terça-feira, 17 de maio de 2016







Clamo por palavras que não são de mim. Palavras que não são daqui. E talvez uma foz de sentidos sobreenlevados até dissolveres a tua consciência no meu próprio sentir, saberias – aquilo que não falamos por sermos humanos. Se te ocupo ou não ainda, é uma dor moinha, é uma gota que quase se desdobra e multiplica quase ínfima, quase extinta, que se abeira junto ao coração e lhe confia o sagrado do sal, o secreto da fissura que a abriu e fez verter, fluir, fluir de que fonte, eu não sei, mas fluir por dentro, por vales vários e ramificações preservadas nos contornos das próprias veias. Foi sangue um dia aberto, espumante, fulgurante. Foi sangue um dia tonto e capaz de mergulhar toda a pedra no seu túmulo. Porque as pedras são apenas para os túmulos, nunca para os peitos, nunca para agora, nunca. Se te ocupo ou não ainda, é uma dor quase abraço. Porque é tão pouco e faz chorar todo o passado embalsamado. Porque não há nada que se recolha feliz de ser fechado, sem o beijo deste mesmo ar que respiro. Dentro é às vezes escuro. Se te ocupo ou não ainda, pergunta-se por dentro toda a pele, todo o rasgo humano, todo o vestígio humano. Perecer, que má maneira de morrer, digo. Queria-me junto ao teu peito e assistir aos rastos do nosso retrocesso, outra vez, as imagens em câmara lenta, rubras, sentidas como uma manhã pura ou o fim justo de um dia. Palavras que não são daqui, eu clamo, que dissessem tudo isto para que aponto, grito, serenamente. Resignação é segurar os fios que movem minha expressão para que ela não mostre a fragilidade de se saber esquecida. E fazendo do rosto uma página em branco eu parto para o mundo, e a música é tudo o que fala, é tudo o que fala sem que possas saber os pensamentos, as palavras, os segundos de quebra seguidos de contenção e manutenção do mar ausente de perturbação, neste rosto que por dentro se revira sem que eu mesma possa saber como se parece quando é humano. Sim, estou sozinha neste quarto e seguro fora o rosto, o rosto externo, mas dentro ele é o meu verdadeiro rosto e na antecâmara dos olhos nasce essa gota que falei e transborda até às veias do coração.


MF



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