domingo, 10 de abril de 2016




[ESCRITA SEMI-AUTOMÁTICA]

5 de Abril

A vida, e depois partir
Talvez por isso adie a vida

Diz-me o que ouves e quando ouves o ribombar das trevas dentro do coração. É profundo e ambíguo o deslizar do sono sob a pele e sob o medo. Ouves-me, não sei trabalhar o som nem as palavras de acordo com os quadros de dentro e tudo é experimental, e tudo é uma tentativa de mais, de mais lugares inextinguíveis. Os teus versos fazem acordar o que submergia sob a capa de uma ânsia de ser montanha. Como se o sangue fosse um sobressalto incomportável agora. A vida. No auge do sangue ela foge para a oposição de uma segura sombra onde a imperfeição é velada.
Estava liberta na cabeça como mal estive no corpo. No teu e no meu. No nosso. A carne sempre gritará ao vento e à montanha. A carne, sempre nos fará chorar. Foi quase tudo sobre o amor. Foi quase tudo sobre o amor. Queda. Sangue. Vácuo. Luz. No apogeu os estilhaços? Diz-me, se transcendo ou se morro. Podias dizer-me, porque os humanos esconderam as rugas e se cobriram de miragens.

Foi tanto, que quase não estou cá.
Atrás é paisagem e indizível
E toda a imperfeição é terreno para a profundeza, separação provisória do mundo, exploração das fibras sensíveis, infinitesimal processo.

Sou meu alvo, que teço e remexo e absorvo e tapo e escondo e aprofundo, mais fundo do que poderiam alguma vez ver, mais fundo e estou tão longe. Só. Solidão. Foi crescer até deixar de ter corpo e ter saudades do corpo. Estou longe. Morrerei sem o meu corpo. O ar rareado, o mofo das engrenagens que deixaram se ser fibras de luz e de água interligadas num maravilhoso jogo estelar de onde emergia a vitalidade-sede de dias. Corri para um edifício para me salvar porque não estava preparada para morrer. O meu pai deitou-me na relva e o céu e os ramos primaveris eram o tecto que se gravaria e se apagaria por ultimo, no último segundo dos meus olhos. Mas eu queria desesperadamente viver, e essa urgência marcada foi exponenciada num mantra que ecoava na minha cabeça  - quero viver, quero viver. E entrei nesse edifico, e o hospital era uma biblioteca escura. E colocaram as pás desfibrilhadoras nas extremidades laterais de uma estante. E eu disse que ia explodir. E numa aterradora, fragmentante dissociação, senti a minha cabeça decepada algures longe do meu corpo. E era um fantasma, uma abstração de mim, que dizia à médica que o cérebro morreria sem receber o sangue do meu corpo. Que a minha cabeça morreria separada do meu corpo. E afastei-me e quis voltar para a relva onde o meu pai me deitou, porque ao menos tinha o céu acima de mim, e o ar sem paredes, e a relva macia e ancestral e quase mãe, como a memória de infância, humanos de pés descalços, pés descalços sentindo a terra e oferecendo um eixo ao coração.





Sem comentários:

Enviar um comentário