quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Caçador Solitário



"What are all songs for me, now, who no more care to sing?
Deep in the heart of Summer, sweet is life to me still,
But my heart is a lonely hunter that hunts on a lonely hill."
                                                   - "The Lonely Hunter" by Fiona MacLeod


  Coração, és Caçador solitário, vagueando passivo mas sensível, através de uma floresta demasiado vasta para os teus pés, demasiado escura para que possas caminhar sem tropeçar nos teus próprios escombros e demasiado densa para que possas perscrutar além da distância sem que te iludas com as formas que se advinham nas sombras. O silêncio lúgubre inspira temor, mas caminhas solene, abarcado por melodias cálidas dentro de ti, sinfonias que te levam para outro espaço cheio de luz, abarcado por memórias de outro tempo em que não eras caçador e vivias sem saber que vivias... 
  Confundiste quimeras com algo real e quase morreste de êxtase nesse momento, por achares teres encontrado aquilo pelo qual tropeçaste e caminhaste tantas milhas nesta floresta. Mas recuperaste desse falso alarme, dessa falsa felicidade efémera. Assim, procuras incessantemente por algo que não sabes mas que almejas tão ardentemente... É isso que te faz caminhar, passo a passo, por trilhos solitários. Pensaste estar perdido muitas vezes, mas de novo te encontraste, instintivamente talhando caminhos, norteado por uma força dentro de ti, sapiente e misteriosa, que te guia sem realmente guiar. Afinal, és tu o caçador, procurando talvez, outro Caçador sem lastro. Outro Caçador...Talvez juntos descubram que o que procuravam foi encontrado. Talvez juntos descubram que são o fim da caminhada e o descanso merecido. Talvez juntos descubram que vasta não era a floresta, nem tampouco assombrosa era a escuridão - Afinal, vasto era o sonho e o ímpeto universal de caminhar e explorar fora de si;
Afinal, a escuridão era a solidão de cada coração... 

MF

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Renascer




  E eu sei que tenho de partir... mas continuo presa a memórias. Invento tudo o que poderia ter sido, viajo ao passado e penso em tudo aquilo que mudaria. Mas talvez o passado seja solo sagrado, que não pode nem deve ser remexido, imolado em nome de um presente utópico, mesmo que tal fosse possível. Eu sei que tenho de partir, pois não há lugar para mim...mas continuo a sonhar, a ver-nos aos dois numa paragem, a voltar de novo e de novo àqueles dias de Sol que me pareciam ser eternos. E foram, de facto. Eternos na minha mente. Continuo, enfim, a inventar novos momentos a partir dos que possuo. Neste abandono a mim, neste deserto plácido em que agora me encontro, espero encontrar novos planos, novos caminhos, novas armas para me libertar do passado e poder finalmente regressar à realidade. Espero encontrar-me, refazer-me para aproveitar novos dias, após convalescer cada dor, cada esperança, cada desdita; renascer das cinzas desta história que num só fôlego me fez viva e me desgastou. 
  Talvez diga a mim mesma que há coisas destinadas a serem breves porque eram belas de mais, intensas de mais para um coração deste mundo. Para o meu coração. Talvez tudo já esteja escrito, todas as histórias, todos as alegrias e tristezas, segundo um plano que não podemos compreender. Talvez eu seja o lugar onde preciso agora de estar. Ou talvez só minta para mim,  para me deixar partir...

MF

Medo

~29.03.2014

Tenho medo. Medo de olhar o Sol e de me sentir tão feliz que possa perder-me quando ele se for, num inevitável pôr-do-sol, sem regresso ao meu céu. De nesse vislumbre de luz e calor viver mil anos de vida e não mais saber o que era existir, entorpecida e conformada, na sombra, não mais me contentar com o que tinha, com o que era...
Tenho medo. Medo de só me ter a mim, afinal.

