domingo, 31 de maio de 2015








*

Queria estar contigo, mais do que nunca,
beijar-te e voltar 
com o céu de te ver e a dor de ter voltado.






MF







sábado, 30 de maio de 2015

Pequeno hino à amizade



relembra os dias, os rostos, o som, os risos, o sol
encontra os fios, por dentre a névoa pressente,
os gatilhos que abrem as portas
sobressai de novo as cores, és leve e estás viva
não te apercebes que os segundos mergulharão no ouro
e ser-te-ão eternos,
ainda que baços, ainda que subsistam rasos por debaixo da tua idade
e dos pensamento que teimas regar,

criança, não penses
estupidamente feliz foste tu, ainda te lembras
de como a amizade nascia de lugares comuns e todos éramos irmãos?
mas parece-te longe, essa possibilidade de dias que não cabem
em nenhum adjetivo,
essa juventude que germina sem saber,
inconsciente e sem esforço por ser jovem
parece-te longe a criança que foste,
hoje achas-te mulher e procuras
fontes de sensações que te galvanizem porque agora há um espaço
entre ti e as coisas
pelo menos assim se passam a maioria dos teus dias
e por isso glorificas, abraças os tesouros imagéticos de ontem
são paisagens em movimento, são jovens com t-shirts da mesma cor
nadam e riem, comem nas cantinas e não dormem,
deus, já me esqueci de tanto, esforço-me mais um pouco:
as salas foram transformadas em quartos e atiram-se
maçãs pelas janelas, pequena guerra a meio da noite,
não dormiamos,
fitávamos a noite ou o dia sentados nas janelas
e neste momento sabes que tudo se tornará passado mas foste
estupidamente feliz
com quase nada, vivíamos
com quase nada, ríamos
e no último dia havia sempre festa, mil pratos para escolher
despediamo-nos no fim, com abraços
ficam as poucas fotos para um dia o olhar acordar o coração
despediamo-nos, é um amor sincero, este de humanos ainda puros
vivemos todos tão longe uns dos outros e três dias chegaram
para a saudade queimar
um dia nadaremos todos juntos, no último segundo que pontua o fim
nadaremos todos juntos, nos meus olhos parados.

E perguntar-me-ão
 - Olá, de onde és? 
 - não sei de onde realmente sou, não sei, mas gravei-me aqui.


MF




https://www.youtube.com/watch?v=ZZTNgqNqAEM
Ryan Teague - shadow play









[Vives-me hoje no sangue]

(23/05/2015_01h12)

Tecemos todo o amor em dois dias
As montanhas abriram-se e achámo-nos,
no caminho
As comportas abriram-se e respirámos,
sofregamente o ar (contido exíguo por eras)
O céu olhou-nos e tateámos a vida,
um no outro
E renascemos…
miraculosas brisas de uma primavera quase extinta.
E renascemos…
sem saber que podíamos ainda viver,
sem saber que os lábios ainda pediam por Ser
eternos no olvido extático de um beijo


Vieste,
a pedra quebrou e sou sangue e carne de novo
faz-me o que quiseres.
assombra-me. queima-me.
rouba-me. mata-me.
se quiseres.
apenas prolonga tudo isto,
fervo de tanto sentir
aceito a saudade que me dói nas veias
aceito o medo, este medo sem nome
porque me crava expressão nos olhos e me grita
- estou viva

Matar-me-ás no final,
Mas não importa
- Impeles o meu corpo para a batalha dos dias
Durmo e acordo envolta numa espécie de paz
paz que me acalma e me destabiliza semeando
tempestades ansiosas e insónias
nas noites onde crescem ondas sedentas
por quebrar e no fim adormecer
com a lembrança do calor que chegou
quando se deram finalmente à costa

