terça-feira, 30 de setembro de 2014



[rascunhos] 
(...)

Apenas sei que tudo é efémero, sou eterna solitária, com intervalos breves em que parto de mim para o mundo - para o lugar onde colho as experiências que impelem estas mãos que um dia te tocaram, à escrita, à transfiguração dos sentimentos amorfos e intocáveis, para palavras sólidas que faço canção.

MF
... achar o que roubaram de mim...


Adormecer, enfim, num último sono
e permanecer para sempre
no que ficou de nós

atrás, dentro e além do tempo.


["o mundo vai cair quando nos encontrarmos"]

Cai, mundo, cai
porque já não chegas
esse teu chão é vão
para o encontro de duas
almas
Desaba, como sinal
que és palco de grandes
histórias
Cai, mundo, cai
não caíste, não ecoaste
eu e ele erámos só
dois poetas,
afinal.

MF

mj

domingo, 28 de setembro de 2014

Saudade,
dos lábios que nunca beijei,
das mãos que nunca toquei

(ou irei tocar)


Só devias ser poesia inebriada,
preenchendo horas de solidão.
cansaço... e intuição amarga
da nulidade de todas as investidas.

  

[carta a um misantropo]
r.

As estrelas luziam fracas quando nascemos
e juntos remámos, rumo à misantropia...

 Por vezes penso que somos um erro, esta nossa soturnidade, este nosso pessimismo. Mas talvez estejamos no caminho da iluminação, no entanto esse caminho está cheio de farpas, faz nascer fel nas nossas entranhas. Analiso o mundo, não o vejo. Penso o amor, não o sinto. 
    Ainda bem que eu nasci, para te apoiar, para te ouvir. Temos medo, mas temo-nos um ao outro e então o medo fica mais fraco. Não sabemos para onde queremos ir; o nada antes de nós seria plácido, o nada à nossa frente é ainda mais vago e tem todo o peso do tempo, toda a pressão de um primeiro ato. Quero ter mil tentativas, ou não ter nenhuma. Quero o tudo ou o nada. O meio termo é um aquém que me esmaga, a incompletude de todos os esforços. 
   Somos velhos, nascemos velhos, talvez. O cinismo tomou conta de nós e é visível no teu olhar de desprezo perante o mundo, perante aqueles que existem alegres em rotinas estupidificantes e visível no meu olhar apático que se sente estrangeiro exilado - " não estou cá". Queríamos ser ignorantes e felizes. Queríamos não saber tanto, não sentir tanto a ponto de só sentir insensibilidade.
   Meu irmão. Corre em nós o mesmo sangue, as mesmas dores, os mesmos pensamentos... mas não quebres a cada dia, não espalhes esses tormentos aos sete ventos mas também não os deixes apodrecer em ti. Já tive a vida dentro de mim, confia em mim -

Amor.

    Não importa que seja ilusão, ( como tu sempre dizes) não importa que não seja uma força transcendente legada do universo que flutua no ar entre dois olhares, que se materializa na explosão de um beijo e nos faz inteiros. Um beijo já não é o toque de dois lábios, e um olhar já não é um olhar. Não me importa a metafísica, não me importa a química, só importa o que sentimos. Abre essa alma e deixa-te sentir. Sente o mais que puderes, não deixes esse coração endurecer, porque aí sofrerás ainda mais, sofrerás sem sofrer, o sofrimento de não sentir e continuares a existir neste mundo. Somos humanos, e não valemos mais que uma flor que ilumina o mundo com a sua beleza, mas não chores, não chores porque tudo é tudo. Dentro de mim sei que estamos todos unidos e então não existe verdadeira solidão, só aquela que alimentas na aberração da misantropia, o estado em que finges estar isolado de todos por a tua mente ser diferente.
   Somos jovens demais para sermos amargos, mas digo-te: a vida desvendar-se-á para nós um dia, inaugurará a juventude em nós.

Ainda bem que eu nasci, para te apoiar, para te ouvir.

MF

[02:33]

Escrevo essencialmente para mim, como estou a fazer neste exato momento. É a minha forma de lembrar, de me curar, de gravar, compreender, de chorar e de as lágrimas verterem palavras, escoarem farrapos de dor em putrefacção. No entanto, dirijo-me a outras almas em alguns poemas, na esperança de acalentar corações trémulos. Nesses momentos esqueço-me das minhas dores, armo-me de força para dar o exemplo. As minhas palavras vestem-se de luz e esperança. Não é falso, não é figurado, cada palavra é sentida. Também eu sou luz e esperança, no meio das brumas com que visto os meus textos.

