terça-feira, 4 de julho de 2017




(Mutter)

Que te dizer? Talvez tenhas- de cair mais fundo
cair mais dor, cair mais longe, cair mais perto,
de ti

Jurei no mar que a lembrança só se faria sentido
com as lágrimas embebidas no riso
de um sonho maior -

de que amanhã serei eu mais velha com os pés na areia
e uma criança agarrada às minhas mãos
(e a inocência sempre vence,
as máculas dos chicotes nas suas costas)

Acordei um dia, não me deixes adormecer
não me deixes esquecer, isto que sei sem saber (dizer)
de onde veio, quando veio...
(talvez) ao fim de um dia com a melodia no meu peito
e o céu a silenciar o sobressalto dentro

Mas às vezes peso, às vezes carrego, não danço, o meu coração
que te dizer? o mesmo que a mim - talvez tenhas de cair
quebrar, chorar,
despir, as velhas peles, expor, a carne nua, crua,
porque a purgação é feita, mãe, das chagas e lutas e feridas
então não te segures de cair, se ainda não és inteira
não te segures de cair,
deixa os pedaços pelo chão, a cozinha desarrumada
a tua alma partida em hemisférios distantes
sempre te encontras, a sós na dor
inteira no amor
inteira na contemplação
nua de ti, despida de quem és
se quem és hoje treme diante o mar e a vida
podes tremer, mas treme segura, treme inteira, de ti
podes tremer, podes sentir (deixa-te sentir)
mas amanhã Respira
amanhã olha as aragens que te ocuparam
tua vida é a tua mensagem, disse
então tem cuidado, de saber calar, de saber ouvir
então pausa,
observa,
respira, depois da turbulência
do teu medo, do teu amor, da tua dor
o clarão de ti, como nunca te viste.


MF



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