quarta-feira, 28 de outubro de 2015






23 de Outubro, 0.49h

  Pudesse eu pegar na tua mão, a mão de quem não sei, a mão de quem não sei que exista agora, a mão abstracta de um messias pessoal, a mão de um humano mais que a mão de um deus, porque a primeira emana calor; pegar na tua mão, fazê-la atravessar o meu peito, fundir-se à carne para rodear com os dedos arrasados, a insegurança avassaladora do meu coração. Acalmá-lo, dizimar o que adjetivo de "medo", o terror de agora, não o das corças feridas com as pupilas e sangue dilatados, mas um terror lento omnipresente, latente, nuvem carregada sobre mim, ameaçando pestes e tiros que sobressaltarão os pássaros que poisaram numa rara primavera que veio até a mim, até a mim. 
Tristeza lenta, que caminha pelo rasto indelével de todas as perdas físicas e imateriais. 
Parece que possuo uma anti-gravidade que afugenta as coisas para longe de mim. Treino-me para aceitar perder, mas sou humana. 
Queria saber pintar esta visão: Uma mulher prostrada, a cabeça baixa, as mãos unidas numa espécie de oração ou derrota final, e um monte de gente em torno dela, abraçando-a com os rostos velados virados para a câmara, formando todos um sólido humano, uma pirâmide do sofrimento humano.
 Desconheço essas mãos, o humanismo,
mas é uma bela imagem, dramática, mas bela. 


MF






Marguerite,

Há duas juventudes num quarto qualquer. Amantes por uma hora.
Ela está despida, o soutien azul contrasta com a sua pele morena. Ela percorre o quarto. Ele está sentado olhando para ela. Ela fita a janela. Um piano sobrepõe-se às sirenes da cidade. O céu cinzento está semeado de pássaros rasgando, desenhando o ar.
Ele espera. Ela pergunta, sem o olhar - Não sentes saudades do Amor?
Ele responde que não sabe o que dizer. Sem surpresa.
Ela vira-se, caminha lentamente até à sua retaguarda,
- Não te vires, diz ela,
- Fecha os olhos, diz ela,
- Imagina que eu sou a mulher que amas, imagina...
E ela envolve-lhe o tronco nu com o seu abraço, rodeia-o como uma corrente, afaga-lhe docemente o cabelo. Vira-se. E defronte dele, beija-lhe a testa que encima um rosto sereno, com os olhos fechados. Senta-se no seu colo, enrosca a cabeça no seu peito, como uma criança, pega-lhe na mão e coloca-a no seu próprio coração. Ficam agora em silêncio. Ambos de olhos fechados. E só ouvem a respiração lenta um do outro. Tocam, o frio calor um do outro.
Duas juventudes despidas, num quarto qualquer.
- Não sinto nada, diz ele, suponho não ter a imaginação necessária.
- Eu sei, diz ela, eu sei....não sentes saudades do Amor?



MF


Nota: Inspirado em Marguerite Duras

Interpol, narc (Paul Banks remix) -  https://www.youtube.com/watch?v=q8aP-RjLzCI




terça-feira, 20 de outubro de 2015





"(...) Os minutos escorrem desde sempre e para toda a eternidade e minto-nos se disser que estou em paz porque não sou ave. Pressinto a canção da montanha mas não lhe ouço o silêncio cheio que equilibra as navalhas e lhes embota as extremidades prontas. Ressumbra e assoma o tempo de encontro a este corpo. Ainda sonho com um regresso, ainda sonho com os tectos sem fronteiras trajados de estrelas e a leveza do não corpo, a destruição de todos os espelhos baços e das agulhas inconstantes enlouquecendo a pele. "


17.07.2015


Tentei transmitir a ideia de que tento ouvir atentamente os sentidos, as canções naturais, a Verdade, mas não ouço o que realmente importa que está contido, imagino, numa espécie de iluminação do Silêncio - nesse momento, as navalhas do pensamento que me corroem, e todas as coisas com que me firo, seriam equilibradas, as extremidades deixariam de ser afiadas para me poderem ferir. O tempo é outra coisa que me fere, goteja sobre os meus ossos e enche-me de nostalgias, só penso em regressos, e quanto mais regresso mais penso que tem de haver o regresso último - é aqui que entra o misticismo, o platónico - o universo, o sideral, a leveza de não ter corpo (que contraria outros textos em que quero ter corpo para sentir) e a destruição de todos os espelhos que me enviam falsas imagens de mim, bem como de todas as " agulhas/navalhas" que me ferem.



