estaremos completos, e talvez essa seja a nossa maior desgraça e a nossa maior virtude. 

MF

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Se rimos mais do que chorámos...



" Os deuses dão agora para tirar depois" -  Oscar Wilde

  Por vezes penso quão irónicas e paradoxais serão as leis que nos regem, se é que há realmente leis, penso se será inevitável sofrermos pelas mesmas coisas que nos fizeram tão felizes, um dia. É como se tivesse de haver sempre um equilíbrio sinistro - As nossas felicidades trazem já em si a semente correspondente do sofrimento, ou o seu prenúncio, e a dor é diretamente proporcional às alegrias que um dia arrebataram um coração. Possuímos o sol e o espaço sideral por momentos efémeros, e acabamos queimados pelo brilho desse mesmo sol, acabamos perdidos nesse mesmo espaço, sem saber retornar de novo a nós. Nascemos só para rastejar e sonhar? Será a felicidade pura só para os deuses, e o seu obséquio divino não passa de uma cópia baça, obsoleta, um presente envenenado ? Temos medo, medo de nos sentirmos realmente vivos, porque nesse mesmo instante a experiência que possuímos sussurra ao nosso ouvido " Não te enleves tanto, não te percas, não te esqueças de ti nesse êxtase, pois tudo se degrada no fim", mas somos ingénuos, reerguemo-nos das cinzas e acreditamos que há algum momento, algum lugar, alguma coisa que irá fazer os nossos olhos brilharem para sempre... Somos humanos, não nos deixamos morrer nas nossas dores, calejados achamos força dentro de nós, e vale a pena viver, se ao menos rimos mais do que chorámos, se ao menos nos sentimos vivos por um momento, pois este tornou-se eterno, ainda que a sua memória possa apunhalar fria de nostalgia em horas de desolação.

MF

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Passado


"Qual de nós pode, voltando-se no caminho onde não há regresso, dizer que o seguiu como devia ter seguido?" - Pessoa


   Em horas insones tento vislumbrar esse mar que me trás memórias na maré, tento vislumbrar quem fui, tentando não dissociar de quem sou, mas quem sou já não é aquela ao longe que vejo, frágil, a flutuar em quimeras. Penso, " e se eu voltasse, ali, daquela vez?", mas logo me perco numa teia de possibilidades, de vidas. Estou aqui, sou eu por tudo o que escolhi, por tudo o que fiz, mas é sinuoso o vicio de recordar e pensar em tudo o que deixei passar, tudo o que deixei cair das minhas mãos, tudo o que lutei para ter, tudo aquilo que pensei possuir mas foi efémero, tudo aquilo que me trouxe dor, tudo aquilo que mudaria hoje. Teimamos em açoitar-nos pelas decisões que tomámos no passado, mas isso não demonstrará uma falta de fé em nós próprios? Porque, apesar de tudo, a nossa essência talvez seja fixa e devemos acreditar que o nosso Eu do passado tomou a decisão mais acertada em cada presente.  Agora estou no presente, que amanhã será também passado, agora posso olhar para trás no tempo e tentar adivinhar os desígnios futuros, agora é o tempo em que temos o máximo de conhecimento de toda a nossa existência. Mas o passado já foi um agora, então de nada vale pensar que deveríamos ter agido de maneira diferente...

MF

domingo, 4 de maio de 2014

Lugar distante em mim



Ás vezes fecho os olhos para
recordar, para voltar sem ir,
a algum lugar distante em mim,
ouço velhas palavras, vejo velhas
imagens

Sinuosa e escura é a estrada que caminhei
passei ao lado de quantas felicidades?

Pudesse eu voltar verdadeiramente!
Com o que hoje sei...
Mas mudaria eu algo sem me mudar?