MF

Eu



  Em criança era alegre, uma maria rapaz que fazia caretas para as fotos, vestia os calções do irmão e desmontava a tábua de passar a ferro da avó para fingir que tinha uma prancha de surf. Cresci, e uma timidez apoderou-se de mim, refugiei-me nos livros, através dos quais sonhava, e na música e desporto. Hoje ainda detecto vestígios de introversão, de isolamento - Prefiro passar uma sexta à noite, em casa em vez de sair, a ver um filme ou a ler um livro, acompanhada de chá. Adoro chá. Adoro muitas coisas, todas elas simples. Adoro o mar, adoro estar na água ao pôr-do-sol. Sorrio espontaneamente só de sentir o calor e o sal na pele, de olhar o horizonte e pensar no milagre que é estar vivo e na benção de sentir essa transcendência nas ondas do oceano. Nesse momento quase acredito em Deus, mas num deus impessoal. Adoro o céu à noite, adoro ficar na varanda numa noite de verão a ouvir música, completamente sozinha a olhá-lo e a imaginar todos os mistérios que encerra, a tentar perscrutar para além do que sou capaz de ver e pensar que sou feita do pó de estrelas, que tudo está interligado de forma perfeita, numa poesia viva. De repente sinto-me pequena e grande ao mesmo tempo: Pequena sob esse céu, pequenos todos os meus problemas terrenos e enorme porque tenho o universo em mim, em cada átomo. Adoro psicologia e filosofia, sou curiosa por natureza. Dizem que sou distraída mas na verdade ocupo a minha cabeça com mil assuntos que não interessariam a mais ninguém num raio de 50km. Adoro discussões filosóficas, mas não gosto de perder na argumentação, adoro dilemas morais, adoro discutir religião ainda que me considere ateia. Gosto de mentes abertas, e de pessoas sensíveis, adoro pensar, mas pensar demasiado também me faz mal. Adoro Wilde, Pessoa e Dostoiesky, partilho das suas mágoas e admiro todo o seu legado. Queria ser escritora, poeta ou romancista, não sei. Tivesse eu mais talento...  Amo as palavras e odeio números e coisas demasiado lógicas. Adoro ler quando vou ao café, mesmo que esteja muito barulho. Adoro falar com a minha mãe e discutir uma passagem do Livro do Desassossego. Adoro levantar-me mais cedo ao Domingo para ler ou para ver um filme. Adoro registar todas as minhas frases preferidas, sejam elas de filmes ou livros. Adoro ficar em casa quando chove e olhar pela janela, mas em dias de Sol só quero sair e correr ao fim da tarde; enquanto corro olho para as montanhas e maravilho-me com todas as nuances de luz, com o pôr-do-sol. Adoro piano, sentar-me e deixar as mãos livres comporem pedaços de músicas a partir de escalas. Pedaços que nunca acabo por desleixo talvez, porque algumas peças só me parecem belas na hora da composição. Adoro nadar, mas de forma relaxada. Adoro quem me faz rir, quem fala com paixão, com brilho no olhar daquilo que realmente gosta, e quem se interessa por me conhecer, por valorizar as coisas que gosto. Prefiro ouvir, mas também gosto de falar, quando me sinto à vontade para tal. Gosto de observar, no entanto queria ser mais perspicaz.  Vejo como a maioria das pessoas aparenta ser tão desinteressante, mas depois lembro-me que todos nós escondemos  e trancamos a mil chaves a nossa alma. Adoro falar pausadamente, ser séria e serena, mas também adoro ser extrovertida e fazer rir os outros. Adoro massa, chocolate e bolachas, adoro cinema e programas "nerds" de fìsica quântica, apesar de odiar física na escola. Adoro o budismo, mas ainda tenho tanto que ler sobre isso. 
  Pensando bem, acho que adoro mesmo muita coisa, algumas delas estranhas, mas mesmo assim sou um pouco melancólica. Sofro sem saber porquê, e tento fazer da dor poema ou devaneio. Sofro talvez por me sentir sozinha tantas vezes, ainda que rodeada de tantos amigos ou colegas; por não conseguir consumar todo o meu potencial. Sou calma, recolho-me vezes de mais a mim mesma e viajo dentro de mim, por pensamentos, palavras e principalmente por memórias. Sou sensível, sinto a dor dos outros, multiplicando assim a minha. Sou fria, mas quando amo, amo com tudo de mim. Talvez a frieza seja uma máscara que uso para me proteger pois quebro tão facilmente... Sou orgulhosa, mas não me leva muito tempo a perdoar, e sinto-me tão livre, humana e humilde nesse momento. Sou reservada, mas dispo a minha alma a quem for digno da minha confiança. Sou apática, mas também sou cheia de vida. Sou diferente, mas não me importo de ser diferente, de não querer encaixar-me em padrões ou seguir hábitos comuns. Sou complicada, mas também sou simples, pelo menos para mim. Sou um pouco estranha ou neurótica, às vezes penso que tudo o que acontece tem como alvo eu própria, mas sou tão lúcida na análise que faço de tudo. Sou ingênua, acredito demasiado nas pessoas, não espero que me façam aquilo que eu seria incapaz de lhes fazer; gosto de quase toda a gente, sendo o meu segredo realçar o seu lado bom e quase esquecer o lado mau. Coloco-me no lugar dos outros e vejo tudo pelos seus olhos, acredito que todos nós estamos no mesmo barco e sofremos todos em silêncio. 
  Não quero viver superficialmente, quero desenvolver-me interiormente do melhor modo que conseguir. Não me importo de ser uma rapariga que lê Dostoiesky e que quer ler Niezstche, ou que ouve Nine inch nails mas também folk rock e eletrónica, ou que tem um bloco de notas na carteira em vez de uma caixa de maquilhagem, para o caso de lhe vir à cabeça uma ideia, ou frase para um futuro poema. Não sei às vezes quem sou, o processo de construção é contínuo, mas tenho uma ânsia por saber sempre mais, uma pressa de viver, sentir e ver tudo, e uma pressa de parar a contemplar tudo o que há dentro de mim.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Algo tão simples





