segunda-feira, 30 de junho de 2014

O orgulho é algo que prezo mas que me corrói completamente.
Querer saber se alguém está bem e não perguntar, por orgulho. 
Querer falar com alguém e não falar, por orgulho.
Querer saber como vão as coisas e não saber, por orgulho.
Querer ver-te mais uma vez e não te ver, por orgulho.
Querer ouvir-te mais uma vez e não te ouvir, por orgulho.

Querer publicar este texto e só o fazer quando este já nada me disser. Por orgulho.

(Ou assim minto.)



domingo, 29 de junho de 2014

Norwegian Wood - Crítica


Título: Norwegian Wood
Autor: Haruki Murakami
Editora: Civilização Editora
Nº de Páginas: 350

Sinopse:

Ao ouvir a sua música preferida dos Beatles, Toru Watanabe recorda-se do seu primeiro amor, Naoko, a namorada do seu melhor amigo Kizuki. Imediatamente regressa aos seus anos de estudante em Tóquio, à deriva num mundo de amizades inquietas, sexo casual, paixão, perda e desejo - quando uma impetuosa jovem chamada Midori entra na sua vida e ele tem de escolher entre o futuro e o passado.
Este livro melancólico descreve o amor de um intruso solitário à deriva num mar de tragédia e paixão. Com o movimento contra a Guerra do Vietname como pano de fundo, Norwegian Wood usa uma linguagem profunda para falar de uma pessoa forçada a dar o melhor a fim de transformar os sonhos de um rapazinho no destino de um homem.

Crítica:

               ♫ I once had a girl,
                  or should i say,
                 she once had me.



   Assim são os três primeiros versos da música que dá nome a este livro, Norwegian Wood, dos Beatles, que é também a música favorita de uma das protagonistas, Naoko.
Toru Watanabe, recorda-se do seu primeiro amor atribulado ao ouvir esta música, anos mais tarde.
" Nunca te esquecerei- disse-lhe. - Nunca conseguiria esquecer-te.", é esta a promessa de Toru a Naoko, no entanto ele escreve incessantemente para não a deixar partir da sua memória.
Naoko namorava com Kizuki, melhor amigo de Toru, que tragicamente se suicidou, deixando-os ambos, desamparados, e mais tarde envoltos num dilema entre o certo e o errado, entre ficarem juntos ou separarem-se. Naoko não resiste à depressão, que tem raízes mais profundas, e é encaminhada para um sanatório no meio das montanhas, onde tenta convalescer por meio da entreajuda da comunidade e do isolamento do mundo exterior. 
   Entretanto, Toru vagueia por Tóquio dos anos 60, escrevendo cartas a Naoko e isolando-se cada vez mais, não antes de um período cheio de aventuras sexuais com o seu curioso amigo Nagasawa, cuja filosofia de vida o impele a dormir com centenas de raparigas anónimas a despeito da maravilhosa namorada que possuí, Hatsumi,  que tudo tolera de forma estoica e condescendente. Esta história em particular, deu origem a várias reflexões sobre o que é afinal o amor.
   Posteriormente, uma nova fascinante personagem aparece na vida de Toru - Midori, uma rapariga genuína, aparentemente meio louca, cheia de energia e com um toque de perversão sexual que chega a ser humorístico. É ela que dá vida a Toru, é ela que o impele para o futuro quando este está preso ao passado, Naoko, que nunca deixou de amar Kisuki, e apenas anseia por voltar para junto dele, noutro mundo. Midori é talvez a minha personagem preferida, juntamente com Reiko ( a companheira de quarto de Naoko no sanatório, que toca entre outras, Norwegian Wood, para Naoko, na guitarra) e mais tarde Toru perceberá que também a ama com uma amor que difere daquele que sente por Naoko,( um amor plácido, quase platónico), pela sua vivacidade, pela vida que se lhe influí cada vez que está com ela. A relação entre Toru e Midori vai-se desgastando aos poucos, pela incapacidade deste em viver no presente e dar o merecido valor a Midori, que representa a vida, no entanto, ele terá de fazer a melhor escolha para si, amando duas pessoas, entre esperar pelo que pode não vir ou agarrar-se à felicidade, tão perto de si...

   É o meu primeiro livro deste autor e apaixonei-me por completo, de uma só assentada, pela sua escrita poética, complexidade dos personagens, reflexões que levanta e riqueza de referências culturais que nos dizem muito acerca da cultura e gosto do autor, tão influenciado pela nossa cultura ocidental : O grande gatsby, A montanha mágica, The catcher in the rye, Beatles, Miles Davis, Bach, Truman Capote, Coca Cola, entre outros. Considerado o livro mais " mainstream" e romântico deste autor, Norwegian Wood, está imbuído de uma sensibilidade e simplicidade aparente, belissímas. No entanto, o excesso de erotismo poderá desagradar a leitores mais conservadores e recatados.
Penso que estava com o estado de espírito certo para que este livro me marcasse profundamente - Uma história sobre o amor, a nostalgia, a memória e a morte, como fazendo parte da vida.

