domingo, 27 de dezembro de 2015




Matisse, La danse

"Parado no limiar daquele mundo criado por Matisse reexperimentei a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto a imagem da vida que só aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e da percepção conseguem transformar a realidade negativa da vida nos contos substanciais e importantes da arte. Só os que são capazes de admitir luz nas entranhas podem traduzir o que existe no coração. (...)
Em cada poema de Matisse há a historia de uma partícula de carne humana que recusou a consumação da morte. Toda a extensão da carne, do cabelo, as unhas, exprime o milagre da respiração, como se a visão interior, na sua sede de uma realidade maior, tivesse convertido os póros da carne em bocas famintas e dotadas de vista. Seja qual for a visão por que passemos, há o odor e o som da viajem. É impossível olhar nem que seja apenas para um canto dos sonhos dele sem sentir o erguer da onda e da frescura da espuma voar. Ele está no leme, a perscrutar com firmes olhos azuis a carta do tempo. (...) é um sábio glorioso, um profeta que, com um movimento do pincel, remove o horrendo cadafalso a que o corpo do homem esta acorrentado pelos factos incontroversos da vida. Se algum homem de hoje possui tal dom, ele é aquele que sabe onde dissolver a figura humana, que tem coragem de sacrificar uma linha harmoniosa a fim de detectar o ritmo e o murmúrio do sangue, que pega na luz que se refractou dentro dele e a deixa inundar o teclado de cor. Por detrás das minúcias, do caos, da zombaria da vida, detecta o padrão invisível; anuncia as suas descobertas no pigmento metafisico do espaço. Não há nenhuma busca de fórmulas, nenhuma crucificação de ideias, nenhuma compulsão que não seja a de criar. No momento em que o mundo se destrói há um homem que permanece no âmago, que se fixa e prende mais solidamente, que se torna mais centrifugo à medida que o processo de dissolução se acelere."


Henry Miller, O trópico de Câncer




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015





[ESCRITA semi-AUTOMÁTICA]


16 de Dezembro

O humano persegue-me, para o bem e para o mal. Pergunto-me se somos nós - que escolhemos voltar. O humano persegue-me, por isso quis voltar? (ainda que doa) A implosão, sempre para dentro, querendo ver para fora, beijar o ar de fora mesmo que doesse esse embate material contra outras carnes animadas de vida. Se escolhi voltar, porque voltei? (estou cá) Talvez isto seja o sinal de que eu deva estar cá, ou então é apenas uma filosofia, um malabarismo arquitectónico do pensamento para me segurar aqui e a uma espécie de potencial - Um palco onde sou luz e graça, onde meu corpo finalmente é o mesmo que a minha alma quando esta ascender ao plano dos cais limpos e leves onde não transparece já mácula nem necessidade de expressão, porque a expressão é o meu próprio corpo que é, é os movimentos da alma, material volátil quase não aqui, mas tanto aqui, marcando a sua posição firme com os cânticos emergentes de cada célula minha e a ampliação desse sem nome sinal divino na periferia, a quem quer que por mim passasse e me respirasse. Sim, quero o corpo liberto, quero os véus acesos e as cortinas despidas, as cidades corridas em toda a extensão do seu dia e da sua noite. Quero ser viva, num hotel, num palco, numa estrada, na solidão, na dor, no amor e na morte, ouvir as estrelas e a voz da terra troar, ouvir os milhões de anos vivos num passado para-dimensional, saber e não doer não poder escrever, porque flutuando nesse transe aquoso de quem viu Deus e ficou vivo.