Vives-me hoje no sangue e acordo e adormeço contigo
Anseio de novo dois dias
Anseio de novo a ressaca de não nos ter
Porque a saudade engrandece-se nas horas lentas
Em que desenho o teu rosto no ar e beijo-te imaterial
Vamos ser os dois uma espécie de infância
Não penses,
Não tenhas medo,
Vamos ter a nossa infância talhada a partir de nós,
Do fundo de nós, dos gestos de nós
E do que flui e nos esquece do chão que pisamos
- Chão,
Foge-nos o chão e caio, caio em queda de trovão
Arrebata-se-me o peito e nunca estive tão inteira
Gritam-se iminências de desastres,
embates sónicos contra o muro
que pensámos poder transcender
com a confiança inabalável
de quem sentiu o amor outra vez
e achou-o ainda mais puro,
ainda mais grande.
Quase vislumbro o enorme oco deixado por ti
No fim, quando te fores
No fim, quando o sangue se te arrefecer
E os gumes dilacerarem-me a carne sem que os sinta
Quase me vejo a envelhecer de novo
E a escrever-te, em tons nostálgicos

Matar-me-ás no final,
Mas não importa
 - amar é morrer de tanto amar




MF    

to pb




Overdose de Beleza



28 de Maio de 2015

  Florescemos. Ressuscitámos de cinzas quase desvanecidas. Vivemos. Finalmente pegámos fogo, bom fogo que nos alimenta e se expande descongelando as réstias de carne adormecida. Mas isto consome, a distância semeia sede e fome de ti. Os dias são lentos e percorro a tua memória obsessivamente com medo da dissolução dos seus contornos, de cada segundo ao teu lado, de cada toque e cada corredor de olhares. Talvez não consiga abarcar tudo isto, segurar todo este céu dentro de mim. Excedes-me e tenho medo de querer tanto tocar-te sabendo que a tua ausência queimará ainda mais. Isto consome mas agora sinto. E sentir é tudo. Sentir enleva e dói, mas o enlevo faz-nos agradecer estar aqui. Agora sinto: mais profundamente a vida em mim e mais acutilantes as horas sem ti somado ao medo de te instalares demasiado no meu sangue e um dia já não esperares por mim, assombrando-me as noites e desgastando-me as mãos que escreverão sempre para fantasmas na esperança de lhes chegar e destes se fazerem humanos de novo, amando-me de novo, esperando-me como espero. É nobre e trágico ser poeta e sentir demasiado. Amar-te dói,
Amar-te dói mas desenha-me no rosto sorrisos espontâneos.


  Estás longe e num dia tudo acontece: Num dia renascem mortos e num dia morrem recém-nascidos. É uma bela história - Numa pequena cidade, dois desconhecidos apaixonaram-se. Podemos viver e morrer no espaço de um dia. Deste-me vida e hoje tenho medo de morrer...morrer em ti, morrer num dia em que a minha memória te seja fria e arrumada para um recanto de coisas raras e, com sorte, descansada num altar de coisas intocáveis porque ambos sabemos: tudo é perecível, mesmo histórias belas. Só cá dentro tudo permanece magno, embebido em poesias maiores que a vida, texturas intransmissíveis, difusas mas que segredam sentidos e revestem de juventude o coração. Só cá dentro permanecemos anjos e nunca envelhecemos. Só cá dentro não degeneramos… as palavras permanecem sagradas e os nossos risos ainda fazem dançar o ar.
  Compreendo-te se tiveres medo deste amor - É uma bela história, bela demais para mexer; Ficaríamos assim, imutáveis, numa pequena cidade…

Al berto escreveu:
“quero morrer
com uma overdose de beleza”

  Apenas a beleza podia ressuscitar um peso morto. Apenas a beleza é digna de ser o berço da tua morte (é justo). Por isso peço-te - Esvazia-me de novo da minha razão. Faz-me de novo esquecer o tempo e levitar num quarto. Porque um amanhã morremos e quero no passado cósmico uma eternidade a dois, prolongar-nos através do tempo, gravar-nos além do nosso tempo, nós mortais sentindo-se deuses, nós que nos incendiámos um ao outro e enviámos uma mensagem a um deus: 
 - ainda podemos ser vivos após tantas mortes… 
 - somos carne mas transcendemos sem medida que nos meça… 
 - estivemos aqui e foi tão bom…

Ecoa em mim - “overdose de beleza …” ; 
Por favor: Sê a minha morte (só não me deixes morrer em ti).