Nota: 8/10


MF

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O Beijo



os nossos olhos, meus e teus, como os nossos olhos
sérios e parados numa certeza, dois espelhos a reflectirem-se,
um lago diante de um lago, uma montanha sempre,
para sempre, diante de uma montanha, os nossos olhos
são essa certeza no momento em que os nossos rostos
começam a aproximar-se, e muito devagar, como um
instante definitivo, fechamos as pálpebras sobre os olhos
porque abrimos universos dentro de nós, e a respiração
que sentimos na pele, que não sabemos se é tua ou minha,
é a respiração que ouvimos como tempestades de
uma hora de pânico e ânsia cega, oceanos à noite, praia
de afogados nocturnos e solitários que dão à costa e,
ao mesmo tempo, marés de verão, risos de crianças
como espuma de ondas, praia de brilho e mar, maré,
respiração que sentimos na pele,

e o tempo pára,

o tempo que passava pára no instante definido concreto,
em que um ponto dos teus lábios toca um ponto simples
de carne sensível dos meus lábios, o tempo é a paisagem
parada à nossa volta, que arde com as chamas de um
incêndio, entro no interior de ti para procurar-te, corro e corro
dentro da tua escuridão, salto troncos caídos, os meus
passos agarram-se à terra e levantam as folhas que
a chuva derrubou dentro de ti, beijo-te como se chorasse,
e tu encontras todos os caminhos dentro de mim, sem
palavras, pedes que te abra estradas e fico a ver-te enquanto
te afastas e te aproximas mais e mais do centro único
do meu interior, da minha única escuridão, beijas-me
como se chorasses, e será sombra, penumbra, ou será uma
explosão de luz, uma força incandescente que explode,
que nos empurra o peito, que nos lança para longe, que nos
lança no ar, que nos dispara no céu, os meus teus lábios
os teus meus lábios,

e o tempo recomeça,

assente num instante medido com uma régua na superfície
limpa livre do tempo, os nossos rostos não querem afastar-se,
mas, na pele sensível, o último toque do último ponto dos meus
e dos teus lábios, e a respiração, há universos que voltam a ser
arrumados, aquilo que tocámos e que explodimos volta
de novo ao seu lugar, e a respiração, estendem-se de novo
os rios, é longo o vento, abrimos as pálpebras sobre os olhos
e somos de novo a segurança da nossa certeza, e os nossos
absolutos olhos, meus e teus, são dois espelhos a reflectirem-se,
são um lago diante de um lago, são uma montanha sempre
para sempre, diante de uma montanha.

- José Luís Peixoto

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ananque



Estávamos sós, neste mundo. Talvez o tempo tenha parado para nos ver, para nos reter nos olhos que não tem.
Os momentos mais breves são os mais intensos.
Um dia, sei, sinto e vejo, tu e eu, os rios que somos, a correr desgovernados, emaranhados numa corda chamada destino.
Tropeçaremos - Até nos vermos, eu daqui, tu daí.
Tão longe, talvez sempre tão perto.
Inútil qualquer tentativa de falar além do olhar e do silêncio.
Nunca mais nos abraçaremos.
Encontrar-te-ei no mar e verás porque fui, porque não fiquei.
Tropeçaremos - Até nos vermos, eu daqui, tu daí.
Num café, num comboio, na estrada, ver-te-ei, como se houvesse poesia sinistra nesta casa de todos nós.
Como se conspirassem para nos vermos uma última vez.
Despedirmo-nos sem ressentimentos, sem palavras.
Convencer-me que não fomos um sonho.
Estás mais velho, estou mais velha. Já não somos nós, mas eu sou eu, quem fui ou serei.
O ar que compartilhamos não é mais nosso. Inexpugnavelmente nosso.
O tempo seguiu o seu rumo, nunca fomos nada. Nada para além do que inventámos.

Ecoamos todos, para sempre, dentro de alguém, nas palavras, nas músicas que fizemos nossas.
Tivesse eu a arte para escrever tudo o que faz vivo um coração,
tudo o que me fez viva.
o melhor poema de sempre.

MF

Amor é não haver polícia


" Sentimos no ar a melodia etérea. É a nossa música.
Cantamos e dançamos como se fosse a última vez, o último olhar, o último toque, o último beijo.
Estás linda.
O teu vestido, da cor do vinho que enche os copos, aquece o chão que pisas e relembra a razão. Todas as razões.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui.
Os olhos param em ti e em mim, enquanto preenchemos o espaço vazio, impossivel de preencher por alguém que não nós. Não pedimos o fim, mas não nos importamos se acabar assim.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui. O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres.
Se as mãos pudessem dizer por mim.
Eu queria tanto parar aqui.


