quarta-feira, 9 de março de 2016






Beberam do sol
E tomaram raízes profundas às portas da descrença
Bebemos do sol
E ficámos lá para sempre

Sim, estas visões,
Beberam do sol
E infiltraram na terra acre raízes
Inseguras, raízes, da matéria e persistência do sonho
Dissolvem-se e arrepiam-me de novo
Quando o sol daqui me lembra do outro

(Oh... propagar-se a luz desde ontem até aqui)

É um ínfimo salto tenebroso, a lucidez agora
É a falsa transparência de um véu que me separa
De um simultâneo irrevogável abismo
Tempo? Não é o Tempo
É o próprio sangue
Que se passou com o sangue? 
(que se passou ali, que não se passa agora aqui?)
As farpas, as farpas no cérebro
O barrar do desimpedido caminho até ao coração,
As visões que não foram mais que visões

Sangue, abismo, sangue

 (As visões de sol, assombram-me.)

E eu nasci para poder morrer, eu sei
“A brisa, é desta vez que vivemos”
(Para podermos morrer?)
É tão quase que vivemos, sempre tão quase
(podíamos realmente viver?)

Como se puderam esquecer da permanência
Dentro da impermanência?

Todo o sentido tangente
A um momento

Lembraste? De como não sabia ser criança
Nem humana, nem mulher
Apenas dentro, era tudo isso condensado noutra coisa
Que me fazia chorar
Até que fui criança e humana e mulher à luz do mundo,
dos bastidores velados e acesos do mundo

É solidão.
Porque ninguém mais viu além de nós
Exteriorização do vasto, nunca nos vemos mas sabemos
quando fomos
É solidão.
Porque ninguém mais viu além de nós
A suspensão
A suspensão
Estávamos tanto, cruamente, aqui

Lembraste? A cidade descoberta, a cidade cheia de rostos
Amigos e amantes, e cruzes, e tochas
E risos, e luzes, e som, e caos, e ébria vida

Fiz algo belo depois para te mostrar aquilo que senti
( e nunca sabem o que se fez na solidão)

Como podem vocês submergir o autêntico, finito, louco erro
Paixão, amor, às vezes nada mas supersónica pulsação
(e não faz mal, não faz mal…)

A minha memória tem o tacto hipersensível da voragem
E a dimensão circular de um mar
E chamo-vos a todos, porque estão todos ali,
Naquele lugar,
Circunscrito
Humano
Sinestésico
Sem idade,
Sem idade,
Foi. Para sempre.


(Hoje tateio sede, tateio saudade, tateio a vida que fugiu e ainda me tem
Adormecida.)


MF


A ouvir, Ex confusion - Be still 
https://www.youtube.com/watch?v=8ZZa10s5SSw





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