terça-feira, 31 de julho de 2018


dizem que quando sangras fazes as pazes com o céu
que quando sangras enquanto escreves das-te à catarse, sinalizas
a despedida
é um rito doloroso de passagem
através do fogo
e da mais inocente tristeza
"-se ao menos me viste"
diz ela,
"-nada foi vão"
e então ela sangra enquanto escreve
e no final está uma paz
banhada de lágrimas mas uma paz
porque Tudo não podia ser coroado pelo Nada
porque Tudo tinha de ser selado em lágrimas
ou não saberias
não intuirias o fim
essa palavra tão final 
tão desumanamente natural
porque tudo finda afinal
mas retorna
mas não nós
nós somos finais
nós só ficamos semi-oníricos
na memória.
(metade da vida, metade da imaginação
ou quase tudo desta última?)
estes dias, amor, eu atravessei o mar
sozinha
estava sozinha e para ti estava contigo
e nada disto podias entrever
eu pergunto-me se irias entender
como as vezes já nem é um cataclismo nas engrenagens da cabeça e do coração
são meras imagens 
que nunca poderiam ser
porque tu e eu somos antípodas
tu e eu somos a alegria e a tristeza
numa tentativa ridícula de fusão
numa tentativa de linguagem comum
dispersamo-nos. tu falas com palavras
eu falo com imagens que nunca verás
na antevisão do abismo que nos separa
e só nos tocamos à superfície do sonho
que ignora tudo isto que acorda ao mínimo choque da diferença
és alegre como uma criança e são como a vida mais puramente imersa e segura
e sem perguntas. não fragmentado, uno,
vejo te segurando uma criança nos braços. perpetuando a ordem natural das coisas. sem medos.
não conheces esse tropeço do espírito. dei por mim fora de mim. olhando me e chorando não me ter outra vez - esquecida e sã e simplesmente aqui. como todos e tudo o resto


*
o desespero corre-me mas faz-me correr 
em busca da vida que é cura de tudo isto
porque eu quero
seria morte não correr
haveria, por toda a eternidade se houvesse,
encontrar as curas mais mirabolantes.
mais simples, mais complexas
sangrar todo o corpo e toda a alma
limpar meu sangue
de todos os humores baixos e negros
que me contaminam 
mas o trabalho é expeli-los
retornar o corpo ao equilíbrio
são, grato, pleno
quero o oceano límpido em mim
o vaticínio foi - será uma luta
de ti contra a inércia
de ti contra o peso
e a cura prolongada está na prevenção das quedas
e por isso terás de correr
sair
ver o máximo do mundo que puderes ver
toda a beleza, singularidade, vulgaridade 
tudo sem julgamentos menores 
tudo para te alimentar e trabalhares 
não podes ter férias 
dos trabalhos interiores e exteriores
o teu equilíbrio depende disso
de viveres cada porção.
cada frequência, cada ângulo, na sua própria conta, medida.
subtilmente saberás
o tempo que disporás para ti e para o mundo


e quando a solidão te for casa, fizeste tudo bem
e o amor está em ti. a toda a tua volta
tem fé

*
agora sei- não poderias nunca tocar-me…sem o tacto das plumas
sem um conhecimento sensível da tristeza mais funda
das ideias mais fundas de inocência
-
o tacto que te colocasse no lugar intermédio clarividente
entre a tristeza e a alegria
tinhas de por um pé na tristeza para me poderes chegar ali
porque a tua leveza profana
não sabe a sapiência desse abraço
- sem palavras
e com o aperto certo


MF

quarta-feira, 25 de julho de 2018



Era Deus apunhalando-me para me lembrar desse pequeno deus no meu peito
Que há de florescer
Estava só sufocado pelo frívolo
E então doía.