Espero que as minhas palavras te atinjam a ti e a ti ou até mesmo a ti, como um raio de vida, como uma súbita revelação. Espero sinceramente ter retido lágrimas que teimavam em pressionar esses olhos, com um poema meu. Caso contrário, choremos juntos.


MF


[somos]

objetos do desejo alheio
bálsamos e chagas
pó e carne cansada
almas incineradas
em atos vãos e perfeitos.



sábado, 27 de setembro de 2014



As estrelas luziam fracas quando nascemos
e juntos remámos, rumo à misantropia...

MF


Não sou como os outros
e nunca quis ser
a minha lucidez é maldita
e abençoada
Não sou como os outros
e nunca quis ser
quero ser mais alta e afundar-me
em cada abismo,
tocar os infernos terrenos,
tocar os segredos do céu...


MF


Sunset At The Forest Of Senonches by Vlaminck


Paralisaste-me os sentidos, 
depois de os acordares
uma vez tão vivos
ávidos a cada olhar,
cada luz, cada cor, cada som

Paralisaste-me os sentidos,
nada é mais que paisagem,
fundo onde acontece
a minha solidão.


MF


domingo, 21 de setembro de 2014




Sou meu porto, quedo em mim
as horas arrastam
finas areias de praias desertas
o passado gira, incessante
não quero escadas, não quero mãos
este abismo é casa
de pensamentos estagnados e seguros
foi lá fora que o céu me cegou.

MF

sábado, 20 de setembro de 2014


Procuro-te - dentro de mim.
estou só e quero escrever, assaltar
recintos insulares de um tempo
que já foi, mas ficou.
gravou-se-me no peito
a memória de mil beijos
transmuto farrapos de imagens
vagamente longínquas,
em sensações reais, tão nuas
meu deus... quase me sinto,
 ali de novo, e nunca fui tão jovem, 
e nunca fui tão poeta!

MF

[fantasmas]

Envelheço nestes trilhos solitários em que me procuro e me encontro a perguntar por mim. Ausente, inerte, descrente. Envelheço enquanto escrevo, enquanto amo fantasmas que um dia foram almas perto de mim, perto do meu coração. Amo-os nos meus versos, amo as farpas que me cravaram, amo o amor insuficiente que me deram, o amor provisório, amo as memórias que pintaram mundos cá dentro. Amo-os porque até eles só existi. São inspirações terrenas divinas, sinto as palavras fluir dentro de mim. 

Estou só com os meus fantasmas. Fantasmas criam raízes, em almas de poetas.

MF

Puros

São os puros quem mais sofrem neste mundo... aqueles que riem mais, aqueles cheios de sensibilidade e poesia e sinfonias dentro de si. Puros. Carregam às costas o medo de ficarem sempre aquém, o medo do abandono, o medo da solidão. Fazem rir, porque sabem o que é asfixiar no silêncio e na soturnidade. Têm medo de se sentirem tão leves que possam perder-se de si, e não saber responder a embates sem os pés no chão, sem o coração previamente calejado. Por isso, atafulham-se de cargas, desesperadamente lúcidos de si, desesperadamente pesados, preparados para sofrer o que pensam que virá ao seu encontro. São inocentes videntes pessimistas.


Sofres com medo de sofrer. Sofres com medo de viver. 
Sofres, porque és puro. 

MF

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Outros misantropos



II

Ah! Inventas razões para verteres lágrimas
como se o mundo a seu tempo não te as desse!
- amargas, injustas, impetuosas, salgadas...
de onde veio essa súbita ânsia de cravar
gumes frios nesse puro inocente coração?
és tanto mas não te deixas ser,
a vida está cheia de vida, sorve a vida
inspira e expira e purifica, este ar viciado
o Sol aquece as mãos mais frias,
acalma e acalenta as mentes mais doridas
e tens o céu que te lembra que só está só
quem fita o chão e deambula sombra
quem se perde nos labirintos da alma
quem se dispersa do mundo e de si.