Pára."

 - LINDA MARTINI - Amor é não haver polícia



     Hoje disseram-me, "  Lá no fundo talvez saibas o que queres ser ". Procurei em mim, viajei dentro de mim, à procura de respostas. Regressei. Estou aqui - a escrever para tentar encontrar nestas palavras o que não achei no caos de pensamentos esmorecidos que tentei decifrar.
   Sei o que me faz feliz, sei o que quero e ao mesmo tempo não sei. Não deve ser complicado entenderem este sentimento. Amo a música, amo as palavras, poderia ficar para sempre numa ilha com um piano e com uma pilha de livros, mas algo me diz que o tédio apoderar-se-ia deste coração que implora, implora sempre por mais. Não sou daqui, não pertenço a ideais, não pertenço a um mundo tão rígido, tão monótono, tão frígido, tão friamente lógico - é por isso que amo o amor, as sinfonias provenientes de mentes perfeitas, as palavras que nos fazem viajar sem tirar os pés do chão. É por isso que continuamente me estranho, porque uma parte de mim não quer assentar estável em nenhum sitio, e neste paradoxo sem fim, encontro-me sempre dispersa, sem rumo. Não sei pintar, quero pintar. Não sei cantar ou dançar, quero cantar e dançar. Talvez precisasse de um milhão de vidas, talvez precisasse de me fragmentar em centenas de " eus" para ser mil coisas ao mesmo tempo e aí me sentir plena. Não sendo, sou só eu, sou perpassada por milhões de vislumbres de possíveis e impossíveis futuros - queria ser tudo, ou quase tudo, e sou nada nessa ânsia - Queria ser poeta, compositora, pianista, jornalista, bióloga e tantas coisas mais. Qual é a resposta quando quero ser tudo o quanto uma só alma dificilmente pode ser? Porque eu não sou simples, não me conformo, não vivo inebriada em fantasias, sou lúcida e sei que só tenho esta vida e quero fazer algo, deixar algo de mim aqui. Mas como? Como agir quando me encontro presa em tantas possibilidades ?

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Pára tempo, pára onde fugiste de nós



Pára tempo, pára onde fugiste de nós
onde foste vento fugaz?  não nos deste tempo
porquê, porquê ? 
não sei mais que fazer contigo, passas lento,
qual fardo impossível nos meus ossos sós

Pára tempo, pára onde fugiste de nós
transporta-me de novo para lá, onde só eu sei
podia ter ficado ali para sempre, a vida dentro 
de mim, a vida dentro de nós
retrocede, nos teus emaranhamentos insondáveis , 
retrocede

porque segues, porque vais mais rápido, 
quando eu quero ficar, porquê, porquê ? 

Pára tempo, pára onde fugiste de nós
onde te fizeste areia fina nestas trémulas mãos
onde eu olhei para alguém e pensei - é aqui que 
acontece a vida, alguém veja isto, alguém
aqui. neste instante. nesta brisa. neste olhar
neste riso. o mundo é nosso, afinal.

MF



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sorri, cedo de mais



Calma só à superfície, mar revolto por dentro
os nossos risos ecoam perpétuos, como melodias
cálidas de eras passadas embebidas de graça
dentro de mim, dou significados aos nossos
silêncios, talho palavras que se dissipam no vento

Sonho, em inebriado devaneio, trilhos oníricos,
uma paragem num ermo sem tempo ou lugar
onde as almas comungam etéreas um silêncio
que tudo diz e conta, um lugar sem pesar
pergunto-me se estaremos lá

Só mais uma história, igual a tantas outras,
se julgada de fora em erro, sinfonia única para nós, 
que fomos eternos aqui, que fomos eternos em nós

Esta mente não se separa do que já foi e tenta 
de novo e de novo, em inútil e apaixonado esforço, 
encontrar as mesmas águas onde um dia se banhou,
sorver de novo cada sensação, cada olhar, enfim...
Mas o rio corre veloz para um mar, não volta atrás
por mim...