MF






segunda-feira, 18 de maio de 2015





18 de Maio de 2015

   Estive envolta em faixas mortuárias invisíveis.   Existi demasiado tempo no torpor onde não tremiam mãos. Libertaste-me, curaste-me num dia e numa manhã. As tuas mãos... saudades das tuas mãos e dos teus lábios e dos teus olhos que despoletaram o dia e acordaram a vida que não sabia ainda ter. 

   Vivemos nos relâmpagos, na intensidade que arrebata os peitos, na fúria de uma paixão gerada numa fração momentânea e desconhecida, desflorada num culminar de corpos abraçados. Não se queriam ir embora.   Queriam o chão restabelecido aos seus pés depois do estridente preencher dos sentidos. Planei na boa tontura, desprendi-me do ontem na inconstância da minha respiração debaixo de ti.

Alívio - Afinal sou humana (depois de tantas falsas mortes).

Não, não me queria ir embora.
Meio vazia depois de ti. Saudades de ti. Só podemos morrer numa próxima vez. Ficarei viva porque estás aí, ainda que não te toque, ou te veja. Ouço-te a voz e é suficiente, por agora.

Ocupo-me a tentar dar nome a isto e a desenhar os contornos gráficos do teu ser.
Ocupo-me a ressentir a leveza, o girar e esvaziar mental do beijo que te pedi, a intuição de outras vidas ou outros planos onde os nossos lábios se conheceram antes de nós.
Ocupo-me a desistir de dar nome a isto e a estar atenta ao que flui, a não profanar com conceitos e planos detalhados o que aconteceu entre dois humanos. Não penses também - A racionalidade faz-nos máquinas e torna magia em retratos banais.

   Promete-me apenas que não morres na alienação dos dias. Porque há dias assim, noites assim, manhãs assim. Promete-me apenas que não deixas morrer dois dias. Explodirei da próxima vez. Incendiada a saudade acumulada por meses.
    Dessa vez a eternidade singrada por inteiro, dessa vez... não haverá filme que nos reproduza.


MF


(Maio, 12 e 13)




quarta-feira, 6 de maio de 2015






II

Mas volto sempre. Lá fora não entendem porque venho tantas vezes até aqui onde me deito e descanso com estrelas. Não entendem como amo o silêncio e os retratos projetados ao lado das estrelas, também eles fulgurantes, também eles imutáveis e eternos, neste planeta parado.

Amo tudo aquilo que é vasto e alto - é onde verto as coisas pressionadas e destinadas ao abandono, ao grande esquecimento do mundo.  As minhas pequenas coisas são-me a alma e só cá dentro lhes pressinto todas as cores e acho-lhes as palavras que não falam a mais ninguém.








MF











terça-feira, 5 de maio de 2015

[Insónia, 2h05]




Quedo numa melancolia milenar onde fito o deslizar leve das estrelas nos campos noturnos e me deito inerte nas longas estepes sem um tempo que as curve ao seu labor. Estepes estendidas por milhões de distâncias e sempre a abóbada estelar. Lá fora preferem o sol, dizem, e as ruas da cidade férteis em rostos desconhecidos familiares, e fortuitos olhares e amores e histórias. Há carros e passos apressados, noites esquizofrénicas e dias sempre iguais, sempre iguais e com estranhas renovadas vontades não sei de quê, não sei pelo quê ou para quê. 

Cá dentro não há dias nem noites.
É um pedaço sem tempo e as estrelas murmuram eternidades e o momento em que as olho estou morta e esquecida da vida, ao mesmo tempo que se me enche o peito com todo este silêncio. 

Silêncio...

este planeta é império forrado a silêncio mas as vezes movem-se vozes no ar que me chamam de volta. Vozes, amigos ou fantasmas que me lembram da minha outra existência. Há muito tempo, há muitos corpos atrás. E levanto-me deste solo de ervas e farpas que se intersubstituem sem tempo que as distinga, transmudando-se mutuamente, mal me ferindo, eu que sinto numa exterioridade a mim, quase fora de mim, em razões sencientes e no forjar de possíveis vidas no ar. 

