sábado, 28 de fevereiro de 2015








[Lacuna amnésica ]

nos sonhos as nossas almas não se lembram que se feriram mutuamente:
abraçamo-nos, sorris como me lembro,
e acordo no rasto de duas palavras -  "Tão bonito"




MF












...

um amanhã nunca estive aqui
um amanhã não haverá manhã
e fomos pedras que choraram, fomos sonhos sem corpo para Ser



MF



*


a desorientação de todas as estradas.





















I

Anseio o dia da extinção desta solidão - a impossibilidade de ser vista. a incomunicabilidade entre as ilhas. abismo maior que o mar, intangível.
não quero palavras. quero frémitos causados por sensações partilhadas e composições perfeitas. tocar a sensibilidade alheia; fazer sentir como é bela e atroz a melancolia. de como é divino e mundano o amor. de como é eloquente e trágica a finitude de todas as coisas. quero o mergulho nas trevas e paraísos de uma alma e o mergulho desta na minha, num instante belo em que os meus sentidos modelam transcendência.
a alma livre num corpo parado: não importa que outros passem e não se apercebam. quero apenas partilhar esse algo sem nome com mais um ser, comungar no lugar sem tempo. quero extinguir este algo aparentado com o medo. ser para sempre jovem em algum plano paralelo a este. nada esquecer, tudo lembrar. sobreviver à vida e à morte. provar que não há vazios entre o calor das estrelas. provar que somos mais que carne surgida do acaso. achar o cerne que me distingue e é eterno.
ajoelhar-me perante o céu e o mar e ao mesmo tempo erguer-se-me a alma com a noção da sua altura. quero tudo derramado num campo de memórias, sensações, cheiros, texturas, músicas, gestos, caras, paisagens, momentos, palavras, lágrimas, risos, quedas e ascensões.
Quero Ficar, quando for.



MF




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015





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Memorandos

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 Explosions in the Sky - It´s Natural to Be Afraid


27 02 2015  9h57 - 10h08 _ 21h?

Acerta os teus próprios passos
Santifica teu exíguo espaço, é onde te expandes além de ti.

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Um dia as palavras vão desaparecer daqui. Desaparecer de mim.
Chorarei por todos os humanos. Chorarei as lágrimas de todos os humanos. Porque sou feita de palavras. Mas aqui me calo. Aqui me páro. Aqui me acalmo. Aqui reconheço... quão perfeito o isolamento, quão perfeitas as músicas sem vozes. Quão fortes as cores. Isto abraça-me como um abraço humano. Conta-me uma história só para mim. Sem palavras. Corre somente a paisagem diante os meus olhos neste autocarro em movimento. Paisagem pintada por vagos conceitos. Sem palavras. Inúteis. Desnecessárias nesta calma. Inúteis. Perante as ondas, frequências rítmicas perfeitas. Instrumental que me preenche e me esvazia do lodo que me sufoca. Foi só um dia mau. Não tenhas medo. Renasce da solidão de que cuidas. Sempre soubeste que esta te daria entendimentos. Não são necessárias palavras. Acho que é desta. Morremos hoje.




MF




domingo, 22 de fevereiro de 2015





25/12/2014 [memórias, troféus de vida]



há memórias que são mais que memórias. são dias distintos arrancados por vezes naturalmente, por vezes a ferros, da vida; esses dias tornaram-se eternos na nossa mente que os abarca como fragmentos a preservar contra todas as densas marés do esquecimento, ou da sua substituição por outras camadas triviais, quotidianas, por outros dias mais banais.



MF










[       ]


Traz-me o paraíso amargo da saudade. As tempestades sanguíneas.
Traz-me as boas insónias (são os sinais, aqueles sinais)
Quero ansiedade descomunal.
Quero a razão irracional.
Quero músicas todos os dias, a pintarem esses dias.
Curar-te. Curar-nos. Como puros anjos humanos.
Beber a transcendência ilusória dos teus olhos, em instantes parados e eternos




MF







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12:41h

Vou sentar-me e compor a substância que me faz eu. Tudo o que ela implora. Disse um dia que queria mais que a vida, que queria sentir tanto até queimar e eu queimei. Não posso voltar a queimar do mesmo modo, porque a juventude tornou-se mais velha e os meus lábios já não sentem o mesmo e o meu coração já não corre desenfreado. Vou sentar-me e compor a substância que me atormenta, desenhar um rosto na cadência melódica que enche o quarto. Transfigurar o emocional disperso, a solidão das coisas, a ânsia incógnita, a saudade em notas lentas. Fechar os olhos. Fingir que tudo isto ecoa internamente atravessando estas quatro paredes, as casas, as estradas, a distância absurdamente curta e vasta até ti. Acredito que há uma melodia a ser erguida. Perfeitos compassos, ritmos, perfeita escala, duração, encerramento divino de poderosas mensagens sem palavras. Inspiro todos os dias rastos de poesia, faço viagens no tempo, saboreio a mais poderosa das fontes - a nostalgia juvenil. Sei que um dia farei magia e sentirás um frémito distinto de tudo, porque não posso crer que sejamos apenas materiais. Não posso crer que não estejamos ligados de algum misterioso, transcendente modo.

