sexta-feira, 31 de julho de 2015


uma imagem: estamos no alto cume da eternidade. o ar treme na ondulante sinfonia. as mãos estão dadas. o tempo cessou. e temos o horizonte cheio de palavras inaudíveis que vêm descansar como pássaros nos nossos corações. porque chorámos? na nossa anterior existência. porque ficámos fechados em quartos, lápides brancas? se apenas soubéssemos o que havia à espera de ser visto... e tudo o que houve derivou neste agora - é um túnel a céu descoberto, uma aurora à nossa volta de sinfonias. és tu que estás aqui. é a tua alma que preenche a imensidão deste espaço e me aquece cada idade. 
mergulha comigo, vamos ver que sereias se escondem lá em baixo e dispersármo-nos na costa, através dos barcos perdidos e algas à deriva. segura-me a cabeça, vamos ressuscitar, vamos compor beleza no diáfano ar, talvez nos vejam do passado, do futuro e das estrelas distantes. somos grãos, somos areia para acumular ao tempo, mas erguemo-nos assim, bem acima de qualquer deus na nossa mortalidade. 
almejo a continuidade, a fusão das quebras, o Todo fluído e ao alcance das nossas mãos. 
assim, como agora parece escorregar
do seu mistério até aos nossos vazios.
as estradas foram pisadas cem vezes até ao dia em que desistimos de as calcar. porque não eram estradas que nos levariam até à falésia verde. foram as mortes que morremos, a quase indiferença e dor crónica que atravessava os dias, que nos levaram até ao momento em que despertámos e o mundo caiu. ele existe para os outros. mas a nossa aventura é maior e transcende este chão e este tempo. perdoem-me mas não há nada a perdoar - parti em descoberta de licores exóticos e paisagens intocadas, Espaço Puro para o meu coração que se expandia, expandia, confinado ao aperto da carne e das convenções.

Estou no alto e é solitário. Mas só até acabar de despir as ultimas roupagens humanas.


MF


Escrito a ouvir Nils Frahm - https://www.youtube.com/watch?v=e_1uGnqFGME




[Pensamentos]





Só acredito no amor entre poetas - ele abre-lhe a alma em palavras, ela abre-lhe a alma em palavras, e no fim, ambos se lêem, perscrutando tudo aquilo que não se fala, que é penoso falar. Abrem-se, entregam-se em palavras. Sabem exactamente o que esperar e respeitam o silêncio e as ausências, 

onde o poema nasce, onde o poeta morre e nasce.


*

Corria por corredores, salas, despensas, que davam lugar a mais portas e corredores num circuito infinito, e nesse momento soube que procurava por algo que não sabia e continuava correndo para toda a eternidade, dentro de uma casa estranha e vazia. 


*

Oh, como descansariam as engrenagens que não cessam dia e noite de se desgastarem em ferrugem umas nas outras, se o Grande Silêncio por fim me falasse.


*


(Demiurgo)


Mostrar-me-ia, decerto, que os nossos corpos não traduzem a forma nuclear da alma que o conduz e que esse é um dos grandes sortilégios existenciais: o ser está condenado a fitar a decadência do seu próprio corpo e rosto, e se reconhece, às vezes, a sua alma no rosto fortuitamente outorgado, não reconhece a alma no seu corpo informe, coisa que sustém a cabeça, o tronco, os membros. Que aconteria se o corpo se libertasse? - sonha o espirito sem o olhar.

*

São os encontros com o mundo humano que secretamente anseio e me destabilizam , porque todo o mar entra em mim às vezes, e fico vazia com saudade desse mar quando o mundo se fecha de volta a si e devolvo-me a mim. Secretamente anseio de novo o estremecer galvânico, perder-me de mim, ficar sem mim, não ser de mim. Anseio outro corpo, anseio querer viver para o sentir.

*

Sacia-me agora. Doem-me - As investidas sangrentas dos escassos anos derivados nas ondas mortas.

És o homem que dorme para sonhar, dizes-me. Ele não te deixa. Mas quem é ele?


MF





12 de Julho de 2015

E eis a montanha talhada do teu corpo
Sobre o meu
Não te conheço, disse eu
Mas eu sei que amantes nunca se conhecerão por inteiro...
...o fogo a queimar por dentro numa combustão que não enleva mas apenas me reduz a estilhaços - “Amo-te, amo-te”, sussurra o ser sugado até ao tutano pela tempestade felídea intemporal que acomete inevitavelmente, em algum dia, o sangue de todos, mesmo daqueles que um dia pensaram jazer mortos nos seus próprios corpos ainda em vida, até acordarem no clarão súbito, furor caótico de uma pura paixão que acendeu de novo as luzes e acelerou de novo os carros, as horas, o som, o sangue, o corpo, a alma, e redefiniu a vida pela vida, a vida até morrer e a morte como estridente tiro até ao coração lânguido e ávido por mais de ti.
  Quero morrer assim - Aterrorizada por antever o fim. E depois a paz embebida no ouro dos teus olhos e da tua voz, dos teus lábios que selaram com miríades de sentidos a última juventude autêntica do meu coração. Quero que me mates - num misto de assombro, esplendor, tragédia amante, a única morte, a única. O meu corpo deitado sob o mesmo céu de Maio que nos viu nascer e amar como se tivéssemos descoberto essa sinfonia de cinco sentidos, seis, sete, até mais. Morrer sob o céu de Maio atolada na imensidão de tanto sentir e não poder escoar tudo isso até ti de forma límpida e eloquente, de modo a subtrair de ti o medo e juntos extinguimo-lo na fogueira do nosso altar erguido a partir de tudo o que corria entre nós. Morrer e sentir-me viva em ti, gravada, segurada firme contra a tua alma. Ficar. Como ficaste para sempre – em mim que não tinha nada a perder até a ti porque adormecida como todos aqueles que jaziam inertes nos seus próprios corpos. Acordaste-me - 19 anos, choro no teu ombro depois de tanto rir, despidos os véus que inibiam a dor de se falar, de te falar, tudo o que doía cá dentro e era vasto, múltiplo, associado a tanto e a nada ao mesmo tempo. Chorei ao teu ombro, tropeçando nos meus próprios pés. Nunca fui tão frágil, humana. Deixa-me viver-te outra vez, não para me salvar, não, mas para amar, amar pelo amor, honrá-lo e demonstrá-lo ainda sincero, verdadeiro, magno, rico, excedente, puro e capaz de alastrar por dentre todas as esferas humanas incumbindo as mãos de o eternizarem como se este não martelasse toda a vida no coração, ritmos agridoces na solidão de um quarto. Como hoje. Amor não me deixa dormir às duas da manhã. Rebenta na costa a saudade e imagino-me de novo nos teus braços. 

