sexta-feira, 26 de junho de 2015



"Julia transmitia a mesma sensação, ali sentada ao piano, de esguelha, a sorrir. "Está no campo, está na vidraça, está no céu...toda a beleza; e eu não lhe posso tocar, e eu não a posso ter...eu", parecia ela acrescentar sempre que cerrava o punho, " que a adoro tão loucamente que seria capaz de dar a vida para a possuir!" (...) apertava a flor com volúpia; apertava-a naquelas mãos macias e magras, cobertas por anéis de pérolas transparentes. A pressão exercida pelos dedos de Julia Craye só parecia aumentar tudo o que de belo existia na flor; era como se esta se tornasse mais viva, mais fresca, mais imaculada. (...) Apesar de segurar a flor e de a apertar, Miss Craye não podia estar mais longe de tirar prazer daquele gesto."


Virginia Woolf, "Momento de plenitude"

sexta-feira, 19 de junho de 2015



(Canções de carne)

No Inicio, haviam Almas que se pressentiam
em limiares diferenciais de ar e pressão e tons
na Imensidão do espaço entre estrelas,
colheram o segredo das Cordas e entrelaçaram
numa Dança, as ondas vibrantes
com os dispersos vestígios materiais inertes;
e assim teceram corpos para que pudessem
vislumbrar o rosto das vibrações Menores e Maiores
que são tristes e alegres
por desígnio de uma qualquer Razão,
e os corpos, uma vez talhados da Matéria
acordaram, imediatamente esquecidos aqui na Terra,
onde nos implantámos num Olvido,
para que o Ser experienciasse vendado,
a Eternidade e a Mortalidade da Carne;
para que tivessemos um Peso,
para que nos tocássemos,
e o Indizível volátil moldasse sob a pele
a sua Imanente natureza,
traduzindo-se assim por inteiro e em silêncio,
na forma de gestos, e faces enternecidas ou extáticas,
e em mãos que falavam o Universo ao tocarem-se;

Almas. Descemos.
para que com os olhos humanos vissemos,
 - a Expressão Material de tudo o quanto ama e dói em Nós.


MF

Chão



16.05.2015

tiraste-me o chão
tiraste-Nos o chão,
aos dois.
tremeram-me as mãos
o céu tempestade circunscrito
ao meu peito.
abraçamo-nos,
como amantes milenares
num dia vivemos,
e num dia morremos
e a tua memória dissolveu
o trono
de tantas outras.

trago a saudade
no prolongamento dos dias
sem ti,
engrandece-se
a tua imagem.

poderia morrer amanhã
mas só depois de me matares, fazendo-me tão Viva.


MF

to pb


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Caminhemos agora até ao céu da terra



Glenn Brady

" Vamos escapar, lá fora adivinham-se céus
mais belos que o Céu,
não olhes para trás para que Ela não te petrifique!"

- estou quebrado, não vês?

"Eu levo-te às minhas costas mesmo que levemos 
mil anos a percorrer uma milha,
e caso me peses a ponto de me quebrares as costas,
a ponto de ambos quedármos imóveis, presas
de chacais e da Sombra que alastra ao teu encalço,
nunca te direi Adeus,
porque não posso simplesmente largar-te, seguir
um caminho cego com as costas intactas
e a alma em estilhaços por sentir-te morrer à distância
o meu coração enegrecido e mudo de palpitações
cada vez mais lentas,
só e covarde de ter abandonado outro coração
dissolver-se-ia nas areias com a banda sonora
do último eco do teu,
quando morreste à distância;
Juntos vamos escrever as coisas belas, cortar contacto com Ela...
dá-Lhe descanso, outros poetas beijá-la-ão com palavras
e todos nós seremos presenteados a Ela no Final;
Deixa-me ser eu a assombrar-te por agora, tecendo
um bom assombro,
prometo não te ferir ou tornar o teu sangue Azul,
irei dissolver nele pequenas naves sónicas geradoras de ondas
que lançarão o teu sangue até cada recôndito do teu corpo
para que te sintas, cada milímetro de ti, ávido por calor e por dias"

- perdão... "um dia és tu, no outro é a Morte",
não és capaz de me partilhar com Ela,
anseias ser tu, todos os dias, todas as horas
e queres o teu rosto a flutuar no meu tecto e nas ruas da cidade...