Sou uma infinidade de camadas sobrepostas. Sou uma infinidade de perguntas sem resposta, um aglomerado de desejos e dores perpetradas por introspeções obsessivas. 
Sinto-me e desespero-me. Talvez sejas tu. Talvez seja outra coisa. Essa coisa de querer algo maior que a vida sendo só humana. 
Sinto-me e desespero-me. Talvez sejas tu. Talvez seja eu. Talvez o mundo seja realmente vasto para estar sozinha e eu acho que nos atingimos num qualquer instante - a minha alma a tua, a tua alma a minha. Recantos sombrios e belos. Talvez sejas tu (às vezes tenho a certeza). Talvez queira abraçar-te mais uma vez. E reconhecer que a minha maior camada é a de ser humana.



MF








segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015






*


preenches a solidão física
básica, primitiva
mas deixas vazia a solidão psíquica

apatia no seio de um abraço tão humano
percorro confins proibidos
estou cansada
vacilo entre o céu e o inferno
no teu beijo não apago o Tempo
choro ao teu ombro e não te olho os olhos
porque mereces mais que esta sombra que escreve
e perverte felicidade,
na esteira de imagens recalcadas nas insónias,
desculpa.
ainda o amo de modo profundo e agitado
com o olhar marejado de inocência e tristeza
ainda sou jovem
ainda estou aqui
mas às vezes não estou
talvez queira tempestades no sangue
e fel nas entranhas
confluência baça de extremos
doces instabilidades prepotentes
dor juvenil da ausência do amante por um dia
e no quotidiano lembrar-me de ti
em paisagens
em músicas
e confundir-te com vultos citadinos
e não pensar
não pensar
- que eu pensei toda a vida e só não pensei em viver.




MF




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015







20h31 [ nostalgia : νόστος (nóstos - "reencontro") e ἄλγος (álgos - "dor, sofrimento")]

vou esperar pela madrugada para escrever
só ali te encontro, na tua original forma e nas formas como me inquietas
tiro fotos à cidade e escrevo olhando para dentro,
esculpindo versos cá dentro
penso onde estarás e se também estarás perdido nas nostalgias incapacitantes das almas amantes

a juventude em mim, só foi jovem a partir de ti
a alma encaneceu
agora esmago corações insensatos mas puros, e sinto-me assassina passiva.




MF






[o peso das emoções alheias]

Preferia amar, a ser amada.








sábado, 7 de fevereiro de 2015






1h30


Afasta-te. Eleva-te. Além da terra. Além do espaço. Além de ti.
És pequena. Atómica. Dás o peso do sentido supremo aos sentimentos.
Por isso choras assim. O céu indiferente.
Ligas-lhe. Mas sabes que não tens coragem, voz. Entre lágrimas. Desligas. Inventando uma cena fílmica. Onde tivesses coragem. Onde ele chorasse por te ouvir chorar do outro lado.
Nunca foste tão humana. Nunca foste tão indefesa.
Frágil. Criança. Menina.
O passado não se repete no presente. Porque lhe ligas?
Beija o amanhã. Beija-o amanhã. De noite. É o mesmo mês do outro ano. Mas a história vai ser nova.
Beijarás sempre de noite. Porque a noite está cheia de estrelas. Longínquas. Testemunhas gloriosas de amores e cansaços.
Só te podem dar a sua luz. O seu silêncio. Abrir-te passadeiras de dias por preencher, por estrear.
Ele é poeta. Vai com ele. Ele sabe-te. Ele perdoa-te. Ele sabe que que és poeta e vives com fantasmas.

10h14

Faz frio aqui. às vezes. Por isso amamos. As mãos ficam quentes. Sente-o espelhado. Vive-o.
E o Universo não te parecerá vazio.





MF


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015




*


2h11  [desagregado]

Indefinido. Silêncios sublimados entre as palavras. O tempo lento. O tempo rápido, afinal.
Há uma imagem. Tento encontrar o segundo em que sei que não estou perdida.
Anjo. Riso. Incinerada alma num bom incêndio.
Fica. Mostra-me dias. Mostra-me tu. Sigo-te as palavras. Atenta. Serena. Agitada. Por dentro.
Felicidade que se confunde com tristeza, se penso.
Felicidade que se parece com felicidade, se sinto.
Fala-me. Beija-me, Eterniza-me ou destrói-me.
Engrandece o mistério. Nunca me verás até ao fundo. Nunca te verei até ao fundo,
E ainda bem - Para me escreveres. Para te escrever. Para te prender.

