quarta-feira, 11 de outubro de 2017




(Ouvindo  A Silver Mt. Zion ....He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms


podia jurar-te as crisálidas no sangue
as flores, o riso, o sem peso
eu ultrapassando as fronteiras com que me achei cercada junto ao peito. feitas de jaulas e assombro e tenebrosos céus. peso, digo, um insidioso acidente, encontro do espírito com outra coisa que não a vida. dentro dela. uma consciência, uma visão, uma separação, um choro, um recém nascido para sempre lançado no vácuo do espaço infindo. para sempre chamando mãe. todos os dias uma camada de estanho sobre as pétalas. metal liquefeito cobrindo a cidade. um mar viscoso, um circo sitiando-me. 
sitiando-a. ela está numa ilha movediça. 
num desconhecimento venturoso, ela soçobra das pequenas luzes. e da beleza inocente.

*

No limiar do assomo das emoções mais baixas ela pára-se. ela sintetiza uma indiferença quase monolítica, artificial, não mais honrosa que uma fuga. mas a fuga é humana. mas ela quer ser mais que humana enquanto foge. (para quê, de quê?) da substância da mesma carne dos homens mas com vitoriosos e insidiosos desvios do espírito ( para um paraíso perdido? ). e os caminhos fortuitos querem-se pintados na esperança, querem um ordenamento cego mas sapiente. como um crescimento vigoroso sobre as diretrizes de uma força ancestral e automática. assim será o teu voo. assim será, digo-o sem confiança. porque também só vivo do que posso vislumbrar ao alcance das minhas mãos. não possuo a bússola sobre-humana. não possuo uma razão maior, um sentido maior, para te outorgar. tu, tu és eu, desde sempre e para sempre. gostava de poder saber mais que tu. apenas sei parar-te de desceres para lugares menores. sou, no máximo, teu Eu Maior. teu eu maior tremendo na montanha, mas, na montanha, com uma abrangência temporal mais vasta. Eu páro-te do medo, eu páro-te do desterro, eu páro-te das lágrimas vulgares. Somente as extraordinárias poderás verter. Deixar-te-ia morrer. Somente das mortes certas. Nunca das mortes que te decrescem. Apanhar-te-ei num radar, num chão sagrado, eu antevejo com o coração titubeante esse sonho de renascimento. O esquecimento do céu ser-te-ia, finalmente, impossível - gravado na tua própria carne e espírito, unificados, sendo a resposta. Serias a resposta viva. Menina, ouve-me, afinal, sou tu.


*

É urgente firmar-te todos os dias no solo liso e pleno, salutar às tuas asas ( ainda presas debaixo da carne). Um dia viste-te com a luz dos anjos. À luz dos anjos. Agora persegues essa frequência do Ser. E perguntas-te ( já não te lembras), se a melancolia será ainda auréola. Como o negro tingindo o fundo das estrelas.

*

Já não se vertem. Às vezes infiltraram-se num deserto. Pergunto-me aonde foram. 
Vertical mas sem força. Serena mas antevendo sismos interiores. Um dia, uma hora. 
Porque o futuro chegará sem mim. 
Sem mim porque despida, vazia, de todas as flores que um dia quis, para o meu jardim.
( mas eu não sabia se essas flores eram realmente minhas, eram as flores de toda a gente.)

*

Anseias a vida para sempre. A vontade. A sede. A alegria do coração. As manhãs abertas. As visões, parafernálias de lugares e sentimentos e gestos, a aceitação nostálgica e a prontidão aérea para mais e mais fundo. Mais fundo até às estrelas. Assim é - no auge, os pólos invertem-se ou igualam-se entre si. E tudo seria benigno. As cicatrizes limpas. Desbotadas. Quase invisíveis. Quase. Afinal, és viajante do tempo.  Como poderias crescer imperturbável, imutável?

*
a aventura foi descobrir o início outra vez. 
o riso, outra vez, a leveza e o amor por tudo, outra vez. 









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