segunda-feira, 31 de agosto de 2015








22:04h


quando a dor se desprende do grande fundo onde matura
e vem deitar-se ao lado da afeição,
ligar-se ao rosto, memória de um homem,
então sei: é amor. 




MF

to pb

quinta-feira, 27 de agosto de 2015




7 de Julho de 2015


Que dizer, que escrever? Olho o mundo lá fora, percorro-o - no meio da imensidão do céu, bandos de pássaros; no pátio, o tremeluzir da luz no lago dos peixes; no horizonte, as montanhas  a erguerem-se verdes diante os meus olhos plácidos. Essa paisagem...e uma escuridão dentro de mim se fico a sós com ela. Distraio-me. Com livros, romances, filosofias, com o piano, com tudo o que me esquece de pensar e vir à tona com a convicção de que nada sei, e com a nostalgia, medo de envelhecer, medo de me ver, e pela pressa de saber, abarcar tudo, todas as iluminações de homens que viveram antes de mim, e talvez entender se morreram em paz. Pergunto-me acerca da natureza da verdade, ergo no ar teorias de hologramas, de sonhos de deus, do acaso que influiu na matéria inerte a semente do espírito, e penso na música - como alguns violoncelos aparentam choram nas mãos de músicos grandiosos, como os acordes menores soam tristes, e os maiores alegres. Que estranha ciência... pode isto significar que tudo é expresso por meio de ondas? Que há poesia no caos?



Oliver Coates: https://www.youtube.com/watch?v=RuZwzoj85C0


MF

quarta-feira, 26 de agosto de 2015




[ESCRITA AUTOMÁTICA]

22 de Agosto




(1h06)

No teu berço descanso. Nas brandas mãos a bradar ao tempo que me queima. Seríamos símbolos, rugindo em fogo e aparando mil frémitos existenciais, sanando loucas feridas de excessiva luz. Corroerias as naves, as texturas de puéreis sentidos, logro ser-te o mundo e num suspiro cair para sempre contigo até ao inferno das ondas e das estepes languescentes onde o tempo se dobra e nos amamos. 
Oh como cantamos e dançamos nesse hiato esquecido, nessa terra mítica de mil evaporações e expedições finais... Movem-se montanhas na insigne ânsia de desocultar o dia. Resgatar a infância que na bruma se desvaneceu, e todo o Amor que o mundo esqueceu de tanto se vestir de ferro, de tanto degustar as feridas, calcar o sangue, calcar as asas e fazer jorrar sal de fontes sem razão.  Oh deus, não sabemos, nunca soubemos... porque matámos o Paraíso? Agora fá-lo comigo, ainda que ninguém o veja, nós sabemos - ele está cá.


(1h15)

Aperta-me contra o teu rosto e chora. Provar-te-ei as lágrimas e saberei também que é por isso que estamos cá – para infiltrar em nós a pesada dor, e devolver um beijo que nesse coração ressuscite um tremor.


Estou hoje calma e não sei porquê. Evadi-me em mim e no céu, semeio a brancura dos espaços desocupados onde renasço. Inspiro e sinto e corpo a sanar durante a noite, como se a superfície se acalmasse segundo uma terna melodia interna quase muda que na respiração se encaixa e promete nunca mais quebrar. Mas quebra sempre, inevitavelmente - aquando um rasgo de contaminação externa, mundano, aquando a destabilização sanguínea de uma paixão e a dor de ter alguém a viver em mim.



(1h25)

Já não durmo, nem esqueço, nem recordo. Desliguei-me de qualquer coisa que nem sei, e nem sei se a alguma coisa estive ligada. Apenas sei que me senti inteira, e o corolário do medo foi não querer morrer. Vem. Vem saber o que jaz adormecido e quer voar dentro do fogo. Imagino-nos todas as noites quando não consigo dormir, e movo mil vontades dentro de mim de desobstruir todas as cidades até ti. 

Lancinantes as névoas que te decrescem, fazem-te dentro castelos de cimento e ficas sem espaço para o teu sangue.




MF

pb


quarta-feira, 19 de agosto de 2015



Memorandos

19.08.2015


1h58

Promete-me que me contas 
 - entre beijos, o que te dói.