Cá dentro é plácido.
Às vezes belo, às vezes atroz, quando o cérebro tem noção das horas e as ervas se transformam em gumes que ferem resquícios de uma sensibilidade semi adormecida. Nesses momentos lembro-me da minha outra vida e levanto-me, por mim e por todos os que me chamam, levanto-me. Levanto-me e desprego os meus olhos deste céu silente que me inebria e apaga o mundo, doce canto de sereia; os pés pesam o tempo, é tão difícil sair, o rosto ainda não é rosto, é tão difícil sentir. Este céu é eterno e do outro lado tudo se desfaz, tudo aqui é parado e lá fora é caótico.
Puxam me. Para a semana há festa. "- Vem. Gostamos tanto de ti."
 "- Não sei como ainda insistem convidar-me"
 "- Porque gostamos de ti."

Deus. Tenho de sair daqui.

Sairei, com este corpo desabituado do som e do mundo. Sairei, mas por favor: galvanizem-me à saída, na fronteira mais próxima da vossa cidade. Habituei-me pois, a viver sob outras estrelas e a inventar três mil vidas no seu mural. Amo-as porque já morreram e ainda brilham e ocupam este céu. Não me choram se eu as parar de contemplar, estão mortas e nem sabem que as vejo. Apenas os humanos choram. Apenas os humanos clamam por atenção, 

então levanto-me. Abandono este altar e dou-me ao mundo.

MF




Caça


"Presa"

As minhas dores são como a chuva. Vêm e vão, deixando poças, para o sol secar.
As minhas lágrimas são como o fogo. Ardem ferozmente nos meus olhos, mas esgotam a lenha num ápice e o fogo apaga-se, como se nunca tivesse existido.
Os meus sonhos são como a terra. Densos, pesados... mas acima de tudo, repletos de vida.
Os meus sorrisos são como o vento. Voam, imparáveis, pelo (meu) mundo, propagando-se.

Sou os quatro elementos. Sinto o mundo como uma extensão de mim. Tudo o que existe não me transcende, preenche-me.
Sou, na minha ínfima existência, superior. Mas não sei nada. Já não serei, quando souber.  


"Caçador"


Somos todos animais, no nosso íntimo, não importa com quantas peles revistamos o corpo. Dentro de cada pessoa, há um caçador esfomeado e caçamos as nossas presas de todas as maneiras... nem que seja mascarando-nos delas. Há guerra. Há terror. Há medo. Há escuridão dentro de cada um de nós.. Todos somos capazes dos feitos mais horríveis, se levados ao limite. Moldamo-nos, recriamo-nos, mas o Caçador mantém-se. O desejo mantém-se. O lado animal, irracional, puramente egocêntrico, mantém-se. Corremos o mundo, inutilmente, à procura da presa que nos sacie a fome de vez. Alimentamo-nos da carne de mil seres, bebemo-lhes o sangue em busca das suas essências mas, em nós, não sobrevivem e rapidamente precisamos de mais.
A consciência, o arrependimento, o conformismo, não melhoram nada. Como num poço sem fundo, só podemos  acolher a escuridão e deixá-la preencher-nos por completo.


PN





24.04.2015

[um voo ao contrário]

Ascende, assim, a inspiração do teu corpo
que nunca teve a alma que inaugurei pura
  em versos
Só não te extingo daqui porque me fazes
compor  melodias dos anos do Sol e ficções,
esculpidas no mármore de mortais eternidades
tive um dia a envolvência de uma onda
informe, cálida, nascida das profundezas de mim,
eu nem sabia que havia um fonte cá dentro
que nos faz querer despir as roupas e nos faz
humanos.  Assim - nus. como viemos.
E o tecto fechado é um novo tipo de céu.
E as quatro paredes, o seio da nossa comunhão.
E a escuridão, finalmente bem vinda, abençoada
cortina que nos resguarda do mundo.
o nosso espaço. não falemos.
abismo gravítico, é o que és, e caio de novo em ti
como se os teus braços me amparassem a queda,
estonteante tocar de eternidade,
caio de novo em ti.
sei que vou morrer.