MF







segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Requiem



18.10.2015


Ensina-me o desapego,
o desapego grácil e másculo, o desapego àquele pequeno e puro corpo dado de comer à terra.
Ensina-me a superação,
a superação deste materialismo que liga irrevogávelmente o espírito à carne que o contém.

Diz-me, que doloroso milagre é este da excessiva individuação que intensifica a consciência e nos faz gloriosamente únicos, desesperadamente irrepetíveis;
Diz-me, porque a arte se ergue agora em torrente como bálsamo temporário, bálsamo para os sentidos subitamente chocados, arrombados;

Estremece-me às vezes toda a existência...
Se fechar os olhos, há um mundo sem tempo aqui, com tempos parados paralelos a este Principal Tempo, contexto de todos os outros. Tempos onde ainda canto, ainda danço, e toda a gente vive. 

Diz-me que é real, diz-me que tudo o que me lembro ainda vive, que a inocência ainda vive, que aquele pequeno corpo de pureza ainda vive e repassa-me a memória quente, não a deixes desvanecer, repassa-me a memória quente no coração e faz-me aceitar, aprender o desapego neste mundo cego a tudo, incapaz de preservar o que é puro. 

Que seja real. Que comuniquemos ainda, no hermético mundo meu, diáfano mas com os movimentos e cores ainda intactos.
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Hoje preciso de bem mais que um "pois", de bem mais que um "sim"*. Não me chegam palavras de humanos. Nem tampouco esta projecção infantil de um ouvinte abstracto. Porque os sentidos chocados clamam por respostas. Clamam por uma única mas acesa sinestesia que explique senão a Morte, a dor - nos critérios metafísicos, os únicos necessários.



MF


* ( Referência à música "Quarto 210", Linda Martini)











“To love is good, too: love being difficult. For one human being to love another: that is perhaps the most difficult of all our tasks, the ultimate, the last test and proof, the work for which all other work is but preparation.” 


 Rainer Maria Rilke



Talvez a vida toda seja sobre Aprender. Em cada chaga, sobressaltado tiro, perguntar - o que aprendi com tudo isto? E pressinto que tudo tem a ver com Amor. As camadas que envolvem o amor, a viajem de aprender a amar, saber que amámos aquando a perda, saber que amamos enquanto amamos, e, acima de tudo, parármos a obsessão constante que nos vira sempre para nós próprios e nos desliga do outro, como quando lhe damos a mão mas não estamos realmente lá.


MF

sábado, 17 de outubro de 2015







@afterjoseph

Ensina-me o estoicismo último.
O estoicismo das varas inquebráveis, verticais sob a opressão das correntes esbranquiçadas dos rios mais gelados. O estoicismo desses homens das montanhas, dos eremitas, dos orientais, que caminham sob o fogo sem a mais ínfima laceração nas palmas dos seus pés. Ensina-me um estoicismo humano, que se sinta, que se sinta doendo sem doer. Entendes? Se nem eu entendo... Um estoicismo humano, será possível? Porque as varas não são humanas, os eremitas não são humanos, são outra espécie que, decerto, já foi vulnerável, humana, mas não mais - afinal, eles vivem nas montanhas.
Ensina-me o controlo sobre o meu coração nas horas agudas.
Ensina-me a aceitação última,
A aceitação de um anónimo homem no limiar da sua própria morte,
ou da morte de outro ser que lhe é mais que a vida, que se espraiava sob toda a vida, o símbolo, a centelha, o grande sol, a grande lua, o fulcral ar.
Ensina-me o estoicismo último.
- ensina-me a morrer e a saber ver morrer.