~16.04.2014

Morremos. Findámos antes de sermos tudo aquilo que prometíamos . Às vezes queremos tanto segurar as coisas junto a nós que acabamos por as perder, às vezes parece que o destino conspira contra nós e que na nossa insignificância captamos a sua atenção e a sua inveja. Mas no fundo de mim sei que fomos histórias breves, destinados a momentos efémeros. Talvez... mas não dói menos por isso, por esse prenúncio trágico que sempre esteve em mim, mesmo naqueles dias felizes em que já não havia tempo ou espaço, onde cada poro nosso cantava a vida. "E não sei quando isto irá acabar, mas temo estar próximo" - assim escrevi, quando senti esse agouro, quando fui embora num autocarro cheio, sentindo-me perdida.
  Procuro voltar a existir, como sabia, antes de ti, mas parece que tudo de dissipou de mim , para te dar lugar. Existir - Talvez tudo se resuma a uma existência antes de ti e a uma vida depois de ti, e não há gratidão possível, soldo que pague quem nos fez sentir finalmente vivos, ainda que por instantes.
  Nas coisas simples te recordo, na ausência estás presente, quando te quero trazer de volta e ouço uma das muitas músicas que dizíamos serem nossas. Música - Juntaste-nos aos dois. Ouvi hoje uma e pensei que a irias adorar, porque eu a adorei. Dói não te poder mostrar algo tão simples...

♫ We are the ever living ghost of what once was...

MF


A felicidade


  A felicidade é algo que deve ser distribuído por vários objetos, para que quando um se quebra ela não esteja irremediavelmente perdida. Não deve assim, estar concentrada num só objeto ou pessoa, uma vez que todos os objetos se degradam e todas as pessoas mudam. Porque, no fim, talvez nenhuma delas seja digna de te segurar a vida, de ser guardiã de toda a tua felicidade. As mãos tremem vezes de mais,  somos todos demasiado inconstantes, magoamos quem mais amamos e o nosso orgulho rouba-nos tempo, atrasa um perdão merecido, consome-nos vivos. 
  A maior felicidade deve estar em nós, advir da auto-realização, de um espírito sempre capaz de se maravilhar com a beleza que nos cerca...

