sexta-feira, 22 de setembro de 2017





Memória musical:

Ouvia Kelso Dunes enquanto o carro atravessava o carreiro por dentre a floresta. Parecia infinito. Parecia impossível - encontrar mar do outro lado.
O céu com mais estrelas do que tinha visto até então. As luzes do carro iluminando a estrada e um estranho sentimento no meu peito - como estando num planeta distinto, uma paisagem alienígena tirada das páginas de sonho de um insone intergaláctico com paixão pela desolação escura e majestosa à sua maneira. Pontilhados de sugestões sinestéticas familiares, árvores da Terra, mas um todo da essência psicológica da solidão mais absoluta. Familiaridade alienígena. Uma fixação liminal de mim separada de mim perguntando-me a mim  - Porquê esta tristeza sem razão?  Porquê o peso nas pernas e nas pernas do espírito e do coração? Porque me custa tanto partir de casa para novos lugares? Porquê o terror de estar tão longe de casa? Porque sinto a melancolia sem fonte reconhecível? E na noite, o céu na praia recompensou-me a angústia da loucura breve - a via láctea nítida como nunca vi. E as estrelas cadentes a renascer-me o riso e o assombro  - a criança em mim. Eu estava longe mas orgulhosa de me ter puxado através do cansaço, do adiamento do novo. Não via nem sequer o mar. Não tinha noção da distância dele até a mim. Somente a imensidão do céu galáctico sobre mim. Mais tarde a lua cobriu a praia. Agora já via: a areia cinzenta, o mar negro. De novo o sentimento alienígena no meu peito mas desta vez sem vestígio de medo. Escorreguei na duna que perfazia uma espécie de muro e caminhei até ao mar. Tinham razão, pensei, o mar à noite é quente. Na extensão da costa via pequenas luzes das canas dos pescadores, como esferas flutuantes, animais de luz enaltecendo ainda mais a minha visão. O fim do mundo pensei. Um mundo feito de noite com algumas sombras, como aquele mundo num universo paralelo do primeiro volume de Nárnia (mas sem ruínas). Desolação gloriosa.

*

O sentido é aplacar a descendência. Criar testemunhos, mediante as palavras,a música ou uma poesia viva que reverberou em círculos de humanos. Esse grande transcendedor do físico, vencedor. Essa superação metafísica da fragmentação do mundo que se faz aquando os embates da morte e da dor. É possível viver no contexto deste circ(O)lo, desta superfície mesquinha, e navegar fundo, comunicar fundo com aqueles que lúcidos também tremeram. Mas prosperamos - no mundo dentro do mundo. Dentro do mundo que é só terreno para o movimento dos nossos corpos e dos nossos espíritos.
Eu jurei que podíamos fazer paraísos entre os nós.
Explorarmos juntos toda a metafísica e mistérios antigos e num desprendimento esclarecido caminharmos não para a autodestruição mas para um aperfeiçoamento vário. Escrever a sangue à descendência incógnita. Caminheiros da mesma provação. Ignitores das células mais fracas, mais amendrontadas. Nós esquecemo-nos, eu disse. Nós esquecemo-nos no princípio dos tempos. Era a condição para viver aqui. Mas só me lembro, só intuo, melhor dizendo, que temos de acender as labaredas do espírito, rir alto, correr mais longe que a dor do corpo.

Agora há a morte e acordámos do nosso sonho. Mas estamos mais juntos que nunca.
Bem sei que vivi e não há (o) nada. Há uma florescência. Há uma decadência. Há o findar (de uma história) a meio de ambos idealmente (?) Ou uma caminhada triunfante até ao fim?

(não me fales da morte em vida - corpo caminhando de alma adormecida. Alma estirada entre duas realidades irreconciliaveis. Dois estados quânticos, dois planos impossíveis de sobrepor. Eu sei. Eu sei da loucura. Eu sei das lentes horrorosas que mostram o horror à nossa volta. Mas também sabemos daquilo que não demos nome. Por isso é tão fácil esquecer - não tem nome que possa puxar à consciência uma imagem, uma ideia. Somente a memória me salva. A memória com resquício de uma certeza de Absoluto. O pólo oposto do Absurdo.)




MF




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