segunda-feira, 3 de agosto de 2015




02.02h  -  As coisas por detrás das coisas

Irei gastar os olhos mergulhados em milhões de pergaminhos, páginas amarelecidas e gastas, folheadas por dezenas de mãos antes de mim, folheadas futuramente por mais umas dezenas. Irei perder o Sol no hermetismo do meu quarto. Porque eu quero tanto entender. Preciso tanto de entender.Tudo isto, olha. Ninguém vê? As coisas por detrás das coisas. Eu vejo-as mas não as entendo, não as vejo afinalAgora tudo são meras máscaras e construções imemoriais de bem e mal, e ideais de vida ou de morte. Como posso eu não perder o Sol se é urgente que eu entenda algo que sei que está cá, infinitamente longe e perto se ser visto num ápice, e depois...não sei como viveria depois, com os vestígios da Verdade em mim, depois talvez a morte, a loucura ou a paz, o esquecimento automático, talvez a queda da Grande Ilusão, aquela que pressinto mas não sei, porque há círculos dentro de círculos, esferas concêntricas, um centro único de onde se vertem todas as outras coisas atrás de outras coisas. Continuarei a percorrer as feiras de velharias. Continuarei em busca de mais livros, farei gráficos no meu quarto, farei gráficos no ar. Unirei pensamentos, unirei o céu ao chão, o podre ao puro, beijarei as contradições, vou desgastar cada neurónio, vou envelhecer mil anos, vou deixar-vos a todos, como já comecei a deixar, morreu-me quase tudo, morreu-me quase tudo, estou tão cheia de vazios, tão criança, tão profana, quanta ganância, morremos todos no fim mas há algo, quero esse algo que é tudo, quero a paz, quero a paz, e por isso tenho de envelhecer mil anos, estou tão cheia de vazios, vou deixar-vos a todos...durante os dias entre o meu quarto e a montanha...


MF




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