sexta-feira, 31 de julho de 2015


uma imagem: estamos no alto cume da eternidade. o ar treme na ondulante sinfonia. as mãos estão dadas. o tempo cessou. e temos o horizonte cheio de palavras inaudíveis que vêm descansar como pássaros nos nossos corações. porque chorámos? na nossa anterior existência. porque ficámos fechados em quartos, lápides brancas? se apenas soubéssemos o que havia à espera de ser visto... e tudo o que houve derivou neste agora - é um túnel a céu descoberto, uma aurora à nossa volta de sinfonias. és tu que estás aqui. é a tua alma que preenche a imensidão deste espaço e me aquece cada idade. 
mergulha comigo, vamos ver que sereias se escondem lá em baixo e dispersármo-nos na costa, através dos barcos perdidos e algas à deriva. segura-me a cabeça, vamos ressuscitar, vamos compor beleza no diáfano ar, talvez nos vejam do passado, do futuro e das estrelas distantes. somos grãos, somos areia para acumular ao tempo, mas erguemo-nos assim, bem acima de qualquer deus na nossa mortalidade. 
almejo a continuidade, a fusão das quebras, o Todo fluído e ao alcance das nossas mãos. 
assim, como agora parece escorregar
do seu mistério até aos nossos vazios.
as estradas foram pisadas cem vezes até ao dia em que desistimos de as calcar. porque não eram estradas que nos levariam até à falésia verde. foram as mortes que morremos, a quase indiferença e dor crónica que atravessava os dias, que nos levaram até ao momento em que despertámos e o mundo caiu. ele existe para os outros. mas a nossa aventura é maior e transcende este chão e este tempo. perdoem-me mas não há nada a perdoar - parti em descoberta de licores exóticos e paisagens intocadas, Espaço Puro para o meu coração que se expandia, expandia, confinado ao aperto da carne e das convenções.

Estou no alto e é solitário. Mas só até acabar de despir as ultimas roupagens humanas.


MF


Escrito a ouvir Nils Frahm - https://www.youtube.com/watch?v=e_1uGnqFGME

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