(Só somos mistérios enquanto não nos vemos por inteiro.)




MF



















*



1h41

Tenho a heroína do meu próprio corpo nas veias,
acionada pelas névoas cálidas entre os teus olhos e os meus.
num qualquer microssegundo expandido eterno e sem memória,
sei que me encontraste 
e perfazes cada minha ondulante fissura anímica, com a substância de ti.





MF










quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015



04 02 2015 8h12

O corpo antecipa-se ante a alma
esquecido das noites em que pela alma não dormiu.




02 02 2015  1h30

And there's taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good
Just can't function no more
But love, love wil tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again
Joy Divison 

O imortal finda fulminante e deixa destroços para amar, é um corte limpo com um quê de tragédia; O mortal degenera no fim do mistério, no cansaço dos dias. O imortal quer-se puro, onírico; O mortal é banal e sujo e visceralmente perecível. Os imortais morrem rápido para deixar lugar à eternidade; Os mortais gangrenam na ânsia de perdurar uma magia que é fugaz. 

Por isto fomos eternos - a eternidade nasce de uma dor disparada de um qualquer lugar, sem aviso, roubando o sol por eras psíquicas. Nasce de uma queda abrupta no auge da Primavera dos dias, ficando dias por preencher com a imaginação, com o fantasma de um amante em todas as horas despertas da madrugada. 
Final abrupto com rasto de promessas é condição de eternidade passível de ser adornada por artes que acalmem o coração injustiçado. 

Prefiro -  uma boa história inacabada, a assistir à vulgaridade que se tornaria a nossa história acabada, no fim do mistério, no cansaço dos dias. Se tivéssemos ficado juntos, despojar-nos-íamos de toda a beleza. Assim, flutuaremos, para sempre jovens nesse plano de sonhos e memórias, como nos lembro, como nos queria.

(Eu nunca quis a vida amena, afinal.)


MF











04 02 2015  8h03

Adormeço-te, no esquecimento da rotina citadina.
Acordas-me, na solidão fechada da noite.







terça-feira, 3 de fevereiro de 2015





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Memorandos

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07 01 2015  0h12

Lembra-te de mim, antes de me esqueceres.


27 01 2015  0h37

Só espero que saibas - o caos cá dentro és tu.


27 01 2015  1h17

Deixaste-me à porta da tua casa
(sem poder entrar)


29 01 2015  18h47

Somos aquilo que não esquecemos.


02/02/2015 seg    1h07

é uma onda que nasce
e ascende
informe. dispersa.
capaz de abalar
as fundações internas
e destabilizar-me o sangue
e despir-me de toda a ordem ou razão
despir-me - da ficção serena de mim.


02 02 2015  0h35

[inverso]
se amanha não estiver cá é porque não me rendi.

03 02 2015  1h34

Toco te ao de leve e sinto te a vida
(sentido-a em mim)

03 02 2015  17h32

Apaga-se fora o mundo.
Expande-se o interior cheio pelas paredes vazias.
E as lágrimas são nada, para o mundo além daqui.

MF


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domingo, 1 de fevereiro de 2015







Perturbaram-nos a todos o silêncio cósmico da Inexistência;
O tédio é condenação de um demónio astuto;
As crianças riem na inocência resguardada do real.
  - E decerto Schopenhauer escreveu algo similar a isto.


   Tenho medo de esta condição um dia se tornar permanente porque eu sou tão jovem. A ideia de morte está mais presente nos meus pensamentos que a ideia de vida, mas não sou trágica, não quero morrer. Apenas quero desesperadamente Viver, (e talvez um vislumbre da morte nos conceda um vislumbre de vida) ainda que na confusão, na ambivalência de todos os conceitos, dando-me ao luxo de uma boa ilusão, ou abraçando com tudo de mim todo o cinismo e rir do destino, rir das máscaras, dos podres, da família, da razão, do quotidiano, do tempo, da moral, tudo. Sentir-me livre na efervescência de uma raiva, uma revolta interior exteriorizada em indiferença, num enorme "não quero saber". Mas há dias de um bem estar anónimo em que desprezo todos esses meus irmãos mais trágicos e lhes digo : "- porque não se matam de uma vez? porque se mutilam de maneiras inexprimíveis, de maneiras tão profundas e imaginativas?"; se o instinto prevalece sobre a dor existencial então que se mintam e bebam e riam do mesmo destino que vos trouxe até aqui. Ou sofram em silêncio sem importunar e contaminar os outros com a vossa soturnidade.
Bando de corvos negros, calem os vossos chilreios, descansem as vossas asas.