 " Tens razão, quase que tenho vontade de te deixar
não por medo de Ela estar tão junto a nós e
por me trazer à memória fúnebres dias,
mas sim por saber que se o Amor não a vence
não vence o prematuro desejo que lhe tens,
então nada a vence, dizer-te então Adeus seria
um ímpeto misto de derrota e orgulho, afinal,
como podes amá-La, tanto ou mais que a uma alma
que te escreve e que te chora?
porque vieste ter comigo afinal?
parece que não acreditas quando te digo ´amo-te e
conheço a dor que não exprimes em palavras.`
Acredita - que já sofri e já a amei,
mas hoje, não nutro nem amor nem ódio por Ela,
afinal, ´como podemos odiar aquilo que nos incita a correr?`
- pensei eu, sim, Ela pode ser um gatilho para a Vida,
mas para ti é somente uma Sombra que te ocupa o pensamento
e à qual entregas versos vencidos
e corrompes os sonhos inserindo-a como Salvadora...
Mas Ela não te quer! Porque desejas algo que não te quer?
É ilusória, a centelha que vês nos seus olhos abstractos,
de facto, Ela está Morta, e recebe no seu abismo apenas mais morte.
Mas tu estás Vivo, estivemos tão vivos... não te lembras?"





MF

to pb










Glenn Brady

Aquela manhã,
semeaste céus inomináveis no meu peito,
acho que morreria para lá voltar
deslizou o paraíso entre os meus lábios
a tumba tolheu de medo e recolheu-se,
adiando-se para outros dias
as trevas apenas alastram em terrenos passivos
onde o sangue congelou de tão lento, frígido
o meu corpo tremeu acordando a Primavera
parada num milénio gasto
e acordei,
as pupilas a dilatarem-se para abarcarem
todo o universo inaugurado ali;

Agora,
amo-te sem te tocar, e se nunca mais te vir,
esses céus gravaram-se dentro, imprimindo-se
por meios que desconheço, deixando um rasto
pavimentado a ouro, luzidio,
que sigo na Noite
ressuscitando o teu fantasma,
recuando o tempo, matando o tempo
matando a morte, expelindo enfim a alma
para fora do ermo plácido onde finge ainda vibrar
pudesse a tua tumba vergar-se
diante a memória nossa:
aquela manhã,
aquela noite,
somos jovens e rimos
somos jovens e o coração a flagrar
- acho que nem sabia que havia Amanhã
de tão esquecidos e atentos à granular brisa
que entre nós dançava, similar, decerto,
ao ancestral sopro de vida que um dia animou
corpos inertes, corpos como os nossos,
de súbito galvanizados num instante amnésico;
dois estranhos com pressentimentos de outras vidas
caminhando aos tropeções,
entrelaçadas mãos,
segundos gigantes,
horizonte singrando sob a cidade,
sem fome, sem sede, sem morte;
 - acho que nem sabia que havia Amanhã
e que serias o meu novo milénio.


MF

to pb



domingo, 14 de junho de 2015

Amor espero ver-te acordar.








HUMANO


ele diz que engana o mundo lá fora com sorrisos
e que morre todas as noites,
sem poder ver a lua que emana a luz na madrugada
diz que na sua cabeça vivem mortos e esconde-se
nos becos lamacentos de vis ruas, barricando-se
com evasivas e blocos de silêncio que obstruem
as estradas até aos lagos de dor onde ele se banha,
vencido, embaciados olhos fitando o breu
 - é atroz amares esse sorvedouro,
quando chamam por ti,
eu chamo por ti, desta forma,
mesmo sabendo que não me ouves
submergido no teu silêncio;
estou quase a dizer-te adeus...
são gloriosas estas epopeias subtis de encontro
à tua Pandora, gloriosas, mas mortais
viajei até aos confins das Palavras e só achei
uma tábua inscrita - " Não há Palavras. "
 - Não há palavras para ti...então aceno-te de longe,
sem palavras,
aceno-te de longe,
fecho os olhos e envio-te o conceito de adeus,
amordaçada a raiva de te calares diante mim
quando eu viajei tão fundo apenas para te tocar,
e desviar-te três milímetros além do teu posto
para que visses o céu que eu estou a ver neste momento
três milimetros,
tão quase,
desvia-te só um pouco,
Acorda,
mexe-te,
larga as facas,
acende a luz,
limpa as estradas,
é titânico, eu sei,
mas esse lago é abismo e deste lado estou eu,
separados apenas por um vidro,
dou pancadas e grito,
estou quase a ir-me embora
derrotada,
as últimas palavras:

