terça-feira, 6 de outubro de 2015
Talvez ver deus fazendo-se poema
Ela queria usar todas as palavras
cada palavra,
com seu próprio sistema sanguíneo
cada palavra,
com suas veias expoentes fecundando o mundo
palavras impossivelmente virgens em insuflações magnas,
ordenadas no poema segundo uma inspiração quase divina,
sussurradas, auto-erguendo-se no seio do imaterial mistério
imateriais mas tão carnais,
como se fossem própria carne a cantar
achar-lhes as nuvens primorosas que chovem sobre o cansaço
e sobre a morte, sobre a existência dura, sobre a saudade,
dissolvendo o nó górdio emaranhado nas veias
chuva nívea e plácida, oferecendo beijos na testa
beijos na testa e olhos fechados, de novo crianças
palavras transbordantes de tudo,
palavras multi-funcionais,
de quadros e canções e até mesmo silêncios,
versos que abrem espaços, de pressentidos silêncios,
corredores vastos de desaguamento de coisas que não tocam a razão,
grutas, cavidades de preenchimento,
quietude para a calibragem vital rítmica
e plasmação do interior sem bordas nessa parede cósmica
Ela queria usar todas as palavras em simbiose com o silêncio
Silêncio,
fundamental e ancestral, ermo,
horto bem aventurado,
foz do inominável, necessária viajem
que cala a boca e dá à alma a oração
Silêncio,
baluarte de tudo o que não tem palavras
e depois outro verso
que nos traz de novo à terra, ornatos de beleza transfigurada,
Ela queria usar todas as palavras em simbiose com o silêncio
queria o universo entre as vírgulas,
o usufruir de latentes sentidos
todos os silêncios
no sitio certo,
sentar-se no fim.
ler o que escreveu o iceberg
e fitar a inesgotabilidade máxima,
o zenith de cada palavra,
chorar,
e poder morrer.
MF
domingo, 4 de outubro de 2015
Herberto Helder - Teoria das cores
![]() |
| Ken Wong - mistaken identity |
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um
peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha
até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da
cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe.
Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a
chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora
lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos
e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo
entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real
e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua
fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica,
mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o
da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
Herberto Helder
in Os passos em volta
Todo o mundo volatizado
todo o mundo volatizado nesse instante superlativo
onde a dor esqueceu-se de doer
e sentimos mil espécies de regressos
àquele altar de simplificados sentidos
solidões plenas, uniões abstratas que se afundam
mutuamente no rastro do silêncio e de tudo quanto
este encerra, perceptível até mesmo o tempo
parado no ar
e as bocas a pressentirem vontades ancestrais
todo o mundo volatizado nesse instante superlativo
no deleite da impossibilidade racional de nos sabermos
contra a noção clara, a certeza dos nossos olhares.
MF
A ideia de azul contra o céu em si mesmo
II
enche-se-me o peito às vezes,
a luz dispersada no nevoeiro matinal através das montanhas
a paisagem em movimento, a música de nós mortais
dos calados, dos discretos, extensões desse deus poeta
que não posso compreender mas é necessário
que nos assiste em cada exaltação táctil de Beleza
deveria inventar uma palavra para substituir "memórias"
porque falo de outra coisa grandiosa, falo
de quadros de inocência longínquos
falo de olhares que assomam nítidos de vales cerebrais
com milhões de segundos de existência
vales onde se delinearam os contornos gráficos de lábios e olhos,
de silêncios e cores imiscuídas no ar, acoplados os sentidos
ateliers internos onde se trabalharam o diafáno sinestésico
quando todos os póros se abriram para sorver o ar
porque a vida estava toda ali
falo de coisas que se movem cá dentro em órbitas excêntricas
invisível cheio de tudo que germina dentro e parece sobreviver fora
falo das coisas que dão sentido a uma perpetuação física de mim
num outro corpo, do meu sangue e doutro sangue
outro sangue que me olhe como esses olhares que ainda guardo,
conseguidos na juventude, revestidos dentro
de poesia maior que tudo, poesia sem palavras
poesia para a qual as palavras nada mais são que empecilhos
recursos expressivos, tentativas de tactear
e achar o rastro, a transmutação gráfica
toscos caracteres que nada dizem do que grita
apenas diminuem o sentido do que se quis mostrar
poesia para a qual as palavras são isto: a ideia de azul contra o céu em si mesmo.