Hiper-sensível, vulnerável à tua destruição inconsciente que se confunde com salvação.

Até o ar me fere, por sentir nele a tua ausência.


MF



to pb




[ESCRITA AUTOMÁTICA]


Diane Tremblay - the boy


*

Trago o fogo pela cintura. Amasso o tempo e pereço a tempo de ir. Como gostava de poder dizer por inteiro os pedaços caídos em desuso na sua febre de serem mais. Podia criar e viver para sempre, nas nuvens de sonhos e maresias de ninguém. Para sempre amor, para sempre. Podíamos viver nos hotéis e esquecer. Esquecer de voltar. Para quê voltar aqui? Talvez me curasses de querer superar a cada segundo esta pele que me contém. E me contentasse em te beijar e ficarmos até de manhã abraçados, a cidade lá fora sempre rápida e sincera, sempre mãe de histórias e encontros. Não sei se vivo com o presente peso no meu corpo e as melodias, poemas por erguer. É uma perpétua insónia que carrego. Não durmo. Quero a minha alma e o meu corpo no seu auge. Íngreme é a escada que discorro nas horas paradas. Permitam-me vislumbrar além do que não se pode ver. Sou pequena mas permitam-me um cego clarão inesquecível. Viverei na vertigem desse fulminante raio, na ignorância atroz de quem esteve lá e não conseguiu guardar um entendimento prolongado.


MF





@afterjoseph


Hoje recordo o tom escarlate de um bom apocalipse

- tempestivo plácido paroxismo talvez gravado 
na Memória da Espécie;
prazer embebido numa aura de proféticos sentidos, 
certeza de sermos impossíveis milagres
que na carne se manifestam em rubros instantes 
onde rimos e se aniquila todo o passado e futuro,
abraçados, suaves mãos, as tuas, 
tocadas pela superfície mais que sensível
das digitais dos meus dedos e das unhas 
que cresceram num intervalo sem ânsias maiores,
o teu corpo, parede humana, onde o medo se esvai , 
e os teus lábios plataformas, 
onde o aqui e o quando perde o nome agora e mais tarde.



MF





[Reflexões sobre a Escrita automática]




Sou dupla e quem escreve é a sombra da razão
que a razão quer despir e escrutinar, 
mas a sombra verte palavras ambíguas
e brota o céu e o inferno em metáforas desligadas e fragmentadas.


1) O poema em corrente, escrito inconscientemente num frémito, num súbito premente ímpeto momentâneo, é o emergir de uma fracção mais ou menos imaculada do domínio do inconsciente, domínio este quase inescrutável à razão pelo que o conceito de "significado real" é sem sentido. O poema ou texto é sim " sentido" em imagens que surgem com versos e palavras que se destacam, pontilhados néon em estepes de trigo da psicanálise, excertos fragmentados à superfície mas coesos num fundo imagético, contidos numa ou várias metáforas de cenas misturadas. No entanto, é de presumir que durante o processo de escrita automática transbordem e colidam milhares de conceitos, memórias, e assomem assim palavras aleatórias, que perfazem um ruído de fundo  que serve de fundo a versos com significado inconsciente.

2) Há a possibilidade de uma pseudo-interpretação para o leitor - a razão poderá impor imagens intuindo certos versos, pensando metáforas comparando com modelos pré-definidos e baseada naquilo que conhece acerca do sujeito poético a partir de pequenos rastos do seu mundo inconsciente, rastos estes materializados em determinadas neuroses, obsessões, passados mal atados e desejos reprimidos.  O poema de outrem é sujeito a uma análise extremamente subjectiva quer racional quer inconsciente e na verdade o quadro final é mais reflexo do próprio mundo interior do leitor do que do autor, o que impossibilita uma interpretação aproximada do alvo real, mas assim é com toda a arte - "é o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte " - (Wilde). A escrita automática produz textos de inesgotáveis sentidos e tramas porque tão ambígua. Muitas vezes é difícil explicar o "sentido" de determinada passagem para o próprio autor em termos " racionais" , no entanto, possuímos o nosso próprio inconsciente, pressentimo-lo vagamente e sabemos que imagens nos surgiram na confusão da insónia que despoletou essa escrita como se de um exorcismo se tratasse. Seremos o nosso melhor psicanalista. 