amor
espero
ver-te
                               Acordar.



MF

to pb

Sebastian Plano - https://www.youtube.com/watch?v=nzmXQIXV6h0







sábado, 13 de junho de 2015

A dor da leveza






II

As alturas geram uma leveza quase profana 
- a fusão cósmica esvaziou todo o ser, e este parou no céu
havia apenas nuvens, e só se sentia na carne o beijo do ar 
quando lá em baixo acontecia o mundo 
e corpos se quebravam e regeneravam para quebrarem de novo
(corpos de seres ainda jovens na ciência desconhecida de viver)
e o anjo, quase desligado de todas as lembranças humanas, acordou
do seu sono divino - germinou a saudade de sentir;
nos seus dias humanos o seu coração recebia guerras e paraísos
e isso era-lhe insustentável; não nos chega um corpo para tanto sentir
mas avistou um mortal distinto de outros mortais
belo, mas atolado nos escombros que nutria à sua volta
quis tocar-lhe o rosto e ver de mais perto os seus olhos
e quem sabe extrair deles a escuridão -

" - Por ti cortarei as asas, por ti  - chorou o anjo
o céu pode ser um lugar solitário, 
deixa-me despir-me e ser humana outra vez
frágil e pesada como tu, 
deixa-me ver-te dormir,
deixa-me salvar-te ou morrer contigo
conheci os dois mundos e prefiro não ter asas
e sentir mais que o ar, sentir
o teu corpo sobre o meu, os teus lábios nos meus,
Amor é o nome da mais alta esfera humana,
compete com o despontar breve e eterno das galáxias,
prefiro estar à mesma altura do solo que tu,
e fazermos pouco dos deuses que adormeceram para sempre
nos seus postos imperturbáveis das Alturas;
quero-nos acordados.
dois mortais abraçados, talvez aí o entendimento
não me importa que me nasça o medo de morrer
estou contigo numa terra trajada de estrelas,
há dor, sim, aos calcanhares do desejo,
mas arrebatou-se-me o peito e nunca mais quero
a distância inumana que me esfriava as veias, lá em cima
onde era leve mas chorava os dias em que fui humana
onde era leve, insidiosa leveza oriunda de nada sentir,
deixa-me sofrer contigo e convencer-me que existo
deixa-me amar contigo e ter medo de morrer;
amar fez-me descer, do seguro lugar onde pensei poder
avistar sem dor a ascensão da grande Maré..."


MF

to pb









Leonid Afremov

 Ainda te cravei as unhas na carne dos teus ombros. Mas parei-te. Talvez fosse o medo que todo o universo se desintegrasse e as cortinas se fechassem sob o nosso sonho, terminando o nosso ato que nunca foi ato nenhum, porque feito de ar ou dos devaneios lascivos de um deus. Os teus lábios no meu pescoço e o meu corpo pronto a tornar-se portal de dissolução de conceitos, palavras, preceitos, imagens, canções, rostos, outros beijos, outras lutas, outros lugares... mas parei-te - quis o prolongar do sonho em que sonho com o nosso reencontro e com o teu calor, outra vez. Porque fogo extingue-se quando beijado intensamente e sem freio. Então deixaste-me a levitar a meio caminho do paraíso, e contigo não sei até onde iríamos: mas o mais certo era que o universo se abrisse e voltasse aos eixos de novo, mas nesse espaço, nesse espaço... o mundo apagou-se e jazemos esquecidos, um no outro. E depois o regresso sónico da escuridão em que dançámos sem saber quem fomos ou quem éramos, apenas que nos amávamos. Esse regresso, os olhos abertos a milímetros dos teus mas ainda a distâncias marinhas dos recessos adormecidos de dor inculcados, nos extremos da tua alma. Esperei poder pressentir os labirintos cansados onde a tua mente se perde e envelhece em busca da atroz saída. Mas nunca nos vemos...Quis dizer-te com o corpo que havia outra saída. Quis dizer-te que enquanto nos beijamos ela não te canta ao ouvido. Porque ela nunca mais me cantou ao ouvido desde ti. Ainda que tenha ficado a meio caminho do paraíso, eu sei - no cume, perderíamos de nós o tempo e o espaço por momentos, mataríamos toda a morte. Mas no fim, talvez eu morresse de dor por te saber ainda quebrado e por sentir iminente uma saudade ainda maior de ti. 