Agora só resta o silêncio, esta distância que se fez
As memórias, os momentos, olhares e histórias
Agora só resta este poema, para mais tarde ler,
testemunho amargo, de um amor que se desfez

MF

Pudesse eu




Pudesse eu voltar e parar
parar, debandar contra o destino
desacelerar o tempo e pintar
pintar, de novo os meus olhos
com a paisagem dos teus
Pudesse eu sentir e escrever
escrever, o que não dá para escrever
nesta insone e dura hora, remexo
remexo, o passado distante e cálido
obsessivamente sonhando-te
Pudesse eu esquecer e viver
viver, de novo em mim em paz
feliz,  e cada estímulo colher 
cada sol, cada sossego, cada flor
Pudesse eu cantar e dizer
dizer, tudo o que faz agora a vida doer
mas quero e não quero esquecer
aquilo que doí, é aquilo que me faz viver
aquilo em que me perco, em silêncio
Quero e não quero esquecer, mas há 
uma canção para cada nosso momento

Perdi-me e quis-me perder, e parti
parti, levada numa corrente insidiosa
e ao teu lado, fui outra que não eu
libertei-me em graça, enfim
e cada gesto, cada instante efémero
talhou-se eterno, dentro de mim

MF

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Nos braços da Solidão



Sinto que me perdi, algures no tempo. A esperança de outrora desvaneceu-se e levou o melhor de mim. Em seu lugar, vieram sombras de tempos passados onde a solidão era a minha única companhia.
Hoje, volto a caminhar sozinho mas vejo o mundo de modo diferente: já não sinto como sentia. A beleza de um pôr-do-sol, a nostalgia que encontrava nas estrelas, o prazer que sentia em libertar-me por palavras... já cá não estão. Recebi, em troca, um vazio que me assola a alma.
De tempos a tempos, o vazio enfraquece, um pouco, e sinto a saudade de quando os meus sorrisos eram verdadeiros. Lembro-me de todas as palavras ditas em promessas sinceras, em medos partilhados... Por vezes, nem eram precisas palavras. A magia que interligava as nossas almas impedia-me de pensar, tudo o que me assolava a mente eram os momentos perdidos nos seus braços, onde sonhava pertencer para sempre.
Quando o desespero chegou e me arrancou a felicidade como se fosse uma doença, percebi que tinha perdido o meu maior bem. A minha escuridão tinha, por fim, apagado a única luz que sobrava dentro de mim. Com ela, apagou-se a vontade, apagaram-se os sonhos.
Agora, sou cinzas.        


PN

ANNABEL LEE


É tempo de partilhar, um dos meus poemas preferidos de sempre, nascido da mente do génio do terror e da poesia, Edgar Allan Poe.

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea. 


A Câmpanula de Vidro








Título: A Câmpanula de Vidro ( "The Bell Jar")
Autor: Sylvia Plath
Editora: Assírio & Alvim
Nº de Páginas: 288


Sinopse: "Sylvia Plath e a sua obra têm sido encaradas sob diferentes perspectivastodas elas parcelares e quiçá erróneas. Há quem veja nela mártir romântica, autora de uma obra vivida intensamente até à exaustão e com ela se diluindo. Há quem veja nela percursora do feminismo, da revolta contra o universo normativo masculino. Há quem veja nela, o discurso político, pacifista, participando das manifestações ideológicas contra o sistema que atingirão o auge nos finais da década seguinte."


   Com contornos autobiográficos, a " Câmpanula de vidro" é a viagem de Esther, personagem principal e alter ego de Sylvia Plath, pelos caminhos tortuosos da depressão, que culminam em várias tentativas de suicídio falhadas e consequente tratamento psiquiátrico. É assim, uma leitura pesada, que não agradará a quem não tenha passado por experiências de abatimento existencial mais ou menos relevantes. Esther sente-se presa dentro de uma câmpanula de vidro, asfixiada por ela "no seu ar amargo" ; Sente-se à beira de uma figueira - cada figo representa um futuro - marido, casa e filhos, uma poetisa ou uma atleta famosa,etc, no entanto, ela não consegue escolher um caminho, um "figo", pois optar por um significa perder todos os outros. Vítima de abulia, deste modo envelhece, " cheia de fome", debaixo da figueira carregada de figos, que pouco a pouco, caem inertes junto a si....
Esther sente-se limitada e pressionada por um mundo cheio de convenções hipócritas, cheio de objetivos e estereótipos de vida banais: Ela não quer ser mãe, com filhos, com um marido prepotente, não quer só existir, viver por hábito; Ela quer ser tudo, quer escrever, quer fazer arte com as suas palavras. Esther é um grito do feminismo. As descrições cruas e pertinentes, na primeira pessoa, conseguem aproximar o leitor do estado sinuoso que pouco a pouco se apodera do espírito desta mulher. O final é aberto, mas na minha mente curiosamente otimista, esta recebe alta e regressa ao mundo renascida, remendada. Resta saber se realmente ficou "curada", dessa doença do espírito que tudo envenena, chamada depressão. Talvez Esther tenha um final feliz, talvez a "câmpanula" não se tenha voltado a fechar sobre si. O mesmo não se pode dizer de Sylvia, que tragicamente se suicidou pouco depois da publicação deste livro. 
   Algumas pessoas simplesmente deixam-se vencer. Vencer pelo cansaço, vencer pela frustração, pela apatia, pelo sentimento do absurdo. Algumas pessoas nasceram com um espírito demasiado brilhante para o seu tempo, cheias de potencialidades dentro de si, mas a lucidez e a inteligência andam de mãos dadas com abatimentos da mente - Sylvia Plath é uma dessas pessoas, amava a vida em certos momentos mas trazia dentro de si um veneno mais forte, ao qual sucumbiu, voluntáriamente...

