sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016




 ESCRITA SEMI/AUTOMÁTICA

Desvios de asa delta, aterros e despertares na escuridão. Aceito tudo isto, o lodo, o olhar no vazio, a loucura e a ascese no dia seguinte. São desvios certos e seguros e necessários para o deslindar de um caminho. Não durmo agora. É manhã e não dormi. Latejar da cabeça. Abandono. Chamo por alguém. Sempre por alguém. E procuro por alguém e calo- me, ficam somente as imagens da potencial voz do outro lado.
*
Então perguntei qual a vibração do teu nome dentro de mim. Transporto o teu rosto para o centro do meu desassossego vigente, porque és a única coisa que conheço e desconheço, ao mesmo tempo. Sente o travo a contradição em cada linha. Podias matar-me e fazer viver-me, ao mesmo tempo. Podias sarar e abrir, gangrenar, ruir. Eu tinha tantas palavras, e ensaiei o modo de me dirigir a ti. Mas não consegui, não suportaria o eco do tremor da minha voz. Esta solidão - Chorei algumas noites no rasto final de um auto-extático tremor. Sou humana. Pensei a sinestesia das flores, brisa, terra, sol, canções, e ausência cheia de tudo. Pensei no outra vez estar aqui. Outra vez estar aqui. Nesse aqui visceral e sem tempo. Mas batalhavam a memória sem corpo e o corpo sem memória. Ocultas-me um gesto de flor como te ocultei as paisagens de ternura? Não me chamas também com medo de te tremer a voz? Sou a flor distante de outro planeta e dás a mão a tudo o que te a lembre? Sou humana para ti? Sou perdição para ti? Sou vida, primavera, salvação, para ti? Só tu me podias chamar e voltar para casa, nunca mais, nunca mais sair com medo de não saber voltar, olha-me o sangue, vê como vibra à audição do teu nome, vê-me aqui humana a desmanchar o ferro em mim. Eu esqueço tudo o resto, se te souber como te vejo.
Em todo o lado, agora, pressinto despedidas nos olás humanos. (Mas também eu fui assassina).
*
Estreitos apertos nas têmporas, manhãs de sol na superfície e ácido profundo. Se a terra vibra, se a terra fende, ai de mim que me vêem - as lágrimas que logro esconder, o drama que teimo regar, a queda da minha maior ilusão. Não se bastam as flores por si, nem mesmo o sol. Há sementes e terrenos, há vitais superfícies e serenos cantos. Tenho medo de escrever assim, tanto medo de não fazer sentido, tanto medo de ver o meu sangue expresso assim ou descobrir o núcleo sombra tão aceso. Descobrir que tudo conflui agora para algo tão vulgar, tão físico, quando anseio o aéreo imaterial. Se isso for tudo então já parti. Já parti, mas continuarei vagamente aqui. Para escrever os destroços na periferia e olhar a partir de dentro, para dentro do olho da tempestade…

*

Diz-me quem és e porque me matas. Diz-me quem és e porque jogas, porque me principio para a vida, quase a toco e fujo. Sempre quase. Sempre quase. Há uma matriz intermédia que treme entre os dois opostos, é a esperança. Talvez. Talvez no centro do meu maior teste me esqueça de mim. Talvez lá, no zenith do ruído interno, do medo, me transcenda e possa finalmente viver. É a destruição, a profundidade lúcida que anseio, a destruição criacionista, o despir da velha pele, da velha pele cheia de memória. Diz-me porquê, diz-me porque eu amo, e faço por amar, e faço por me amarem - Se não aguento ficar lá. Não aguento o prolongar, o desenvolvimento cada vez mais visceral, a fusão demasiada, o coração fora do peito, nas tuas mãos. Eu amo mãos, mas as mãos dos humanos, eu bem sei, como tendem para a posse ou para o abandono. Ciclos repetidos de tentativas de voo, e quedas, investidas abortadas no seu auge. Deslizo por dentre sonhos até a ti, e tenho sede de dias, sede de nos sabermos, e de olhares e beijos e mundos sintetizados assim. Usamo-nos mutuamente para esquecer? Para renascer?

