domingo, 31 de agosto de 2014





A terra deixa de girar, o tempo cessa
no instante gritante e poético em que 
dois olhares se tocam e apagam
o mundo alheio.

Tremem os corações, pulsa o sangue
desenfreado ressuscitando cada célula.

Talha-se um corredor, escoam significados
dizendo sem dizer, algo só nosso, só deles.

Gravo o momento, tela sem tempo.

"A terra deixa de girar, o tempo cessa"
e todas as metáforas são fracas...


MF

sábado, 30 de agosto de 2014




E sempre que vens, nascem-me palavras
transbordam-se-me da alma,
na pressa de falar silêncios.

Como se fosses todas as razões.


MF

sexta-feira, 29 de agosto de 2014


Estás no silêncio, na insônia e na memória
estás sem estar, tão mais real
tão mais distinto,
tão mais tu,
incrustado tão longe algures aqui
num tempo parado, onde fomos puros
pedaços vãos, na maré da história...

MF




Não há palavras que falem o que deixei
em silêncios,

As palavras que não disse não existem
e são tudo o que quis dizer...

MF

quinta-feira, 28 de agosto de 2014



~ 3

As almas tocam-se em limiares, detalhes, frequências sem erro;
efémeros lampejos de vida, não escapamos.

Somos mais que carne;
mais do que seres que se carregam às costas uma existência inteira.

terça-feira, 19 de agosto de 2014





~
A mente é tudo. Vemos o que somos e somos o que sentimos, o que demos e o que recebemos. Deixo de pensar para sentir, perdoo e sinto-me livre cheia de sabedoria e amor.

Estou aqui, agora. Nunca soube tanto como agora.
Não penso. Não me prendo. Sinto-me. Viva.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014



Não quero razões, quero que o presente seja uma tela em branco.
Vamos deixar o silêncio dizer, o que as palavras não alcançam.

MF

Através dos meus olhos

  


  Só queria que visses, através do meus olhos, aquilo que eu vi. Só queria que sentisses, através do meu coração, aquilo que eu senti. É uma súplica dos abismos de mim, é um abatimento mudo, um desespero irrisório, este de querer que soubesses o que era estar dentro de mim, o de querer que as nossas almas se fundissem e se perscrutassem mutuamente. Almas unas, eternas num espaço-tempo só nosso - os meus olhos, os teus, as minhas paisagens, as tuas, as minhas memórias, (cada nuance, cada traço, cada quadro, cada intensidade de sentimentos) as tuas memórias. Mas nunca nos alcançamos plenamente, os corpos não falam a alma; estamos sempre separados em algum limiar mesmo quando os nossos lábios se movem por instinto almejando escoar significados e aproximar dois seres do núcleo um do outro.

  Senti-me leve como se não tivesse corpo. Estou hoje pesada. Hoje sinto a nostalgia e a ânsia de transcrever em palavras , sentimentos perfeitos cá dentro, velados do mundo, velados de ti. Mas as palavras são imperfeitas e insuficientes, e o meu silêncio nada conta. Não consigo, de modo algum, pintar aquilo que vejo cá dentro - memórias do meu ponto de vista, diáfanas mas fulgurantes, que ameaçam desvanecerem-se mais um pouco a cada dia, desvanecendo assim a vida em mim. 
  
  Por isso sonho, o mais inebriado dos desejos: pudesses tu ser eu, por uma fração de segundo, continuando a seres tu.

MF

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Oceano



Só na superfície o tempo navega; debaixo de água, não há controlo. Os segundos são levados pelos seres vivos, perdem-se por entre correntes... 

Quero submergir no mar mais profundo que encontrar. Deixar-me levar pela corrente, esquecer a minha existência ténue, quase invisível, e pertencer a algo maior. Quero ver o mundo desfocado através dos meus olhos e sentir o equilíbrio. Esquecer-me de quem sou, do que sou. Apenas viver enquanto existo.

Mergulho.

