quarta-feira, 28 de outubro de 2015






23 de Outubro, 0.49h

  Pudesse eu pegar na tua mão, a mão de quem não sei, a mão de quem não sei que exista agora, a mão abstracta de um messias pessoal, a mão de um humano mais que a mão de um deus, porque a primeira emana calor; pegar na tua mão, fazê-la atravessar o meu peito, fundir-se à carne para rodear com os dedos arrasados, a insegurança avassaladora do meu coração. Acalmá-lo, dizimar o que adjetivo de "medo", o terror de agora, não o das corças feridas com as pupilas e sangue dilatados, mas um terror lento omnipresente, latente, nuvem carregada sobre mim, ameaçando pestes e tiros que sobressaltarão os pássaros que poisaram numa rara primavera que veio até a mim, até a mim. 
Tristeza lenta, que caminha pelo rasto indelével de todas as perdas físicas e imateriais. 
Parece que possuo uma anti-gravidade que afugenta as coisas para longe de mim. Treino-me para aceitar perder, mas sou humana. 
Queria saber pintar esta visão: Uma mulher prostrada, a cabeça baixa, as mãos unidas numa espécie de oração ou derrota final, e um monte de gente em torno dela, abraçando-a com os rostos velados virados para a câmara, formando todos um sólido humano, uma pirâmide do sofrimento humano.
 Desconheço essas mãos, o humanismo,
mas é uma bela imagem, dramática, mas bela. 


MF






Marguerite,

Há duas juventudes num quarto qualquer. Amantes por uma hora.
Ela está despida, o soutien azul contrasta com a sua pele morena. Ela percorre o quarto. Ele está sentado olhando para ela. Ela fita a janela. Um piano sobrepõe-se às sirenes da cidade. O céu cinzento está semeado de pássaros rasgando, desenhando o ar.
Ele espera. Ela pergunta, sem o olhar - Não sentes saudades do Amor?
Ele responde que não sabe o que dizer. Sem surpresa.
Ela vira-se, caminha lentamente até à sua retaguarda,
- Não te vires, diz ela,
- Fecha os olhos, diz ela,
- Imagina que eu sou a mulher que amas, imagina...
E ela envolve-lhe o tronco nu com o seu abraço, rodeia-o como uma corrente, afaga-lhe docemente o cabelo. Vira-se. E defronte dele, beija-lhe a testa que encima um rosto sereno, com os olhos fechados. Senta-se no seu colo, enrosca a cabeça no seu peito, como uma criança, pega-lhe na mão e coloca-a no seu próprio coração. Ficam agora em silêncio. Ambos de olhos fechados. E só ouvem a respiração lenta um do outro. Tocam, o frio calor um do outro.
Duas juventudes despidas, num quarto qualquer.
- Não sinto nada, diz ele, suponho não ter a imaginação necessária.
- Eu sei, diz ela, eu sei....não sentes saudades do Amor?



MF


Nota: Inspirado em Marguerite Duras

Interpol, narc (Paul Banks remix) -  https://www.youtube.com/watch?v=q8aP-RjLzCI




terça-feira, 20 de outubro de 2015





"(...) Os minutos escorrem desde sempre e para toda a eternidade e minto-nos se disser que estou em paz porque não sou ave. Pressinto a canção da montanha mas não lhe ouço o silêncio cheio que equilibra as navalhas e lhes embota as extremidades prontas. Ressumbra e assoma o tempo de encontro a este corpo. Ainda sonho com um regresso, ainda sonho com os tectos sem fronteiras trajados de estrelas e a leveza do não corpo, a destruição de todos os espelhos baços e das agulhas inconstantes enlouquecendo a pele. "


17.07.2015


Tentei transmitir a ideia de que tento ouvir atentamente os sentidos, as canções naturais, a Verdade, mas não ouço o que realmente importa que está contido, imagino, numa espécie de iluminação do Silêncio - nesse momento, as navalhas do pensamento que me corroem, e todas as coisas com que me firo, seriam equilibradas, as extremidades deixariam de ser afiadas para me poderem ferir. O tempo é outra coisa que me fere, goteja sobre os meus ossos e enche-me de nostalgias, só penso em regressos, e quanto mais regresso mais penso que tem de haver o regresso último - é aqui que entra o misticismo, o platónico - o universo, o sideral, a leveza de não ter corpo (que contraria outros textos em que quero ter corpo para sentir) e a destruição de todos os espelhos que me enviam falsas imagens de mim, bem como de todas as " agulhas/navalhas" que me ferem.



