segunda-feira, 16 de outubro de 2017



Vozes e visões internas:

Eu vi- centenas de candeeiros apagando-se à meia noite. E a vila, toda a cidade, cessando de existir, engolida pelo breu. Uma imensidão negra sem contornos. 
Eu estava no ponto indefinido onde assistia a esse apagão, diante do meu corpo e mãos que também não via. 

Talvez o primeiro apagão se tenha dado em mim. Seguindo-se tudo o resto. 
(O mundo precisava de mim, afinal?)

Nunca esperei adormecer, mas adormeci.

Ainda respiro, sem nada poder tocar. Duvidando da existência de tudo. 
(Afinal, tudo se cobriu de breu).

( - "Estou no final do jogo? Haverá vida ainda, por detrás desta cortina? É só um fenómeno de luz e de sombra? ")

 Dar forma ao mundo depois deste sono, desta escuridão...Tudo se erguer, outra vez, estar cá sem mim.
(Mas como é sem mim? Quem me assiste para mo dizer? Agora, nesta hora, nesta meia noite?)

Eu sei como pensei perecer tantas vezes. Mas a vida, o tempo, a idade, acumulam-se. Acumulou-se-me no sangue mais amargura do que esperava. E não esperava adormecer.
Mas havia, há ainda, uma pérola dentro. Maculada, envolta em sal. É o meu eremitério, meu altar de infância, é o meu amor e o meu tremor - a minha Inocência. (Pudesse) Sobreviver - ao raso, ao baixo, ao frívolo, às correntes, aos desertos, ao vazio, às cruzes, aos apagões de tudo....

"Para onde me virar se não tenho (ou vejo) centro? "
- Pensei que havia mapas dentro. 
Guardados, escritos, debaixo do nosso sangue. Antes mesmo de nascermos...


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(A Saint-Exupéry) ( Escrita corrente)

Drones subaquáticos. De novo a flor e o seu perfume excruciante. Envolta pelo fumo de uma destruição invisível aos olhos de todos. Olhou, para o humano. Beijou-lhe a fronte. Disse que era o gesto universal que nela se tornou o único a poder dizer, em silêncio, sobre a fidelidade e sobre o amor através do medo. Talvez uma ilha!, é uma ideia que se escreveu mil vezes. Como todas as coisas mais humanas, atravessa as eras. Esse mundo dentro do mundo dentro do mundo. Sabias? Queria ouro derramando-se como alma transbordando nua da carne. Falava de cristais brutos mas cristais. É tão urgente, neste mundo, dizia a flor, sermos mais que aquilo que nos fizeram crer. Tem coragem de mergulhar, nesse lago. É fundo e gelado e solitário. Mas não fujas, ela dizia, não fujas de te encontrar, esse cristal, esse cristal, desespero por cristais. É que eu acordei num deserto, quando acordei, havia uma tempestade de grãos chocando-se e eu no meio quase sufoquei o meu cristal.  A solidão era por de mais maior, no deserto. Quase quis dissolver-se, ser pequena, um grão entre todos. Mas não. Há um sonho que lhe abraça os ombros. Um mundo dentro do mundo dentro do mundo. Se te juntasses, apenas, a mim. Seria tirania? Esse abandono do deserto por outro deserto. Nesse antigo há festas todas as noites, grãos chocando-se, aquecendo-se. No novo há uma desolação. Primeiro, profunda, fria, tenebrosa. Depois, familiar, e apenas melancólica. A flor orou - que o amor fosse o esquecimento do mundo. E contra o peito, um anjo. Contra a cabeça nenúfares brancos. Contra os lábios uma canção - que não fosse o silêncio vazio no humano depois das interpelações do cristal. Como duas linguagens de dois mu(n)dos, quebrando-se no cruzamento. Ela arrancou-se dessa terra, disse-lhe adeus de longe quebrando a imagem desse beijo.
Escorreram gotículas através das pétalas. Do cristal chorando. Interno, cravado, um cristal tremendo, não duro como diamante, antes da matéria frágil dos sonhos e da inocência. Porque queria o impossível como a Lua de Calígula. Mas sem rasto de fome em si. Só um rasto de desamparo de criança. Pensou numa nova porta. Pensou nesse humano pegando-lhe, rendendo-se, ao sacrifício da fusão. Dolorosa e gloriosa.