MF
não mais o assombro desmedido que acalenta o sangue,
não, não mais,
a subtração do universo, o saque das estrelas por nós
incomportáveis a corações destinados à decadência
não mais o travo a sol e resquícios vários
de possíveis certezas de uma eternidade aqui,
ou de um deus poeta, receptáculo, canal,
baía ominisciente onde desaguam
cada pedaço incorpóreo aqui na terra,
pedaços raros, inspiração
lúcida, beleza resgatada e vestida no ar
a sós ou a dois
não, não mais
a possibilidade de paraíso no meu sangue
porque as cíclicas rupturas doem mais na sensibilidade aguda;
MF
sábado, 3 de outubro de 2015
Estandartes ulteriores de Saudade.
Amo vastos desertos insonorizados onde o espírito fecunda de palavras o espaço entre mim e o céu
o exílio secular enche-me de febris acessos visionários,
inebria-me o sangue de confusões e certezas - eu não sou daqui.
do outro lado, a aparente fervilhante vida, violada todas as noites e todos os dias sem descanso
não, eu não sou daqui, faço a apologia do silêncio e do paganismo
só há eu e deus, imanente na quietude perfeita dos cheiros nocturnos, das folhas e do tecto pontilhado de estrelas a distâncias impossíveis umas das outras, nos seus próprios desertos, que fulguram e que crescem sem poder conter o seu interior de se expandir até à sua própria extinção, extinção que nunca houve a certas distâncias, porque, se recuarmos o suficiente, podemos até vê-las nascer sem que alguma vez saibamos se estão realmente a nascer e que sortilégio é o tempo.
Antes, temia os desertos, nada mais eram que lugares para morrer, lugares contíguos às arestas do delírio infrutífero onde gritava por alguém, sem saber ainda, não podendo aceitar ainda, que não havia ninguém.
Só há a aceitação. Só há essa comunhão com a quietude que nos fala sem que possamos distinguir as palavras. Só há essa Beleza às vezes bebida, tocada ao de leve na imperfeita, mortal, esquiva, confusa incompleta vida, e trazida, meditada no deserto em grandiosa oração a tudo o que foi, a tudo o que é, e a tudo o que será. Compartilho com presenças da fibra nuclear do meu ser a abstracção febril de um único grande poema nutrido por essa indistinta grande árvore humana, compartilho a abstracção incerta de um devir de alguma forma destinado à grandiosidade, ainda que sobre os estratos do erro, do frívolo.
Amo vastos desertos insonorizados onde me nascem protótipos de entendimentos, maturados no silêncio, no coração do coração, porque tudo nasceu lá em cima no silêncio, e no primordial mar na terra sem espectador, no silêncio, o Milagre.
Mas no silêncio há também a nostalgia de um mundo. Um mundo dentro do mundo, um mundo que salva deste último algum frenesim, alguma imperfeição, algum abandono, coragem de morrer não tendo feito parte de nenhuma tentativa de resposta, de nenhum exército de criadores cuja volição roçava a loucura e estirava os nervos que discorriam sem repouso em busca de dores e artes imortais e esplêndidas com o seu nome, alma, inscrita em cada pedaço. Nostalgia de um mundo que não sei se está cá, ou se alguma vez realmente esteve, porque criado na idade sem idade. Pergunto-me então: "Nostalgia de um mundo ou tempo?" - um tempo dentro do mundo do qual não faço parte, apenas desse tempo, e, no seu contexto infinitesimal, poesias sem nome, acuidades sensoriais que mergulharam os meus olhos na essência de cada cor e, alheia que estava, eu nem sabia - herdava sem querer, estranhos estandartes ulteriores de Saudade.