MF







segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Requiem



18.10.2015


Ensina-me o desapego,
o desapego grácil e másculo, o desapego àquele pequeno e puro corpo dado de comer à terra.
Ensina-me a superação,
a superação deste materialismo que liga irrevogávelmente o espírito à carne que o contém.

Diz-me, que doloroso milagre é este da excessiva individuação que intensifica a consciência e nos faz gloriosamente únicos, desesperadamente irrepetíveis;
Diz-me, porque a arte se ergue agora em torrente como bálsamo temporário, bálsamo para os sentidos subitamente chocados, arrombados;

Estremece-me às vezes toda a existência...
Se fechar os olhos, há um mundo sem tempo aqui, com tempos parados paralelos a este Principal Tempo, contexto de todos os outros. Tempos onde ainda canto, ainda danço, e toda a gente vive. 

Diz-me que é real, diz-me que tudo o que me lembro ainda vive, que a inocência ainda vive, que aquele pequeno corpo de pureza ainda vive e repassa-me a memória quente, não a deixes desvanecer, repassa-me a memória quente no coração e faz-me aceitar, aprender o desapego neste mundo cego a tudo, incapaz de preservar o que é puro. 

Que seja real. Que comuniquemos ainda, no hermético mundo meu, diáfano mas com os movimentos e cores ainda intactos.
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Hoje preciso de bem mais que um "pois", de bem mais que um "sim"*. Não me chegam palavras de humanos. Nem tampouco esta projecção infantil de um ouvinte abstracto. Porque os sentidos chocados clamam por respostas. Clamam por uma única mas acesa sinestesia que explique senão a Morte, a dor - nos critérios metafísicos, os únicos necessários.



MF


* ( Referência à música "Quarto 210", Linda Martini)











“To love is good, too: love being difficult. For one human being to love another: that is perhaps the most difficult of all our tasks, the ultimate, the last test and proof, the work for which all other work is but preparation.” 


 Rainer Maria Rilke



Talvez a vida toda seja sobre Aprender. Em cada chaga, sobressaltado tiro, perguntar - o que aprendi com tudo isto? E pressinto que tudo tem a ver com Amor. As camadas que envolvem o amor, a viajem de aprender a amar, saber que amámos aquando a perda, saber que amamos enquanto amamos, e, acima de tudo, parármos a obsessão constante que nos vira sempre para nós próprios e nos desliga do outro, como quando lhe damos a mão mas não estamos realmente lá.


MF

sábado, 17 de outubro de 2015







@afterjoseph

Ensina-me o estoicismo último.
O estoicismo das varas inquebráveis, verticais sob a opressão das correntes esbranquiçadas dos rios mais gelados. O estoicismo desses homens das montanhas, dos eremitas, dos orientais, que caminham sob o fogo sem a mais ínfima laceração nas palmas dos seus pés. Ensina-me um estoicismo humano, que se sinta, que se sinta doendo sem doer. Entendes? Se nem eu entendo... Um estoicismo humano, será possível? Porque as varas não são humanas, os eremitas não são humanos, são outra espécie que, decerto, já foi vulnerável, humana, mas não mais - afinal, eles vivem nas montanhas.
Ensina-me o controlo sobre o meu coração nas horas agudas.
Ensina-me a aceitação última,
A aceitação de um anónimo homem no limiar da sua própria morte,
ou da morte de outro ser que lhe é mais que a vida, que se espraiava sob toda a vida, o símbolo, a centelha, o grande sol, a grande lua, o fulcral ar.
Ensina-me o estoicismo último.
- ensina-me a morrer e a saber ver morrer.