MF


quarta-feira, 11 de outubro de 2017




(Ouvindo  A Silver Mt. Zion ....He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms


podia jurar-te as crisálidas no sangue
as flores, o riso, o sem peso
eu ultrapassando as fronteiras com que me achei cercada junto ao peito. feitas de jaulas e assombro e tenebrosos céus. peso, digo, um insidioso acidente, encontro do espírito com outra coisa que não a vida. dentro dela. uma consciência, uma visão, uma separação, um choro, um recém nascido para sempre lançado no vácuo do espaço infindo. para sempre chamando mãe. todos os dias uma camada de estanho sobre as pétalas. metal liquefeito cobrindo a cidade. um mar viscoso, um circo sitiando-me. 
sitiando-a. ela está numa ilha movediça. 
num desconhecimento venturoso, ela soçobra das pequenas luzes. e da beleza inocente.

*

No limiar do assomo das emoções mais baixas ela pára-se. ela sintetiza uma indiferença quase monolítica, artificial, não mais honrosa que uma fuga. mas a fuga é humana. mas ela quer ser mais que humana enquanto foge. (para quê, de quê?) da substância da mesma carne dos homens mas com vitoriosos e insidiosos desvios do espírito ( para um paraíso perdido? ). e os caminhos fortuitos querem-se pintados na esperança, querem um ordenamento cego mas sapiente. como um crescimento vigoroso sobre as diretrizes de uma força ancestral e automática. assim será o teu voo. assim será, digo-o sem confiança. porque também só vivo do que posso vislumbrar ao alcance das minhas mãos. não possuo a bússola sobre-humana. não possuo uma razão maior, um sentido maior, para te outorgar. tu, tu és eu, desde sempre e para sempre. gostava de poder saber mais que tu. apenas sei parar-te de desceres para lugares menores. sou, no máximo, teu Eu Maior. teu eu maior tremendo na montanha, mas, na montanha, com uma abrangência temporal mais vasta. Eu páro-te do medo, eu páro-te do desterro, eu páro-te das lágrimas vulgares. Somente as extraordinárias poderás verter. Deixar-te-ia morrer. Somente das mortes certas. Nunca das mortes que te decrescem. Apanhar-te-ei num radar, num chão sagrado, eu antevejo com o coração titubeante esse sonho de renascimento. O esquecimento do céu ser-te-ia, finalmente, impossível - gravado na tua própria carne e espírito, unificados, sendo a resposta. Serias a resposta viva. Menina, ouve-me, afinal, sou tu.


*

É urgente firmar-te todos os dias no solo liso e pleno, salutar às tuas asas ( ainda presas debaixo da carne). Um dia viste-te com a luz dos anjos. À luz dos anjos. Agora persegues essa frequência do Ser. E perguntas-te ( já não te lembras), se a melancolia será ainda auréola. Como o negro tingindo o fundo das estrelas.

*

Já não se vertem. Às vezes infiltraram-se num deserto. Pergunto-me aonde foram. 
Vertical mas sem força. Serena mas antevendo sismos interiores. Um dia, uma hora. 
Porque o futuro chegará sem mim. 
Sem mim porque despida, vazia, de todas as flores que um dia quis, para o meu jardim.
( mas eu não sabia se essas flores eram realmente minhas, eram as flores de toda a gente.)

*

Anseias a vida para sempre. A vontade. A sede. A alegria do coração. As manhãs abertas. As visões, parafernálias de lugares e sentimentos e gestos, a aceitação nostálgica e a prontidão aérea para mais e mais fundo. Mais fundo até às estrelas. Assim é - no auge, os pólos invertem-se ou igualam-se entre si. E tudo seria benigno. As cicatrizes limpas. Desbotadas. Quase invisíveis. Quase. Afinal, és viajante do tempo.  Como poderias crescer imperturbável, imutável?

*
a aventura foi descobrir o início outra vez. 
o riso, outra vez, a leveza e o amor por tudo, outra vez. 











ora, as cruzes pesam
com todos os sonhos idos
desmedidos, inconcebiveis aqui
abstratos pássaros feitos de ar mais intocável que o ar
uma miragem
uma impulsão
um coração bombeando outro coração
este coração, herdeiro desse velho
abstrato coração
tinha a textura das rosas
o perfume dos ceús
tinha as asas de um anjo
invocando o futuro mas sem futuro
nascido, desabrochado
de uma fé quase criança
e labaredas singelas

não se sabia do medo
nem de que o mundo se podia dividir
numa visão inconcebível à razão
(mas sussurrante ao espírito)

nós parámos num limbo
e hoje só há hoje
travado numa incompreensão
estranhamente familar

e não sei da luz, mas sei da natureza da sombra
então incorro, arrasto-me, aninho-me
dentro da vida em mim

(há de haver asas que nos despreguem desta cruz.
de um peso tão vivo que esmaguem o peso morto)