3) Esta ideia é bastante difundida - Há um limiar entre a inconsciência e a consciência (ou razão) e é nessa brecha que pode acontecer o génio, no subtil toque equilibrado desses dois universos - O ideal desta escrita pressupõe como produto final a mensagem (teoricamente) incorruptível do inconsciente, o melhor dos dois mundos juntos numa linguagem claramente esquiva, estranhamente inteligível.  No entanto, pode acontecer que a balança tenda demasiado ou para a razão ou para o inconsciente. No primeiro caso, a razão pode contaminar a mensagem original, pesando cada palavra, refreando as mãos de escreverem livremente, com pavor do caos gramatical e demónios ou desejos desnudados. Assim a razão tende a moldar o texto, eliminando o "ruído", o aparentemente sem sentido, ao sabor da sua rectidão, caprichos estéticos, moral,etc; "Lost in translation" - esta expressão sintetiza bem esta ideia de interpretação racional da escrita automática - perde-se o essencial na tradução, na transmutação do conteúdo bruto inconsciente em explicações racionais. O resultado final será obviamente pouco autêntico, será mutante, um híbrido disforme. No segundo caso, a inconsciência por si mesma poderá derivar num caos de palavras imenso, sem nexo gramatical, como comentado no primeiro ponto, e, deste modo, o ruído não passa de ruído impossível de decifrar mais tarde racionalmente. ( ou então o inconsciente "puro" sublima todos os meios conscientes de interpretação e é na verdade uma espécie de experiência fenomenológica em que as palavra são inúteis, incapazes de serem voz, de "explicar" o que está escrito, e apenas se pressentem imagens e sentimentos de forma exponencial e total e não apenas parcial, como é natural nesta escrita).

4)   Durante a escrita: 
- a respeito da adulteração em tempo real dos versos devido à extrema vigilância da razão, acredito que esta perda é mínima quando a escrita é espontânea, tempestiva, no limiar da inconsciência/consciência que se auto-fertilizam mutuamente culminando num edifício final de aparente caos insondável à razão - caos é a condição indissociável da autenticidade da escrita automática e a que permite ler sentindo ligeiramente o esvoaçar do véu, vislumbrar o fundo do icebergue.

MF






quinta-feira, 23 de julho de 2015

Rascunhos - O incontornável peso da nostalgia



pergunto-me se sabíamos...
-  o quê?
- O toque do primeiro beijo sem nos beijarmos. É a eterna discussão entre os racionalistas e os empiristas: estes últimos dizem que apenas podemos ter ideia de algo que foi experienciado, que nos causou uma "impressão". Os racionalistas afirmam, pelo contrário, que todas as ideias encontram-se já em nós desde que nascemos, em estado latente, e que tudo o que pensamos ser inédito e desconhecido até então, não passa de uma ilusão: É um processo de recordação e não de criação de conhecimento. Recordo então a ideia do que é estar apaixonada pela primeira vez ou a ideia da sensação de ler algo belo?


Sentindo conheci a Beleza ou sentindo recordei-A ?

Oh a sensação de ler um grande poema ( inédito espanto que camufla uma recordação?) ... daqueles que enlevam o espírito até ao zenith, onde este paira alguns segundos maravilhado num éter sensacional de toda a dor e alegria humanas, o condensar de todos os beijos, de todos os encontros, despedidas, nascimentos e mortes desde sempre e para sempre, no eterno retorno. O espírito enche-se, nesse desnudar virgem e encontro com as ondas multi-sensacionais. Enche-se, para esvaziar-se de novo e descer à terra, ao seu sono semi-desperto. Apenas constata que  viu a Beleza, um perfil dela pelo menos. Esta aportou levemente na alma por breves instantes, encaixou-se e entranhou-se na carne como se desta fizesse parte intrinsecamente. Sentirá vontade de voltar a ler o poema, mas jaz na memória a percepção de cada verso de modo que estes já não imprimem de novo o seu fulgor primordial. Assim são os beijos e tudo o resto. Por isso corremos incansavelmente em busca de novas sensações que exaltem de novo o corpo e o espírito, para que pairemos além de nós num entendimento sem palavras do ser a ser. Aqui entram as experiências limite, o supersónico pernicioso, as drogas, a cegueira de querer sentir e a incapacidade de nos esvaziarmos daquilo que já sentimos e permanentemente se compara a cada sensação, como modelo incansável. Aqui entra o incontornável peso da nostalgia. Pergunto-me se carrego a primeira vez que senti o mar. Tudo me parece insuficiente no coração viciado. 



MF






(...) vira-os eu cem vezes. Soube pela primeira vez que nunca os olhara. No entanto, vivia ali há três meses. E, claro, desde o primeiro instante, aquela paisagem deslumbrara-me, mas o que em mim lhe respondia não era mais que uma exaltação confusa. Claro, o " Eu " filosófico é mais forte que todas as paisagens. O sentimento angustiante de beleza não passa de um assenhoreamento pelo "Eu", que se fortifica, da distância infinita que dela nos separa. Mas, naquele dia, bruscamente, soube que eu próprio criava aquela paisagem, "sou eu que te vejo, e que me vejo a ver-te, e que, ao ver-me, te faço". Este verdadeiro grito interior é o grito do demiurgo quando da sua criação do mundo. Não é apenas a suspensão de um antigo mundo, mas a projecção de um novo. E nesse momento, de facto, o mundo foi recriado. Nunca eu vira semelhantes cores. Eram cem vezes mais intensas, mais matizadas, mais "vivas". Senti que acabava de adquirir o sentido das cores, que interpretava as cores, que nunca até ali vira realmente um quadro ou penetrara no universo da pintura. Mas soube igualmente que, por esse chamamento da minha consciência, por essa percepção da minha percepção, conseguira a chave desse mundo da transfiguração que não é o outro mundo misterioso, mas o verdadeiro mundo, aquele que a"natureza" nos conserva exilados.

