quarta-feira, 26 de agosto de 2015




[ESCRITA AUTOMÁTICA]

22 de Agosto




(1h06)

No teu berço descanso. Nas brandas mãos a bradar ao tempo que me queima. Seríamos símbolos, rugindo em fogo e aparando mil frémitos existenciais, sanando loucas feridas de excessiva luz. Corroerias as naves, as texturas de puéreis sentidos, logro ser-te o mundo e num suspiro cair para sempre contigo até ao inferno das ondas e das estepes languescentes onde o tempo se dobra e nos amamos. 
Oh como cantamos e dançamos nesse hiato esquecido, nessa terra mítica de mil evaporações e expedições finais... Movem-se montanhas na insigne ânsia de desocultar o dia. Resgatar a infância que na bruma se desvaneceu, e todo o Amor que o mundo esqueceu de tanto se vestir de ferro, de tanto degustar as feridas, calcar o sangue, calcar as asas e fazer jorrar sal de fontes sem razão.  Oh deus, não sabemos, nunca soubemos... porque matámos o Paraíso? Agora fá-lo comigo, ainda que ninguém o veja, nós sabemos - ele está cá.


(1h15)

Aperta-me contra o teu rosto e chora. Provar-te-ei as lágrimas e saberei também que é por isso que estamos cá – para infiltrar em nós a pesada dor, e devolver um beijo que nesse coração ressuscite um tremor.


Estou hoje calma e não sei porquê. Evadi-me em mim e no céu, semeio a brancura dos espaços desocupados onde renasço. Inspiro e sinto e corpo a sanar durante a noite, como se a superfície se acalmasse segundo uma terna melodia interna quase muda que na respiração se encaixa e promete nunca mais quebrar. Mas quebra sempre, inevitavelmente - aquando um rasgo de contaminação externa, mundano, aquando a destabilização sanguínea de uma paixão e a dor de ter alguém a viver em mim.



(1h25)

Já não durmo, nem esqueço, nem recordo. Desliguei-me de qualquer coisa que nem sei, e nem sei se a alguma coisa estive ligada. Apenas sei que me senti inteira, e o corolário do medo foi não querer morrer. Vem. Vem saber o que jaz adormecido e quer voar dentro do fogo. Imagino-nos todas as noites quando não consigo dormir, e movo mil vontades dentro de mim de desobstruir todas as cidades até ti. 

Lancinantes as névoas que te decrescem, fazem-te dentro castelos de cimento e ficas sem espaço para o teu sangue.




MF

pb


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