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A noite, a noite, não sei se faço parte destas noites, fumo, tontura, vinho, pára, vais falar de mais, pára, não chores à frente deles. Pressinto a melancolia em mim, páro nas escadas, a noite gelada, algumas luzes, movimento, o céu, olho o céu, o olhar parado, inexpressividade cheia de tudo, eu recito mil palavras nos bastidores do meu teatro, eu pego no telemóvel, eu guardo-o no bolso, eu tiro-o de novo, eu estou ali, e não vejo ninguém afinal, eu estou ali e não sei se peco contra ser-se humano, eu tenho tremores nas mãos e terramotos na voz, eu tenho duas vozes, a voz límpida inconsciente que diz o que é, que diz o que se sente cá dentro, a voz que não se faz palavras, que não move a minha língua nem dá ordens às minhas mãos. Mas é a outra voz que me comanda, ela é atriz, ela escreve discursos e veste as coisas com dúbios sentidos e distância, sim, distância entre aquilo que digo e aquilo que realmente sinto. Tão artificial às vezes, que faz-me o favor de se calar, e remeto-me a todo o silêncio, desapareço, deixo que me percas o rasto, e deixo que penses que eu perdi o teu.

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O dúbio rasto das minhas mãos. O incêndio dentro. E o gelo. As lajes estendidas na distância serena e atroz de não saber ser. Olha-me os olhos, que vês? Eu não sei mais dizer o tempo, a luz, a treva, a saudade, o amor. O amor. Interregno, saúdo os dias de sol e a chuva caminha ao meu lado, e escorre dentro, desmaio às vezes, e queria tanto poder estar aqui, e sentir o momento em cada ângulo e textura e aroma e sabor. Sim, profundamente, aqui. E despir-me e ser, essencialmente, dizer adeus ao ferro, e aos escudos, e às vendas, e às correntes na minha boca. Poder dizer sim, sim a cada dia, poder ver-te os olhos, e estar lá dentro. Poder dar-te a mão e não ter mais peso. Aquele peso breu, um dia quis ser humana. Um dia antevi paisagens, ninguém falava, não havia som, como no espaço, mas sei do sol, sei da luz, sei da percepção do sonho, sei que era eu mas sem memória. Eu no amor, sem sinuosidade, sem abismos, guardava somente os bons tremores que me assinalavam de novo e pela primeira vez, criança. Eu podia ser, eu sei, mas não sinto e sinto tanto, amor, fé e descrença.

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Folhagens indistintas, seiva, mel, corolários ternos de perfeitos sentidos. Sei bem o que queres dizer, sei bem o que queres mover, dentro de mim. Olha-me os olhos, eu olho os teus, e as areias são somente areias e molhamos os nossos pés no mar. Juntos. Desmancha tudo o resto e deixa-me ser. Agora os frutos verdes são acesos e coroam o dia. Leva-me contigo, os cristais no horizonte encadeiam-me mas quero, quero seguir em frente, obrigada por isto, as janelas estão largas, eu respiro, eu ando sobre a relva e sobre o ar sonho. E inspiro todo o mundo e anseio inspirar. Viajar para lá e voltar de novo. Raízes impregnadas de amor, puídas no azedume ordinário e casual, a cabeça andou às rodas muitas vezes e não a soube domar. Gangrenei, latejares estrondosos e ela deitou-se num canto por breves segundos acreditando estar submersa por um conjunto de fluidos malévolos que se auto-estimulavam num ciclo macabro, até dissolverem tragicamente a verde relva do seu pequeno jardim. Mas voltava sempre a si, e corria. Flechas encantadas orientadas para o vácuo. O cósmico espaço onde sondava era um canteiro infinitamente inesgotável, e gravitava em torno de estrelas e desígnios sussurrados na insónia, o imperativo da palavra, da poesia nunca vergada mas sempre lata e arrancada do mais fundo desamparo. Somos tão pequenos mas dentro atingimos, sem lastros, desertos e solidões que nos fazem ver o que importa na brevidade de nós.

*

Delimitas-me a existência com teus gestos prepotentes de indiferença.

Por de mais foi o mundo que me soube a pouco.

As palpitações nunca foram nossas, foram de deus.

Praias e saudades nas vagas de um esplendor incerto, e navios naufragados um dia e para sempre gravitando no sem vida olhar.

Estava dentro de tudo e no princípio do mundo, abri os olhos e todo o mundo dormia, e senti a Grande Solidão.

Brilhantes despontares aéreos e sem palavras, silêncio doce e expressivo, abarca a dimensão de nós, a periferia de nós, e dá-nos o espírito para olhar as estrelas com os corações puros.


MF

bso: 


Ben Frost & Daniel Bjarnason - Simulacra I

https://www.youtube.com/watch?v=JsaOfAF6df4



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