segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Requiem



18.10.2015


Ensina-me o desapego,
o desapego grácil e másculo, o desapego àquele pequeno e puro corpo dado de comer à terra.
Ensina-me a superação,
a superação deste materialismo que liga irrevogávelmente o espírito à carne que o contém.

Diz-me, que doloroso milagre é este da excessiva individuação que intensifica a consciência e nos faz gloriosamente únicos, desesperadamente irrepetíveis;
Diz-me, porque a arte se ergue agora em torrente como bálsamo temporário, bálsamo para os sentidos subitamente chocados, arrombados;

Estremece-me às vezes toda a existência...
Se fechar os olhos, há um mundo sem tempo aqui, com tempos parados paralelos a este Principal Tempo, contexto de todos os outros. Tempos onde ainda canto, ainda danço, e toda a gente vive. 

Diz-me que é real, diz-me que tudo o que me lembro ainda vive, que a inocência ainda vive, que aquele pequeno corpo de pureza ainda vive e repassa-me a memória quente, não a deixes desvanecer, repassa-me a memória quente no coração e faz-me aceitar, aprender o desapego neste mundo cego a tudo, incapaz de preservar o que é puro. 

Que seja real. Que comuniquemos ainda, no hermético mundo meu, diáfano mas com os movimentos e cores ainda intactos.
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Hoje preciso de bem mais que um "pois", de bem mais que um "sim"*. Não me chegam palavras de humanos. Nem tampouco esta projecção infantil de um ouvinte abstracto. Porque os sentidos chocados clamam por respostas. Clamam por uma única mas acesa sinestesia que explique senão a Morte, a dor - nos critérios metafísicos, os únicos necessários.



MF


* ( Referência à música "Quarto 210", Linda Martini)







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