Raymond Abellio

quarta-feira, 22 de julho de 2015




[ESCRITA (SEMI)AUTOMÁTICA]

22 de Julho





*

Sinto-te. Como se me fosses a carne. Murmuras-me sem saber todos os segredos. Marcas-me com os teus lábios sequiosos a linha fina do meu pescoço. Tocas-me, despertas o universo e adormeces o mundo e o burburinho caótico das ondas internas, das marés sem hora desgovernadas sem lua, e tapas a náusea que me contamina o sangue, o olhar, o paladar, o tacto, a náusea que me faz abandonar o mundo em mil e uma simulações de morte. Sê de novo a minha montanha e eu frágil cego assalto a ti e ao teu corpo, sob ti mas acima do céu, de onde vieste e decerto foram esculpidos esses lábios, esses olhos, esse corpo e essa arte de me tocar.  Desenha-me outra vez, respira sobre mim, canta para mim - "a seta apaixonou-se pelo vento", e pergunta-me de novo se confiaria no mar - morreria nele de bom grado, é tudo o que te posso dizer.

*

As cinzas permanecem frias no altar de um sem número de montanhas. Pressionas as feridas e estas quedam de ferir e sobre-amas o ser que ama e cai para sempre. De novo me comoves sem saber que me fazes morrer. Sei de cor as trevas e pedaços de medo corrompido que advêm das noites de contagem dos grãos de areia.
(...) Descanso agora, entre fiapos fúnebres e candeeiros prostrados diante o mar e diante o fogo.  
Somos aquilo que não esquecemos em todos os segundos que não dormimos.

*

Oriundo do sonho nasce a treva que chama o fogo à vida. Durmo no céu e acordo no mar e na terra de percevejos e extintos pedaços de tempo. Oriento-me entre os caminhos gastos dos homens e entendo vagamente a luz e a morte. Sei que não posso ferir a fera sem cair para sempre no poço sem fundo. Moves-me em lutas tripartidas e despedaças a razão que não entende a sereia do teu rasto porque o hino que me afoga é tocado em cordas reles e podres e vulgares. A sinfonia sou eu que a ligo a ti e esta nasceu da poesia e da minha obsessão de pintar de novo os rios, o céu, o tempo, a morte, a alma. 
Desmancha-me de uma vez, para que me ache, recomponha os pedaços perdidos, e com ódio do teu nome, no fim nascer em paz e a tua imagem apenas um ontem que me matou.

*

Na cidade recolhemos a ciência do sangue e a fórmula da morte da gravidade. Ascendemos, no doce levitar com peso, ainda na terra mas flutuando no espaço entre o esquecimento e a lucidez. Queimas agora, a ausência de ti aqui. Semearam-te longe e trouxeste-te a mim um dia e estávamos ambos mortos até nos beijarmos sob um fundo verde e uma fome secreta, quase latente, de nos incendiármos antes de quebrármos o feitiço e nos vermos.

*

Ocultas-me a arca entre jogos de luz e sombra. Corro atrás de ti e das palavras caóticas disparadas por ti. Foges-me de novo e arrasto as pernas em nova investida. O plano é circular, permites-me apenas entrever o  teu rosto mal iluminado pela lua que penduraste, e num segundo dissolveste-te nas trevas, e eu fico só na floresta, baralhada como numa vertigem. Tenho medo dessa sombra que se recusa a falar-me, quem és tu afinal?



MF



sexta-feira, 17 de julho de 2015



[ESCRITA AUTOMÁTICA]

15 de Julho 

I

Dali Remorse, or Sphinx Embedded in the Sand

 *
(1h53)


Assomam aos lábios os trejeitos mórbidos na canção desmedida das folhas nocturnas . Desembarcam réstias, agulhas enlaças num torpor sem folgo, sussurra o semblante gasto das estepes vazias, gira ao encontro do beijo insano. Rega o polegar por dentre as folhas brúmicas de demónios acordados. Pressente- o povoado fímbrico de névoas sem ninguém aladas aos rostos soturnos por onde navegas. Estás parada, pedem-te para sorrir a sós na tua idade, sombra, cruz, quebra, parte daqui e para sempre, não venhas, nem chegues ao redor da tua própria sombra. Que és tu? Parada no tempo perdido, parada e incerta no medo parafraseado e demente, escasso, premente. Ofuscas o escarlate de teus lábios na sombra oposta do mistério, as luas partem-se em mil e o dia ainda não chegou. A pele encerra dilemas e estrelas sangram pela destruição sem regra. Onde vamos? Para onde vamos? Prende-me ao chão agora, agora que não sei saber não ter asas.

*
(2h16)

·   Realiza-me no céu de gente, no trono quebrado sem eixo, móbil pulsante de um ciciar. Demove-me dos gestos cegos lançados no vácuo profuso onde morrem as traças. Segura-me a cabeça, segura-me, e indica-me onde nasce o sol depois de cada morte. Viaja. Comigo no espaço, entre os vazios incomensuráveis de mil amanhãs. Chega-te ao calor que ainda emano, oriundo da fonte trágica e viciada no cansado e ditoso trepidar da memória nas noites escuras sem ninguém. Os minutos escorrem desde sempre e para toda a eternidade e minto-nos se disser que estou em paz porque não sou ave. Pressinto a canção da montanha mas não lhe ouço o silêncio cheio que equilibra as navalhas e lhes embota as extremidades prontas. Ressumbra e assoma o tempo de encontro a este corpo. Ainda sonho com um regresso, ainda sonho com os tectos sem fronteiras trajados de estrelas e a leveza do não corpo, a destruição de todos os espelhos baços e das agulhas inconstantes enlouquecendo a pele. E há também o dar-me a seu tempo, e depois uma morte qualquer e saudades do que nunca fui.