*


Faz-me humana. Imersa,
no calor só nosso
Faz-me sentir, prolonga,
a vontade de sentir
Sê inesgotável, não te circunscrevas
a um momento de disparos caóticos,
momento de sentidos cegos de tanto sentir
Porque uma vez morri.
Resgata o que houver,
e amanhã partirei em paz.



MF

domingo, 3 de maio de 2015

"A sombra do medo de ser humano"

Para Metamorfose,

  Chorei. Chorei-te. Eras tu quem eu chorava por não te poder amar. 
  Também tu tão jovem e tão sabedor da melancolia e da morte. Da minha espécie…e sem te poder amar como queria. Mereces esta carta há tanto tempo. E tudo começou por causa das palavras e tudo termina em palavras.  Este é o nosso espaço, que te dou,  ficaste, ficas,  ficarás,... comigo nos versos e no coração que ainda tenho. "Ajudas-me em graus e dimensões extraordinárias, mais que mera ajuda, tocas-me a alma" - encontrei isto perdido num bloco. Espicaçavas-me para a vida, para um novo acordar. Algo do género " Eu também vivo apesar da minha dor, vive também, é uma ordem”. Comoveste-me. A tua dor e a tua alegria. E é assim que somos humanos - com epopeias em torno das nossas almas, com um chá, uma torrada, e meia dúzia de conversas num café. Lembro-me de me contares quase todas as cenas daquele filme. É hoje um dos meus preferidos. Sorri quando vi as cenas que tão bem relataste. Obrigada. Lembro-me de me comprares bolachas Oreo e de me ofereceres um poema quando sai do autocarro. Só o podia ler em casa e assim fiz. Se não estivesse a chover teria lido logo na rua sob a luz dos candeeiros. Guardo aquelas palavras, tu tentaste ajudar me cá dentro. Lembro-me das luzes da cidade à noite, de lançares ao rio uma moeda e pedires um desejo. A minha não chegou ao rio, caiu na berma. Não pedi assim o desejo de ser viva outra vez. Acho que só pensei nisto agora. É estranho não me lembrar do que pedi na altura mas não importa : não tive forças para lançar a moeda. No autocarro escrevemos um poema juntos, os teus versos eram sempre melhores que os meus. Lembro-me que por causa de ti voltei a beber leite com chocolate. Lembro-me de fazeres uma pizza. Lembro-me de comprarmos laranjas para o lanche. Lembro-me de sentir que finalmente tinha alguém. Lembro-me de te guardar o casaco e o relógio antes do jogo e de sentir que aquela era a metáfora de Kundera - que o amor começa com uma simples metáfora e eu pensei que a minha contigo era esta - O relógio e o teu casaco nas minhas mãos, como se fosses meu. E não importava que alguém tecesse comentários a respeito disso.
  És o maior "miúdo "que já conheci. Não te contei? Ele chamou-te "miúdo" mas nem sabe quem é Sartre ou Nietszche e nunca falou comigo a respeito da morte ou da melancolia. Não ouças, coisas de miúdos. 

  És poeta até aos ossos e humano além dos ossos:

"Nós, seres humanos, temos uma certa queda
para sofrer e para sobreviver, tu tens uma queda
para sentir o amor, e não o viver."


  Recito estes versos que me escreveste, entendeste-me por inteiro - “Tu tens uma queda para sentir o amor e não o viver”, meu deus… vivi até aqui para ler isto. Ternamente, tentaste curar-me. As tuas palavras abraçaram-me por dentro, cortaram a névoa densa até a mim. Propuseste-te a curas quase impossíveis, viste-me por dentro antes mesmo de me veres. Ainda hoje me pergunto:

como me viste?
como me sofreste?
porque é como se me soubesses,
o cerne vivo e morto de mim...