MF









William Black


És-me necessário - por uma razão pouco convencional às que estás talvez habituado: 
És-me necessário, como testemunha, como guardião de toda a beleza que o meu corpo guardou, mas que dissipar-se-á como um sonho, fiapos destes, quando a terra o cobrir. As têmporas doem quando um humano chora. E se choramos, ao menos que fique alguma coisa - A poesia de momentos; A fragilidade abraçada, a tentativa de salvar alguma coisa mais pequena que nós, mais pura que nós. A inocência. Voltamos todos a ser inocentes no contacto com a Inocência. Não há mácula, orgulho, vaidade nem degeneração em nós. Somos altos porque amamos. O Amor. Entre humanos, entre-espécies, entre o impuro e o puro. Todos os conceitos e juízos se confundem no Amor e na Inocência. Guarda-me tudo isso já que a memória é perecível em nós mortais. Que tudo fique vivo, para alguém que não nós. É premente - que o luto nos devolva à vida destinada à perplexidade constante. Mas por favor, existe. Existe para que o amor não se perca entre tanta dor, tantos séculos, tantos espasmos, tantos lugares e esquecimentos. Por favor existe, e faz poesia com tudo isto que guardo dentro de mim. Ou que tudo abrande na volta para trás, no regresso, na inversão do tempo, e pára-me, pára-me em cada insígne momento, cada momento em que acordaste do teu sono só para ver, só para nos ver, só para chorar de comoção (impassível devido à tua inexistência fora destas linhas) - quando nos viste a ser tão puros que nos confundimos com a Beleza. E depois adormece, acorda intermitentemente apenas em cada quadro de amor protagonizado por nós mortais, porque nos intervalos não precisamos realmente de ti, não precisamos da tua inércia, do cálice seco de que bebeste para criar o universo e depois adormeceres. Que existas apenas como receptáculo de memórias, memórias do meu ponto de vista, como se fosses eu. Talvez sejas eu, e toda a consciência mais aguda que pensa nestas coisas. Talvez eu seja tu, abstractamente me acho inesgotável mas perdi o poder que nunca tive. Só nos sonhos os mortos ressuscitam, só nos sonhos. Nesta vida as minhas mãos estão feridas de todo o sangue que não conseguiram salvar. Estou também adormecida como tu, a maioria dos dias, mas às vezes acordo, como hoje. Quando ouvi uma voz que me disse "não resistiu", e morreu mais uma inocência. Acordo e exteriorizo-me, duplico-me e digo: alguém que veja isto. Alguém que grave isto - A parte mais enternecedora de ser humano: quando deitamos fora a irrisória, excessiva auto-consciência e nos armamos para salvar outrem, mais fraco que nós, necessitado de nós. Mas não conseguimos... (somos tão pequenos e sofremos toda a impotência) por mais que tenhamos tentado, a despeito dos nefastos pressentimentos, vinte ou mais dejá-vus aleatórios numa só semana. 

Sofrimento. Diz-me porquê. Grava-me os quadros, petrifica-os no ar, fá-los voar através do universo e de alguma maneira diz-me também porquê.






MF












[Caderno]

17.10.2015



(1:40 - 2:20h)
*

Os versos palpitam-me na cabeça, como profecias sem razão, implantadas por um espírito não humano e mais que humano. Capto a voz que é minha mas que me nasce sem que eu saiba de onde ou porque nasceu.
(E escrevo sem saber o que vou ler.)

*

Aprendi as palavras, mas de onde veio a canção?


*

Poderia ser Deus? - Deus ali materializado, quando os dois primeiros humanos se amaram.


*

Há esta obsessão de pensar cada verso. Este medo de escrever sem pensar. Que mal poderia haver afinal, no final? Talvez o assombro de que faço mais sentido sem pensar.
(ou que sem pensar não faço sentido nenhum, de todo, e este calvário é necessário - pensar.)


*

Sou os mil gestos apagados num futuro que não deixo ser.



MF








[ESCRITA AUTOMÁTICA]

17.10.2015

(Entropia e umbrais)



(1:40 - 2:20h)
*

A entropia, furtivamente entretecida, imiscuída num éter qualquer que calca e sangra e desarruma o universo; entropia astral, entropia secular, entropia em todo o lado, sob a pele, entre as veias, no sangue e na linfa e nos espaços intersticiais; entropia, o lixo, a seta de sentido único para o infinito devagar, até ao colapso, entropia, o excesso de onde germina a decadência e enleio, entropia sem nexo, de incógnito começo ou fim, o caos a abarcar o ser todo pela idade sufocado, pelo tempo e visões de inevitável morte e incompreensão; o excesso de tudo, a falta de tudo. A irreversibilidade. A desordem. A ilusão de que já houve ordem. Houve? Na idade sem idade. É uma pergunta que me assombra. Talvez, num Princípio Unificado. Princípio de tudo. Depois a expansão, cumulativa de tudo, macro e micro caoticidade. Agora só há entropia e o suor permanente sob o seu jugo, a energia que se esvai na tentativa diária sem descanso entre os segundos, de arrumá-la para que nos fira antes outro dia.



