quarta-feira, 5 de outubro de 2016




Eu vi - a sombra era afinal minha mãe
e as dores de parto sempre antecedem
o milagre de (re) nascer;

Eis que esta dor era bênção
porque me impelia para a luz
e os sonhos e as experiências no mundo
falaram-me - o que eu não era.
e por eliminação de hipóteses talhei
as camadas externas até ao peito,
até mais perto
do núcleo profundo,
imóvel, permanente, de luz

Eu só quis fazer meu próprio templo
(nunca zonas de conforto)
que me bastasse na ausência contínua desse deus
ominipotentemente desaparecido
que invocamos todos
do fundo mais longínquo do silêncio,
turbulência e desamparo

" - Tira-me daqui" , eu disse-Lhe em desespero,
com os músculos ardendo, os pulmões poluídos
o estômago conspurcado
e o coração em espinhos,
" - Tira-me daqui se existes,
ou faz esta noite acabar mais rápido."

E então eu vi - o sentido do seu silêncio e ausência:
ninguém me poderia tirar dali,
ninguém me podia privar da sombra - para poder ser luz.

*

E eu ouvi-me dizer - disciplina-te
para te libertares
que a graça não vem. a graça é.
tens de ser graça
limpa então teu corpo e tua alma.

*

a chuva repartia-se por dentre os ossos
aglomeração de rostos e corpos ébrios

procura de pureza e silêncio
um coração de outra espécie
feito de exaltações silenciosas
euforias lentas ante a Beleza

as pedras também sofriam então
e as cobertas largas da minha inocência
chamavam o teu nome
(pensando que olvidarias o mundo
de cruz e sombra e ruído)

sonhava barcos, paisagens indistintas
um grande salto, grande encontro
de luz e imperturbabilidade humana,

lembrança de Deus inscrita
na minha própria carne.

*

Ser só de mim é tão longe.

*

E no frio da noite atento à
sensação
humana de toque
só o toque me acorda
só o toque me lembra que
o frio não é só da noite

*
Vi as mortes nos meus olhos aguados

eu chorava porque via
a morte nos meus olhos aguados
e estava viva.

*

tenho pesos atrás dos olhos,
prenúncio de sal
se o sal ao menos sanasse,
 - um estremecimento, queimação breve
e por fim a purgação (permanente).

*

não sobra nada a esta hora
de divino.

*

(sonho da estrela do mar)

Dissecava-te em cinco partes e chorava
como se cada corte me doesse também
traçava leve um pentágono
com a navalha
Lancei-te na valeta e olhei para ti -
esperando que sobrevivesses em lágrimas.


*

não sei se o teu abraço está toldado de amor
queria-o despido, nu, não cego mas impelido
para a graça-sombra do meu coração.

esquece o meu corpo.
e o que fizemos com os corpos.

porque eu só quero desaparecer diante ti como mulher
e sobejar somente humana

que clama por um silêncio, ligação à distância

aproximármo-nos desse hiato frio dos interstícios humanos
o mais possível
uma mão, um dedo, uma palavra e já seria muito,

tocando-me além da carne alcançando-me
no meu quarto gelado

nestas catástrofes lentas e aquosas da alma
grávidas de prenúncios densos que nem eu própria sei

(mas são tão reais a esta hora)

só havia céu quando eu era criança?
cheia de sede. era de mais a sede,

(e o coração,
o que se passou com o coração?)

(to p.)

MF





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