  Mas hoje vagueio pelos dias, arrasto os meus passos improvisados. Tenho graves problemas de melancolia, acho que herdei isto da minha mãe. Mas sou feliz. Melancólica e feliz. Apenas não te quis arrastar comigo para o fundo porque ainda não era eu no meu melhor. Eu sei que sabes que nunca te quis magoar. Eu sei que sabes o que é a melancolia. Mas tu tens tanto medo de morrer que vives, assim, com risos nas veias. Talvez me faça falta esse medo de morrer. 
Sou apática, mas digo em minha defesa que simplesmente demoro muito tempo a sentir, mas uma vez a vida em mim, Amo,
 em pólvora e sangue e vida...

  A tua alma faz-me chorar. Mas não te posso amar. Incapaz de amar todos os que realmente merecem o meu amor, talvez seja esta a sina imposta, o meu carma. Fizeste-me sentir o pressentimento de algo maior, mas foi só um pressentimento. 
Ainda carregava comigo alguns pesos de abandonos...
 A tua alma, a tua alma... Deus deu-te a mim e eu fugi. Nos teus braços, fugi. Nos teus braços, já longe... Posso usar as tuas palavras? Obrigada por teres escrito:


"A voz trémula, a alma amedrontada
a sombra do medo de ser humano
o frio que lhe encarnava nas veias
saudade. vazio. impotente. inerte. eterna.
ridículo é, temer algo efémero
o cigarro acaba, o tempo passa,
os dias amargos ficam, a vida desaparece
que mundo ilusório, oh tu, amor!
tudo passa,
tudo transita para a eternidade
todos os sentidos,
bem sabes que não sei amar, ser, humano
todos os silêncios,
silêncios que só o coração sabe contar"

Assim escreveste, e mais tarde isto:

"(...) Os olhos eram da cor da terra, o cabelo era da cor das trevas, o corpo era da cor da tentação, o coração era da cor da carne, o ser era da cor de Deus, o mundo era da tua cor. És o arrepio de felicidade, a calmaria da vida, a bagunça do espaço, a paranoia que me atormenta, a fraqueza de me tornar finito, foste imortal, és imortal e para sempre serás imortal, aos meus olhos. Realmente eras irreal demais, a perfeição num sonho, o pesadelo no mundo, que partiu contigo, o teu. Já sei que não voltas, mas também nunca foste, bem sabes que jamais te deixarei partir, de mim. 
Estou a escrever este texto, para complicar a tua vida. Assim, ficará decerto como a minha. Pensas que viver sem ti não é complicado? Enquanto não te esqueci. Até já, encontramos se numa dessas curvas da vida, ou numa dessas voltas que a vida dá."

- Metamorfose

Volto a dizer : As tuas palavras abraçaram-me por dentro.  
Obrigada pelo nosso tempo. Faço minhas, as tuas palavras de um dos teus primeiros poemas - 
"Pessoas como tu, cheiram a eternidade";

Estou exausta, mas hoje não estou morta
prometo: vou ser quem sou, viver o que digo
Estou exausta, mas escrevo,
afinal, escreveste-me
E as palavras são tudo
As tuas são mãos, abraços que percorrem distâncias
Toda a distância

Mais sábio, decerto mais forte que eu
Poeta até aos ossos
Grandeza humana,
Prova cósmica de vida,
És universo, és da raça dos que vivem até morrer
E enxotam abismos mortos de tempos idos. - MF

"Sabes bem que não sei viver."
- irei saber, prometo.

MF






29.04.2015

   As avionetas percorrem o céu lançando para a terra salva- vidas. Aterram aqui - à mão, onde o apocalipse despoletou sem aviso e invisível. Aterram aqui, mas não lhes toco. Cá em baixo é calmo, terreno fértil para um outro tipo de morte. Foi um tiro sem som. Lento. Um desabar sem escombros. Continuam a lançar salva-vidas de diversos tipos e essências, ainda não desistiram de mim. Aposto que lá em cima fazem apostas. Não sou ingrata, sou inerte. Não quero barcos, nem aviões, nem escadas, nem mãos. Estou aqui, impassível. Mas transcendo às vezes plácida, no espaço que antecede um verso derradeiro de um poeta do meu sangue. Transcendo em tesouros secretos da solidão - breve saciar espiritual sem enlevo protuberante das tempestades que galvanizam o sangue e a razão.