*

Há uns membros descolapsados no céu e viajens anónimas de sereias cansadas. 
Há trigos plantados no sérum inacabado de últimas virtudes e trejeitos mórbidos de mil medos.
Há infâncias perpetuadas no ar e aquecidas de novo nas noites sem ninguém onde os leões rugem e se movem coisas indistintas, lascivamente prepotentes e paradas num destino sem tacto ou razão.
Há umbrais e taças de luz onde o ser encurvado se dobra na paisagem magra e perenemente morta, com águias a sobrevoar (sedentas e pacientes) o seu ainda ténue brilho patente na sagaz sede do seu corpo e no seu olhar. Foram sedes imemoriais, privações não humanas, mais que humanas. Pesos sobre as costas mais que humanas, de tão humanas, por tão humanas, frágeis e destinadas ao quebranto, à curvatura excruciante sob pesos imateriais da emoção sobre-carregada, da sensibilidade sobre-desenvolvida e mais que pura.

(Bebe-se ali não sei o quê. Está cansado mas mantém-se vivo, 
para recordar, para se purgar?)



MF







Frida Kahlo as the hunted deer



A morte, a inocência, estas duas palavras impossivelmente ligadas. As coisas que nascem e que morrem hoje e para sempre, até um sempre que não sei. Porque continuamos todos a nascer? Se há dor. Mas também há prazer e algumas pequenas grandes coisas e gestos comovedores, gestos de titãs, abstractamente pensando que se houvesse deus este enternecer-se-ia e chamar-nos-ia de titãs - Titãs emocionais, titãs bípedes feitos de carne e osso e com corações que amam o mundo, o mesmo mundo que os corta em mil pedaços. Porque amamos ainda? Às vezes desejo ser pedra, mas logo me encho de coragem, sim, coragem - Quero ser titã. Aceito a morte que vem com o amor. Aceito ver morrer a inocência. Só tenho de aprender a sanar a raiva e aceitar que tudo se transforma em outra coisa, e ser grata por o poder escrever.


MF



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O mundo inteiro é Jó



Munch

Não é a morte mas a dor, que me revolta e me exaspera até à morte.
É necessário deus como personificação e causa de tudo isto, é necessário deus como canal para onde confluem não as minhas preces (que caem no vazio), mas sim toda a minha frustração, toda a raiva de ser mortal, toda a impotência de não poder nunca salvar
- nada, nada, nada.





MF




"Onde vamos? Para onde vamos? Prende-me ao chão agora, agora que não sei saber não ter asas."


17.07.2015

(...) E por fim: “Prende-me ao chão agora, agora que não sei saber não ter asas." – Este verso causa-me dores de cabeça, - agora que não sei saber não ter asas? - falo para alguém e pergunto para onde vamos e peço que me prenda ao chão agora que não aceito a inevitabilidade de não poder ter asas, de não ser leve por natureza e transcender a condição humana. Prender-me ao chão simboliza uma grande chapada na cara, como quem, “acorda, não sonhes com as Alturas, contenta-te em caminhar nesta terra comigo porque somos humanos.” Acho que foi isto que quis dizer, mas é muito confuso. O verbo “ saber” se for substituído por “ aceitar” é mais compreensível : Agora que não consigo aceitar não ter asas, que sofro por não poder transcender, é o momento mais crítico e neste momento - prende-me ao chão para não me perder ainda mais.


Resposta de G:
"- Nós nunca mais vamos ter asas. Mas isso não nos impede de fechar os olhos, lembrarmo-nos que já as tivemos, e criar como se tivéssemos. Mas aceitando, como disseste bem, que ao abrir os olhos, essa perfeição que só se atinge com a imaginação não vai estar lá. Mais uma vez o neo-platonismo, a diferença do que idealizamos (porque imaginar perfeitos não custa – quando fechamos os olhos, quando sonhamos acordados, e tocamos com a mente no Logos) e o mundo que, não fosse a criação imperfeita do demiurge, continua constantemente a forçar-nos, a ensinar-nos a fazer o melhor com o que temos´



[Excertos de conversas com G, explicação de alguns versos da minha escrita automática.]



