sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Memórias

Às vezes julgo que pintei memórias mais coloridas, mais intensas, do que a Vida.

MF



Quando pensei

Quando pensei ver terras soalheiras, naufraguei sempre em costas estéreis. Quando pensei ter agarrado algo, achei as minhas mãos vazias. Quando pensei estar a viver, a alma pediu-me de volta. Quando pensei estar certa, perdi-me, e quando pensei estar perdida, encontrei-me a mim, a meio de tudo e a meio de nada.

MF


Cada momento

Tudo acaba, tudo se degrada, algum dia.Vivo, sob o Sol de cada momento.

MF

À sombra do Sol

"Preciso que me prometam quase tudo, pois vivi demasiado tempo à sombra do Sol."
Henry Miller - O trópico de capricórnio


Somos

 Somos duas almas que se encontraram, sensíveis, à margem deste mundo tão oco e tão duro. Duas ilhas que se uniram num mar só nosso. Somos mais do que sonhei, somos nós no nosso tempo e no nosso espaço.

MF


Silêncios

Há silêncios que abarcam mundos, milhões de palavras difusas, paisagens de cores impossíveis. Há silêncios que falam, o intransmissível.

MF

As palavras

Na minha mente forjei as palavras perfeitas, que traçariam caminhos até ao coração, as frases perfeitas, que ternamente abririam uma alma, mas que não deixei ser som.

MF

Aquém

Vivo aquém da vida, aquém de mim mesma. Vivo morrendo, na sombra de mim. 
Quero ser o que não sou, mas sei que posso ser, se ao menos me deixasse.
Porque tudo o que podia ser e tudo o que não me deixei ser, queima a vida em mim. 

MF

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Carta

Tenho em mim a pressa de te fazer sentir que tens tudo, tendo-me só a mim. Que não há solidão, comigo. Que a vida é menos árdua, comigo. Que o cansaço é convalescido, nos meus braços. Mas talvez este seja um fardo grande de mais para ser carregado, pois eu sou apenas eu, frágil de mais, pequena de mais, mas com tantos sentimentos... No entanto, fogem-se-me as palavras e nada consigo dizer, tendo tanto dentro de mim, quando fico presa no teu olhar.
Quero carregar contigo, a tua história, as tuas mágoas, os teus cansaços, pois tudo isso é pesado de mais para uma só alma. E os sonhos, mesmo os sonhos, quero sonhá-los contigo, pois sendo teus são meus também, porque és parte de mim e estás em mim, inerente a tudo o que fui, sou ou serei.

MF
d
                                          

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nostalgia

Nostálgica do que não foi, do que não vi, do que não senti, do que não vivi.

MF



Arrependimento

Tarde de mais, ou cedo de mais, aprendi, que é tão mais doce o arrependimento de ter dito e feito, do que o arrependimento de ter deixado tudo por dizer e fazer, à espera que entendessem o silêncio.

MF

País das lágrimas

" Não sabia como chegar até ele...é tão misterioso o País das lágrimas!"

- Antoine de saint-exupérym, O principezinho

Barreira

"Pareceu-lhe que se isolava de toda a gente, e que, nesse momento, punha uma barreira entre si e o resto do mundo"
Dostoiesvky - Crime e castigo

O estrangeiro

" Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era."

Albert Camus - O estrangeiro

A dor

" A dor é sempre inevitável a uma inteligência larga e a um coração sensível. Os grandes homens, penso eu, hão-de sentir muita tristeza neste mundo..."

Dostoievski - Crime e Castigo

Vem sentar-te comigo Lídia




Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o ri
o.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis, in "odes"

Quero

Quero sentir tudo o que foi posto no mundo para sentir, quero ver o que houver para ver, ouvir o que houver para ouvir, chorar e rir, correr e parar, amar e sofrer, cair e levantar. 
Quero fazer da dor Arte e lição, das experiências construção, quero ter corrido todo o chão e todo o céu. 
E no fim, deixar-me docemente ir, com brilho lúcido no olhar, sem pesos no coração, tendo sido tudo o que poderia ter sido, tendo sentido tudo o que podia ter sentido, tendo vivido, e não existido.
E no fim a catarse e a partida, e só aí mergulhar serena, no olvido. 

MF

Nos teus braços


Nos teus braços, a paz de um mar plácido abarca a minha alma . Nos teus braços, não há tempo nem espaço. Nos teus braços, o desejo de que o mundo não fosse o mundo, mas um momento. Nos teus braços, flutuo fora de mim. Nos teus braços, inventámos um céu para nós dois. Nos teus braços, a vida emergiu em mim.

MF

Eu


Eu, tão inquieta e tão calma, tão triste e tão feliz, tão forte e tão fraca, terrena e sonhadora. Eu, tão cheia de tudo, tão cheia de nada. Tenho em mim, um mundo que canta e chora. Tenho em mim, dores passadas mas um brilho no olhar. Tenho em mim, despojos de vontades e desalento. Tenho em mim, a pressa de viver e a pressa de parar.
Eu, tenho em mim, mil e uma contradições. 

MF

Não me deixes só


Devolveste-me a vida, perdida algures no tempo, ao pé do mar de memórias felizes. Fizeste-me sentir o sangue correr, quente nas veias. Fizeste-me sair do meu barco letárgico, ancorado no mar dos espíritos solitários. Fizeste-me sentir viva, salva de mim. Não me deixes só, com a memória cálida do teu beijo. Não me deixes só, imersa em promessas vazias.Não me deixes só, de novo entregue a mim, ao algoz que sou, aos meus próprios braços frios. Não me deixes só, depois de tudo.

