segunda-feira, 21 de abril de 2014

A sofreguidão de um instante




Tudo renegarei menos o afecto, 
e trago um ceptro e uma coroa, 
o primeiro de ferro, a segunda de urze, 
para ser o rei efémero 
desse amor único e breve 
que se dilui em partidas 
e se fragmenta em perguntas 
iguais às das amantes 
que a claridade atordoa e converte. 
Deixa-me reinar em ti 
o tempo apenas de um relâmpago 
a incendiar a erva seca dos cumes. 
E se tiver que montar guarda, 
que seja em redor do teu sono, 
num êxtase de lábios sobre a relva, 
num delírio de beijos sobre o ventre, 
num assombro de dedos sob a roupa. 
Eu estava morto e não sabia, sabes, 
que há um tempo dentro deste tempo 
para renascermos com os corais 
e sermos eternos na sofreguidão de um instante

José Jorge Letria, in "Variantes do Oiro"

Há um tempo




  Há um tempo em que irás perceber que o tempo e o destino não estão do teu lado, são impessoais, por mais belas que sejam as tuas histórias. Há um tempo para viveres gloriosamente e para caíres a seguir. Um tempo para amar, para sofrer, aprender e ensinar,  para te curares e recobrares a centelha de vida levada com cada pessoa que partiu do teu coração. Um tempo para recordares tudo aquilo que te quebrou e tudo aquilo que te fez vivo por instantes. Porque a vida não é um recreio eterno, é um espaço para o desenvolvimento pessoal, apenas conseguido na meditação sobre cada fracasso, cada desdita, quando ela te abana e testa até um limite que julgavas não aguentar. Há um tempo em que irás perceber que todos os teus gestos e palavras te irão definir, perceber que o perdão é algo necessário para te libertares das cargas que te pesam, um ato de misericórdia para ti próprio. Há um tempo em que irás perceber que a maior parte dos caminhos terás de percorrer sozinho, que o abandono é inevitável, as relações deterioram-se, não são quadros estáticos - Mas o amor é a única coisa pela qual vale a pena sofrer. Há um tempo em que irás aprender a humildade, aprender que, no fundo, somos todos iguais, uns mais iguais que outros, mas iguais. Perceber que tudo já foi dito por quem já viveu antes de ti, ou mais vida que tu - Mas vale a pena ouvir de novo, por outras palavras, tudo o que trouxeste à vida dos outros, tudo o que carregaste nos teus ombros tão fracos. Há um tempo em que irás perceber que a beleza está nos movimentos, na paixão dos olhares, numa gargalhada sentida, numa alma que se ergue de um mesmo chão, vez a após vez, porque vislumbra além alguma coisa pela qual viver, que inventa e sonha em verde, sob um céu cinzento. Um tempo em que irás perceber que não chegaria uma eternidade literal, viveres mil vidas numa só, para tomares posse de toda a sabedoria da existência, para se te influir todas as sensações de prazer ou dor, para te conseguires expressar de um só fôlego, e resumir toda a tua vida num perfeito epigrama. Há um tempo em que irás ver que as palavras não conseguem alcançar os conceitos que tentam descrever, e não há conceitos mais inexprimíveis que o Amor, a Solidão e a Saudade. Mas há um tempo em que irás perceber a mensagem de cada canção, porque carregas em ti as cópias das histórias universais cantadas, do amor, da perda, da solidão ou da saudade. Há um tempo em que tomarás consciência que raras são as pessoas capazes de te ler, de ver através de ti, todo o potencial que nem tu mesmo conheces. Tira-te então de ti, tira a ferros todas as palavras, deixa ser som a tua essência. Um tempo em que perceberás que se não correres, estás morto e aquém de ti, o tempo irá passar e não terás nada que te alimente a partir de dentro. Um tempo em que perceberás que o Amor não pode ser droga anódina, a solidão não pode ser a casa de ninguém, nem as memórias a cama onde descansa cada lágrima passada, onde deixas de viver para recordar.
  Neste interregno entre a vida e a morte somos efémeros fora de nós, efémeros os lugares, as pessoas, as emoções. Mas somos eternos nas memórias - Imagens ténues, imateriais, que parecem prontas a desvanecerem-se se não fosse a nossa compulsão por as reavivar, porque amamos as suas cores. O passado afigura-se a outro mundo, dentro deste. O passado é outro céu, outro Sol, outro eu. Misteriosas as malhas em que se tece o nosso destino, implacável. Curiosas as personagens que se nos atravessam no caminho, animados de vida, para nos dar lições, para se gravarem em nós sem autorização, ou para nos gastarem o tempo. Não sentimos nunca o que já sentimos, no mesmo espetro de intensidade ou quantidade, não encontramos nunca as mesmas cores, e por isso ali descansamos em lugares sem tempo.
  No fim estamos todos sós, recolhidos e escondidos em nós. Em horas de abstração perguntam-nos " - O que pensas?" e nós respondemos, cansados, "Nada.". Mas nesses momentos, não estamos cá, os nossos olhos sem expressão estão ocupados a vasculhar, a explorar o nosso mundo, as nossas histórias simplesmente complexas, singelamente belas ou tortuosas, os nossos fracassos, as nossas glórias, sonhos e memórias -  Tudo aquilo que nunca conseguimos deixar para trás, porque não há onde deixar tudo isso. Recordamos vozes, cheiros e imagens perenes, e então, estaremos realmente sozinhos se nos recordarem também?