*
Eu acho que (já) morri. Eu acho que todos nós (já) morremos e nos une aquilo pelo qual escolhemos voltar. Ainda que tivéssemos o fardo do tempo a corroer os nossos corpos fracos que não podiam nunca traduzir a galáxia magna que o anima. (Mundo estranho este)...Tudo é tão pouco às vezes. Tudo é tão alto às vezes, e vasto, e leve, e puro, e potente, e excedente, e o meu coração vai explodir, vai explodir e dizer, tão belo! Vai cair e levantar o céu de novo para que não pense a morte como estrada nem círculo insano sem medida do medo, não vai ter medo de escrever a inconsciência, não vai ter medo de encontrar o divino em si, que lhe foge ante a razão, não vai ter medo de provar essa espécie de licor amargo de que há outra coisa que convive no mesmo corpo que ele, que escreve neste momento e lhe rouba o lúcido protagonismo e o deixa num limbo entre a loucura e o divino. Escreve o que sentes coração, não tenhas medo, imita o teu irmão e escreve sem pensares, há um mundo atrás do pensamento, lá dentro a linguagem é outra e talvez sintas o mistério claro atrás das vírgulas e dos impérios sem consciente sentido onde falas contigo e estás sem ti para te encontrares unido numa espécie de pedaço puro de alados sentidos, onde a terra é leve, onde o caminho é silêncio e a promessa clara.
Estás liberto, soubeste o mundo e esqueceste, só para puderes voltar a descobri-lo de novo.
*
Quer-se a terra, as raízes quentes englobadas por humanas mãos em oração, em pertença à terra. Ele disse: que era tão maior correr sem escudos e queimar, e ser trespassado por ramos e continuar a correr sem tropeçar no seu próprio sangue, um humano nu, vejam como ele corre, o universo chove um som, o humano sua e corre cada vez mais rápido (continua a correr para sempre) e sorri - a respiração sôfrega nunca esteve ,nunca foi, afinal, tão viva. A sua mente está leve, não lhe pesa o ego, as cargas metafóricas do ego, e das coisas que se fazem maiores, se tornam monstros como que a disfarçar por oposto excesso, a sua vacuidade essencial, a sua frivolidade que impregna todos os teatros do mundo, os de palco e o dos dias - são as perdições no outro, pelo outro, é o desejo- poço, o amor decomposto ao seu irrisório placebo de caricata forma e nefasto conteúdo. “Eles pensam que precisam de corpos para amar”- ri-se o Universo…
*


Quero limpar a faca no silêncio e beijar a terra que me engole, que contém toda a morte e toda a promessa de vida, quero cantar o tempo e a luta do céu contra a terra e mostrar que tudo é o mesmo, viver esse tudo é o mesmo, e não sair daqui tão cedo, não sair daqui em vida. Mas as vezes dói. Dói não ser os lustrosos poemas que eu tinha de ser porque ouvi o estremecer da terra minha, das sementes hesitantes a chorarem pelo sol e pelo beijo da chuva que afastava do meu terreno. Fugia para desertos de sóis velhos, avermelhadas esferas quase no penhasco do segundo da sua própria extinção. E ficava então no escuro, lenta mas areias frias sem noção de tempo ou dias por abraçar.


MF








oh, eu vou, às vezes, com os olhos de quem não atinjo a alma,
o corpo inclina-se de encontro a outro corpo 
como se se soubessem.
e fica em suspenso, dois olhares trocados
e o rasto do poema
que se organiza em casa...



MF


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015




De espelhos, tristeza e eterno retorno:

E seria triste, uma tristeza disfarçada
através dos dias, dos ciclos, das idades,
até ao dia em que aquele viesse até a mim e me dissesse
 "- és bela, mas tira do rosto essa tristeza.
chora apenas com medo de morrer sem teres aprendido a dançar"

2

o espelho devolve-me visões futuras, vejo
a transmutação das linhas do meu rosto, da minha pele
e localizo-me a dezenas de anos-luz de distância
como naqueles poemas em que mergulho
e mal volto, na senescência de quem caminhou
mil desertos, cambaleante, ofegante, a cabeça
a querer dormir
nessa abstração de mim que faço ao espelho,
sei porque me esqueço, sei porque me esqueço,
do ideal da poesia em ato, movente, que se é, sem palavras.
Porque dói de mais - a noção aguda da impermanência, da irrepetibilidade
de tudo, da diluição da frescura de quem fomos, todo o abismo
atrás de nós, todo o abismo além de nós, sem espaço para nós, outra vez

3

Se o ciclo fosse irrevogável nas suas chagas e ternuras,
quereria de novo ser-me ?
a alma tem-me todo o peso da Beleza, e do projecto-montanha de a ser, totalmente,
quero uma espécie de epifania existencial de saber finalmente estar aqui
e então poderia dizer, finalmente, ao demónio que me sugeriu tal ciclo,
" - Tu és deus, e eu nunca ouvi nada mais divino !"*



* O eterno retorno, (Nietszche)


MF













0h06



Eu faço um paraíso frio, que se ergue e se desenvolve na sua própria prefiguração,
no ar mais espaçado que o próprio ar,
é onde a mente se perde e demora mais a acordar . . .