*
(2h23)

Vou partir impercetivelmente por dentre as portas, num silêncio pesado de mim e de todas as horas paradas num instante atónito. Quebrei semeando pelo caminho pesados tempos de cegueira, unida aos traçados puéreis de quem não sabia persistir. Movi-me por dentre todos vós, assim quase sem saber que ou porque me movia, por dentre tanto e tão pouco, trajes negros e almas tão felizes nas suas pequenas lamacentas poças que em fraqueza invejei. Eu que quis ser diamante. É noite e há morte entre as veias e caminhos que nunca soube desbravar. Ocultam-se formas, percevejos, rostos atrás do iceberg. E as cordas prendem-me os pés enquanto incorro de novo para as fogueiras de gelo, e abraço as lascas com tudo de mim, com tudo de mim. Grito no cume do iceberg e defronte a mim há o mar de gelo e estou longe. Começo a esquecer-me. Apunhá-lo o peito com a adaga e recomeço a delinear de novo a minha outra morte.

*
(2h39)

Se me perguntares digo-te que arrasto ainda todo o sismo que arrebatou cada músculo meu e ceifou-me a criança da alma. O chão mostrou-se enfim como era - de vidro pronto a quebrar aos pés de um gigante invasor, que nos subtraiu o mundo. Não sei como o teu sangue traiu-te de morte, em lufadas várias de terror e medo, caótico o estrepito ao teu redor aumentado pela noção de finitude de um ser até então velho mas aberto a possível juventude aquando talvez o tiro de um beijo ou o assentimento último de uma verdade. Despoletaste o tempo irmão. Acumulei terra em promontórios nos meus sonhos onde sonhei morrer e nunca mais sonhar.

*
(2h48)

A pedra fica fria e não sente nem envia risos germinados internos. As praças regem-se pelo claro trajeto inerte, de todos aqueles que pisaram os seus limites e morreram. Passeio sem saber porquê ou quando o fim se fará vago anseio verdadeiro. A insônia carrega o sangue e as pálpebras de um sem nome de mortes, ao encontro Dela as serpentes cheias de lodo e sangue no limbo de lugares esquecidos e amorais. O titã acorda do seu longo sono e vem perder as horas no nosso mundo, semeando tragédias e furores nos corações dos homens. Sucumbem à loucura na hora magna e gritam de promontórios os vulgos perdidos. Assombram-me. Todos esses pedaços sem fio, ramificados e nutridos pela árvore humana. Sonham nos caules as cores que não existem, adormecem com as escoltas vazias e os olhares recolhendo-se para dentro como que em desesperado anseio de luas e estrelas perfeitas, sentinelas do relento anímico.

*
(3h04)

Os raios não enviam vida do fundo onde aconteceram secretas mortes, fuzilamentos silentes cantados por mil balas. À frente, a parede, que queria transcender, trepar a ferro e sangue, cega de tudo o quando poderia ver. Sede de cântaros partidos e asas liquefeitas. O medo ascende quase plácido de lugar nenhum, aranha fria e feroz por dentre as brumas a trepar, até à boca que sela com o estupor das suas teias, asfixia de fora para dentro, as mãos presas e o corpo sólido e múmia para ser deitado às larvas envolto nas falsas sedas. Pudesse levantar-se e anunciar-se como as trombetas, de novo pronto a correr por mais distância que a capacidade da carne. Ressurgir no bater das palmas dos anjos que fitaram todo o desmoronamento com as lágrimas a ameaçarem turvar o céu. Levantar-se no passado e obstruír os canos das espingardas empilhadas no monte a que foram deitadas depois do massacre. Ela não lhes viu os rostos, perdida que estava na sereia talhada a ouro na parede. Sem medo de ir embora. 



MF











[ESCRITA AUTOMÁTICA]


15 de Julho

II

René Magritte, The Lovers I (1928)


*
(3h38)


Por último espero, no breve apêndice de gestos gastos e perecíveis. Foi um sem número de esperas sem furor e sem esperança. Duvido que te esqueças quando e onde fomos ou estivemos, porque na estrada do pelouro deixei meu rasto a sangue. Ainda povoas os núcleos dos meus cansaços como maldita condenação precedida ao teu real valor. Pressentes talvez que ainda me manténs acordada numa semi-morte no mundo calado de um quarto depois das três. Só os ponteiros do relógio marcam o sólido frame parado do meu inquieto fluxo inconsciente. Envio-te uma miríade de nostalgias acres em navios aportados nos teus sonhos. De manhã continua - na tua simulação de vida, como eu e toda a gente.

*

(2h31)

Pesados escombros de beleza estilhaçada… Não toco, não posso tocar as janelas que principiam de novo o queimar do teu rosto. Ao longe e contigo, o sol e a idade ainda jovem. Liguei os teus lábios ao universo, que adormeceu perto de mim e me beijou o rosto enlevado nos sonhos das canções e do esquecimento teu. Obliterámos o mundo, nós dois, e hoje navegas comigo fantasma. Lembras-me na insónia que sou ainda humana e penso cada faca e dispo os nossos quadros de paisagens que não são daqui, para logo resgatar toda a poesia confinada ao gasto chão de um sótão vazio, e ela voa para te cobrir e pintar de novo. Moreno falcão anímico, viste-me quase toda a alma.

*
(12h45)


As pegadas sucumbem fúnebres pelas areias infindas de um qualquer amanhã. Percorre o tempo sem eixo e demove o trono a deus na sua imparcialidade histriónica. Seca-me a dor por entre os dedos e os furores de mil medos emaranhados às estruturas caladas de mim, "- Beija me”, digo, "o interior cheio e vazio”; Sucumbe por fim, tu também ao mar e ao horizonte quebrado em papéis nocturnos, envia-me o teu beijo através do cataclismo prepotente, dos céus desfeitos e pássaros e animais caídos Envia-me palavras que repousem nestas pálpebras de mil anos para que estas pensem morrer em paz. E tu, lembra-te de mim nos últimos microssegundos expandidos num alvoraçar caleidoscópico e chora, não por nós mas pelo tempo e por nascermos humanos, a nós atado o orgulho quando não somos nada, brincámos à solidão, às ausências e silêncios nossos mas todas as noites nos perscrutámos cá dentro.