O tempo estagna e fecho os olhos para descansar verdadeiramente. Agora, já não tenho medo, sou uma célula insignificante de algo muito mais complexo. Sou um peixe no oceano. Já não tenho de pensar, já não tenho de me preocupar, tenho apenas duas missões: viver enquanto sobrevivo e morrer para se alimentarem de mim. A minha alma liberta-se e fica só o corpo. Já não há solidão, já não há ilusões: sou o que aparento.
Sorriu.
Sou feliz, finalmente.

PN
330.

A doçura do passado? O recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem o pode ser - o absurdo, meu amor, o absurdo.

O livro do desassossego, Fernando Pessoa



Eu sei que sabes, tu sabes que eu sei
aquilo que só nós sabemos.
Não me esqueças, não te esquecerei.

MF


Num banco de jardim, duas almas
paradas na impotência das palavras
provo-te as lágrimas, o sal das lágrimas
depois do silêncio
É o fim.

MF



Sonho semi-lúcido





~01:17
 6 de Agosto de 2014

De alguma maneira, irei sempre amar quem já amei. Sou poeta, não deixo morrer nada em mim, nada consigo esquecer. Crio versos a partir de olhares e beijos, silêncios e fantasias distantes. Mas não há nenhum príncipe encantado, nenhum objeto singular do meu amor a quem todos os meus textos românticos são direcionados -  Às vezes escrevo como se chamasse por alguém. Umas vezes esse alguém é real, outras vezes não passa de uma criação onírica, farrapos de uma alma que tenciono encontrar. Os textos misturam-se, a mente é confusa e escrevo, escrevo sobre várias pessoas como se fossem uma só. Hoje alguém me assaltou em sonhos... estávamos juntos, apaixonados como nunca estivemos pois não me deixaste ser tudo aquilo que podia ser, não te deixaste sentir tudo aquilo que te podia dar. Dei significados falsos à atenção que me davas, na minha ânsia de pertencer, estar em algo que não eu. Podia jurar que via algo nos teus olhos. 

Talvez uma parte de mim ainda te ame, ou ame imaginar tudo o que poderia ter sido, sonhando-te quando nada o faria prever, pois sei que segui em frente e nessa viajem consegui verdadeiramente sentir o que era amar e ser amada. 

Assaltada por sonhos vívidos,
estava junto daquele que me negou
pudessem os sonhos ser reais
e não ser aquela que chorou...

MF

mb

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dois tipos de felicidade





Hoje reconheço que há dois tipos distintos de felicidade. Ambas são dignas de serem sentidas, ambas nos fazem dizer "estou vivo!":


Há a felicidade plácida, ancestral, fundamental - aquela em nos sentimos completos, tão calmos, tão unidos ao universo que poderíamos morrer naquele momento. É a paz dentro de nós, é o olhar absorto perante tudo o que nos rodeia. Sinto-a no mar, procuro-a quando estou só.

Há a felicidade das paixões impetuosas - aquela que nos enche com tanta vida, que torna as cores tão coloridas, o riso tão verdadeiro, cada inspiração tão sagrada e o sangue tão pulsante, que só queremos mais um dia igual àquele ou parar, parar naquele momento. Senti-a em ti, procuro-a de novo por aí.

A primeira felicidade, é a felicidade dos gregos, dos filósofos, dos solitários. A ataraxia, a aceitação plena do destino, o deslumbramento com a beleza natural, o afastamento voluntário das paixões frívolas, das desilusões sociais. Olho o céu, sinto o mar e de repente sinto-me maior, sinto-me humilde, completa como se se operasse uma fusão entre a minha própria alma e toda a natureza. Sinto-me no presente, aceito a morte. Posso ir, sem peso, nada me prende nesse momento. 

A segunda felicidade, é a felicidade dos amantes, é o amor apaixonado, exclusivamente humano. É contraditória em tantos níveis, mas toda a gente a almeja. Só os cínicos e os amargos dizem que é ilusão, os risos, os olhares, as lágrimas aquando o seu término. Cria-se uma dependência, mas amamo-nos mais a nós próprios por sermos amados. Sentimo-nos visceralmente vivos, cada célula nossa é acelerada e impelida para o futuro ao lado da nossa alma gémea.  Não sei quantas vezes sentimos esta felicidade, porque amamos ao longo da vida várias pessoas em intensidades diferentes. 
É a felicidade de querer viver, é a explosão sensorial. Mas é triste ver algo tão belo degenerar, é triste assistir ao fim de grandes histórias. 