"Respirei fundo e ouvi o bater do meu coração.

Estou viva, estou viva, estou viva."

Nota : 6,5/10

Num sonho de alguém




   É noite. A lua observa quem dorme e inspira sonhadores, acorda a imaginação de escritores. Desaguam pensamentos, há almas acordadas neste momento, inquietas. Dizem que nas noites em que o cansaço abraça cada músculo nosso mas não conseguimos dormir, é porque estamos acordados num sonho de alguém. Talvez. Talvez isso seja verdade e a vida tem um toque de poesia, ou talvez, e mais provavelmente, isso seja uma teoria egocêntrica e mirabolante, de alguém solitário e criativo. Mas esta noite, há uma rapariga acordada, a despeito de todo o cansaço que a envolve. Esta noite, essa rapariga chora com as imagens das memórias, que um dia a fizeram tão viva - "O que se passa comigo? Nunca chorei antes por ninguém... o que amo afinal, as memórias, as sensações, a felicidade que me deste? Quem és, quem amo ? Tu, tão longe, mesmo depois de cada lasca perfurada neste coração ? Ou aquele ainda mais longe, que me fez viva e julguei ser outro, aquele que criei a partir dos resquícios de luz que emanavas, as tuas partes genuínas? O amor não é lógico ( talvez seja por isso que amamos o amor) , não devia pensar ainda em ti...."; Não lhe chegou nenhuma resposta, somente silêncio, e a constatação de que é impossível dizer " já ultrapassei a dor e o sentimento, resignei-me ao meu destino", porque numa qualquer noite a solidão apodera-se de nós, e viajamos por momentos passados que não mais podem ser repetidos. É assustador que numa qualquer noite insone, as lágrimas viagem do coração até às janelas da alma. Devia estar a dormir, essa rapariga, devia estar perdida num belo sonho, longe de todas as memórias, sob a vigília da lua.
    Talvez chore, pelo silencio avassalador que a envolve nessa noite. Talvez chore, por se aperceber que não há plenitude na solidão, na calma, no afastamento voluntário das paixões que destabilizam a alma e a razão, mas que nos fazem realmente vivos e humanos, afinal. Talvez chore, por se aperceber que não consegue mais encontrar no mundo, no céu ou no mar, aquilo que um dia encontrou, em certos olhos. Talvez chore, quebre, para se assegurar de que ainda é feita de sangue e carne e alma. Queria sentir-se plenamente viva, como se sentiu um dia, não muito longe de hoje. Talvez chore, ao recordar algo que só ela sabe - tão forte que não pode ser descrito em palavras, somente no sal. Talvez chore, por causa de uma estranha destabilização resultante de sermos sonhados intensamente por alguém, numa noite inquieta de verão. Quer acreditar nisso. Acredita por instantes e caí, docemente, num sono calmo...


MF

Moonlight


Tal como a lua que brilha no meio da escuridão, eu tive uma luz que me iluminava. Por momentos, fui quem sempre quis ser. Senti o chão sobre os meus pés, como se nunca tivesse andado. Senti o sol na minha face, como se não houvessem mais sombras. Senti o vento nos meus cabelos, como se pela primeira vez acordasse para este mundo. Por momentos, esqueci a solidão, a tristeza, a depressão... Por momentos, esqueci tudo o que me atormenta e simplesmente senti. Nunca pensei que alguém como eu pudesse atingir tal felicidade.
Hoje, ao escrever estas palavras, sinto de volta a solidão, a dor, a repulsa que sentia por mim. O tempo pode curar as feridas mais superficiais, mas nunca esquecerei a dor que causei. A culpa vai, para sempre, assombrar-me a alma como nenhuma sombra antes o fez. Nunca voltarei a sorrir com tanta inocência, nunca voltarei a sentir como tanta intensidade... Os meus medos serão mais fortes, as minhas inseguranças, mais reais. Ainda assim, nunca esquecerei as memórias desse tempo. Como, por momentos, não existi apenas. Vivi.

PN
 

Tão longe, tão perto



Há uma música que flui no ar,
preenche o espaço vazio
condensa lágrimas de um mar,
dentro de mim

Estranho o poder de despertar,
memórias adormecidas
estranho o poder de parar,
o tempo soberano

Mas não há nenhuma magia,
somente uma associação
a alguém que és tu ou não,
a momentos e cruas despedidas

Há uma música que flui no ar,
 - a nossa música...