MF









William Black


És-me necessário - por uma razão pouco convencional às que estás talvez habituado: 
És-me necessário, como testemunha, como guardião de toda a beleza que o meu corpo guardou, mas que dissipar-se-á como um sonho, fiapos destes, quando a terra o cobrir. As têmporas doem quando um humano chora. E se choramos, ao menos que fique alguma coisa - A poesia de momentos; A fragilidade abraçada, a tentativa de salvar alguma coisa mais pequena que nós, mais pura que nós. A inocência. Voltamos todos a ser inocentes no contacto com a Inocência. Não há mácula, orgulho, vaidade nem degeneração em nós. Somos altos porque amamos. O Amor. Entre humanos, entre-espécies, entre o impuro e o puro. Todos os conceitos e juízos se confundem no Amor e na Inocência. Guarda-me tudo isso já que a memória é perecível em nós mortais. Que tudo fique vivo, para alguém que não nós. É premente - que o luto nos devolva à vida destinada à perplexidade constante. Mas por favor, existe. Existe para que o amor não se perca entre tanta dor, tantos séculos, tantos espasmos, tantos lugares e esquecimentos. Por favor existe, e faz poesia com tudo isto que guardo dentro de mim. Ou que tudo abrande na volta para trás, no regresso, na inversão do tempo, e pára-me, pára-me em cada insígne momento, cada momento em que acordaste do teu sono só para ver, só para nos ver, só para chorar de comoção (impassível devido à tua inexistência fora destas linhas) - quando nos viste a ser tão puros que nos confundimos com a Beleza. E depois adormece, acorda intermitentemente apenas em cada quadro de amor protagonizado por nós mortais, porque nos intervalos não precisamos realmente de ti, não precisamos da tua inércia, do cálice seco de que bebeste para criar o universo e depois adormeceres. Que existas apenas como receptáculo de memórias, memórias do meu ponto de vista, como se fosses eu. Talvez sejas eu, e toda a consciência mais aguda que pensa nestas coisas. Talvez eu seja tu, abstractamente me acho inesgotável mas perdi o poder que nunca tive. Só nos sonhos os mortos ressuscitam, só nos sonhos. Nesta vida as minhas mãos estão feridas de todo o sangue que não conseguiram salvar. Estou também adormecida como tu, a maioria dos dias, mas às vezes acordo, como hoje. Quando ouvi uma voz que me disse "não resistiu", e morreu mais uma inocência. Acordo e exteriorizo-me, duplico-me e digo: alguém que veja isto. Alguém que grave isto - A parte mais enternecedora de ser humano: quando deitamos fora a irrisória, excessiva auto-consciência e nos armamos para salvar outrem, mais fraco que nós, necessitado de nós. Mas não conseguimos... (somos tão pequenos e sofremos toda a impotência) por mais que tenhamos tentado, a despeito dos nefastos pressentimentos, vinte ou mais dejá-vus aleatórios numa só semana. 

Sofrimento. Diz-me porquê. Grava-me os quadros, petrifica-os no ar, fá-los voar através do universo e de alguma maneira diz-me também porquê.






MF












[Caderno]

17.10.2015



(1:40 - 2:20h)
*

Os versos palpitam-me na cabeça, como profecias sem razão, implantadas por um espírito não humano e mais que humano. Capto a voz que é minha mas que me nasce sem que eu saiba de onde ou porque nasceu.
(E escrevo sem saber o que vou ler.)

*

Aprendi as palavras, mas de onde veio a canção?


*

Poderia ser Deus? - Deus ali materializado, quando os dois primeiros humanos se amaram.


*

Há esta obsessão de pensar cada verso. Este medo de escrever sem pensar. Que mal poderia haver afinal, no final? Talvez o assombro de que faço mais sentido sem pensar.
(ou que sem pensar não faço sentido nenhum, de todo, e este calvário é necessário - pensar.)