 As avionetas não cessam, substituem-se umas às outras. Talvez um dia deixem de aparecer e eu continuarei aqui, sem hipótese de sair para a promessa de outros mundos fora deste. Mundos intocados e de outras poesias. Mundos sem mácula, ainda virgens. Sairei daqui. Se eu não adormecer aqui… quando um beijo for mais que um beijo, quando as minhas mãos tremerem, quando a minha voz tremer e quiser mais que o meu silêncio e a minha pele estiver pronta a sentir e os meus olhos finalmente abertos à morbidez da desolação que começa em mim. Talvez aí – sairei daqui.

MF

Grouper, Holding - https://www.youtube.com/watch?v=i31zFiwBFho

sexta-feira, 1 de maio de 2015



*
Memorandos 
Abril

*

30.04.2015

15h20

 Estou sozinha. 
Todos os da minha espécie morreram ou estão igualmente longe.

15h04

Afunda te na plena catarse
e ascende como montanha

15h01

Corpo morto à espera de ser vida
Durmo enquanto caminho pelos dias

29.04.2015

23h04

  Quero descobrir a noite, sentir o desconforto atento da vaga alucinação que quase te convence de que nada disto é real e és uma super consciência caída num sono de sonhos materiais. Quero tanto mas não tenho força... somente o sempre cansaço que me leva para casa mais cedo, antes de a noite começar.


22h53

  Quero tudo aquilo na iminência de perder. Se amanhã não estiveres cá, irei querer-te.
 Confundir-te-ei. Andei sempre fora de sincronização com os corações que um dia me quiseram.  Confundir-te-ei. E serás o novo emergir de palavras.


27.04.2015

22h48

Beija-me.
Que amanhã morremos e não nos amámos.

9h11

Ergues assim, todo o teu peso renegado sobre mim´
E cresço no teu silêncio.
E choro no teu espaço
E morro e ascendo na tua cura violenta.
Tenho um coração pequeno que condensa a poesia de um milhão...

8h54

Contivemos as estrelas nas nossas mãos
Em instantes gráceis da nossa mortalidade
Sei que deus faz parte de nós, por todos esses instantes cheios

1h28
Resguardei o meu mundo, dei-te metade de mim.


0h23

Nunca quisemos nada além do derramar anímico,
e por dentre os interstícios de nós, acordarmo-nos,
um no outro,


14.04.2015
1h45

Matámo-nos de vez e ficámos vivos para escrever.

13.04.2015
21h01

as horas findavam e nós sem as vermos
e com elas a juventude,
o Sol magno que nos esquecia dos dias e nos fazia mais altos

10.04.2015

1h24

Não são palavras que gritem,
que esmaguem, conquistem e matem,
desmintam, o que eu menti
Que nasçam em ti,
rompendo o silêncio
e trazendo-te a mim
eu sempre estive aqui.

3h56
O teu corpo é o teu corpo,
a tua alma inventei-a
Encerro a ficção onde navego
Comportas a minha fantasia

3h53

Os corpos querem-se; as almas desnudam-se
vago e cheio anseio de completude
Sangue. Tempestuoso;
Saudade, de ti
onde dorme o teu corpo, vem a mim
onde está o teu corpo, se te tenho a alma?
Desvarios sem sono perdem-se na noite
desejo-te,
mas não te quero, afinal
amanhã não nos quero, apenas agora a juventude grita,

É a solidão do meu corpo que te chama
ao meu corpo sem chama,
deserto encanecido, febril corpo frio.




MF


















[paredes]

… Desmancharmos nossos corpos contra as paredes
com a violência da superabundante vida nas veias
Compormos de raiz os nossos corpos,
arrancadas destes a apatia
seres tu próprio o bom abismo
onde caio e me enlevo,
de novo capaz de sentir.