 MF

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Curar-me-ia, por instantes...


 Sozinha, sempre sozinha, tento alcançar-me, 
tento alcançar o que não sei

 Falta , sinto falta de quem me queira, 
de quem  me abrace como se eu fosse 
pétala de flor rara 

Porque às vezes, faz frio, dentro de mim 
Porque às vezes, sinto-me só, dentro de mim
Porque às vezes, a máscara cai, e sou humana,

e algo quebra, quebra ao mínimo vento ou resfriado...

Mas nesse abraço, óh nesse abraço... curar-me-ia 
 de tudo o que me corrói, de todas as sombras 
que me assombram de dia e de noite

 Curar-me-ia, por instantes...

MF

terça-feira, 10 de junho de 2014

Escrever, para não esquecer

   

  Encontro quem por mim passou, nas minhas palavras, nos meus versos. Recordo e experimento cópias baças do que outrora senti, lendo o que escrevi - congelei pessoas e momentos nos meus textos. "Não te esqueças" - talvez esta seja a frase mais sensível e dolorosa, o pedido mais desesperado e incerto, que um ser humano pode atrever-se a pedir ao seu semelhante. Não me irei esquecer; Cumpri essa promessa, se escrevi sobre ti, sobre tu que estás agora a ler este texto, quem quer que sejas - Foste importante em algum momento da minha vida, trouxeste algo de novo à minha alma, um novo entendimento, uma nova variação de um sentimento, derramaste novas cores em mim. Algo. Resta a nostalgia, no fim, mas esta é doce e amarga ao mesmo tempo, pois é a prova de que algo, lá ao longe, valeu a pena. A vida são histórias, são momentos, é escrever aquilo que mais me marcou, pois amanhã as memórias estarão um pouco mais baças. É escrever, para lerem o efeito que tiveram sobre mim, é compor hinos à essência sublime que cada pessoa encerra, ainda que recantos obscuros por vezes venham demasiadas vezes à superfície. Que dizer? Somos todos humanos. Pudesse eu perscrutar cada intenção, cada olhar, o sentido de cada palavra ou ação aparentemente contrária e geradora de mal entendidos. Não posso.Talvez tenha perdoado, dentro de mim, quem de alguma forma me magoou, pois sei que todos falhamos, e perdoar liberta-nos de pesos insustentáveis. Recordo aquilo que sei que foi verdadeiro. Por isso canto, escrevo -  o que cada pessoa me trouxe de melhor e o melhor de cada uma delas. Escrevo para mim, para ti, para alguém. Para recordar - quero lembrar-me de tudo, porque hoje estou só.
  Pergunto-me quantas mais histórias irei escrever, e qual delas mais me marcará. Pergunto-me se alguma vez os meus textos irão derramar alguma lágrima -  nos olhos dos rostos cujas almas enalteci...
   

MF

Sonhos


  
Sonhos - extensões da realidade
tão baças... mas sempre são melhor
-  que nada

Adormeço sonhando. Sonho dormindo.
  Sonho aqui, amanhã e para sempre...

MF


Memento Mori

  

   Estou morta - em algum lugar mais alto e sereno, num posto sem tempo onde perscruto cada possibilidade de vida minha. É um mar emaranhado de imagens e histórias, nesse labirinto consigo distinguir a minha vida principal, a vida que foi realmente vivida por mim. Essa vida é colorida, maioritariamente por tons de cinza, com intervalos raros de pura explosão sensorial, arco-íris garridos que se perdem em vales obscuros mais vastos, até voltarem a aparecer, timidamente , lá ao longe, não sei porque Sol ou porque chuva suave. 
   Talvez, e só talvez, eu pudesse ter feito com que os arco-íris não fossem efémeros, para viver sob os seus tons alegres e majestosos mais tempo e, assim, o meu coração influir-se-ia de vida. Mas a existência é feita de altos e baixos, e a minha arte, dessa trágica sina provém -  faço da dor um poema, da felicidade um poema ainda maior, uma ode à vida na sua totalidade. Aqui, sozinha no meu posto, incorpórea, tenho todo o universo à minha frente e sou assaltada por vislumbres fulgurantes de mim - Fui personagem de uma estranha peça, num estranho tempo, num estranho mas belo lugar. A linha entre o sonho e a realidade torna-se cada vez mais ténue. Realidade? Tudo se afigura a um insidioso sonho acordado. Quem me diz a mim o que foi real, se fui um ser frágil governado por forças maiores que eu, comandado por impulsos inconscientes, a tentar alcançar conceitos imateriais como o Amor ou a felicidade? Estou entorpecida, divagando. A minha vida transfigura-se numa singela metáfora - um rio ramifica-se em mil e um canais, uns maiores, outros mais estreitos, uns que levam a paraísos costeiros, outros que levam a desertos estéreis. De cima, consegui adivinhar todos os futuros... Esse rio prometia tanto, mas deixei-me levar por ele, inerte, até ao mar plácido do fim do mundo. Não lutei, tive medo do destino de cada canal, não consegui decidir-me por qual optar. Deixei o rio passar por mim. Quero acordar, quero voltar. Descer. Quero ir, com a sabedoria divina de quem viu todas as possibilidades infinitas, nadar contra as correntes, armar-me de força, vencer o cansaço. Ser plena, chegar a destinos onde mil arco íris pintam o céu. Mas cheguei ao mar plácido, ao mar sem tempo. É tarde agora. Flutuo na imensidão grandiosa deste espaço sideral, deste mar. Sonho para sempre, tudo o que podia ter sido...