MF


terça-feira, 22 de abril de 2014

Passado doutro mundo




Pudesse eu esquecer-te sem te esquecer
docemente, sem raiva, tua imagem, atrás
dos meus olhos, tua voz que ecoa na quietude 

Fomos mar que antevia costa onírica
Puro mar, ora sereno ora tempestuoso
Fomos estrelas que findaram num prólogo
Puras estrelas, eternas se não no mundo, em nós
Fomos páginas, fomos sangue, quimeras desfeitas
Pura maculada poesia de olhares e sorrisos

Tempo, leva-me as memórias, sem me levar!
funde em mim anódinos éters, para não sentir
Olho para quem fui, e já não sei quem sou
não sei quem és, por não saber quem foste

Perdida. Parto, enfim, de regresso a mim
Voltarei ao mar, depois de saber navegar
Não há mais frémito, enlevo impetuoso
Neste coração.
Bate, mas não sinto.
Mas antevejo lágrimas distantes, lágrimas
Do que fomos, num passado doutro mundo.

MF

Impaciência interior


" E, meu amigo, não será talvez este meu desejo de mudar uma incómoda impaciência interior que me perseguirá sempre e por todas as partes?
 - Goethe, "Werther"



 
  Tenho em mim uma impaciência, um desapego, um controlo de emoções que me magoa, pela consciência dele. Mas tenho dias em que quebro repentinamente, sem aviso, choro as lágrimas acumuladas em silêncio, furtivas. Nada está curado em mim, nenhum corte, nenhuma mágoa. Na solidão quase me sinto em casa, entorpecida, afastada do mundo do agir e do sentir. No entanto , tudo é estático em mim, o tempo não passa dentro de mim, sou um deserto incomensurável de lugares, imagens, vozes, canções, pessoas, dores perenes. Impaciente, desejo seguir em frente, mas não sei para onde ir, não consegui novas armas.
   Recolho-me de novo à inação, exploro memórias felizes. Quase me sinto ali de novo, ingénua e feliz. 

MF

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A sofreguidão de um instante




Tudo renegarei menos o afecto, 
e trago um ceptro e uma coroa, 
o primeiro de ferro, a segunda de urze, 
para ser o rei efémero 
desse amor único e breve 
que se dilui em partidas 
e se fragmenta em perguntas 
iguais às das amantes 
que a claridade atordoa e converte. 
Deixa-me reinar em ti 
o tempo apenas de um relâmpago 
a incendiar a erva seca dos cumes. 
E se tiver que montar guarda, 
que seja em redor do teu sono, 
num êxtase de lábios sobre a relva, 
num delírio de beijos sobre o ventre, 
num assombro de dedos sob a roupa. 
Eu estava morto e não sabia, sabes, 
que há um tempo dentro deste tempo 
para renascermos com os corais 
e sermos eternos na sofreguidão de um instante

José Jorge Letria, in "Variantes do Oiro"