MF

to pb

Comet OST
https://www.youtube.com/watch?v=YNQH99ObzC4&index=9&list=PLVwNa2dcWhK56V5Udw6jJhVWxwdeItftg

quinta-feira, 11 de junho de 2015









 - ecstasy nas veias, e universos que explodiram

num ápice e para sempre









MF

domingo, 7 de junho de 2015

Eloquente sinal de entrega à Terra





Fallen Angel de Jaleen Grove

I

deixa-te ter o teu anjo, daqueles que não cessam de gravitar
à volta dos abismos sem medo que a sombra se expanda 
até onde os anjos se queimam e se rendem ou fogem
as asas permitiam manter uma segura distância
mas há anjos que cortam as asas quando avistam dor,
e rastejam no mesmo chão até ao lamento humano
para mais fielmente partilharem dessa imensidão
que esmaga corpos sem asas;
as suas mãos estão agora sujas de terra e de joelhos implora
o cessar dos teus passos em direcção ao teu deus...
canta que há um tempo para tudo e que a Morte não te quer já
mas o abismo torna-se denso, e o canto do anjo não suprime
o feroz silêncio que alimentas
o universo quase se comove:
 "- matar-se-á, sacrificando um anjo,
que cortou as asas e rastejou para amar
no mesmo grau daquele que não sabia como ascender..."


MF

to pb

Dustin O´Halloran - an ending, a beginning
https://www.youtube.com/watch?v=-I0STwdBEcM









7.06.2015


Relembro o verso de Rilke - " Hiersein ist herrlich " - estar aqui é admirável, nesta noite de silêncio onde a natureza recobrou a sua paz e os cheiros da terra, da relva, das flores, se misturam num éter desconhecido e familiar. Inspiro. Olho as estrelas, sinto o ar fresco. Como são pacificas as noites sem ninguém, as noites em que vou à varanda e a vila dorme. É errôneo escrever acerca das " noites insones que me envelhecem ou a terrível noite no coração", porque a verdadeira noite é esta e algo tão belo não pode ser profanado com metáforas pouco inspiradas. Não, a noite deve ser saudada em silêncio, a noite salva todos os que se matam dentro de quatro paredes quando não conseguem dormir. É segredo, mas partilho - não tentem adormecer quando as lágrimas ameaçam turvar o tecto. Houve uma noite em que vim à varanda, como hoje, e de repente o meu coração falhou de não saber ser coração, de repente estou só e nunca estive tão cheia. Inalo a fragrância que de dia não se mostra, guarda-se toda durante o dia, amadurece sob o sol e à noite solta-se como um manso suspirar de um deus, de encontro ao sem nome que debaixo desta pele se oculta e é da substância dos infinitos. Inspiro de novo. Parei. Todo o fluxo de lodo mundano, os olhos já não estão cansados. Poderia sentar-me nos degraus frios e não dormir. Mas tenho de dormir. A noite fica acordada por mim, vê-me dormir.


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Nasceram-me estes versos:

Morremos algures, entre aquilo que sonhamos,
como sinal eloquente de entrega à Terra.



MF
















 Diário, 26 de maio de 2026 Vaidade Ou Ecles. 1 Ao ler Huston Smith sobre o siquismo relembrei, talvez como nunca, como tudo era vaidade. Tu...