Repito: Não sabes tu que és puro?
 - ris como as crianças, que sabem sem saber,
a virtude de sentir e não pensar e viver
mas sofres na solidão, com tudo aquilo
que escondes na multidão,
sofres essa dor inventada, essa cruz
de te sentires louco e triste só por ser
esse medo do abandono, meu amigo,
medo infundado, medo monstro que paralisa...
Lembra-te que me fazes rir.
Lembra-te que tens mil canções dentro de ti.
Lembra-te que tocaste nesta alma que escreve
sobre todos os que a fizeram sentir viva.

MF





quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Quero como quem deseja o mundo
sem saber o que dele quer.

Sonho como quem sonha sem crer
derrotada, sonho vago e distante.

Algum dia serei eu.

MF


Só quis ser contigo um verso extático
no meio do nada que tudo isto é
Só quis ser, maior que eu.

Devorar a vida, com a minha vida
espantar o véu da loucura pessimista.

Mas somos só um segundo cósmico
 nada fica, apenas versos efémeros
de um poema maior.

MF






Dá-me luz,
Dá-me o Sol.
Já não me importo de definhar
se ao menos sentir.
Já não me importo de morrer
no mesmo lampejo que me incendeia.

Porque disseram antes de mim -
quem não morreu mil vezes nunca viveu.


MF

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pessoa, Nietzsche, Goethe, Kafka, Plath

Ah! Irmãos das minhas angústias!
Já não me sinto só -
Só na minha dor sem razão.
Só nos meus dramas funestos
revolvidos e recalcados.
Só na minha solidão.
Só no amor que corrói.
Só no cansaço.
Só no desespero.
Só na ausência de sentido.
Só no absurdo.
Só na ânsia da completude.
Só nesses abismos de quem pensa
cada pensamento.
Só nessa treva do entorpecimento
em que vagueio sem sentir.
Já sofreram antes de mim, já
disseram tudo antes de mim
com uma arte que não pode ser
ultrapassada, mas não importa:
Só escrevo para comungar
e me curar.

Se sofremos o mundo, que a dor seja um poema.
Um poema de camaradagem.

sábado, 6 de setembro de 2014



Não te esqueças daquilo que queres esquecer.
Não turves a água para não ver.

MF


Já me sinto. 
Passaram eras cá dentro.
Ouvi a cura no silêncio.
Vem.
Sentir a vida em mim.

Não importa que não haja 
um sentido
sejamos o nosso sentido,
e já que sentimos, dancemos
como folhas de outono 
remanescentes
de uma bonita primavera.

Vamos ser - eternidades efémeras.

MF




Tenho inveja.
Inveja dos grandes poetas,
dos grandes pensadores.
(mas não quero para mim
as suas mágoas!)
Inveja sem maldade,
apenas inveja
de quem disse melhor que eu
o que eu queria dizer
Inveja sem loucura
de quem brinca com as palavras
fazendo-as suas, domando-as
Inveja sem máscaras
de quem tomo por completo
Inveja de nunca ser mais
que aquilo que hoje sou - 
um nada cheio de desejos.
um nada a querer ser maior.
um nada a querer ser tudo.

MF

Eterno Misantropo




I

Meu coração, meu frágil masoquista coração!
- Nunca te cansas?
- Nunca te enojas de te vergar às arrecuas,
com medo de te ver?
Estás vivo mas estás morto,
os teus olhos apagados,
o teu sangue lento e glacial,
só acordas para te apunhalar
pois a dor é o teu bálsamo irrisório
meu cadáver indolente,
gritas para mim:
- "antes a dor que o vácuo e o abismo!"
Ah! Rogo aos céus silentes, grandiosos,
vagos e indiferentes para te ensinarem
a não amar a lama em que te revolves
pois tu amas tudo
o que não deverias amar!
Amas tudo o que te sorve a vida
porque tens medo de viver,
amas tudo o que te inspira melancolia
fazes poemas à melancolia,
meu pseudo-artista,
marchas a vida (qual soldado de um pós-guerra),
meu soldado de guerras funestas inventadas...
- Sim! Sofres o que há e o que não há!
Não te mintas, não te aldrabes,
o passado está morto
e o futuro também,
já que matas o presente!
Ah, meu coração! desgraçado,
desaprendeste a viver,
viciado em licores malditos
que se transformam, parcialmente,
no teu sangue!
A Solidão guarda-te, embala-te
em sonhos distantes
estás sempre ausente e cansado.
e nunca dormes, nunca dormes...