1h22

Escrever é encontrares-te mentindo a ti própria.

1h24

amar para amar, esquecer, voar
amar para escrever e ter uma história;
amar para me ver, minha imagem
fulgurando em ouro nos olhos do amante.

0h47

Dilacera-me, desprende-me de mim,
se possível esmaga-me com o peso
do teu próprio corpo

Por fim sem mim, por fim sem pensar 
no que vem depois:
a morte logo a seguir a este céu.

0h47

O mundo transborda inocência comparado-o com a inquieta sede 
que no ser se ergue erguendo, venéreas fantasias. 


terça-feira, 18 de agosto de 2015



[Pensamentos]



Rainer Maria Rilke


(A imortalidade)

Não a eternidade. Não um vago nome no ar, reconhecido apenas auditivamente mas não realmente sentido. A grande obra, o grande fim, é fazer algo que ecoe num coração sensível, nem que seja de década em década ou uma vez em cada mil anos. Aconchegar esse coração valeria cada sofrimento pessoal, aconchegar esse coração com o aconchego da dor secreta compartilhada e exaltá-lo, fazê-lo vivo, nesse instante impagável em que um verso repercute dentro de uma alma e faz florescer nela um paraíso. Como no final de um dia X - uma rapariga regressa a casa e no autocarro lê Rilke. De fora pareceria, decerto, uma rapariga banal com um livro banal. Mas não saberão nunca o que aconteceu ali... Só ela sabe e envia aos céus um secreto anseio: pede com quantas forças tem que Rilke saiba. Que saiba que não morreu, que está vivo dentro de uma alma, a dela, de uma forma incandescente e que são as palavras a razão da sua lágrima abstracta, a respiração suspensa, e de toda a vasta viva paisagem que ficou ainda mais viva com o eco dos versos num autocarro em movimento. Os mortos renascem, não quando o seu simples nome é proferido mas sim quando a sua obra é sentida e faz sangrar, chorar, suspirar, amar, voar, uma juventude solitária como eles, num simples autocarro ou num simples quarto, três ou mil anos depois.
 Oh Rilke, oh Sylvia, oh Al berto... ela espera um dia possuir essa imortalidade que nas sensíveis almas ganha seu trono, tacteia os corações e os abraça, numa comunhão intemporal e mais que humana.


*

O fundo onde acontecemos é o fundo onde aconteceram outros mil amantes. Mas sabemo-lo só nosso - somos os detalhes sempre novos que florescem nesse fértil fundo e o fertilizam ainda mais, e num beijo está implícito o lacónico hino:

Amamos amar o amor porque amamos voar e degustar 
um aceitável efémero instante de esquecimento...








MF



segunda-feira, 17 de agosto de 2015





*

31 de julho


Afundo-me de encontro ao interior cheio, miniatura de universo sem leis inteligíveis. Aceito a morte, aceito a angústia. Abomino a morte, abomino  a angústia. Como pode viver um ser assim? Em perpétua luta, parada nos estilhaços de guerras que nenhuma facção ganhou. Impulsiono de novo novas frentes de batalha para que algum lado vença. Mas nenhum lado vence. Nunca. E ambos saem apenas feridos. Entre eles estará decerto a verdade, entre eles o céu, o corpo livre e a mente a planar no lugar sem dor, imperturbável. Todas as minhas ficções reais, todas, aquela que quero ser sem medo de ser solitário peão na margem, solitária até ao fim e no entanto o céu no meu peito. Salvo apenas do mundo humano o desejo e a tentativa de amar, contigo que também és poeta e sabes os lúgubres fardos com que nos carregam os ombros. Não há maneira de os arrancar. Tal como não há maneira de esquecer aquilo que se apoderou na nossa própria carne e faz parte de nós. 

A despeito das colisões, penso que há ideias fixas em mim mas quando sonho o instinto ainda prevalece – sorrio ao ver crianças nos meus braços. Temo estar errada mas como podia eu gerar um prolongamento de mim no mundo, de sangue e carne e alma? Porque há dores que a maioria dos mortais desconhece, dores imateriais. E esse ser herdaria de mim essa amarga herança. Corajosos ignorantes mortais - nunca teria coragem porque não possuo essa ignorância. Esse amor tende subtilmente para uma vontade egoísta de se perpetuarem narcísicamente através de outro ser. Nunca seria capaz de tamanha tarefa – condenar à morte mais uma inocência.