Quebro por ser tão efémera, a felicidade que é realmente humana.

MF


Tenho medo de ser esquecida, 
de não ter sido memorável,
de todas estas necessárias palavras
não terem sido lidas.


Sedenta de ser tudo o que tenho de ser.
Morro, por não me saber.

Discorro livremente




Caminho por entre ruas vazias
os meus pés calcorreiam por hábito
as mesmas calçadas velhas e frias.
Passeio o corpo que contém esta alma
sem destino, o ar está limpo e vagueio
instintivamente adivinhando atalhos
inventando marés onde me lançar
mas não há costa para mim.
Caminho sob o mais belo céu
os olhos vêem, mas estou gelada
este coração expandiu-se um dia:
o calor de mil sóis, a vida de mil vidas
sorveu a eternidade brevemente 
colapsou dentro de si,
como um amargo despertar precoce
de um sonho que devia ser mais longo.
Bate hoje a vida sem fulgor, tão frio
inumanamente entorpecido.

Acho que já não consigo sentir
somente sentir a consciência
de não estar a sentir.

Só queria sofrer o que sofro para saber que estou viva.

MF

domingo, 3 de agosto de 2014





Por tudo isto peço perdão à minha alma:
perdoa-me por amar a melancolia
e distanciar-me regularmente da vida
longe do sol, tão longe dentro de mim
perdoa-me... por não saber ser eu...

Um amanhã irei voar.


MF

Desvenda-me




Desvenda-me, consome as trevas
que me consomem, sem ficares trevas.
Volta, treme o chão. 
Ama-me com o amor só nosso.

Não me deixes queimar anos.
Não me deixes tornar outra.

Quero rir como já ri, preencher dias
com vida e músicas e olhares.
Faz-me eterna em ti, faz-me viva
o sangue foi feito para correr.

Desvenda-me, atrás de mim estou eu.

MF


Só o teu abraço me curava dores 
sem nome ou razão
escrevo o que já escrevi mil vezes
ecos de silêncios, delírios do coração.

MF

sábado, 2 de agosto de 2014

Narciso




Vens para mim, solitário
quando as horas se arrastam
arrefecendo o sangue.

Vens para mim, altivo
somente para partires
sem despedida.

Sou eterno porto humano
dispo-me de orgulho
pra te receber.

Sou o chão que pisas
calejado chão
que te aceita sempre de volta...

MF


Faz-me inteira, faz-me luz, faz-me poesia
escrevo incessantemente sobre ti em palavras
circunscritas, ambíguas e furtivas
escrevo a vida sem vida, os vazios perenes
(sobre o que haveria de escrever?)
E leio e compreendo os abismos em mim
mas continuo a ser inerte, cansada, ausente
desesperadamente ausente.
Faz-me mais, faz-me viva, faz-me eu. 

MF


Fantasma dos meus desassossegos
adormeces a vida aqui
no berço desta abóbada estrelada
tremo de um frio dentro de mim.

MF

Volta



Vem lembrar-me de quem fui.

Não sei quantas vezes morri.
Não sei quantas vezes renasci.

Não me deixes ser paisagem
inerte, passada pela vida
ser quem não sou, quem não fui

Não quero ser virtuosa,
honesta, perfeita, infalível
só quero ser eu
em todas as minhas falhas.

Vem lembrar-me de quem sou.

MF

Chronos





Persigo-te em contramão
desbravo caminhos
sigo o fio 

E páro,
onde quero ficar
em desertos sem tempo
que roubam o tempo

E vivo,
onde a vida já andou.
em quadros estáticos
de cores irreais

Persigo-te em contramão
o mundo apaga-se.

