quinta-feira, 26 de janeiro de 2017




Dizer-te 
Dói-me tudo o que ainda não doeu
Dói-me tudo o que ainda não já morreu
Porque eu vivo aqui mas englobo todo o tempo
E todo o tempo já não nos tem
Senão agora
E mesmo agora não me chega,
Saber que te tenho agora
Porque eu sei que 
amanhã os fogos estarão um pouco mais apagados
E tudo sempre é para ser
Uma história
Que fomos
Quando olhamos para trás
E eu choro aqui o amanhã
Incógnito que nos matará
Destes dias
Eu tenho tudo menos o esvaziar
Destes prenúncios
Eu tenho tudo mais a melancolia
Que não desprega
da minha alegria 
mais aérea.


(eu não me aguento de ser feliz (?))

MF


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


caminhámos em noites despidas de lua magna
e chorámos de não ver luz
eu sei que doeu - veres o amor ruir
às mãos de quem não soube nunca que este era
- todo o sentido desabrochado em flor;
eu sei que todo o ruído do mundo nos oprime
a nós, crentes na transparência pura da verdade
entre dois olhares, e silêncios cheios;
não tenhas medo, que a vida nunca se esquece
e eu disse: havemos de falar no silêncio
as coisas que temos medo de dizer,
e sei que és atento
a todas as lágrimas
que não quis fazer entrever
e és uma tocha acendida no altar da esperança
e o teu coração fala agora por ti;
eu sei que doeu - veres o amor ruir
eu sei quanto dói sentir,
seres-te,
humano
mas acordamos sempre, voltamos sempre
porque dizer "sim" é tão maior que cair,
e afinal sempre houve, uma mão, um beijo
futuro que se fez presente,
em forma de céu nunca ausente
olhos fechados, o espírito  aberto
(se eu pudesse dizê-lo,) 
a vida inteira sussurrando:
 - podemos ser em vida, todos os sentidos
no amor.



*

bioquímica ou as asas desencravadas da carne
(bioquímica e o céu mais humano aqui na terra)
e na lentidão supersónica e sanguínea de um beijo
estamos distantes de toda a morte
e próximos de toda a vida
e o tempo é outro, sem ponteiros ou relógios
é uma grande a(mar),
e para sempre é tão perto.
a vida é tão perto - de nós.



To TS,
MF

listening to Slowdive

- erik´s song
- missing you
- changes









quarta-feira, 11 de janeiro de 2017



posso-te dizer que as lágrimas, essas, são sagradas
o licor dos anjos-humanos mais caídos

e que as asas estão a uma lágrima precisa de distância
que te sinaliza vulnerável perante ti
e te faz pedir por um abraço humano

somos tão grandes de tão pequenos
cuidando de seres tão mais pequenos que nós
esquecendo nesses momentos a nossa própria fraqueza

ser humano é muito.
chorar é muito.
chorar é grande de mais para negar
eu faço um hino ao ato de chorar e realizar,
no sal,
o sentido da dor de chorar

posso-te dizer que as lágrimas são sagradas
e o sagrado firma-me aqui:

     à terra, ao humano, ao quebrado, ao distendido,
     pelas forças silenciosas que se operam dentro de nós
     e não têm nome às vezes,
     nem rosto que possamos reconhecer familiar...

( não tenhas medo: o que sentes? onde sentes?
és afortunado por sentir
e chorar)

talvez nos doa mais tudo aquilo que herdámos sem saber
e procuramos no outro um reflexo, um eco
para lembrar que não estamos sós.

eu ajudo-te a carregar os pesos
eu digo-te que sempre voltei, das viagens mais atribuladas e distantes
algo na costa me chamou. um presente ou um futuro que já é.


MF, to TS.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017



sinto outra vez o peito despido,
e eu fui cantadora de sonhos
sinto outra vez o peito a cair,
e eu sei que há alguém
para ouvir as minhas notas e cantar-me ao ouvido
as coisas que já não ouço

e dizer-me 
és apenas humana então chora
mas volta
não te esqueças de voltar
e calar os gritos cínicos de quem morreu e ficou ocupando o seu espaço
e todo o espaço dos que sonham, com os seus medos

pai, eu quero viver,
e sou ainda a tua criança se me deixares partir
eu nasci com olhos gigantes e lembranças de paisagens que esqueci
e estou vagueando dentro e em torno de tudo
esperando o sentir plácido e glorioso do sol e das cidades a acordar

pai, eu quero viver,
no mais fundo da melancolia minha que nunca soubeste,
eu quero viver
e chorei tantas vezes sem saberes. e ri tantas vezes sem saberes

há uma nota*, outra vez, que me faz chorar
foi ela que me encontrou enquanto pensava numa mão
mais que humana
quando só o humano me interpela e me faz ficar,
mas eu chamo às vezes
por coisas que não se formam à imagem da razão e são outra coisa
mais que humana

eu não quero morrer, sem primeiro ir embora das terras
enlameando os meus pés
pai, diz-me o que calas quando estás imerso dentro do teu próprio abismo
diz-me se te doem os lugares aonde não foste
e se sofremos não morrer da única morte aceitável - o amor
que nos emerge e submerge, pelo mais alto, pelo mais baixo;
diz-me o que dói, quando dói, aonde dói
não  te abandones à morte e não ma dês de herança
cantam-me canções dentro. elas vivem no seu ante-ser
e o meu eu maior salvando muitas vidas, não gostarias de ver?

eu tenho um sonho ainda, morrendo nas cinzas
da tua mundana descrença
e soluções pragmáticas e lógicas
e deste-me quase tudo para florescer
menos o sonho que fui beber
a paragens tão longe do meu berço

e sonhos tão humanos pai, tão maiores que sonhos de criança
sonhos de amor, música, poesia
um mundo um pouco melhor do que antes de chegar
ingénua, criança louca e inocente, aqui é o lugar dos becos dizes
onde não posso caminhar
à noite
sozinha, menina,
pões-te a jeito, dizes, e só fazes o papel de todos os pais
mas sê, por favor, o meu pai
e vê para além da desrazão do medo
e seu veneno que nos cria raízes no seu solo-bolha
que nos prende a uma casa pagada com o suor dos nossos corpos
e o tempo precioso das engrenagens criativas
das nossas mentes
e corações.


MF


*
https://momentumf.bandcamp.com/album/rites-of-passage
More than a human hand , minuto 2:58-3:00