MF




domingo, 16 de agosto de 2015








(Eles são na vida, eu só sou para escrever?)




MF


[ESCRITA AUTOMÁTICA]

16 de Agosto




As vagas runas de um mistério qualquer incendeiam as áleas de frutos verdes, desmascarando os gestos dos fúnebres preceitos a que se remeteram. Os tecidos lúcidos assumem marés cristalinas, pratas semicerradas de um mundo de manhãs. Despi o caule e teci os adornos com que cravei ao peito as tentativas de ser mais. Empunhámos espadas sem sangue, e perdemos o rasto  do mundo, na flagrante viajem palmilhada a choro, para nos semeármos em virgens terras de mil sóis. Eles não são ninguém, só nós amor, só nós. Quis tocar-te e ir embora, num embora efémero ou para sempre? Acho que podia ter-te em mim, na carne que se entranha no infinito, na saliva que canta mil gritos, e na tua pele também ficar. Adormecer a dor e não ser mais de mim tão sendo. 

*

Ser, como o universo chora! Ser, porque os outros também conseguem Ser, (às vezes), porque não eu? Eu, que me enlevo, subo e bebo em alturas abstractas e brindo com poetas. - O mundo é nosso, digo-lhes, porque nós transmutamos tudo isto, damos-lhes tudo isto, arcabouços de cristais, telas onde sonham os outros e ganham voz.


*

Praias discretas no discreto recluso do meu coração. Mas ó Deus que não me sei ser, comigo e com alguém, que não sei esperar que te desdobres claro para mim, porque não suporto estar no escuro. Porque te calas? Porque empurras para mim a decisão de te deixar? Porque eu ficaria se te mostrasses. Sabias que o mar nunca soube ser mar? Então que medo é esse?



MF

pb




sábado, 15 de agosto de 2015

Nós pássaros



os pássaros expelem serenos cantos
abrigam a paz e voam
tão alto 
pássaros que quisemos ser, sem poder
porque somos humanos, assim, 
mortal o chumbo, intrínseco a nós
enredados por um sem número
de inacabados gestos
e imaginados medos
dentro somos múltiplos 
e fugimos da nossa própria sombra
quando a sombra devia 
ser carregada em quatro mãos

os pássaros expelem serenos cantos
abrigam a paz e voam
tão alto
eu escrevi-nos
-  vamos ser pássaros, vamos ser
deus, porque somos tão pesados?
neste chão germinam farpas
estou descalça e corro 
como se tivesse asas
atrás de ti que me foges 
deixando esquivos rastos
de coisas para me perder ainda mais
ao teu encalço, fustigada 
pelos ramos
a pele lacerada, a ânsia, o amor a raiva,
vago medo de ir embora sem te ver
gritar-te adeus 
e estares já longe
sem saberes o que corri
vago medo de voltar para trás 
e diluíres-te para sempre 
em tons gastos,
somente um fantasma que corria
diluíres-te para sempre
sem poder gravar contigo outro quadro
sem poder instaurar contigo a paz
em nós que nos desmembramos em círculos
e desaprendemos a arte de falar o que dói
bem sei: se te encontrasse seria a minha vez de te fugir
fechamos as cortinas um ao outro e morremos,
nunca nos encontraremos
somos abstracções de um dia
nos versos e na vida, amantes que se fogem, 


*


escreveste-me poesia
escrevi-te poesia
para enganar a distância
que nunca se deixa enganar
imaginar-te não chega,
o corpo esfria
a cabeça dista
mas aqui estamos nós:
planando nas lonjuras 
voamos sem nos tocármos
e não caímos 
porque acreditamos no céu que voamos lado a lado.