MF

Evasão


Deito-me, súbdita de mim mesma, eremita num deserto agreste,
Fingindo esquecer tudo o que me quebrou,
Fingindo poder concertar pedaços já degenerados,
Fingindo ser inteira, ainda que desmorone em qualquer outra noite mais escura,
Fingindo que sairei de mim, algum dia,
Fingindo estar desprendida de tudo o que me puxa para trás, no tempo.

Repouso sob o véu do tempo que me carrega os ombros
De pesos e dores insustentáveis, nostálgica não do que foi
Mas do que poderia ter sido, se não fosse o tempo,
Que nos desgasta, se não fosse a vida, que nos ultrapassa
se não fosse eu ser eu, mas sim o que enceno, segura na mente

Assim choro a vida, as coisas que nunca serão
Assim olho a vida, sem a ver, sem a tocar

Presa que estou à minha eterna solidão, deito-me com um céu acima,
Um céu, onde os meus olhos se perdem e repousam baços
Um céu que me lembra de como sou pequena e sozinha
Um céu onde traço caminhos imaginários, onde sonho fora de mim

E medito sobre o tempo, sobre as histórias que abandonei,
Sobre tudo o que me não deixei ser;  E invento finais, na minha mente,
e invento tudo o que poderia ter sido, presa ao que foi, ao que fui,
ao que fomos, e fomos tanto com tão pouco

Repouso sob memórias, repassadas vezes sem conta numa mente
Estagnada no passado, e olho o céu lá em cima e sou tão pequena
E a vida é um segundo

Como poderia eu saber, o que seria se tivesse saltado, se tivesse
ficado e amado? Não me deixei viver, fui meu algoz, fui meu
abrigo falso e meu penhasco. Na flor da minha vida, só a mim me dei

E olho o céu lá em cima, que olha para mim também
Que vida tenho eu para mostrar? Estou só, nas mãos do destino
insondável e falaz, nas minhas mãos que prendem sem prender,
a alma outrora alada

Deito-me à margem da grande estrada, assaltada por visões felizes de mim
Um outro eu que não sou eu, acena para mim...
Podia ser tanto, mas nasci com cansaços sem nome, com uma alma 
que se esconde, de mim. Estou deitada na margem.

Sinto-me de novo sozinha, e olho o céu lá em cima, esperando me encontrar,
quando menos esperar. Esperando encontrar um sentido, para aqui estar.

MF

Amor

 Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, 
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho: 
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira, 

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és, 
tão perto que a tua mão no meu peito é minha, 
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono. "

Pablo Neruda ( Cem Sonetos de Amor )

Águas Plácidas


   Em algum momento cansamo-nos de nós. Cansamo-nos do silêncio, da quietude das águas que nunca ousámos perturbar. Sentimos frio, o vazio que sempre esteve em nós, e é hora de mover, sofrer e sentir, ir em busca, procurar... algo que trema as águas e encha de luz, o vazio. Viver, antes de morrer.

MF

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Perscrutando

Olhos lassos navegam, perdidos sem destino, no deserto de mim, perscrutando pedaços de sonhos abandonados e farrapos de coisas que foram, e não mais serão, cenas vivas em palco rubro. Perscrutando recantos plácidos e sinuosos, memórias cálidas e frias, recessos sem tempo onde se perde o coração.

MF

Decorro a vida

Decorro a vida à margem de coisa nenhuma, tantas vezes estrangeira dentro de mim.
Contemplo, sem ver, o que me cerca, sonho o que não vivo, para viver.

MF

Á espera

Á espera.
Sinto-me à espera de algo que não sei, mas que a minha alma almeja.
Á espera que me guiem, à espera que me vejam, à espera de amor.

MF

Coração bates só

Coração bates só
Sem som
No teu retiro

Águas cálidas
Abarcam-te
Trazendo na maré
Memórias do que foi,
do que já não é

Coração bates só
descansas a vida, 
lasso e perdido 
dentro de ti

Estagnado no mesmo
compasso, desolado
Alimentado do que resta
vivo

Coração bates só
Eremita sonhador
Cais no olvido
Sempre imerso 
em ti

MF

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Solidão

Sombra do que fui,
Já nada sou.

Nem a terra me consome
Pois nada mais há vivo em mim.

Quem fui são memórias,
O passado de outro homem.

Eu sou a dor do que fica,
Do que morre e vive
.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amor

"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar ...
   
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Em torno a mim, em maré cheia

"Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!"

Fernando Pessoa, Poesias Ortónimo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Contrariedades



Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 


Cesário Verde

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aqueles que passam por nós



"Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nos meus poemas vive a dor

Nos meus poemas vive a dor.
Acumulei-a com a vida,
Em tudo o que me deixei perder.

Refugiei-me nas palavras,
Foi o mais perto que consegui
De pertencer a algo, a alguém.

Na solidão, nada mais tive que sonhos.
Perdi-os com o tempo,
Que me levou também a esperança.

Agora já não sonho,
Mas antes, quando sonhava,
Conseguia ser feliz, ainda que só por momentos.

No meu mundo, era inteiro.

A idade era um número,
Não me governava.

A morte, uma lenda,
Histórias para crianças rebeldes.

Tinha as rédeas do Tempo,
Nada mais precisava.

Vivia os sonhos de mil homens,
Mas sem os viver.

E quando abria os olhos,
Voltava à mesma solidão,
Que me consumia, que me consome.

Era tudo num universo de nada,
Mas ao voltar, a escuridão revelava
Que era afinal nada, num universo de tudo.

Hoje, já não sonho.
Já não vivo em mundos imaginários,
Apesar de eles ainda existirem.

Mas a escuridão mantém-se.
Ecoa na minha alma
Em cada momento que passa.

Nos meus poemas vive a dor.
Acumulei-a com a vida.
Mas hoje despeço-me.

Liberto-me, por fim.