*

(12h58)

Olha-me as estrelas e as estradas nocturnas dos vagueantes da morte, perecemos também em camadas diferenciais de assombro e torpor tépido de outros anos verdes que se prolongam parasitariamente nestes. São círculos oratórios de outras sensações e vontades, vazios que não eram estes vazios, vazios que eram somente espaço para preencher com memórias vívidas. Desnudámos o Tempo, embelezamos o Tempo e o nada de momentos, só cá dentro os idolatramos como se fossem incêndios ainda vivos. Olha as estrelas, vê como se pressentem mortas e ainda se presenteiam magnas nesta noite velha.






MF




segunda-feira, 6 de julho de 2015



[Pensamentos]


*

Pergunto-me se assumimos um nível, se alcançamos um lugar intransponível sem ponte que mantenha contacto com o mundo exterior. Porque sinto-me ilha - acima e debaixo de mim uma abóbada de interposta escuridão e sinfonias, paleta de cores, de palavras, memórias, paisagens, histórias, iluminações, desgostos, brechas para o sonho sideral e poços para o sem tempo morto onde morro. E talvez eu nem seja nada, e acho-me intocável. E digo que o mundo enlouqueceu. 
*

As tuas palavras soam falsas e sinto que te afastas, mas talvez as nossas almas nunca se tenham encontrado na realidade - Tu, à procura do teu tudo e da tua verdade; - eu, à procura de expandir a minha alma até à fusão perfeita com aquilo que não sei e ávida por criar, escrever, tocar. E onde entra o amor, a paixão? - Bálsamos apenas, desta busca que desgasta corpo e alma. Pausas apenas, do suor da razão que corre, corre, desgovernada e atolada em papeis, ceifando a vida e deixando o cansaço impossível de descansar. 

*

Ambos escrevemos, ambos amámos no grau insidioso dos poetas, e nada morre em nós apesar de nos parecer matar.  Sinto ciúmes das palavras que envias aos teus fantasmas. Em relação a nós - Podemos ficar imutáveis no ar, prolongando a ilusão das pontes, ou estragar tudo e nem sequer sobrevivermos fantasmas.

*
Olha as estrelas e as recordações sépia presas a telas polvilhadas de pó e saudade. Pergunto-me também se fomos somente o rasto de quem um dia fomos e está morto. O resgate da nossa melhor vontade. A tentativa de amar com os corações jovens que a nossa juventude encaneceu.
*
A alma ambiciona um breve mas cheio vislumbre daquilo que a podia Salvar, sabe que são ilusórias todas as grandezas e tragédias humanas, e que forjamos na mente ficções que ultrapassam a natureza real das coisas; mas o corpo ainda é corpo e somos poetas humanos - adiamos a filosofia para depois enquanto o fogo ainda se alimenta de um qualquer momento definido no tempo, revisitado, adornado, ressentido, na ânsia premente de ter uma história como as histórias que nos fazem tremer e prostrar espiritualmente diante os seus criadores ou protagonistas vivos. Queremos uma história, a Beleza, e depois morrer.

*

Poderíamos aceder aos segredos máximos, últimos. No fim do cosmos, no começo do Tempo. Contar-se-iam histórias acerca de nós -  " E juntos, recuaram até ao começo do Tempo onde não havia tempo nenhum"; Poderíamos abarcar a supra realidade e descobrir o segredo da matéria e do espírito que está contido nela. E mesmo assim, não saberíamos Amar. Não desbravaríamos nem mais um pouco a arte insondável de saber Amar.


MF







[Sophia]

o universo, as lentes aos olhos pregadas
de sete cores unificadas
branca é a luz, 
mas como se parece o mundo visto fora de mim,
olhos de nenhum corpo, razão de nenhuma entidade?




MF



[Hedonismo]


Percorre me. roubando-me suspiros,
beija-me para que o ventre se perca
irremediavelmente da razão,
e os fantasmas sejam empurrados para trás de mim
e reaprenda danças nos teus lábios,
danças afinal nunca aprendidas,
e os lábios se movam numa ciência só sua,
inconscientes e esquecidos magos sem dono
e as linguas dançem como nunca dançaram,
e isso seja lascivo e puro ao mesmo tempo

Beija cada jarda, milímetros deste corpo,
catapultados num torpor, numa calma tempestiva,
numa sede de fogo e tactear cego e ansioso
corpóreo e espiritual, que arrebata as cordas
que nos prendem aos nossos corpos e ao chão
e impedem esses voos momentâneos,
ocasionais, ora vulgares ora imbuídos
de um transcender emprestado eterno e sacro

Beija cada jarda, milímetros deste corpo,
para que a razão se esqueça de ser razão
e de que amanhã teremos partido
exauridos não pelos disparos da nossa dança,
mas pela iminente saudade que vergasta o sangue
porque tacteámos o Universo.
num intervalo em que os corpos se exaltaram sem memória, um no outro

e acordaste o fogo em mim.