MF

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015





O dom do sentido sinestésico, do filtro poético, em mim
(este sexto sentido) conspurcado
por não o encarnar vívido,
por não o ser, não ser a poesia que pressinto nas coisas e que escrevo
eu ouvi Deus - veio dizer-me que eu estava cega,
cega, cega no nível fundamental
porque eu sou escrava de espelhos e de corpos
para me dizerem que estou cá
e eu disse-lhe: " Deus, quando fiquei cega?"
e Ele respondeu-me: "Quando julgaste que a melancolia era a base do mundo e da arte,
ou quando encheste o mundo de espelhos"
recolhi-me ao meu quarto, chorei a verdade de tais palavras
a assassina em mim, todos os bloqueios ao redor do meu próprio sangue
para que este se não espalhasse para muito longe
do meu controlo, ou fervesse tanto que doesse
recebê-lo depois frio no meu corpo,
porque julguei o amor melancolia
e contentei-me com a sua abstração e nunca com a sua experiência,
sempre nova, sempre inesgotável, sempre autentica e visceral
Ele veio dizer-me - que eu estava cega e que era um pecado -
- estes meus olhos sinestésicos para um coração envenenado,
e viciado na sua roda da loucura azul
Ele veio dizer-me que eu estava cega, e eu cai de joelhos na Humildade,
eu cai de joelhos, Humildade, e encontrei-me nua, todo o universo me viu assim
vi-me sem asas, sem graça, sem espírito, somente carne
somente carne, a carne que sonhava que era da substância das asas
naufragadas num planeta estranho, de cinza e simultânea luz,
onde não se podia compreender a morte, nem tampouco a dor
eu estava irremediavelmente cega para as organizações infinitesimais
de Beleza na vida em ato, e não apenas na paisagem bela mas plácida
de onde extraia versos de mim para o céu, e para o mar
eu esquecia todas as vezes que ouvi dentro esta certeza:
é fora do domínio das palavras, é no seio de uma solidão não solitária
que senti a mensagem sem agentes intermediários,
directamente no meu sangue e alma - "Não há razão para ter medo."

E então pergunto a Deus - Agora que sei, porque me esqueço?
(e acho que Deus morreu, antes de me poder responder.)


MF














[Escrita semi-Automática]

14 de Dezembro

ela (?) responde-me ao chamamento de dentro. Eu estou no fundo vago da despedida que se contém. Eu sou a caixa perdida no mar e no espaço das coisas, que se dizem perdidas sem saber. Eu amo dizer, as estrelas, eu amo a música que sangra entre os espaços do meu silêncio. E sei andar, aprendi a andar sem me lembrar dos movimentos. Seria uma lição de voo, poder voar antes de andar. Cantamos no cimo do universo aqui, no meio da Terra. Entro na caixa e ouço as coisas, todo o templo do passado, do presente e do futuro que sempre será, semelhante a si mesmo. São tesouros nivelados, do Espírito humano, unidos por fios invisíveis e que transcendem dicionários. Conceitos que são os próprios conceitos sem possível tradução, porque mundos, porque são movimentos de emoções, histórias, fragmentos de sentidos e memórias, que resumem-no, são seus fractais. A Solidão, o Amor, esses Todos, com mil e uma raízes e projecções verticais, são temas incorporados nas próprias leis naturais, como a harmonia que é sincrónica ao espaço em que está, e é um fenómeno não divisível. O Amor é não divisível ainda que múltiplo, mil faces e só uma, algumas distorcidas ( e de que maneira) , faces cobardes, egóicas, ranhuras astronómicas no tecido sagrado. Aprende a amar, aprende a voar, fecha os olhos, os olhos enganam-te quanto à altura da queda, aliás, nem sequer é uma queda, é uma ascensão. Mas no ponto em que te encontras não sabes, que a queda é ilusão, vai ser invertida, e o teu sangue será plasma (o quarto estado da matéria), gravitando as estrelas. Serás leve, e todo o teu corpo estará vivo, cada célula. Todo o teu corpo será alma, e toda a tua alma será corpo, serão uma oração conjugada do céu e da terra. Teu corpo é Terra. Tua alma é Ar. Todo o teu ser é Ser. Todo o Amor te diz que o medo é invenção da linguagem, e do pensamento atrasado no lodo de mil centenas de enciclopédias, de tantos outros pensamentos aleijados. "Ouve um canto gregoriano, apaixona-te uma vez na vida", disse eu um dia, " e depois diz-me: se tudo é tão desesperadamente material e explicado".