MF

to b




Sombra




Recomponho os nossos fantasmas.
A saudade trepida nos meus lábios e estes só encaixam nos teus.
Seria bom dormir e as palavras se não me assaltarem assim, numa violência a meio da noite. Seria bom dormir. Mas é urgente escrever. É urgente morrer e deixar provas de que fui viva. Ainda estremeço ao lembrar-me de como estremecia. Ainda estremeço ao lembrar-me de como fui viva. Pudesse eu arrancar o coração e ensopá-lo noutras águas que não as turvas melancólicas onde este petrifica. E depois devolve-lo de novo ao meu peito onde este batesse num fulgor ritmado.

Porque torpor é a pele por cima da pele. Interfere.
Escava através dos dias, resoluto em achares-me.
Escava até encontrares o limiar da sombra, sem medo que a sombra te fira ou te encubra. A sombra delineia e dá volume às formas. Não tenhas medo. Atrás de mim estou eu, pressente os cânticos e as paisagens de luz. Estou à espera de uma grande torre. De um grande plano para me lançar, cortada pelo ar. A queda livre e a supra consciência dos sentidos.


Aquecer-me-ia por inteiro, para um novo milénio de solidão.



MF



É noite. E os becos sem ninguém.





29 de Abril


   É noite. Os becos sem ninguém. O letreiro vermelho de um hotel, vultos isolados em algumas esquinas, baços das luzes noturnas. Nada disto parece real. A estas horas nada parece real. Sinto-me flutuar numa alucinação. De noite é outro mundo - “Limpezas espirituais e exorcismos” é o serviço publicitado na rádio do autocarro com uma música barata de fundo. O motorista bate o pé, ao som de uma música pimba.

Foi um dia longo…
   Na solidão da tarde senti desvanecer-me em mim sob o céu cortado pelos ramos de árvores imemoriais. Vou dedicar-me a descrever o meu fantasma. A escrever sinto que estou realmente aqui, ainda que somente uma sombra, pedaço apagado com lampejos frios de poesia. Ainda aqui. Mesmo que não esteja. Engrandece-se um silêncio lento neste templo que me fiz. Não ouço as vagas quebrar, impelidas pela dinâmica de um mar sem origem. Passeio o corpo ausente - paz embebida de melancolia.

Um dia vamos saber - Inumámos a vida e éramos jovens. A pólvora morreu, mas ainda fingimos respirar, assim, lentamente.
   
  Talvez apenas se te visse tremesse a partir de dentro e fosse de novo abalada pelas ondas refratadas. E o sangue correria, por momentos. A urgente certeza de que ainda sou humana. Não te quero. Somente essa certeza, apenas um arrepio hiperbólico, o desmanchar das estruturas féretras, o estalar súbito da argila lisa, sem relevo ou fissuras.

Vem. Tenho a boca seca de não falar.
É desumano querer estar só.
Como pode a pedra chorar? Como pode a navalha escrever sobre o calor?



É noite. E os becos sem ninguém…


MF

[Fogo]







(Abril)

  Apagou-se em mim. No crepúsculo de um dia há 13 milénios atrás. Apagou-se em mim e hoje transporto comigo uma solidão cuidada, resguardo límpido e escuro onde me oculto, onde reconto os dias verdes com medo das marés que lhes desfocam os contornos. Recolho-me, até ao atelier onde monto brinquedos quebrados na esperança de voltar a ouvir risos. Somente sombras, ecos perdidos, mas risos.

Queria aquele doce medo de morrer. Doce tremer de voz, doce tremer de mãos...
Queria aquele cheio no meu peito, incêndios no meu peito.

  Mas apagou-se em mim.
Fogo. Extinguiu-se-me das veias com fome lupina, mas acorda-me excruciante nas noites sem ninguém. Fogo. Porque não vens de dia? Quando há humanos que clamam por ti. Expande-te no meu corpo, onda cálida ascendente. Reduz a estilhaços, a cinzas, a nada, esta pedra sólida que se alastra por todo o meu sangue e me faz tumba.



Hoje gravito sob o meu próprio corpo e tudo é lento.


MF