MF

segunda-feira, 12 de outubro de 2015



Man ray

Da necessidade de mares entre amantes



- foi necessário para me saber sem ti
para explorar
o mundo e meu corpo noutros corpos
conhecer
outras mãos e lábios neste corpo
- foi necessário para me saber sem ti
para ouvir
outros mundos
e dizer-lhes os mundos cá dentro
mais uma vez, sempre de novo,
meu mundo a outros corpos,
meu mundo a outras almas
prefiro ouvir, no entanto, que dizer-te o mundo
 - Que mundo tens, diz-me, para me teres o corpo
 - Que mundo tens, diz-me, rezo para que reflicta esse rosto.



MF



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Talvez ver deus fazendo-se poema






Ela queria usar todas as palavras
cada palavra,
com seu próprio sistema sanguíneo
cada palavra,
com suas veias expoentes fecundando o mundo
palavras impossivelmente virgens em insuflações magnas,
ordenadas no poema segundo uma inspiração quase divina,
sussurradas, auto-erguendo-se no seio do imaterial mistério
imateriais mas tão carnais,
como se fossem própria carne a cantar
achar-lhes as nuvens primorosas que chovem sobre o cansaço
e sobre a morte, sobre a existência dura, sobre a saudade,
dissolvendo o nó górdio emaranhado nas veias
chuva nívea e plácida, oferecendo beijos na testa
beijos na testa e olhos fechados, de novo crianças
palavras transbordantes de tudo,
palavras multi-funcionais,
de quadros e canções e até mesmo silêncios,
versos que abrem espaços, de pressentidos silêncios,
corredores vastos de desaguamento de coisas que não tocam a razão,
grutas, cavidades de preenchimento,
quietude para a calibragem vital rítmica
e plasmação do interior sem bordas nessa parede cósmica

Ela queria usar todas as palavras em simbiose com o silêncio
Silêncio,
fundamental e ancestral, ermo,
horto bem aventurado,
foz do inominável, necessária viajem
que cala a boca e dá à alma a oração
Silêncio,
baluarte de tudo o que não tem palavras
e depois outro verso
que nos traz de novo à terra, ornatos de beleza transfigurada,

Ela queria usar todas as palavras em simbiose com o silêncio
queria o universo entre as vírgulas,
o usufruir de latentes sentidos
todos os silêncios
no sitio certo,
sentar-se no fim.
ler o que escreveu o iceberg
e fitar a inesgotabilidade máxima,
o zenith de cada palavra,
chorar,
e poder morrer.



MF




domingo, 4 de outubro de 2015

Herberto Helder - Teoria das cores





Ken Wong - mistaken identity



Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.




Herberto Helder 
in Os passos em volta











subliminares despontares humanos nos bastidores do mundo,
tecidos de uma malha maior que serve de força motriz à vida
- o pressentimento de tudo, a indizível poesia humana,
desde sempre e para sempre.


MF

Todo o mundo volatizado







todo o mundo volatizado nesse instante superlativo
onde a dor esqueceu-se de doer
e sentimos mil espécies de regressos
àquele altar de simplificados sentidos
solidões plenas, uniões abstratas que se afundam
mutuamente no rastro do silêncio e de tudo quanto
este encerra, perceptível até mesmo o tempo
parado no ar
e as bocas a pressentirem vontades ancestrais
todo o mundo volatizado nesse instante superlativo
no deleite da impossibilidade racional de nos sabermos
contra a noção clara, a certeza dos nossos olhares.




MF







A ideia de azul contra o céu em si mesmo






II


enche-se-me o peito às vezes,
a luz dispersada no nevoeiro matinal através das montanhas
a paisagem em movimento, a música de nós mortais
dos calados, dos discretos, extensões desse deus poeta
que não posso compreender mas é necessário
que nos assiste em cada exaltação táctil de Beleza

deveria inventar uma palavra para substituir "memórias"
porque falo de outra coisa grandiosa, falo
de quadros de inocência longínquos
falo de olhares que assomam nítidos de vales cerebrais
com milhões de segundos de existência
vales onde se delinearam os contornos gráficos de lábios e olhos,
de silêncios e cores imiscuídas no ar, acoplados os sentidos
ateliers internos onde se trabalharam o diafáno sinestésico
quando todos os póros se abriram para sorver o ar
porque a vida estava toda ali
falo de coisas que se movem cá dentro em órbitas excêntricas
invisível cheio de tudo que germina dentro e parece sobreviver fora
falo das coisas que dão sentido a uma perpetuação física de mim
num outro corpo, do meu sangue e doutro sangue
outro sangue que me olhe como esses olhares que ainda guardo,
conseguidos na juventude, revestidos dentro
de poesia maior que tudo, poesia sem palavras
poesia para a qual as palavras nada mais são que empecilhos
recursos expressivos, tentativas de tactear
e achar o rastro, a transmutação gráfica
toscos caracteres que nada dizem do que grita
apenas diminuem o sentido do que se quis mostrar
poesia para a qual as palavras são isto: a ideia de azul contra o céu em si mesmo.