MF





MEMORANDOS


Noite 24 de Julho de 2018


é que eu hoje corri e já aceito
tal nostalgia no meu peito
porque sei que as memórias são só minhas
e não fundidas
então, o retorno da separação é ilusório
eu vislumbro os candelabros de uma luz passada e esses feixes de imagens impossíveis à linguagem. (ou à minha linguagem). 
é uma ideia que mil vezes tentei escrever (em vão). 
porque só aponto com as palavras - a vertigem de não me ter. 
de tanto me ter no alto. de tanto me ter no teu peito, eu esqueci o meu. 
eu esqueci o meu peito.
e se alguma vez o tive. afinal, eu chorava pela minha mãe pensando abandono. e era só o inverno. eram só os dias mais curtos. e o desaparecimento do sol e a chegada da noite batalharam me os sentidos. e os meus pulsos. as minhas mãos tiveram pássaros aterrados desde então. por uma chegada. um sopro através da fresta. uma paz. por outra mão. e no amor, eu não sei se mais do corpo ou do espírito, no amor afundei me mais que na mais funda solidão. porque a solidão adensou se na visão desse hiato -  entre a  minha memória e a absência da tua em mim. essa loucura de não nos chegarmos aportou em mim. não despregou de mim (até agora, que corro e inspiro em paz o ar, sem peso). 

a imaginação foi partida em quartos . e eu penso te aceitando a ilha que és. as ilhas que somos à percepção de uma sensibilidade que se quis estender para lá de um corpo. para lá de uma vida. ( eu não sabia - que para lá da vida só sofremos a ganância da eternidade impossível.) do tempo caindo a pique sobre nós e nós olhando-nos hoje, de longe, estranhamente estranhos a quem fomos quando não nos sabíamos. eu sentia saudade desse vazio que nos antecedia. desse mistério que nos fazia olhar um para o outro como algo de divino.
 eu não quero ir. cada lágrima gritava eu não quero partir. (estás comigo e eu já sinto saudade). mas como ficamos no tempo mergulhados de memória ? incomunicável . são só vultos. como as palavras são signos para os quadros sentidos do coração. caminha por dentre mim, eu orava, e nessa fusão talvez a memória não precise de ficar além de nós. flutuando num espaço que idealizava. a criança em mim que não concebia os grãos de areia escorrendo através dos dedos ou os castelos ruindo no mar. chegava me que visses. tu que amo. dentro de mim, só nossa, a memória.

caminho para outra dimensão . onde somos sagrados separados. onde a poesia não me é fardo ou catarse. onde a poesia simplesmente é e nos descreve. onde respiro na vida mais que no labirinto da escrita. porque a vida está lá fora. eu sei. e o teu rosto chega me. e o meu peito..(.estou a fazer por me chegar).  pela primeira vez na vida. superando a criança que não sabia que era inverno. e que a mãe sempre voltaria para a ir buscar. e que dentro de mim há tudo isso. todas essas mãos. sempre comigo. apenas me separava - eu de mim. amo te e a todas todas as estradas corridas e figuras estendidas. todas as grutas e fugas porque no céu eu farei sentido. eu criarei a noite mediante o dia. e as respirações sofridas dão lugar a despedidas da razão mal centrada. e do espírito gasto em filosofias demasiados vastas ao coração. porque eu sei que tudo sei dentro. bem fundo e sob a égide da paciência. eu atravessarei a criança e todas as imagens que me paralisam.

 como poderia viver o profano se senti o sagrado ? - eu perguntava me saindo desse breve retiro. com o rasto de melodias distantes que murmuram ao espírito. de outro tempo e frequência de alma. eu saí e saio tantas vezes sentindo me estrangeira ao chão que piso, aos sons e rostos que se me cruzam. e não houve dissociação maior que o meu amor. e escrevi sobre pérolas e seixos comuns e solidões e sacrifícios de visão /fusão . escrevendo sei que esta escrita assim escrita não serve o propósito maior : de me ter segura e inteira neste mundo híbrido. de profano e sagrado. e trazer o sagrado no meu peito é tudo o que quero. e tudo o te quero dizer : que é possível. achares te fundo, aos teus sentidos, a transmutação das tuas lágrimas. acordada e viva outra vez. não te feches , olha para os olhos da criança que foste com amor. porque o abandono é ilusório. o vazio é a tua razão sem chão. mas há tanto chão que não atinges. e o mar deu te um chão sem palavras. (e de ser sem palavras te esqueces  . ) apenas te olhas na memória e há um sentir com mil anos de oração. que descende do coração. e abraça a cabeça. esse estado de solidão unida a tudo. onde és e te bastas. e te elevas diante algo primordial e profundo. Obrigada. diz adeus às palavras - todas que não te tragam à superfície. ( são tortuosas e habilidosas formas de despejo).


MF




O tema de novo Plath na cabeça, Bukowski na cabeceira estranha comunhão, estranha disrupção, meteoro um dia, uma hora, witchcraft...