MF

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A felicidade pura



  Pergunto-me: o que acontecerá quando encontramos um momento de pura felicidade? Posteriormente, talvez o mundo perca um pouco da cor que lhe dávamos. Passaremos a vida sem vida, recordando e restaurando esse momento e tentando repetir as mesmas sensações. Seremos uma espécie de eremitas da alma que se passeiam por instinto, cumprindo tacitamente rituais básicos de sobrevivência, alimentando-se verdadeiramente de farrapos de imagens e sentimentos sem nome, traídos pelos seus olhos baços que revelam estar perdidos muito além do presente. Pois agora, a vida parece longa de mais.

  Caímos em numerosas quedas na tentativa de escalar uma felicidade utópica. Desfazemo-nos em mil pedaços, restauramo-nos debilmente só para voltarmos a cair mais sólidos, com a constatação de que não conseguimos mais sentir o mesmo que um dia sentimos. 

  Estamos quebrados. Vimos o céu e agora a terra parece sórdida, pesadamente instável e fria. Deslumbrámo-nos com banquetes de deuses e agora toda a comida sabe mal. Ouvimos a mais bela sinfonia e agora todas as melodias nos parecem grotescas. Inebriámo-nos num aroma transcendente e agora este ar parece insuficiente e asfixiante. Extasiamo-nos fisicamente como que tocados pelo mais suave dos veludos e agora tudo nos parece tão áspero e rude. 

  O mundo é o mesmo mas algo morreu em nós porque sentimos algo que arrebatou tão fortemente os nossos sentidos e alma que estes ficaram viciados e exigentes. Não queríamos sair dos paraísos na berma da vida. Não queríamos voltar cá, descer de um local mais alto, pois a nossa alma ficou tão cheia. Aqui é o local onde ela se esvazia, como um mar tirano que nos rouba tesouros costeiros, nas suas marés...


"You stretched for the stars
and you know how it feels
To reach too high
too far
Too soon
you saw the whole of the moon!"



MF

De novo uma criança

   


31 de Julho de 2014

   Aos poucos vou encontrando a felicidade - Na amizade verdadeira, no prazer de viver o momento presente. Hoje passei a tarde fora de casa e fora do meu eu mais problemático e taciturno. De repente o meu estado humoral alterou-se por completo.  Senti-me plenamente feliz - no meio de crianças sinto-me de novo uma criança. Não consigo evitar sorrir, não consigo evitar mostrar os dentes para as fotos quando ando com elas às minhas costas numa piscina, num dia de verão.
  Fico absorta pela beleza da inocência. Não há complexos, não há medos, não há questionamentos existenciais. Limitam-se a viver, são elas próprias.


"Meu deus",  penso eu. Mas não acredito realmente em deus. 
Acredito na amizade.
Acredito na beleza da inocência.
Acredito em dias bons.
Acredito na eternidade de momentos.
Acredito que só eu me impeço de ser feliz.

Viver é tão bom, rodeada das pessoas certas. 
Posso contar com vocês, são irmãos para mim.


Dedicado a F, K, M e M

MF


As lonely as the Earth

Jean-Baptiste-Camille Corot - The Solitude
30 de Julho de 2014
~ 2:30 

   Não consigo dormir. O silêncio da noite traz-me paz ao mesmo tempo que me oprime: privada de estímulos sensoriais, vagueio e sinto dor pela consciência visceral do eu - Sinto-me só a mim, ouço o bater do meu coração e viajo numa confusão esquizofrénica de pensamentos e imagens do que já passou. Sinto na boca o travo amargo da nostalgia, do calor distante, da inocência perdida...  Vou à varanda. Olho para as estrelas e aprecio por momentos o silêncio, ao mesmo tempo que amaldiçoo as luzes que ainda se encontram acesas na madrugada e me impedem de ter uma visão mais clara do céu.

   É como se o mundo morresse em todas as noites de insónia. É como se eu fosse o único ser humano acordado, com um peso enorme dentro de si - o peso de me sentir completamente sozinha aqui, sem saber porque vim, sem saber para onde vou ou para onde quero ir. Tão só e vulnerável como a Terra, imagino-me a girar com ela, incessantemente  à volta do Sol, pequena rocha flutuando no espaço... 

   Também ela se deve sentir sozinha, às vezes. 

MF