MF







I

não mais o assombro desmedido que acalenta o sangue,
não, não mais,
a subtração do universo, o saque das estrelas por nós
incomportáveis a corações destinados à decadência
não mais o travo a sol e resquícios vários
de possíveis certezas de uma eternidade aqui,
ou de um deus poeta, receptáculo, canal,
baía ominisciente onde desaguam
cada pedaço incorpóreo aqui na terra,
pedaços raros, inspiração
lúcida, beleza resgatada e vestida no ar
a sós ou a dois
não, não mais
a possibilidade de paraíso no meu sangue
porque as cíclicas rupturas doem mais na sensibilidade aguda;




MF



sábado, 3 de outubro de 2015

Estandartes ulteriores de Saudade.






Amo vastos desertos insonorizados onde o espírito fecunda de palavras o espaço entre mim e o céu
o exílio secular enche-me de febris acessos visionários, 
inebria-me o sangue de confusões e certezas - eu não sou daqui.
do outro lado, a aparente fervilhante vida, violada todas as noites e todos os dias sem descanso
não, eu não sou daqui, faço a apologia do silêncio e do paganismo
só há eu e deus, imanente na quietude perfeita dos cheiros nocturnos, das folhas e do tecto pontilhado de estrelas a distâncias impossíveis umas das outras, nos seus próprios desertos, que fulguram e que crescem sem poder conter o seu interior de se expandir até à sua própria extinção, extinção que nunca houve a certas distâncias, porque, se recuarmos o suficiente, podemos até vê-las nascer sem que alguma vez saibamos se estão realmente a nascer e que sortilégio é o tempo.

Antes, temia os desertos, nada mais eram que lugares para morrer, lugares contíguos às arestas do delírio infrutífero onde gritava por alguém, sem saber ainda, não podendo aceitar ainda, que não havia ninguém. 
Só há a aceitação. Só há essa comunhão com a quietude que nos fala sem que possamos distinguir as palavras. Só há essa Beleza às vezes bebida, tocada ao de leve na imperfeita, mortal, esquiva, confusa incompleta vida, e trazida, meditada no deserto em grandiosa oração a tudo o que foi, a tudo o que é, e a tudo o que será. Compartilho com presenças da fibra nuclear do meu ser a abstracção febril de um único grande poema nutrido por essa indistinta grande árvore humana, compartilho a abstracção incerta de um devir de alguma forma destinado à grandiosidade, ainda que sobre os estratos do erro, do frívolo.

Amo vastos desertos insonorizados onde me nascem protótipos de entendimentos, maturados no silêncio, no coração do coração, porque tudo nasceu lá em cima no silêncio, e no primordial mar na terra sem espectador, no silêncio, o Milagre.

Mas no silêncio há também a nostalgia de um mundo. Um mundo dentro do mundo, um mundo que salva deste último algum frenesim, alguma imperfeição, algum abandono, coragem de morrer não tendo feito parte de nenhuma tentativa de resposta, de nenhum exército de criadores cuja volição roçava a loucura e estirava os nervos que discorriam sem repouso em busca de dores e artes imortais e esplêndidas com o seu nome, alma, inscrita em cada pedaço. Nostalgia de um mundo que não sei se está cá, ou se alguma vez realmente esteve, porque criado na idade sem idade. Pergunto-me então: "Nostalgia de um mundo ou tempo?"  - um tempo dentro do mundo do qual não faço parte, apenas desse tempo, e, no seu contexto infinitesimal, poesias sem nome, acuidades sensoriais que mergulharam os meus olhos na essência de cada cor e, alheia que estava, eu nem sabia - herdava sem querer, estranhos estandartes ulteriores de Saudade.



MF

William basinski - https://www.youtube.com/watch?v=O85sK8l_Yg8