Vai para o diabo! -
Deixa a melancolia para os homens sem alma,
os cínicos que já nasceram mortos;
Deixa os sonhos para quem sabe sonhar
e não se perde neles, inerte;
Deixa o amor para quem sabe amar as coisas belas
e se ama a si próprio;
e deixa a Solidão suicidar-se por estar só!
Porque, meu deus - tu tens alma!
És apenas jovem, tão jovem
e finges ser estrangeiro em ti e aqui.
Aceita o tempo, a luz e a sombra.
Aceita a vida e a morte e ama-te.
Meu deus,
- Ama-te.

Ah meu coração! Falo assim contigo -
sapiente, feroz, altiva e condescendente,
e és meu, eu sou tu...

MF

nota - poema inspirado por Nietszche





(...) O Canto da Melancolia III

No entardecer,
Quando a lua crescente,
Verde, entre um rubor púrpura,
Brilha, ciumenta,
Adversária do dia,
Ceifa, a cada passo secreto,
As redes rosadas,
Desfalecendo, até se afundar,
Na noite pálida: -
Assim também eu me afundei, um dia,
Na minha loucura da verdade,
Na minha melancolia diurna
Na melancolia de um dia exausto, com a doença da luz
- fui ao fundo, ao fundo do crepúsculo e das sombras,
Queimado e sedento
Por uma verdade:
- ainda te lembras coração ardente,
Como eras sedento? -
Que eu seja banido
De toda a verdade,
Que eu seja apenas louco!
Apenas poeta!

Nietzsche, Assim falava Zaratustra



Tenho em mim uma impaciência
de sentir, de acordar, de me saber.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014




Sofro por não sentir nem esta dor que deveras sinto.

Imploro o gume, imploro a derrocada e nesse embate renascer viva
e sorver o ar sofregamente,
numa plena inspiração tremer a alma e anunciar-me como trovão,
expandir os pulmões lassos e acelerar este sangue, meu sangue cansado

E no fim dizer: sou segura. Amem-me, já me venci.

MF




Estou em mim, sem saber ser eu.



Deixas-me nestes abandonos periódicos 
vens e partes, vens e partes.

Eu sei que voltarás e eu sei que te perdoarei 
o silêncio em que me deixaste.

Naufragas na minha costa, abasteço-te o ego
vens e partes, vens e partes.

MF

quarta-feira, 3 de setembro de 2014



Sou uma cruz, um verso de indefinição
desconheço-me e conheço-me na solidão
pauso a vida num tempo morto, retrocedo 
aos confins de mim.

Sou a calma fingida de um mar que se contém
persigo-me, fujo-me, ficando sempre aquém
quadro abstrato que nada diz a quem se
não aventura a desvendá-lo.

Sou o cego que quer ver
a dor de querer sentir

Sou uma paranóia lúcida .

MF



~ 00:34

Imploro do limbo do meu ateísmo
aos deuses que não há,
pra me trazerem de volta a mim
quero sentir, quero o céu no meu peito
desencontrei-me vazia depois de ti.

Estou surda dos meus próprios gritos
sem som, nascidos de desassossegos
surda do silêncio que cultivo aqui
os desejos reprimidos materializam-se
em sonhos que se me assaltam crus,
devaneios proibidos dançam lascivos
na noite mas só fomos a inocência 
de beijos, nunca fomos mais longe
és o meu deus e o meu demónio
a calma e o desassossego
a minha desdita, a minha vitória
ser meio irreal e passivo que adorno
na imaginação que quer ser vida
baia onde naufragam pensamentos
difusos e inquietos e vivos.

Deixa-me dormir.

MF

terça-feira, 2 de setembro de 2014




Pergunto-me se eu choro quando choras
e se será por isso que parece não ser
(só) minha, esta tristeza.

MF


Quando eu partir, quero o céu seja feito
de palavras - as tuas palavras.

MF

Sonha-me





Choro, mas não te chega o sinal
as almas afinal não ultrapassam
o tempo e a distância
Sonho-te, vens sem que te chame
persegues-me num lugar sem nome
enquanto dormes serenamente
e sinto-te os lábios, tão real
Acordo, com um peso ambíguo 
no coração, um peso do abismo
de afinal ter sido um sonho
e um peso que é resquício, rasto
da felicidade que se verteu no peito
aquando o beijo imaterial, tão real
oceano etéreo que encheu copo vazio
transbordando-o com excesso de vida
vida que não posso comportar sem ti
que se esvai sem ti, ao acordar.
Sofro, como sofrem os sonhadores
os deuses fazem pouco de quem ama.