MF


Listening to : 
- Joep Beving 
- Lambert



·         




(12 de Dezembro )
0h56



O transitório, o inacessível, a possibilidade vaga horizontal, 
- é o que me faz arder o sangue. 

Eu vejo-me a ver-te, e vejo-te a ver-me, e não sei se o que vejo é o meu desejo a vestir esse teu olhar, extensão translúcida da tua voz rouca com o sotaque presente. Irás embora num final sempre ausente, num final sempre acidental, sem tempo, tempo que queria manejar, tempo que queria dobrar, estender para um nós, porque me atrais.



MF

E













[ESCRITA Semi-AUTOMÁTICA]
13 de Dezembro

(2h18)

Uma imagem por detrás do cérebro e um fluxo de palavras inconscientes sem lei ou pudor. As trevas deslindadas para mim e para ninguém. Que me leia deus, que me leia o Tempo e quem ficou para depois. Não posso entender-me, nem ao meu amor, nem ao poço que imploro finito mas não finda porque ocultam-se marés prontas por detrás dos dias, que deslizam e submergem a alma por um desequilíbrio de lua. Fico sem ar por dias e olho para trás, para todas as vezes que pensei que tinha para sempre atraído o céu para o meu sangue, porque dancei para deus, porque dançámos para deus, na nossa bela e atónita insignificância.E mesmo na solidão - achei que dancei para deus, nas ritmadas canções de dentro ao final de um dia. Mas nunca o céu permanente, não. Esse deus queria ver-me dançar para sempre. Eu sei, o seu egoísmo quase benigno, eu sei, esse de nos querer ver dançar para sempre a partir do centro resoluto, resistente, do nosso mais cru desamparo. São (somos) árvores a estremecer ao vento mas a estenderem os ramos para o Sol. E então, nunca mais digo que é para sempre. Porque o universo vive disto, é alimentado pela supersónica chuva de gestos movidos contra a inércia, e de altares erguidos por nós mortais às coisas que foram, que materialmente decaem e se dissolvem no finito, na inevitável ordem das coisas, que tornamos outra coisa, que superamos, que surpreendemos com nossos quadros e versos formados bem no centro da Dor e do Amor.

·         (1h42)
E não importa o Futuro, só importa- o encontro com a reposta a cada instante. Mas se te projetas para além e te encontras vazia agora, não deixes escapar a Idéia da próxima vez que ela se desnudar, capta-lhe a superfície, as extremidades sem forma, escreve as pontes que te levam de novo ao seu sentir e volta com as palavras - para não te esqueceres. (Como pudeste esquecer? - Que somos divinos e assim todas as coisas.) Criança, procuras o que já achaste e esqueceste o conteúdo, mas sobrevive-te a forma, a indistinta possibilidade, o sussurro certo e mudo de algo que nos segura a todos e nos permitirá ser.

·         (2h01)
Não saber porque sou, (eles dizem - “Tinhas de ser alguém", como se isso fosse resposta.) 
Não saber estar aqui sem saber
gastar-me de tanto querer saber

 Amo o vulto voltado para o Silêncio e a centelha perdida no plácido mar. Essa vastidão semi-onírica e sem tempo, como que no Princípio do Fim do Mundo. Mas também me tem o ruído, o tráfego, a arte, a loucura e amo - fitar o meu próprio caos, e amo não saber quem escreve nem quem me ocupa, e amo provar o desejo nas texturas e olhares humanos, e amo a torrente, a insónia, o sonho, a morte, todo o acumular de dúvidas que nos catapultam para explorações siderais. Que eu morra aqui - se às vezes não quero Silêncio nenhum, nem tampouco compreender que silêncio é esse nem que versos são estes que escrevi. Apenas lançar-me, apenas não saber, apenas a terra e o céu estendidos sobre a tábua da minha própria criação, apenas um tempo inteiro, um cheio ar e arrebatamento longínquo e eterno, apenas a loucura sob as rédeas do amor e uma melancolia quase mãe, e amar, e amar…



MF