Há um tempo




  Há um tempo em que irás perceber que o tempo e o destino não estão do teu lado, são impessoais, por mais belas que sejam as tuas histórias. Há um tempo para viveres gloriosamente e para caíres a seguir. Um tempo para amar, para sofrer, aprender e ensinar,  para te curares e recobrares a centelha de vida levada com cada pessoa que partiu do teu coração. Um tempo para recordares tudo aquilo que te quebrou e tudo aquilo que te fez vivo por instantes. Porque a vida não é um recreio eterno, é um espaço para o desenvolvimento pessoal, apenas conseguido na meditação sobre cada fracasso, cada desdita, quando ela te abana e testa até um limite que julgavas não aguentar. Há um tempo em que irás perceber que todos os teus gestos e palavras te irão definir, perceber que o perdão é algo necessário para te libertares das cargas que te pesam, um ato de misericórdia para ti próprio. Há um tempo em que irás perceber que a maior parte dos caminhos terás de percorrer sozinho, que o abandono é inevitável, as relações deterioram-se, não são quadros estáticos - Mas o amor é a única coisa pela qual vale a pena sofrer. Há um tempo em que irás aprender a humildade, aprender que, no fundo, somos todos iguais, uns mais iguais que outros, mas iguais. Perceber que tudo já foi dito por quem já viveu antes de ti, ou mais vida que tu - Mas vale a pena ouvir de novo, por outras palavras, tudo o que trouxeste à vida dos outros, tudo o que carregaste nos teus ombros tão fracos. Há um tempo em que irás perceber que a beleza está nos movimentos, na paixão dos olhares, numa gargalhada sentida, numa alma que se ergue de um mesmo chão, vez a após vez, porque vislumbra além alguma coisa pela qual viver, que inventa e sonha em verde, sob um céu cinzento. Um tempo em que irás perceber que não chegaria uma eternidade literal, viveres mil vidas numa só, para tomares posse de toda a sabedoria da existência, para se te influir todas as sensações de prazer ou dor, para te conseguires expressar de um só fôlego, e resumir toda a tua vida num perfeito epigrama. Há um tempo em que irás ver que as palavras não conseguem alcançar os conceitos que tentam descrever, e não há conceitos mais inexprimíveis que o Amor, a Solidão e a Saudade. Mas há um tempo em que irás perceber a mensagem de cada canção, porque carregas em ti as cópias das histórias universais cantadas, do amor, da perda, da solidão ou da saudade. Há um tempo em que tomarás consciência que raras são as pessoas capazes de te ler, de ver através de ti, todo o potencial que nem tu mesmo conheces. Tira-te então de ti, tira a ferros todas as palavras, deixa ser som a tua essência. Um tempo em que perceberás que se não correres, estás morto e aquém de ti, o tempo irá passar e não terás nada que te alimente a partir de dentro. Um tempo em que perceberás que o Amor não pode ser droga anódina, a solidão não pode ser a casa de ninguém, nem as memórias a cama onde descansa cada lágrima passada, onde deixas de viver para recordar.
  Neste interregno entre a vida e a morte somos efémeros fora de nós, efémeros os lugares, as pessoas, as emoções. Mas somos eternos nas memórias - Imagens ténues, imateriais, que parecem prontas a desvanecerem-se se não fosse a nossa compulsão por as reavivar, porque amamos as suas cores. O passado afigura-se a outro mundo, dentro deste. O passado é outro céu, outro Sol, outro eu. Misteriosas as malhas em que se tece o nosso destino, implacável. Curiosas as personagens que se nos atravessam no caminho, animados de vida, para nos dar lições, para se gravarem em nós sem autorização, ou para nos gastarem o tempo. Não sentimos nunca o que já sentimos, no mesmo espetro de intensidade ou quantidade, não encontramos nunca as mesmas cores, e por isso ali descansamos em lugares sem tempo.
  No fim estamos todos sós, recolhidos e escondidos em nós. Em horas de abstração perguntam-nos " - O que pensas?" e nós respondemos, cansados, "Nada.". Mas nesses momentos, não estamos cá, os nossos olhos sem expressão estão ocupados a vasculhar, a explorar o nosso mundo, as nossas histórias simplesmente complexas, singelamente belas ou tortuosas, os nossos fracassos, as nossas glórias, sonhos e memórias -  Tudo aquilo que nunca conseguimos deixar para trás, porque não há onde deixar tudo isso. Recordamos vozes, cheiros e imagens perenes, e então, estaremos realmente sozinhos se nos recordarem também?

MF

domingo, 20 de abril de 2014

Desassossego



Escrevo sem saber porquê
inutilmente, obsessivamente,
em rasgos raros de imagens
que perpassam a minha mente
palavras em torrente procuram
pintar o que não sei, descansar,
acalmar tempestades sem nome

Escrevo sem nexo, in média rés
caos de palavras e pensamentos
à espera de me acordar deste
torpor consciente

Para mim são todas as palavras
escrevo, talvez, para ler a alma -
serenidade desassossegada, dor
calada, memórias sem estradas
resquícios de sonhos inebriados
ímpetos de sangue jovem

Criei mil mundos dentro deste
mundos efémeros que me falharam

Morro de novo, vazia em mim
sorvi o universo num trago, caí
num céu sem tempo, perdi-me,
vãs foram todas as promessas,
menos que vento, tão fugazes
choro sem chorar - colossal 
e desperdiçado esforço

Choro a irremediabilidade da minha
 sina de ser Só na flor da vida
leio o emaranhado desconexo
de imagens e memórias vívidas,
busco saída das teias a que amo
estar presa

Tento encontrar partes de mim 
no mundo, encontrar um sentido
em cada manhã, em cada abraço
cada dor e cada graça. Encontrar 
 sentido aqui. Alcançar-me, conquistar-me,
 tomar as rédeas  de mim

Quis ser tudo, sendo nada
quis-me dar, sem ser minha

Sou máquina feita de carne, sou profeta,
adivinhei cada dor, tragédia, na esteira do Sol
sou um labirinto de vontades e desalento
sou cada lágrima vertida ou retida, por 
cada história sem adeus.