MF

domingo, 8 de junho de 2014

Medo de Ser



   Ouço o som da chuva na janela, acordo com a mente meio vazia, é como se tivesse nascido de novo. Sou preenchida por um vago torpor, levanto-me e vou à rua. Não há sinal de vida, é como se o mundo se tivesse dissipado nessa noite, por alguma estranha tragédia sem caos, sem desmoronamento de edifícios, sem o solo aberto numa enorme fenda negra que tudo engoliu. Sinto um grande embate súbito no coração - Solidão. No entanto apercebo-me de que esta é a mesma, sozinha num mundo sem vida ou num mundo cheio de rostos, por mais curioso que seja este fenómeno. Não procuro por ninguém, dentro de mim sei que tudo desapareceu, como se estivesse dentro de um sonho semi lúcido em que sei exatamente o que as personagens irão dizer, em que os sentidos estão mais aguçados e possuo uma acuidade e conhecimentos futuros paradoxais. Caminho pela rua, no meu pijama velho, caminho procurando algo que não sei. Não há absolutamente nada, além do som dos meus passos sob as poças cinzentas de chuva. Até que me vejo ao longe. Sim, vejo-me, e ela não me vê. Tento acenar, grito, corro para ela, mas ela não me vê. Choro. Agora só me queria ter a mim, nesta solidão que preenche o mundo. Nada disto pode ser real, no entanto sei que o é. Como posso eu, ali ao longe, fingir que não me vejo, como posso eu separar-me de mim, dissociar a minha alma do meu corpo e vaguear sem rumo por ruas desertas, sem tempo ou vida? Talvez, se eu me visse, se o meu eu ao longe viesse ter comigo, a rua se enchesse, de novo de vida...  Caso contrário, inventaríamos rostos, personagens, cenário vivo para a nossa existência, ou ficaríamos para sempre a tentar encontrar a resposta para toda aquela desolação. Mas eu fujo de mim, mesmo numa rua sem mais nenhuma alma viva. 
   Parei, já cansada de correr atrás de mim, fui vencida pela maior das frustrações. Talvez haja um vidro invisível entre mim e eu, e é por isso que seria inevitável, que numa qualquer manhã, o meu mundo desaparece-se por instantes num cenário onírico, só para me dar a melhor oportunidade de eu me encontrar. E encontrei-me - A fugir de mim, com medo de me ver e ser, plenamente...

MF

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A (im)Persistência da Memória