MF

domingo, 20 de abril de 2014

Desassossego



Escrevo sem saber porquê
inutilmente, obsessivamente,
em rasgos raros de imagens
que perpassam a minha mente
palavras em torrente procuram
pintar o que não sei, descansar,
acalmar tempestades sem nome

Escrevo sem nexo, in média rés
caos de palavras e pensamentos
à espera de me acordar deste
torpor consciente

Para mim são todas as palavras
escrevo, talvez, para ler a alma -
serenidade desassossegada, dor
calada, memórias sem estradas
resquícios de sonhos inebriados
ímpetos de sangue jovem

Criei mil mundos dentro deste
mundos efémeros que me falharam

Morro de novo, vazia em mim
sorvi o universo num trago, caí
num céu sem tempo, perdi-me,
vãs foram todas as promessas,
menos que vento, tão fugazes
choro sem chorar - colossal 
e desperdiçado esforço

Choro a irremediabilidade da minha
 sina de ser Só na flor da vida
leio o emaranhado desconexo
de imagens e memórias vívidas,
busco saída das teias a que amo
estar presa

Tento encontrar partes de mim 
no mundo, encontrar um sentido
em cada manhã, em cada abraço
cada dor e cada graça. Encontrar 
 sentido aqui. Alcançar-me, conquistar-me,
 tomar as rédeas  de mim

Quis ser tudo, sendo nada
quis-me dar, sem ser minha

Sou máquina feita de carne, sou profeta,
adivinhei cada dor, tragédia, na esteira do Sol
sou um labirinto de vontades e desalento
sou cada lágrima vertida ou retida, por 
cada história sem adeus.

Sou inerte. Sou sem ser o que não sei
sou um caos, tentando achar ordem...


MF

sábado, 19 de abril de 2014

Werther


" Por vezes tenho momentos em que sou estimulado por um ataque de coragem repentina e, então...se soubesse para onde ir, iria."

Goethe - Werther

Partir para ficar


“You have to die a few times before you can really live.”- Charles Bukowski
Morremos mil vezes na vida, morrem histórias e pedaços de nós.  Mas persistimos, aprendendo com cada lágrima e renascendo dos mesmos solos que nos consumiram. Porque a vida é rir e chorar, é " lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar..." Parto com o peso da experiência e do tempo, novas histórias esperam por mim, novas lágrimas, novos abraços, novas mortes e catarses.

MF

Um adeus



"I think I made you up inside my head" - Sylvia Plath
  E todas as minhas palavras foram um hino a alguém que esculpi a partir das sombras de ti, dos resquícios de luz que emanavas. Estão congeladas no tempo para alguém que fiz na mente, para alguém que não existe. Faço hoje da dor e destas palavras a catarse final, liberto-me, entrevendo novos caminhos algures, soltos de todas as memórias que enredam a minha alma. Isto é um adeus, o primeiro de muitos, assim sei...    

MF

Sonho de alguém



"Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver 
E que nunca na vida me encontrou! " 

- Florbela Espanca

Talvez sejamos o sonho, ou cópia baça de um sonho, de alguém que procuramos e nos reconhecerá no instante de um olhar. E assim caminhamos por trilhos sinuosos até lá chegarmos, morrendo e renascendo em cada dor, calejados, humilhados, cansados e sem fé. Mas no fim teremos histórias, teremos a poesia e a ciência, no fim estaremos onde deveríamos estar...

MF

Céu da Memória


"Maybe the star doesn't even exist any more. Yet sometimes that light seems more real to me than anything.” - Murakami


Talvez todas as histórias mais brilhantes e mais doces estejam destinadas a findarem como estrelas, morrendo no seu auge numa implosão sem som. Nada mais que miragens do que um dia foi vivo ou ecos de sinfonias perfeitas no céu da Memória...

MF

Uma história


“so it's always a process of letting go, one way or another” - Charles Bukowski



  Morre hoje uma história, renasço das lágrimas que tinham de correr. Chorei as ilusões, as mentiras e memórias, os dias de sol efémeros que pareciam ser eternos.
  O meu coração sensível é contrabalançado por uma frieza que me cura, que me entorpece, por uma apatia que me faz renascer a longo prazo, deixar de lado tudo o que me quebrou. Sigo em frente, as lágrimas secaram, talvez um dia voltem de novo aos meus olhos porque em mim nada se conclui, nenhuma história teve final sereno ou resoluto. O passado está adormecido, fora de controlo, adormecido mas vivo. E assim, irei esquecer-te sem te esquecer, perdoar-te sem te perdoar, voltar passiva às memórias em horas insones. Regressar, enfim, a mim , após ter respirado mundos e aprendido que tudo é fugaz e não há poesia senão na mente. Tenho-me a mim, no final de tudo, encontro no meu coração o necessário para viver. Regresso mais sábia, mais forte, nunca fraca.

MF

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Queda




Há dias em que nada vive em mim para lá do desespero. Tudo é dor, nada me eleva. O chão quebra-se debaixo de mim e eu sinto-me a cair para a escuridão. No entanto, não são as sombras que me assustam, vivi com elas a vida toda; mas a queda... por cada segundo que dura, mais me entrego ao desespero. E desesperadamente apercebo-me que o meu corpo anseia pelo embate que me libertará.

P.N.

sábado, 5 de abril de 2014

Dor



Há uma dor em mim que nunca se silencia, nunca se apaga completamente. Arde, no mais forte dos ventos, sem oscilar... Na minha vida, só espero que essa dor não me consuma ao ponto de só ela sobrar. Sei que, se tal acontecer, viverei sempre de passagem sem deixar nada de mim, sem levar nada comigo.

PN

 Diário, 26 de maio de 2026 Vaidade Ou Ecles. 1 Ao ler Huston Smith sobre o siquismo relembrei, talvez como nunca, como tudo era vaidade. Tu...