sexta-feira, 31 de julho de 2015




[Pensamentos]





Só acredito no amor entre poetas - ele abre-lhe a alma em palavras, ela abre-lhe a alma em palavras, e no fim, ambos se lêem, perscrutando tudo aquilo que não se fala, que é penoso falar. Abrem-se, entregam-se em palavras. Sabem exactamente o que esperar e respeitam o silêncio e as ausências, 

onde o poema nasce, onde o poeta morre e nasce.


*

Corria por corredores, salas, despensas, que davam lugar a mais portas e corredores num circuito infinito, e nesse momento soube que procurava por algo que não sabia e continuava correndo para toda a eternidade, dentro de uma casa estranha e vazia. 


*

Oh, como descansariam as engrenagens que não cessam dia e noite de se desgastarem em ferrugem umas nas outras, se o Grande Silêncio por fim me falasse.


*


(Demiurgo)


Mostrar-me-ia, decerto, que os nossos corpos não traduzem a forma nuclear da alma que o conduz e que esse é um dos grandes sortilégios existenciais: o ser está condenado a fitar a decadência do seu próprio corpo e rosto, e se reconhece, às vezes, a sua alma no rosto fortuitamente outorgado, não reconhece a alma no seu corpo informe, coisa que sustém a cabeça, o tronco, os membros. Que aconteria se o corpo se libertasse? - sonha o espirito sem o olhar.

*

São os encontros com o mundo humano que secretamente anseio e me destabilizam , porque todo o mar entra em mim às vezes, e fico vazia com saudade desse mar quando o mundo se fecha de volta a si e devolvo-me a mim. Secretamente anseio de novo o estremecer galvânico, perder-me de mim, ficar sem mim, não ser de mim. Anseio outro corpo, anseio querer viver para o sentir.

*

Sacia-me agora. Doem-me - As investidas sangrentas dos escassos anos derivados nas ondas mortas.

És o homem que dorme para sonhar, dizes-me. Ele não te deixa. Mas quem é ele?


MF


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