Sou inerte. Sou sem ser o que não sei
sou um caos, tentando achar ordem...


MF

sábado, 19 de abril de 2014

Werther


" Por vezes tenho momentos em que sou estimulado por um ataque de coragem repentina e, então...se soubesse para onde ir, iria."

Goethe - Werther

Partir para ficar


“You have to die a few times before you can really live.”- Charles Bukowski
Morremos mil vezes na vida, morrem histórias e pedaços de nós.  Mas persistimos, aprendendo com cada lágrima e renascendo dos mesmos solos que nos consumiram. Porque a vida é rir e chorar, é " lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar..." Parto com o peso da experiência e do tempo, novas histórias esperam por mim, novas lágrimas, novos abraços, novas mortes e catarses.

MF

Um adeus



"I think I made you up inside my head" - Sylvia Plath
  E todas as minhas palavras foram um hino a alguém que esculpi a partir das sombras de ti, dos resquícios de luz que emanavas. Estão congeladas no tempo para alguém que fiz na mente, para alguém que não existe. Faço hoje da dor e destas palavras a catarse final, liberto-me, entrevendo novos caminhos algures, soltos de todas as memórias que enredam a minha alma. Isto é um adeus, o primeiro de muitos, assim sei...    

MF

Sonho de alguém



"Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! " 

- Florbela Espanca

Talvez sejamos o sonho, ou cópia baça de um sonho, de alguém que procuramos e nos reconhecerá no instante de um olhar. E assim caminhamos por trilhos sinuosos até lá chegarmos, morrendo e renascendo em cada dor, calejados, humilhados, cansados e sem fé. Mas no fim teremos histórias, teremos a poesia e a ciência, no fim estaremos onde deveríamos estar...

MF

Céu da Memória


"Maybe the star doesn't even exist any more. Yet sometimes that light seems more real to me than anything.” - Murakami


Talvez todas as histórias mais brilhantes e mais doces estejam destinadas a findarem como estrelas, morrendo no seu auge numa implosão sem som. Nada mais que miragens do que um dia foi vivo ou ecos de sinfonias perfeitas no céu da Memória...

MF

Uma história


“so it's always a process of letting go, one way or another” - Charles Bukowski



  Morre hoje uma história, renasço das lágrimas que tinham de correr. Chorei as ilusões, as mentiras e memórias, os dias de sol efémeros que pareciam ser eternos.
  O meu coração sensível é contrabalançado por uma frieza que me cura, que me entorpece, por uma apatia que me faz renascer a longo prazo, deixar de lado tudo o que me quebrou. Sigo em frente, as lágrimas secaram, talvez um dia voltem de novo aos meus olhos porque em mim nada se conclui, nenhuma história teve final sereno ou resoluto. O passado está adormecido, fora de controlo, adormecido mas vivo. E assim, irei esquecer-te sem te esquecer, perdoar-te sem te perdoar, voltar passiva às memórias em horas insones. Regressar, enfim, a mim , após ter respirado mundos e aprendido que tudo é fugaz e não há poesia senão na mente. Tenho-me a mim, no final de tudo, encontro no meu coração o necessário para viver. Regresso mais sábia, mais forte, nunca fraca.

MF

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Queda




Há dias em que nada vive em mim para lá do desespero. Tudo é dor, nada me eleva. O chão quebra-se debaixo de mim e eu sinto-me a cair para a escuridão. No entanto, não são as sombras que me assustam, vivi com elas a vida toda; mas a queda... por cada segundo que dura, mais me entrego ao desespero. E desesperadamente apercebo-me que o meu corpo anseia pelo embate que me libertará.

P.N.

sábado, 5 de abril de 2014

Dor



Há uma dor em mim que nunca se silencia, nunca se apaga completamente. Arde, no mais forte dos ventos, sem oscilar... Na minha vida, só espero que essa dor não me consuma ao ponto de só ela sobrar. Sei que, se tal acontecer, viverei sempre de passagem sem deixar nada de mim, sem levar nada comigo.

PN