MF
William basinski - https://www.youtube.com/watch?v=O85sK8l_Yg8
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Tudo é humano
(Rascunhos: moral, conceitos e olhares puros)
*
a vida não cabe em conceitos,
esquiva-se do sangue
de todos aqueles que teimam em defini-la
não, não quero mais pensar
o próprio ato de pensar é dúbio
se em nós há morais intrínsecas
semeadas na carne, sussurradas pelo mundo
tão baixo que pareceram vir de dentro de nós
- o que é certo, diz-me,
o que é trágico, o que é magno,
o que é belo, o que é nefasto,
o que é humano, o que é depravado, sujo e condenável?
se tudo é humano...
vamos ser tábuas em branco,
vamos nascer todos hoje,
ao mesmo tempo,
e vamos ficar em silêncio
(calar os sussurros que nunca foram nossos)
olhar o céu juntos e ouvir as palpitações dos nossos corações
seguir com os olhos a invisível dança cósmica,
e entrever toda a história que nos trouxe até aqui
somos passado, ou presente ou futuro?
não há tempo nestes instantes
nem dor a cultivar,
nem diamantes a procurar
não há segredos ou medos ou lições
depois, olhemos o céu dentro do olhar de cada um de nós
tudo é puro agora, deslindámos todas as cruzadas,
todas as mortes, e caminhos sinuosos em terras sem lua
e não havia razão para ter medo...
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(poetizado olhar sincero)
o olhar que ainda me beija agora, o teu
foste puro e eu esqueci
a memória desse olhar quando a devia ter gravada
viva, em movimento permanente nas minhas mãos,
nas palmas das minhas mãos
as mãos que me recebem o rosto
quando este tomba sobre si,
atraído por gravidades que o vencem pelo cansaço
ou por extraordinários tiros que o interrompem do seu sonho
ele cai de encontro a algo que o abarque
e só tenho as mãos que te tocaram,
as mãos que me recebem o rosto
deviam ser as mãos... os quadros literais, físicos, os ecrãs de todos os olhares
olharias de novo para mim, e o rosto retornaria à sua verticalidade
e não desaguariam na face os rios da incompreensão humana
rios pelas abismais separações de dois universos um dia unidos
os olhares vitais perdem-se em resguardos da mente,
porque o ódio enevoa a verdade:
- tudo é humano.
MF
*
(Fragmentos de sonho)
Eu estava a chorar o silêncio da procissão lenta do meu sangue
e a distância da tua imagem atrás da montra e as projecções do impossível de nós
Eu estava a chorar a solidão fria e magna das flores
e os límpidos céus plácidos que marcavam o ritmo viciado e triste, deste triste punho carmesim ao peito.
MF
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
7 de Julho de 2015
Que dizer, que escrever? Olho o mundo lá fora, percorro-o - no meio da imensidão do céu, bandos de pássaros; no pátio, o tremeluzir da luz no lago dos peixes; no horizonte, as montanhas a erguerem-se verdes diante os meus olhos plácidos. Essa paisagem...e uma escuridão dentro de mim se fico a sós com ela. Distraio-me. Com livros, romances, filosofias, com o piano, com tudo o que me esquece de pensar e vir à tona com a convicção de que nada sei, e com a nostalgia, medo de envelhecer, medo de me ver, e pela pressa de saber, abarcar tudo, todas as iluminações de homens que viveram antes de mim, e talvez entender se morreram em paz. Pergunto-me acerca da natureza da verdade, ergo no ar teorias de hologramas, de sonhos de deus, do acaso que influiu na matéria inerte a semente do espírito, e penso na música - como alguns violoncelos aparentam choram nas mãos de músicos grandiosos, como os acordes menores soam tristes, e os maiores alegres. Que estranha ciência... pode isto significar que tudo é expresso por meio de ondas? Que há poesia no caos?
Oliver Coates: https://www.youtube.com/watch?v=RuZwzoj85C0
MF
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