MF






sexta-feira, 14 de agosto de 2015

100 metros Sereia



Despidos silêncios
na entrecortada fúria lassa
em nós a morte e a raça
em nós a flor e a adaga;
levantámos pesos e quedámos no ar
carnais com sonhos de mais -
cascatas de vidro,
a dispersar a luz só para nós, 
e sereno altar,
braços abertos 
para a violência das ondas
firmes frágeis pés, 
ao nosso solo pregado
desvanecidos corpos com sede de ficar
esbatidos quadros dissolvidos no mar

olha os anos e as lápides brancas, a urze
os ciprestes fúnebres
sentinelas mudas
de mudos e ordinários finais
finais, sonhados trágicos,
e tentativas de epigramas:
"só quisemos o sangue jovem
a calcorrear pelos dias
e os veludos na pele, e as explosões a dois"


*

Cru anseio, 
este de te ter outra vez
estamos perto 
na inquietação de sonhos,
e quase te sinto, a carne 
hologramas de nós, amantes 
da imatéria dispersa dos sonhos
acordo sem ti 
a paisagem frenética
através do vidro do autocarro
cem metros sereia a tocar 
e toda a prosa da cidade sem nós
urbanos hinos, calor frio
cru anseio, 
este de te ter outra vez.


*

Vem amar os despojos, chorar a Beleza 
que se esvai
e se mantém Inteira e só de si
sem ofertar a nós um mísero perene rastro,
somente efémeros lampejos 
quase mitológicos, areia entre os dedos,
fugidias aragens que no Tempo se perdem.

Beleza. 
Quase esqueci se fui pura para te tocar e de ti roubar
não mais que uma pluma 
para segurar contra o coração
e dizer-lhes que estás cá
e assomar ao cérebro de novo a tua Experiência
em todo o esplendor, 
e então inspirar de novo o mundo com o teu sentido.


*

metáforas e metáforas para inaugurar de sentido
o que sabemos transmutar na solidão.

*

Lançámos o sangue de ontem para ali e os gestos retraídos 
não eram mais que calados gritos 
de cortar as cordas e espantar o medo de não me ter, 
no olvido, não me ter...


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https://www.youtube.com/watch?v=l2MttKTJhf4


MF






quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A ausência





a ausência
queima
sem queimar
e enternece,
despe de mim a vida
a ausência
presenteia-me de espaços infindos
noites pesadas
e tectos massivos
que sufocam o corpo do agora sem ti
a ausência,
é como bronze no sangue,
areia nas veias a arrepelar
ouço-te a voz e estamos longe
a ausência
do oceano vago dos teus olhos,
gravidades verdes
onde caí e mal voltei
os teus olhos que reconstruo
com trémulas mãos no ar
meu coração pintor,
implora por cores imperecíveis
para que retroceda e te encontre
perene,
perfeitos nítidos momentos
perene,
cada gesto, abraço, beijo;

por dentro escorrem riachos
é a Vida a querer ser viva
acender as tochas por mais um dia
na colisão de dois universos
só mais uma vez, só uma e para sempre
apenas um aceno de nós para nós
de lá que é ontem e de ontem para cá
para nós que nos vemos agora a ser ali
(porque talvez não haja mais ninguém)
que fomos sempre sabendo que seríamos
que fomos mesmo sabendo que as ondas nos levariam
por mais que ancorássemos aos pés mil versos
por mais que nos sonhássemos através da distância
por mais que tudo,
nada do tudo poderíamos segurar
além dessa pretensa ânsia
além do rasto que vai esfriando,
de um atear momentâneo

perdemos o calor um do outro
possuímos apenas o baço saber gravado do que sentimos
e a imagem fugidia do aceno de vida para nos lembrar que vivemos



MF





sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Aos anjos ainda anjos



Der Himmel über Berlin

*


Perdeu as metafóricas asas, 
assumiu um peso, 
corpo receptor de facas, sóis, noites, beijos, chagas, 
e na pele destinada à decadência gravou o porquê de ser humano. 

