quarta-feira, 22 de julho de 2015




[ESCRITA (SEMI)AUTOMÁTICA]

22 de Julho





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Sinto-te. Como se me fosses a carne. Murmuras-me sem saber todos os segredos. Marcas-me com os teus lábios sequiosos a linha fina do meu pescoço. Tocas-me, despertas o universo e adormeces o mundo e o burburinho caótico das ondas internas, das marés sem hora desgovernadas sem lua, e tapas a náusea que me contamina o sangue, o olhar, o paladar, o tacto, a náusea que me faz abandonar o mundo em mil e uma simulações de morte. Sê de novo a minha montanha e eu frágil cego assalto a ti e ao teu corpo, sob ti mas acima do céu, de onde vieste e decerto foram esculpidos esses lábios, esses olhos, esse corpo e essa arte de me tocar.  Desenha-me outra vez, respira sobre mim, canta para mim - "a seta apaixonou-se pelo vento", e pergunta-me de novo se confiaria no mar - morreria nele de bom grado, é tudo o que te posso dizer.

*

As cinzas permanecem frias no altar de um sem número de montanhas. Pressionas as feridas e estas quedam de ferir e sobre-amas o ser que ama e cai para sempre. De novo me comoves sem saber que me fazes morrer. Sei de cor as trevas e pedaços de medo corrompido que advêm das noites de contagem dos grãos de areia.
(...) Descanso agora, entre fiapos fúnebres e candeeiros prostrados diante o mar e diante o fogo.  
Somos aquilo que não esquecemos em todos os segundos que não dormimos.

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Oriundo do sonho nasce a treva que chama o fogo à vida. Durmo no céu e acordo no mar e na terra de percevejos e extintos pedaços de tempo. Oriento-me entre os caminhos gastos dos homens e entendo vagamente a luz e a morte. Sei que não posso ferir a fera sem cair para sempre no poço sem fundo. Moves-me em lutas tripartidas e despedaças a razão que não entende a sereia do teu rasto porque o hino que me afoga é tocado em cordas reles e podres e vulgares. A sinfonia sou eu que a ligo a ti e esta nasceu da poesia e da minha obsessão de pintar de novo os rios, o céu, o tempo, a morte, a alma. 
Desmancha-me de uma vez, para que me ache, recomponha os pedaços perdidos, e com ódio do teu nome, no fim nascer em paz e a tua imagem apenas um ontem que me matou.

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Na cidade recolhemos a ciência do sangue e a fórmula da morte da gravidade. Ascendemos, no doce levitar com peso, ainda na terra mas flutuando no espaço entre o esquecimento e a lucidez. Queimas agora, a ausência de ti aqui. Semearam-te longe e trouxeste-te a mim um dia e estávamos ambos mortos até nos beijarmos sob um fundo verde e uma fome secreta, quase latente, de nos incendiármos antes de quebrármos o feitiço e nos vermos.

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Ocultas-me a arca entre jogos de luz e sombra. Corro atrás de ti e das palavras caóticas disparadas por ti. Foges-me de novo e arrasto as pernas em nova investida. O plano é circular, permites-me apenas entrever o  teu rosto mal iluminado pela lua que penduraste, e num segundo dissolveste-te nas trevas, e eu fico só na floresta, baralhada como numa vertigem. Tenho medo dessa sombra que se recusa a falar-me, quem és tu afinal?



MF



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