Desapareces, algures dentro da minha inconsciência
Do fundo vago do mistério de mim rogo 
ao céu silente pra te contar que te sonhei.
Vamos inventar um caminho, vamos ultrapassar
este ar, este plano, este mundo, e flutuar oníricos.

Volta, mesmo que não voltes. Sonha-me ou escreve-me.


MF

Confissão solitária

Sou estupidamente fraca, estupidamente ingénua, estupidamente orgulhosa ou racional ou pragmática. Irracionalmente insegura, fria e apática e melancólica. Sou sozinha, pretensiosa egocêntrica, descrente ou mística, inquieta ou serena. Sou a represa que contém a fúria de mil mares passados e só quebra onde ninguém vê. Sou o que sou e o que não sou. Visto-me de contradição - Sou estupidamente apaixonada e sensível e humana. Mas repito: estupidamente orgulhosa. E preciso de ti.

Sou quem quebra na solidão do silêncio. Quebro. Deito-me. As lágrimas caem a medo. Depois de ti não sei ser sem ti. Invento razões para enganar o coração mas a razão não é o seu domínio. O meu não se importa de esbarrar contra a mesma parede mil vezes, supersónico. Encontra prazer mórbido em restaurar-se e , afinal, depois das quedas nascem poemas. Mas já não quero poemas, não quero ter de os escrever, porque enquanto escrevo não vivo, somente remexo memórias e choro e confundo e aprumo e desejo.

Constantemente arrependida do que nem sei, nostálgica do que foi e do que nem foi, sonhadora sem saber o que sonho e cansada demais para procurar. Cobarde para viver, para saltar do penhasco onde fito e analiso ao milímetro o mundo. Cobarde para admitir que não sou forte, nem infalível, nem te esqueço.

Fazes-me escrever de novo. Dispo a minha alma nestas palavras. Conheces-me. Sabes que só minto ao meu próprio coração. Só queria sinais que estou aí, no mesmo lugar que te concedo em mim, porque afinal eu continuo a ser eu, no final sou estupidamente eu - com escudos menos sólidos que o ar.

MF



segunda-feira, 1 de setembro de 2014




Por momentos não estive aqui, não estivemos aqui,
porque amar é viver além da vida.

fomos deuses de um palco só nosso,
fomos uma pausa em movimento
poesia de olhares e silêncios.

Demarcaste o antes e o depois
e o depois que já não veio...

MF






"Quando a conheci, pensei que deitava as mãos à vida e a agarrava, que agarrava qualquer coisa em que podia ferrar os dentes. Em vez disso, perdi por completo o domínio da vida, fugiu-me das mãos. Estendi os braços à procura de qualquer coisa a que me pudesse prender, e não encontrei nada. Mas, embora ao estender os braços, ao fazer o esforço para agarrar, para me prender, ficasse tão sem nada como antes, embora isso acontecesse, o certo é que encontrei qualquer coisa que não procurara: encontrei-me. Descobri que o que desejara a vida inteira não fora viver - se o que os outros fazem se chama viver - e, sim, exprimir-me. Compreendi que nunca tivera o mínimo interesse em viver, mas apenas isto que estou a fazer agora, em qualquer coisa que é paralela à vida, que, simultaneamente, faz parte da vida e a ultrapassa. O que é verdade pouco ou nada me interessa, nem tão - pouco o que é real; só me interessa o que imagino ser, o que asfixiara toda a vida a fim de poder viver. Se morrer hoje ou amanhã ser-me-á indiferente, sempre o foi; o que me incomoda, o que me ulcera, é que mesmo hoje, após anos de esforço, não possa dizer o que penso e sinto."

Henry Miller, O Trópico de Capricórnio
~
Beija-me e escreverei
o melhor poema.



Não conseguimos deixar no caminho
aquilo que já findou
vivemos na sombra do que fomos.

Não somos nossos.


És um quadro que guardo junto ao peito,
metade real metade devaneio.

És matéria - prima de mil poemas, canal
onde confluem todas as minhas palavras.

És um deus frágil e humano onde extingui
todo o meu amor .

Estou dentro de mim por ti.
(pois só tu me tiraste de mim)

MF