*

Sou os mil gestos apagados num futuro que não deixo ser.



MF








[ESCRITA AUTOMÁTICA]

17.10.2015

(Entropia e umbrais)



(1:40 - 2:20h)
*

A entropia, furtivamente entretecida, imiscuída num éter qualquer que calca e sangra e desarruma o universo; entropia astral, entropia secular, entropia em todo o lado, sob a pele, entre as veias, no sangue e na linfa e nos espaços intersticiais; entropia, o lixo, a seta de sentido único para o infinito devagar, até ao colapso, entropia, o excesso de onde germina a decadência e enleio, entropia sem nexo, de incógnito começo ou fim, o caos a abarcar o ser todo pela idade sufocado, pelo tempo e visões de inevitável morte e incompreensão; o excesso de tudo, a falta de tudo. A irreversibilidade. A desordem. A ilusão de que já houve ordem. Houve? Na idade sem idade. É uma pergunta que me assombra. Talvez, num Princípio Unificado. Princípio de tudo. Depois a expansão, cumulativa de tudo, macro e micro caoticidade. Agora só há entropia e o suor permanente sob o seu jugo, a energia que se esvai na tentativa diária sem descanso entre os segundos, de arrumá-la para que nos fira antes outro dia.



*

Há uns membros descolapsados no céu e viajens anónimas de sereias cansadas. 
Há trigos plantados no sérum inacabado de últimas virtudes e trejeitos mórbidos de mil medos.
Há infâncias perpetuadas no ar e aquecidas de novo nas noites sem ninguém onde os leões rugem e se movem coisas indistintas, lascivamente prepotentes e paradas num destino sem tacto ou razão.
Há umbrais e taças de luz onde o ser encurvado se dobra na paisagem magra e perenemente morta, com águias a sobrevoar (sedentas e pacientes) o seu ainda ténue brilho patente na sagaz sede do seu corpo e no seu olhar. Foram sedes imemoriais, privações não humanas, mais que humanas. Pesos sobre as costas mais que humanas, de tão humanas, por tão humanas, frágeis e destinadas ao quebranto, à curvatura excruciante sob pesos imateriais da emoção sobre-carregada, da sensibilidade sobre-desenvolvida e mais que pura.

(Bebe-se ali não sei o quê. Está cansado mas mantém-se vivo, 
para recordar, para se purgar?)



MF







Frida Kahlo as the hunted deer



A morte, a inocência, estas duas palavras impossivelmente ligadas. As coisas que nascem e que morrem hoje e para sempre, até um sempre que não sei. Porque continuamos todos a nascer? Se há dor. Mas também há prazer e algumas pequenas grandes coisas e gestos comovedores, gestos de titãs, abstractamente pensando que se houvesse deus este enternecer-se-ia e chamar-nos-ia de titãs - Titãs emocionais, titãs bípedes feitos de carne e osso e com corações que amam o mundo, o mesmo mundo que os corta em mil pedaços. Porque amamos ainda? Às vezes desejo ser pedra, mas logo me encho de coragem, sim, coragem - Quero ser titã. Aceito a morte que vem com o amor. Aceito ver morrer a inocência. Só tenho de aprender a sanar a raiva e aceitar que tudo se transforma em outra coisa, e ser grata por o poder escrever.


MF



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O mundo inteiro é Jó



Munch

Não é a morte mas a dor, que me revolta e me exaspera até à morte.
É necessário deus como personificação e causa de tudo isto, é necessário deus como canal para onde confluem não as minhas preces (que caem no vazio), mas sim toda a minha frustração, toda a raiva de ser mortal, toda a impotência de não poder nunca salvar
- nada, nada, nada.





MF

 Diário, 26 de maio de 2026 Vaidade Ou Ecles. 1 Ao ler Huston Smith sobre o siquismo relembrei, talvez como nunca, como tudo era vaidade. Tu...