    Memória - A custo tento recordar  cada voz, cada olhar, cada palavra, mas apercebo-me que o tempo dissolve tudo e tudo torna baço. Não me lembro do timbre de vozes que queria lembrar e ouvir na minha cabeça, só para me sentir ali, em algum lugar, em algum tempo só meu, de novo. Tudo se dissipa, tudo se torna vago como que submerso por um mar imenso opaco, onde reina o silêncio e um torpor difuso. Tudo se dissipa, para dar lugar a novas memórias. 
   É irónico, como hoje quero apagar as mesmas memórias que amanhã irei chorar pela consciência de já não mais conseguir discernir as feições dos rostos que amei, ou o som das vozes e risos de outros tempos, tão distantes que poderiam pertencer a uma outra vida; É irónico, como desejávamos tanto sair daquela escola e agora que sentimos tão próximo o tempo da mudança e da partida,  só desejávamos ficar mais um ano, pois, afinal, fizemos tantas memórias, crescemos ali. Iremos rir de todas as histórias, recordar cada amizade, cada dor, cada amor de adolescência, e iremos perceber que aquela foi a melhor idade da nossa vida. Iremos desejar que o universo colapsasse e o tempo voltasse para trás, iremos desejar, com as lágrimas a forçarem saída e com uma ânsia desolada do mais fundo do nosso ser, estarmos numa estrela a tantos milhões de anos luz que, através de um telescópio, pudéssemos perscrutar a terra nesses nossos anos verdes, pudéssemos ver-nos a todos, jovens, com o mundo no olhar e a pressa de viver, pudéssemos ver-nos de fora, como se de um filme se tratasse, cada olhar, cada momento. Nós, sozinhos numa estrela, com toda a ciência da vida, nesse presente tão assente no passado, veríamos imagens do que já passou. Para os nossos botões falaríamos," Não vás por esse caminho, não arrisques nessa aventura, sê tu mesmo, em cada momento, pois este é fugaz...", nessa estrela a flutuar no meio do espaço, ao vermos cada decisão impensada nossa, com a inocente  e impossível esperança calada, de que o nosso eu da terra ouvisse os nossos conselhos, através dessa distância e paradoxo temporal... Mas no fim diríamos, serenos, "O que foi, assim teve de ser, vivi da melhor maneira que me foi permitido viver, e agora, sozinha nesta estrela, choro esses dias tão felizes, descanso e rendo-me, envelheço com essas paisagens distantes nos meus olhos, ressuscito cada sensação perdida". Esta é talvez a possibilidade mais impossível que mais arrebata a minha imaginação, neste momento. À noite, muitas vezes me perdi no céu carregado de estrelas e pensei "Aquela ao longe talvez já se tenha extinguido, numa explosão catastroficamente poética, há milhões de anos atrás, mas ainda a vejo, tão nítida, tão magnificente o seu brilho..."; Assim é com o passado, mas quero mantê-lo, de alguma forma, vivo e assim, escrevo, escrevo para recordar, para registar aquilo que um dia irá desvanecer-se. Mais tarde, terei todas a minhas histórias mais brilhantes, mais sinuosas, para ler, e a custo, se o meu talento assim o permitir, poderei reviver, olhar o passado claramente, ainda que não passe de uma cópia tão baça, faísca, cinza ainda assim, que impressiona cada nervo meu.
   É misterioso como, quase aleatoriamente, momentos simples se gravaram em nós, sem autorização, e ganharam novas cores, significados e belezas que, na hora, não pareciam possuir, mas só na mente, na mente se fizeram poesia e nostalgia... 
Memória, pudesses tu persistir, contra o tempo que corre desgovernado...


MF

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Cinzas


Quando a noite chega, deito-me na esperança de não acordar. Quero fugir de mim. Os meus sorrisos já não são sinceros, as minhas lágrimas já não são saudáveis, a minha tristeza já não é só fingimento... Vivo, mas no fundo da minha alma, onde escondo os meus maiores medos de mim, desejo a morte.
Sou as cinzas da minha existência. Por fim, queimei tudo o que restava de mim.

PN

Máscaras

   
   
   Tenho plena consciência que quem lê os meus textos achará saber metade das minhas histórias passadas e presentes, mas nunca irei revelar se tudo aquilo que escrevo é um espelho da minha alma, se é um fingimento artístico disfarçado. Só eu sei a veracidade de cada frase, só eu conheço cada máscara que uso ou não uso. Só eu me tenho, só eu me sei, só eu me dou, só eu me pertenço. Escrevo, mas talvez as minhas palavras tenham significados ocultos, intenções ocultas -  Por vezes, talvez exagere as minhas dores, mas acima de tudo, talvez exagere as minhas felicidades, só para transmitir a ideia de que estou bem, ou pelo menos, quero estar, quero terminar com um estado de apatia inútil e sorvedor de vida;  Sou jovem, tenho de viver enquanto aqui estou. 
   Eu sei que talvez ainda venhas cá, ler o que escrevo, e não posso deixar de pensar naquilo que pensarás acerca de mim, baseado nos meus textos - uma pessoa fria, sem sentimentos fixos e duradouros, independente e solitária orgulhosa. Mas isto não corresponde, de maneira nenhuma, à realidade... Há algo em mim - por detrás de tantas emoções e sentimentos, consigo ser racional. O esforço é imenso, mas consigo separar-me daquilo que sinto e analisar externamente toda a situação, como se eu fosse um ser que observa tudo sob um plano mais elevado, imparcial, neutro, uma página em branco que revê o passado e o presente, antevendo o futuro. Esse ser, contra todas as expetativas, ama-se a si mesmo, entrevê algo de valor, profundamente incrustado, que deve ser preservado e respeitado; é certo que lhe mostraram as partes dele dignas de serem amadas - "Obrigada",  mas apenas se ama o suficiente para saber quando partir, para saber que deve deixar para trás aquilo que, ciclicamente, lhe causa dor e decepção, que não é detentor dos mesmos valores, que é inconstante e incompreensível e que mentiu tantas vezes que talvez acredite nas suas próprias mentiras, deixando em mim, sem saber, mil e uma dúvidas pelo caminho, que agora são irrelevantes, afinal...
   Escrevo, mas só eu sei o valor de cada palavra...
   
MF