Recebeu o medo e o céu e tropeçou entre os dois, porque o céu estava depois do medo e o medo logo a seguir ao céu. A finitude teceu essa maldição - tudo se transmuta, nada permanece, apenas o esboço das imagens paradas, quando parámos o espírito e lhe dissemos - "olha, estás feliz aqui e agora." Quase perdeu a coragem de ser humano, porque na sua imperfeição possui a ganância de tudo reter nas suas pequenas, ridículas mãos. Por isso talvez sinta que pode partir de novo e assumir a existência sem peso e por isso sem sentidos físicos que moldem todos os sentidos numa amálgama sensorial exponenciada pela memória nostálgica que chora como se cantasse e canta como se chorasse, cada hino por tudo o que foi. 

Eventualmente achou nos versos a sua salvação mas de novo encontrou a metáfora do medo e do céu - estão no caminho um do outro; esses versos reproduzem imagens que despoletam o ciclo nostálgico e as páginas são o espaço viciado onde se imagina o amante, o céu a dois e a morte depois.

Porque somos carne e estamos limitados pelo tempo e pelo espaço, há sedes a cada palpitação de tédio e o sentir vira-se contra nós, na sua pressa de ser sem poder Ser por inteiro, várias existências e uma só, ter por inteiro, tudo e nada, ser sem poder autenticamente Ser, pela gravidade natural e inventada. Dói ser senciente e sentir os sentidos a gritar por alturas tão difíceis ao corpo de escalar, a um corpo que adicionalmente tece correntes para os seus próprios pés com medo do medo posterior ao céu, o fardo nostálgico da Beleza. Segurar o ouro nas mãos por meros instantes, e vê-lo cair porque nunca foi intrinsecamente nosso, apenas do Tempo. São alturas diferentes daquelas onde pairam os anjos invejando vagamente os mortais, são alturas aqui na terra, o galvanizar de cada fibra, célula, humanas. Alturas aqui na terra mas ainda assim fora de alcance ( tantas vezes). Só pode imaginá-las e o mesmo enfastiamento da imaginação que fez o anjo descer para esta terra é o mesmo que faz o humano que agora é, querer não ter peso porque esse peso dói quando não pode ser sentido a esvaziar-se em cada encontro com o Sol.
´

Está preso agora, pela gravidade natural e inventada, pesado e com um coração que tacteia até os vazios e se afunda neles implorando asas sem ganância e imperturbáveis. Não há nenhuma outra dimensão consciente à qual descer.
Aqui é onde se sente e é deslumbrante e aterrador sentir.


MF



segunda-feira, 3 de agosto de 2015




02.02h  -  As coisas por detrás das coisas

Irei gastar os olhos mergulhados em milhões de pergaminhos, páginas amarelecidas e gastas, folheadas por dezenas de mãos antes de mim, folheadas futuramente por mais umas dezenas. Irei perder o Sol no hermetismo do meu quarto. Porque eu quero tanto entender. Preciso tanto de entender.Tudo isto, olha. Ninguém vê? As coisas por detrás das coisas. Eu vejo-as mas não as entendo, não as vejo afinalAgora tudo são meras máscaras e construções imemoriais de bem e mal, e ideais de vida ou de morte. Como posso eu não perder o Sol se é urgente que eu entenda algo que sei que está cá, infinitamente longe e perto se ser visto num ápice, e depois...não sei como viveria depois, com os vestígios da Verdade em mim, depois talvez a morte, a loucura ou a paz, o esquecimento automático, talvez a queda da Grande Ilusão, aquela que pressinto mas não sei, porque há círculos dentro de círculos, esferas concêntricas, um centro único de onde se vertem todas as outras coisas atrás de outras coisas. Continuarei a percorrer as feiras de velharias. Continuarei em busca de mais livros, farei gráficos no meu quarto, farei gráficos no ar. Unirei pensamentos, unirei o céu ao chão, o podre ao puro, beijarei as contradições, vou desgastar cada neurónio, vou envelhecer mil anos, vou deixar-vos a todos, como já comecei a deixar, morreu-me quase tudo, morreu-me quase tudo, estou tão cheia de vazios, tão criança, tão profana, quanta ganância, morremos todos no fim mas há algo, quero esse algo que é tudo, quero a paz, quero a paz, e por isso tenho de envelhecer mil anos, estou tão cheia de vazios, vou deixar-vos a todos...durante os dias entre o meu quarto e a montanha...


MF