MF

pb



Glen Brady




[Manifesto anti Ricardo Reis]


Quão confortável estarias na Morte?
se esta fosse consciente, se esta fosse um eterno vaguear
num deserto estéril de estímulos,
mordaz deserto para os homens caminharem
pelas dunas sem sono, numa eterna noite, numa eterna insónia,
num caminhar vagamente lúcido e louco, como naquele limiar
que antecede a alvorada embalada na intermitente confusão
dos sonhos que afloram e decaem nas soníferas marés plácidas
deixando na boca o travo a pressentimentos de outros mundos
e irrealidade, tontura, incompreensão dos nados-vivos
sem passado atrás de si, e sem presente inteligível;
é essa a sensação no mordaz deserto,
mas há um vago fio que liga à anterior existência,
e os homens arrastam-se pelas areias
com martelos de seda de prospecção ao coração,
mergulho desesperado por tesouros internos que repassem a vida através dos olhos
e dissolvam a vazia paisagem a que foram condenados
a caminhar sedentos, com a sede insidiosa dos mineiros da Memória

Quão confortável estarias na Morte?
lembrando Lídia à beira rio,
tão perto de darem as mãos e se beijarem,
imprimindo assim nos vales da Memória o rasto da eternidade
passível de ser retomada em vida, transmutada
no doce amargo recordar nostálgico das noites sem dormir
e nesse lugar de personificada morte, de areias infindas
e ausência de palpitações, relógios e outros meios de medição de Tempo;
oh deus…tão perto e tão longe – que estiveste de assombrar a própria Morte
com o fulgor do ouro diáfano de momentos a arder ao chamamento da tua Memória
num arder imaterial, sem despojos de cinzas;
mas possuis somente o vazio onde a tua sofrida imaginação enlaça
ficções de sismos sanguíneos e desejos, resgates de mortes na praia
ergues Lídia no ar e beija-la e imaginas o sentir dos seus lábios nos teus,
e nesse instante sabes -  foi a filosofia quem vos separou em vida,
aquela que recomendava
a placidez mórbida vestida de escudo,
e que mais não era que o estandarte do medo de ser humano
e de sentir tanto que o teu peito arrebatar-se-ia
na ressaca dos amantes e no dano tortuoso dos fantasmas
que afastaste antes mesmo de se poderem tornar fantasmas;
sabes - que tacitamente te isolaste de modo a manteres vazio esse vazio
círculo insano onde ergues numa miríade de artifícios
as tuas ficções saudosas de tudo o quanto podia ter sido

Quão confortável estarias na Morte?
- desesperado, amaldiçoarias por fim, esse deserto que te mostrou
que nada viveste de tempestivo para te alimentar Na Grande Solidão...




MF






sábado, 4 de julho de 2015







*

Quando te vir, roubarei a deus o rubor que acende os dias
usarás o teu pólo vermelho e eu a blusa azul
usarás os teus olhos verdes e eu a calma fingida
tremer-me-ás as mãos, serei Lázaro
apagar-me-ás a dor, meu bálsamo humano
e seremos dois pequenos gigantes
felizes numa simulação alada de Vida

Depois regressaremos.
4 horas de viajem.
e 4 infinitos no peito cheio e vazio.



MF





Rhye - open
https://www.youtube.com/watch?v=sng_CdAAw8M


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Zenith



02.07.2015


sofro tudo o que queria beijar de novo e está longe
hoje apetece-me chorar
sinto-me anjo ao piano, quando pressinto as melodias
que querem ser vida e as notas me tocam, a mim,
guiando os meus dedos, enquanto penso a morte
e porque raio me imagino a morrer, eu, ainda jovem
e renego todo o amor dizendo-o afinal sujo e passageiro
para todos menos para mim, que amo todos os que já amei
mas tiro a venda de poesia dos meus olhos e não há poesia
e o amor acontece e morre num só dia


  Amor que tanto exalto, tem de ser um assunto secundário porque é, simultaneamente, assunto do espírito e do corpo e as vontades deste último gritam um pouco mais alto, perturbando o espírito que descansa numa esfera mais elevada e que devia ser imperturbável às fraquezas do instinto. Sempre tive saudades, saudade imaginada em extensão, das coisas que nunca senti. É uma saudade atroz, mas a saudade das coisas conhecidas e ausentes é igualmente acutilante, e o seu saciar mais premente porque está ligado ao mundo humano experienciado e à memória gravada nas linhas do corpo, nos lábios, nas mãos, no pescoço frio, que vejo ao espelho todos os dias.
  Mas amor é animal, só cá dentro espiritual. Só a alma é assunto primordial porque a vida é a sua viajem - Quero criar, expor a alma embalada numa sinfonia ou escrever os ecos dela. E pergunto-me se esta ânsia é resquício imanente de uma divindade no sangue - fomos separados de um deus e queremos igualá-lo nesta carne que decai sem esperança, revolvida nas agruras e espezinhada pelo mesmo tempo que tenta transcender ao criar algo belo que se ergue no ar e nos catapulta para o espaço, num túnel mais que supersónico, um vórtice de luz azulada percorrido pela sinfonia que nos enlevou e que nasceu na Terra. Olhos fechados, olhos fechados, e a viajem, doce viajem, estamos aqui e lá sem sentir o corpo e a viajar, os nossos espíritos, a quebrar todas as barreiras materiais. Não há razão. Ou medo. Ou morte. Mas regressamos, no fim da sinfonia, no fim do poema, maldizendo a fugacidade da eternidade que preconiza, sentencia a sua eterna busca porque nascemos com espaços vazios e saudades sem nome. Somos nós de novo, somos mortais de novo. E há razão. E medo.  E morte. E os pensamentos ocupam-nos de novo, numa vertigem de apneia, compressão súbita ao peso dos nossos corpos e ao peso dos nossos passados e da nossa insidiosa sina de nada sabermos - Somos a desesperada ignorância de crianças lançadas num lugar hostil e belo ao mesmo tempo. 