MF

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dormir


  Dormir. Dormir para esquecer, para descansar cansaços que não podem ser convalescidos. Dormir, só para não estar cá, ir embora sem ir, por algumas horas. Dormir, só para não ter de pensar, mas mesmo nos sonhos os meus problemas vivem. Adormeço e acordo com as mesmas imagens, que me perseguem, obsessivas. Sonho-te sem te querer sonhar. Almejo um esquecimento entorpecedor, uma ausência de sentimentos; Quero esquecer sem esquecer, as memórias que tanto me mutilam como me confortam, pois são pedaços de vida para recordar. Mas como divorciar os sentimentos desses momentos distantes e ternos, para que possa ter réstias de imagens sem que sinta todas as emoções, todo o enlevo passado associado? Pudesse eu desligar-me dos sentimentos, ser máquina, apática mas feliz num conforto seguro e sem surpresas. Afinal, as felicidades mais intensas são efémeras, não forjam memórias evanescentes, forjam memórias nítidas, perenes, insubmissas, que me assaltam impetuosas ou que me atraem como canto de sereia, desviando a minha atenção do presente. Perco-me dentro de mim, viajo, retrocedo e ali me fico, onde o tempo congelou cenas vívidas. Memórias que me ferem pois agora estou só e escrevo. Não sei o que fazer com o meu tempo que passa tão lento e não me cura. Lembro-me de como ele costumava passar tão veloz nesses dias simples mas plenos. Durmo mas acordo inquieta, cansada. Atraso e acumulo demasiado. Pudesse eu ter chorado tudo de uma só vez, talvez aí adormece-se docemente, no berço de um sono sem sonhos.

MF

Sonho-te


Pudesse eu esquecer-te por
um dia, só para me encontrar
Mas vejo-te onde não estás,
pinto-te, escrevo-te, sonho-te
sem querer.

Estás, mesmo não estando...

Quantas palavras no silêncio?

  
~29.04.2014

"Entre alma e alma há o abismo de serem almas" - O livro do desassossego

  Talvez haja mesmo um abismo entre duas almas, talvez nunca cheguemos realmente ao âmago de alguém, por mais que julguemos ter decifrado toda a sua personalidade, cada nuance dela. Faltam-nos as palavras para nos exprimirmos, para dar a chave da nossa alma, e todas se revelam insuficientes quando comparadas com a simplicidade nobre do silêncio - silêncio transportado num olhar que na sua intensidade almeja permitir um vislumbre da sua alma, almeja verter no ar significados. Somente posso adivinhar tudo aquilo que te prendeu as palavras, talvez seja o mesmo que prende as minhas e aí , nesse momento, há a comunicação perfeita, ainda que baseada em expetativas mútuas. Espero que os meus silêncios não sejam vagos, daqueles que se perdem no ar, mas silêncios que ficam na memória, como um discurso eloquente. Que os meus silêncios se façam palavras, e as palavras frases, na tua mente. Porque talvez este silêncio não seja a ausência de palavras, mas sim o excesso delas, que num turbilhão perpassam a nossa mente, caóticas, de modo que nada conseguimos dizer. Há mil palavras a flutuar na quietude pesada.
  O silêncio talvez seja a linguagem mais verdadeira, mais pura, mais intensa, mais instintiva, mais simples e universal que existe, caso haja a sensibilidade para o entender. As palavras atropelam-se, geram mal entendidos, mas o silêncio... o silêncio é solene, assim como o olhar que o contém.

MF

Um comboio sempre atrasado

  
    Nostálgica do que não foi, do que não vi, do que não senti, do que não vivi.
  
  Era um vez um comboio sempre atrasado, sempre fora de sincronização com o tempo e com o espaço. Passou por vários apeadeiros mas nenhum lhe suscitou interesse suficiente para sair do seu trilho e parar. Ou assim pensou... mais tarde, recordou um dos apeadeiros e quis voltar, mas já não estava lá ninguém, quem o viu pela primeira vez - este partiu para a sua própria viajem, porque o tempo não para e urge a necessidade de viver. Para o comboio também já nada havia ali, a não ser réstias de planos não consumados, cinzas vagas de possíveis histórias e aventuras. Assim, seguiu viajem, atormentado por todas as falsas memórias que inventou, na sua solidão. Como estaria se tivesse parado da primeira vez, quando havia ali alguém que tanto queria seguir viajem com ele? Para sempre atrasado, sente tudo tarde demais, vislumbra futuros e oportunidades tarde demais, e mesmo as dores arrebatam o seu coração furtivas, quando já nada o faria prever. E chora, chora muito depois da queda, todas as lágrimas acumuladas. No fundo de si talvez saiba que está condenado a viajar eternamente, solitário, na linha da nostalgia e do arrependimento.Talvez a sua sina, o seu carma e o seu calvário, seja chorar pelas coisas que nunca foram mas podiam ter sido, tivesse ele o sentido de oportunidade. Quer encontrar outra estação que o queira receber e que seja bela ao longe, um sonho de descanso, um sonho de companhia, não quer chegar atrasado mais nenhuma vez...


MF