MF


Catacombe - Quidam
https://www.youtube.com/watch?v=L429pTQjMpM







porque se matam os anjos? quando as suas almas ainda luzem
como lustrosos candelabros aos olhos de outros,
sensíveis às sinfonias tímidas
que sobressaem magnas do seu silêncio quase divino
e aos olhos fictícios de uma exterioridade simulada de si;
porque se matam os anjos? quanto ainda jovens
desbravam a terra e
mergulham os sons e as cores dentro de si
onde estas renascem novas e transcendem a sua própria inércia
os anjos sim, fazem a poesia e morrem-se
numa secreta morte
e tornam-se os rostos apagados,
e as mãos esquálidas enquadrando os rostos, as línguas caladas:
para quê falar, para quê falar?
os outros não ouvem as canções
tampouco vêem as runas de fogo que germinavam
no seu ser aquando um pôr do sol
ou as imagens em movimento de dias passados
que choram ao longe porque são quadros a óleo
massacrados por fluídos acres que corroem
os rostos e os fios que os ligam ao coração
o anjo disse - "só tive o dom de sentir as histórias 
que não eram minhas, por isso foi imperativo amar "
oh deus, que não há futuro agora ou não parece haver
que triste é viver e ser o único a ver as estrelas
nascerem e perecerem nas nossas mãos
temos filtros nos corações e lágrimas incógnitas
temos corpos, temos mal, temos bem,
temos os sonhos que nos matam a meio da noite
porque não lhes podemos dar corpo de manhã;
temos o fogo que nos faz vivos e nos derruba o peito no final
e somos soldados sem batalha deambulando por hábito
ou apenas anjos a querer voltar a Casa,
mas só depois de fazer algo belo, só depois,
mesmo que o universo colapse
e o tempo regresse ao seu começo sem começo,
recuando até ao tempo sem tempo nenhum,
absolvendo todo o sal, e nada se passou aqui
e fomos um sonho de deus. as lágrimas e risos de um deus.


MF








estou no meu quarto. lá fora o ar fere, apunhala-me:
 - o ecstasy das noites, os carros de choque, os risos ébrios
e a imagem deslocada de mim - Alienada
vou para casa, e viajo pela Barcelona de Záfon,
vagueio pelo cemitério
dos livros esquecidos e pelos becos de neblina,
pelas mansões que segredam tragédias e furores de outros tempos
viajo pelos caminhos de Siddhartha,
sou ascética, sou mundana, mas não encontro a verdade
em nenhum rio, nem ouço a palavra Om;
perco-me na imensidão de Zaratustra, na solidão
das suas montanhas e quase respiro e renasço solene,
até amargurar-me de novo, pelos assuntos da terra
e do coração - meu Gastby, sou tu e estou só
na fútil, mais que vazia festa da tua enorme mansão
e devaneio de novo acerca dos barcos contra a corrente
e da luz verde do outro lado da baía
e ouço Paradise Circus  -
 "love is like a sin my love/ 
 for the ones that feels it the most";
e ouço jazz com Toru Watanabe e escrevo, tal como ele,
com medo de me esquecer, maldição da Memória
que se desfaz em mil fiapos deixando somente
um nostálgico insidioso rasto, impossível de seguir
até ao imperturbável circunscrito momento
que se queria Eterno e passível de ser revisitado
incólume, milhões de vezes;
sonho com Atticus como pai e idealizo uma ode
a Radley que se fechava em casa,
erigidas histórias de terror em seu redor
da sua imagem mitificada,
quando na verdade não queria sair
para um mundo onde se matavam cotovias;
partilho do peso da Campânula de vidro
e fantasio mais uma vez no final,
acerca de um final feliz para todos aqueles
que se lançaram ao mar sem se guardarem
para um regresso, mas de súbitos dissuadidos,
arrebatados pelo bater do seu próprio coração
 - " estou viva, estou viva, estou viva";
vou mais uma vez assistir ao nascimento de Nárnia
contida na saliva da canção do grande Leão,
e sou criança de novo, batendo no fundo
do meu guarda-roupa,
rezando pela neve e azevinhos nos meus pés,
sonhando ser lá rainha para sempre
porque lá os animais falam
e há um mar coberto de nenúfares,
no Principio do Fim do mundo
e este mundo não passa de um baço simulacro
do verdadeiro mundo;
passeio com Houlden, pergunto-me com ele
para onde vão os patos do lago, no Inverno,
lamento com ele não existirem redomas de vidro
que preservem os nossos tesouros de ontem
e o facto de não poder segurar todas as crianças
que correm pelo campo de centeio,
deixando para trás a inocência;
- meu Houlden...nunca contem nada a ninguém, disseste,
se contam, sentem saudades de toda a gente"
(sinto saudades de toda a gente);
passeio por Macondo ou pela Rua do Céu 
onde a Morte narra a chuva de bombas,
e Lisbel recita no porão uma história para todos os vizinhos
abafando o ruído apocalíptico lá em cima
com as suas palavras, e eu choro no final:
 " - os seres humanos assombram-me"
e ao final da noite, sou por fim,
condenada à morte como o Estrangeiro
que se entrega, como eu, à terna indiferença do mundo.



MF





Notas: Referências ( por ordem):
A sombra do vento de Carlos Ruiz Zafon
Siddhartha de Hermann Hesse
Assim falava zaratustra de Nietszche
O Grande Gastby de Scott Fritzgerald
Paradise circus - música de Massive Attack
Toru watanabe  - protagonista de Norwegian wood, livro de Murakami
Aticcus e Randal - personagens do livro " To kill a mockingbird" de Harper Lee
A campânula de vidro - livro semi-autobiográfico de Sylvia Plath
As crónicas de Nárnia de C.S.Lewis
Houlden - protagonista de The catcher in the rye de J.D.Sallinger
Macondo - vila fictícia de " Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez
Rua do céu - rua fictícia de " A rapariga que roubava livros" de Markus Zusak
O estrangeiro de Albert Camus